3 A FORMAÇÃO HIGIENISTA DOS MÉDICOS NO PARANÁ: FORMANDO HOMENS CIVILIZADORES
3.3 ESCOLAS DE MEDICINA E A CADEIRA DE HIGIENE
As escolas médicas não foram simples veículos de um poder estatal. Foram estratégias de organização da profissão que, sob uma dimensão corporativa, produziriam uma capacidade de autorregulação coletiva e, posteriormente, uma capacidade de regular o mercado, oferecendo determinado tipo de proteção aos seus membros. 234
Vale mencionar que os discursos nelas produzidos se constituíram sobre eixos diversos e para alguns autores, apesar do antagonismo aparente de alguns, não se excluíam. Ao contrário, sobreviveram justapostos, sintetizaram novos discursos, elaboraram propostas institucionais “[...] num duelo histórico em que, se mortos ou feridos houve, foram os mesmos a quem tais propostas se destinavam: a população doente [...].”235
Madel Luz236 (1982) reconheceu os seguintes eixos discursivos nas escolas médicas:
− centralização (oposição ao regionalismo, analogamente correspondente à questão de composição de um Estado federalista);
234 COELHO, E. C.As profissões imperiais:medicina, engenharia e advocacia no Rio de Janeiro 1822-1930. Rio de Janeiro: Record, 1999, p.19-35.
235 LUZ, M.Medicina e ordem política brasileira:políticas e instituições de saúde (1850-1930). Rio de Janeiro: Graal, 1982, p. 19.
236 Ibid., p. 19-20.
− higienização da sociedade (propostas com tons retóricos variando entre assistencialismo e sanitarismo envolvendo a estrutura da sociedade brasileira com questões ligadas à engenharia sanitária, questões morais e prescrições de regras de conduta pessoal e social);
− causação social da doença (reconhecimento das doenças como fruto de valores biossociais, tais como: hábitos alimentares, sexuais, morais, raça, estilo de vida, urbanização exacerbada e industrialismo);
− atenção médica curativa (resposta institucional às condições estruturais de saúde na sociedade brasileira) e
− campanhismo (concepção de que os problemas coletivos de saúde, epidemias e endemias seriam solucionados por intervenções institucionais temporárias, maciças, planejadas e conduzidas centralizadamente).
A higienização da sociedade, a causação social da doença e o campanhismo (maciço e planejado) foram eixos enfatizados no estudo da produção de discursos médicos para a escola, porque tiveram função estruturante para entender a educação como caminho civilizador.
Reconhecer esse caminho nas teses defendidas para o concurso à cátedra de Higiene da Faculdade de Medicina do Paraná, e em outras escolas de medicina brasileiras cujo tema central era a higiene, permitiu aproximações à percepção de uma proposta médica de progresso e modernização para as sociedades.
3.3.1 As Faculdades de Medicina da Bahia e do Rio de Janeiro
Autores como Santos Filho237 e Schwarcz238 consideraram que o processo de institucionalização e normalização da medicina, no Brasil, iniciou-se com a Carta Régia de 1808, que fundou a Escola de Cirurgia de Salvador. Em 1815, tal escola
237 SANTOS FILHO, L.História geral da medicina brasileira. São Paulo: Hucitec/Edusp, v. 1 , 1991, p. 225.
238 SCHWARCZ, L.M. O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil 1870-1930. São Paulo: Cia das Letras, 1993, p. 23-24.
passou a ser denominada Academia Médico Cirúrgica, que, dentre as modificações curriculares propostas, ressaltamos a criação da cadeira de Higiene.
Passados doze anos, em 1832, transformou-se na Faculdade de Medicina da Bahia, caracterizada como marco do saber médico institucionalizado e importante ferramenta de difusão de estratégias saneadoras para o Brasil. A defesa, em 1838, da primeira tese de doutoramento na instituição, aconteceu após quatro anos decorridos da primeira defesa na Faculdade do Rio de Janeiro.
