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Escolas confessionais e as mulheres no Brasil: da Colônia à Primeira República

Neste capítulo, é feita uma abordagem histórica do ensino religioso, tanto nas escolas confessionais católicas como nas protestantes, fazendo um contraponto com o ensino laico na perspectiva dos estudos de gênero. Para tanto, foi considerada a influência do pensamento religioso da Idade Média, por ele ser um dos fortes referenciais para o início da educação no Brasil, a qual estava intrinsecamente ligada a modelos dominadores. Eram os clérigos quem faziam as leis e determinavam o tipo de ensino desenvolvido.

Um olhar sobre as questões de gênero e ensino religioso no Brasil exige um exercício de desmantelamento discursivo, por ser sutil e tecido por muitos anos de forma a ocultar o imbricamento entre educação e poder e, simultaneamente, a história de resistência que muitas mulheres desenvolveram durante muito tempo. Graças a elas, as mudanças que aconteceram neste longo período são visíveis ainda hoje e apontam para novas práticas pedagógicas mais igualitárias. Um desses caminhos é exatamente visibilizar as bases do ensino religioso no Brasil destinado às mulheres e homens.

2.1 Escolas confessionais e as mulheres no Brasil: da Colônia à Primeira República

Historicamente, o ensino religioso esteve presente no Brasil nas escolas confessionais, desde a colonização, com os padres jesuítas. Elas eram, na época, um espaço de doutrinação de valores cristãos, sendo utilizadas mais como um instrumento de catequização, direcionada para uma socialização da fé cristã, do que para a produção de conhecimentos. Somente a partir do século XIX que o Estado assumiu o ensino, tornando-o laico. Como conseqüência, a manutenção do ensino religioso nessas instituições torna-se uma bandeira de luta. Tanto na escola laica como confessional os estudantes eram estimulados à obediência de regras preestabelecidas e a um aprendizado sem reflexão, já que os conteúdos eram tratados passivamente.

As diferenciações de gênero, classe e raça/etnia20 tinham um papel importante na determinação das propostas para a educação. Esse processo de ensino-aprendizagem tornou-se

20O estudo da sociologia apresenta o conceito de raça como um dos mais complexos, devido à contradição entre

seu uso no cotidiano e sua base científica. A idéia popular de que as pessoas possam ser facilmente separadas em raças biologicamente diferentes foi construída a partir de teorias científicas sobre raça no final do século XVIII e início do XIX, sendo utilizadas para justificar a ordem social emergente à medida que a Inglaterra e outras

mais crítico quando o foco recaiu sobre a educação feminina, que se baseava, fortemente, na reprodução de estereótipos bíblicos de submissão e repressão social, cultural e sexual (ALMEIDA, 2007, p.18). A formação moral dessa educação tinha como meta principal a formação disciplinadora de “boas moças”, independentemente da classe social.

Para as meninas pobres, além desse objetivo, havia a preocupação das escolas católicas em preservá-las da “contaminação dos vícios”, o que significa dizer que, sem a proteção familiar, as alunas eram estimuladas à prostituição. Diferentemente para as jovens da classe alta, o ensino buscava desenvolver uma cultura refinada, com o aprendizado de piano e do francês. A prática pedagógica deste período acreditava que a mulher deveria ser mais educada que instruída para a vida familiar, recebendo uma sólida formação cristã católica. Já no início do século XX, as escolas católicas continuaram enfatizando um ensino com forte ênfase moral, com rigor, realçando os papéis sociais dos homens e mulheres. O estímulo à leitura de livros que transmitissem lições moralmente sadias e apresentassem modelos de mulheres admiráveis era um dos mecanismos de alcançar esses objetivos, tendo nesse modelo o processo preparatório do casamento e da maternidade (LOURO, 2000, p.457).

Mesmo com a implantação do ensino protestante em meados do século XIX nas escolas brasileiras, a abordagem em relação às questões femininas não foi alterada, uma vez que o modelo ainda era o mesmo, que ressaltava o papel feminino limitado ao cuidado familiar.

Por fim, deve-se destacar que o ensino religioso no Brasil está interligado à chegada dos portugueses e da comitiva de padres católicos que representavam o poder da Igreja, visto como expressão de uma verdade divina a ser seguida e obedecida no século XVI. Nesse sentido, é preciso compreender como o mundo era representado na Idade Média e materializado numa instituição particular, numa sociedade sagrada específica, dirigindo a cultura e interpretando a natureza (TILLICH, 2000, p. 145).

nações da Europa tornavam-se potências imperiais que submetiam território e populações ao seu domínio. Depois da Segunda Guerra Mundial, a “ciência racial” foi completamente desacreditada. Em termos biológicos não existem “raças” com contornos definidos, apenas uma gama de variações físicas nos seres humanos. As diferenças de tipos físicos entre os grupos humanos surgem da procriação consangüínea da população, que varia de acordo com o grau de contato existente entre diferentes grupos sociais ou culturais. Os grupos de população humana são um continuum. No século XX em função da maior ênfase ao conceito de cultura alguns sociólogos rejeitam completamente o conceito de “raça” em favor do conceito de “etnicidade,” pois este tem um sentido puramente social. A etnicidade refere-se às práticas e as visões culturais de determinada comunidade de pessoas que as distinguem de outras. As características mais comuns de distinção de diferentes grupos são: língua, história, religião e estilos de roupas e de adornos (GIDENNS, 2005). Considerando o racismo, utilizo raça/etnia como forma de visibilizar a etnia em relação ao racismo.