Para Ferreira, Fonseca e Edler, a nomeação, em 1808, de um cirurgião para a cadeira de anatomia pode ser considerado o marco da criação da Escola Anatômica, Cirúrgica e Médica do Rio de Janeiro que, em 1832 – como na Bahia –, após várias reformulações passou a denominar-se Faculdade de Medicina.239
Na formação médica desenvolvida no Rio de Janeiro, percebemos uma ênfase no combate às doenças, particularmente as endêmicas, de maneira que o tema racial integrou os discursos das duas escolas. Na Bahia, porém, o cruzamento racial foi eleito como explicação da determinação da criminalidade, da loucura e da degeneração. No Rio de Janeiro, o simples convívio das diferentes raças e suas diferentes constituições físicas foi considerado fator determinante no surgimento dos agravos que assolavam o país, impedindo sua trajetória rumo ao progresso e à civilização. 240
Ao enfatizar a saúde das cidades, as escolas médicas do Rio de Janeiro – Faculdade de Medicina e Instituto Manguinhos – evidenciaram a explicação da causa das doenças, considerando efeitos deletérios que se tornavam perceptíveis nas populações. Entendemos que a ênfase na teoria miasmática permitiu um discurso mais acentuadamente metafísico para a formação médica na capital da República com desdobramentos no saneamento urbano e na polícia sanitária.
239 FERREIRA, L. O; FONSECA, M. R. F.; EDLER, F. C. A faculdade de medicina do Rio de Janeiro no século XIX: a organização institucional e modelos de ensino. In: DANTES, M. A (Org.)Espaços da ciência no Brasil.Rio de Janeiro: Fiocruz, 2001. p. 59-77.
240 SCHWARCZ, L.M. O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil 1870-1930. São Paulo: Cia das Letras, 1993, p. 191.
As escolas médicas brasileiras do final do século XIX adotaram como método possível para o conhecimento do ser humano o modo positivo, isto é, o sensível. A atividade intelectual, muitas vezes limitada ao estudo dos fenômenos e das leis invariáveis de semelhança e sucessão, aproximou-se da ideia de hierarquia das ciências e do social, na qual fenômenos sociais estariam subordinados aos fenômenos físico-químicos e biológicos.
Ressaltamos desta época a circulação entre os intelectuais brasileiros de ideias positivistas que, na área médica, consolidaram-se pela incorporação aos seus saberes de várias ciências emergentes. Como ciências biológicas, microbiologia, bacteriologia, anatomia e patologia careciam de observação e experimentação, de maneira que os discursos por elas influenciados produziram proposições de necessárias, urgentes e imprescindíveis intervenções sociais no país.241
Uma aproximação à constituição das instituições de ensino médico no Brasil delineou um caminho que permitiu reconhecer, em algumas das teses defendidas pelos discentes, um pouco de seu perfil político-ideológico. Ao estabelecerem discursos, diferenciavam as instituições conforme modelos e correntes adotados para a construção curricular, pois as teses produzidas respondiam por um dos quesitos exigidos para conclusão do curso médico. 242Podemos considerá-las como monografias nas quais o tema central era escolhido dentre uma lista fornecida aos futuros doutores, e não escolhidos pelos alunos aleatoriamente.
Organizadas modernamente em disciplinas, as tradições científicas possuiriam diferentes padrões de legitimação social, retórica e epistemológica, dependendo dos contextos nacionais, políticos e religiosos.
241 O positivismo não foi, segundo Glick, uma filosofia estrito senso, mas sim um conjunto de princípios gerais apropriados pelos médicos brasileiros para legitimar objetivos específicos:
ideológicos, intelectuais e políticos, dicotomizados entre variações comteanas, spencerianas e darwinistas que, ao final do século XIX, agiram em confluência com políticos republicanos, com o movimento intelectual brasileiro e com os higienistas (GLICK, T. O positivismo brasileiro na sombra do darwinismo: o grupo Idéia Nova em Desterro. In: DOMINGUES, H. M. B.; ROMERO, M.; GLICK,T. (orgs.). A recepção do darwinismo no Brasil. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2003, p.
181).
242 Na faculdade de Medicina do Paraná, esta não era uma exigência para conclusão, somente para obtenção do título de doutor em Medicina, diferenciando doutores e bacharéis.
Diferentes instituições produziam diferentes discursos; contudo, àqueles por nós analisados eram entremeados conceitualmente pela higiene. No Rio de Janeiro, vimos a ênfase ao urbano e ao modelo francês na Faculdade de Medicina, enquanto no Instituto Oswaldo Cruz243 o eixo condutor estava na medicina experimental e no controle de agravos.
Ao adotar um referencial teórico-prático alemão que acentuava a etiologia dos agravos, a Faculdade de Medicina da Bahia acabou por destacar em seus discursos a produção e reprodução das doenças com busca de uma causalidade no biológico, na localização e identificação de agentes e no uso de terapêutica adequada, passando depois a um discurso higienista moralizante, com ênfase na medicina legal.
Estudo realizado por Edler sobre a escola tropicalista baiana244 constatou que alguns médicos baianos aderiam rapidamente a uma nova linguagem observacional, enquanto outros ficavam resistentes ou se tornaram seus opositores.
Para o autor, a literatura histórica e sociológica recente tem respondido a essa questão, chamando à atenção para o fato de a atividade científica ser desenvolvida por “coletividades restritas que empregam diferentes práticas sociocognitivas, com tramas conceituais e habilidades técnicas particulares, ainda que tivessem pretensão universalista”. 245
243 Criado em 1900 com o nome de Instituto de Manguinhos, era considerado o responsável pelo deslocamento dos interesses em direção da higiene na então capital da República. A “fé na ciência experimental biomédica”foi fator determinante e condicionante de um modelo de produção de estratégias e discursos. O Instituto seguia o estilo militarista de polícia médica, em que investigadores realizavam trabalhos de campo e se aprofundavam nas inter-relações entre doença, agente e meio, propondo estratégias de intervenção nas causas diretas (agente etiológico) e nas indiretas (meio natural e social). LUZ, M.Medicina e ordem política brasileira: políticas e instituições de saúde (1850-1930). Rio de Janeiro: Graal, 1982, p. 198-205.
244 A Escola Tropicalista Baiana não era uma instituição de ensino propriamente, mas um grupo de médicos estabelecidos na então Província da Bahia que se dedicara à prática de uma medicina voltada à pesquisa da etiologia das doenças tropicais que acometiam populações pobres do país, sobretudo negros escravos.Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1930). (www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br.)
245 EDLER, F. C. A escola tropicalista baiana; um mito da origem da medicina tropical no Brasil.
História, Ciência, Saúde – Manguinhos. Rio de Janeiro, v. 9 (2), p. 357-385, mai./ago. 2002.
Em uma análise comparativa sobre a produção discursiva das duas primeiras faculdades médicas do país, Schwarcz246 destacou as disputas pela hegemonia em terras brasileiras numa prática profissional em permanente processo de construção. Ao final do século XIX, médicos de Rio de Janeiro buscavam sua originalidade e identidade por meio dos estudos de doenças tropicais (Febre Amarela, Mal de Chagas) e a proposição de modelos higiênicos de saneamento e urbanização.
Por sua vez, médicos baianos percorreram uma trajetória temática distinta em alguns aspectos. A partir de 1890, moléstias infecciosas cederam espaço à medicina legal, estudos sobre criminalidade e raça, fundando o que a autora reconhece por escola Nina Rodrigues.247
Em seus estudos sobre antropologia criminal, inspirados em Lombroso248, diferentemente de seus predecessores que se apoiavam nos exames anátomo-patológicos como forma de evidenciar explicações clínicas das moléstias, Nina Rodrigues procurava manifestações nesse mesmo nível que explicassem a criminalidade e a doença mental em sociedade. Algumas patologias, como o beribéri, continuaram a ser descritas, porém institucionalizadas (quartéis, hospícios, prisões), tornando perceptível a sobreposição da instituição sobre a saúde da população em seu caráter individual.
Com base em algumas teses (dissertações) das escolas médicas da Bahia e Rio de Janeiro, com temática voltada para a higiene-escola encontradas no acervo
246 SCHWARCZ, L.M. O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil 1870-1930. São Paulo: Cia das Letras, 1993, p. 190.
247 Raimundo Nina Rodrigues (1862-1906). Médico e Catedrático de Medicina Legal da Faculdade da Bahia. Seus estudos reformularam o conceito de responsabilidade penal, sugerindo a reforma dos exames médico-legais. Foi pioneiro da assistência médico-legal a doentes mentais, além de defender a aplicação da perícia psiquiátrica não apenas nos manicômios, mas também nos tribunais. Analisou em profundidade os problemas do negro no Brasil, fazendo escola no assunto.
Entre seus livros destacaram-se: As raças humanas e a responsabilidade penal no Brasil (1894), O animismo fetichista dos negros da Bahia (1900) eOs africanos no Brasil (1932).
Dicionário histórico-biográfico das ciências da saúde no Brasil(1832-1930).
248 Cesare Lombroso (1909-1935), médico italiano que fundou a Escola Positivista de Criminologia.
Conforme pensava, a tendência para o crime era determinada biologicamente podendo ser antecipada pelo estudo das características físicas. O criminoso possuía uma série de atavismos identificáveis por olhos treinados. Apresentou essas características no livro L'uomo criminale (1875).Dicionário histórico-biográfico das ciências da saúde no Brasil(1832-1930). Fiocruz.
histórico do atual Setor de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Paraná, elaboramos o quadro a seguir:
AUTOR TÍTULO TIPO DE DEFESA – ANO
REIS, Álvaro Borges dos. Educação physica. 1904 (doutor em medicina) FERREIRA, João Baptista
Marques Hygiene Escolar 1905 (doutor em sciencias
medico-cirurgicas).
LOUREIRO, Luiz de França. Cultura Physica da Infância 1906 (doutor em sciencias medico-cirurgicas).
PINTO, Justino Dias. Dos exercícios physicos. 1909 (doutor em medicina) ANDRADE, Juvenal Montanha de. Os deveres do medico. 1911 (doutor em medicina).
SANTIAGO, Euclydes Machado. A Escola e a Escoliose –
Inspecção Medica. 1914 (doutor em medicina).
SOUZA, Marcos Bento de Valor da educação em hygiene 1917(doutor pharmaceutico).
CAMPELLO, Francisco Gomes
Vieira. Inspeção Medico-Escolar 1917 (doutor em medicina).
SANTOS, Orlando Thiago dos.
Considerações em torno da Família e suas relações com a Escola
LIMA JORGE, Aloysio da Silva. Hygiene Escolar 1924 (doutor em medicina).
VALENTE, Jorge. Centro de saúde 1927 (doutor em sciencias
medico-cirurgicas).
QUADRO 2 – DISSERTAÇÕES DA FACULDADE DE MEDICINA DA BAHIA 1904-1927 FONTE: Acervo histórico do Setor de Ciências da Saúde/UFPR
Em 1904, Alvaro Borges dos Reis defendeu tese à Cadeira de Higiene sobre a importância da educação física nas escolas, destacando porém: “Nossas escolas carecem de tudo, desde a mobilia sufficiente e apropriada até os aparelhos gymnasticos e allistenicos [...] nosso atraso é manifesto. A incuria dos poderes publicos é grande [...]”. 249 Mais duas dissertações fizeram referência ao tema educação física, respectivamente defendidas em 1906 e 1909. Loureiro (1906)
249 REIS, A. B.Educação physica. Dissertação. Salvador, BA, 1904, p. 68-69.
destacou o papel da higiene ao afirmar que “[...] os males que nós soffremos são curaveis [...] é uma verdade incontestavel, que bem pode traduzir a hygiene moderna.” 250
Com relação aos exercícios físicos, Pinto (1909) apresentou em sua dissertação a indiscutível necessidade da cultura física nos estabelecimentos de ensino uma vez que, à época, no Brasil, cuidava-se
[...] mais da cultura intellectual do que da physica, sobrecarrega-se o cerebro da tenra creancinha sem olhar-se para o corpo que declina e se enfraquece, de sorte que, quando soar a hora da colheita dos fructos de um labor e sacrificios de tantos annos da nossa mocidade, debalde ella vibrará, porque não pode ser ouvida e se o for, será difficilmente porque o corpo não tem força ou a tem muito insufficiente para obedecer a intelligencia.”251
A relação entre higiene e escola esteve presente, nas dissertações encontradas no acervo pesquisado em sete dissertações defendidas entre os anos de 1905 e 1930.
No prólogo de sua defesa, Ferreira destacou “o miseravel estado em que se encontram os nossos estabelecimentos de instrucção primaria e secundaria [...] se até para a guerra a instrucção é necessaria, qual não será o seu valor na paz para a felicidade das nações.” 252 Contudo, como afirmou o candidato, a instrução deveria se unir à saúde pública “[...] cabendo ao medico a sublime honra de, por meio da hygiene, velar e assegurar todas as manifestações de vitalidade.”253
Temas como escoliose no escolar (1914), o valor da educação em higiene (1917), desenvolvimento do corpo humano (1924), o prédio escolar (1924) e o livro escolar (1930) estiveram presentes em várias dissertações.
Em 1917, Campello254 apresentou proposições para a Inspeção Médico Escolar em território baiano, em que destacacou o histórico brasileiro do serviço ao
250LOUREIRO, L. F.Cultura physica na infancia. Dissertação. Salvador, BA, 1906, p. 2.
251PINTO, J. D.Dos exercícios physicos.Salvador, BA, 1909, p. 38.
252FERREIRA, J. B. M.Hygiene escolar. Salvador, BA, 1905, p. 5.
253Ibid., p. 10.
254CAMPELLO, F. G. V.Inspecção Medico-escolar.Salvador, Bahia, 1917, p. 21.
afirmar ser “[...] a escola hygienica aquela capaz de favorecer a realização da cultura integral(grifos do autor) da criança.”
Algumas das teses defendidas entre 1913-1929, na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, constantes do acervo histórico por nós pesquisado, também versavam sobre higiene e escola e são apresentadas conforme temática no quadro abaixo:
AUTOR TÍTULO ANO
RIBEIRO, Genserico Dutra. A creança operaria. 1913
LIMA, Luiz Antonio Ferreira
Souto dos Santos. Hygiene mental e educação. 1927
COSTA, João Emilio Falcão. Hygiene da Escola Primaria. 1927
GOMES, Helio. Os Flagellos Nacionaes. 1927
VALLS, Raul Ferrari. Contribuição ao estudo da Hygiene
Industrial. 1928
CABRAL, Oswaldo
Rodrigues. Problemas Educacionaes de Hygiene. 1929
QUADRO 3 - TESES DA FACULDADE DE MEDICINA DO RIO DE JANEIRO 1913-1929 FONTE: Acervo Histórico do Setor de Ciências da Saúde/UFPR
A preocupação com a infância e com a degeneração da raça brasileira foi destaque na tese defendida por Ribeiro, em 1913, que assim se referiu ao operariado:
[...] obreiros de nossa civilisação e de nosso futuro econômico constituem-se de uma amalgama nacional de todas as côres, de todos os constituem-sexos e de todas as edades. Na sua formação até pouco tempo elaborou só a vontade
popular, e por isso em seu meio predomina um grande incultura, uma enorme ignorância das regras necessárias á vida [...].255
A higiene mental, a educação sexual e suas relações eugênicas foram defendidas por Lima256como aquelas capazes de, aliadas à educação, possibilitar a extinção dos vícios – alcoolismo, tabagismo, jogo – e fomentar a seleção de aptidões e hábitos saudáveis.
Importante tese defendida por Gomes em 1927, referência para vários médicos brasileiros e paranaenses, intitulava-se Os flagellos nacionaes, que contrapunha a visão romantizada do brasileiro à realidade de suas doenças:
alcoolismo, ancilostomose e impaludismo.257
A tese proposta por Cabral, intitulada Problemas educacionaes de Hygiene, destacou os pelotões de saúde e as “ligas de mãezinhas”258 como possibilidades de enfrentamento da insalubre realidade sanitária brasileira.259
Podemos perceber nessas defesas indícios da formação de uma tríade no estabelecimento de estratégias de intervenção no urbano – ordem, moral, saúde – balizada pelas ciências higiene e educação, dogmáticas e com características civilizatórias e modernizantes, tanto para a escola como para o trabalho.
Tão importante quanto a produção de discursos sobre moral e ordem, as escolas médicas exerceram uma ação modeladora na sociedade brasileira, de modo que formaram, além de seus próprios intelectuais, um contingente de
“simpatizantes”. Estabeleceu-se, assim, um elo entre higienistas e educadores com impacto significativo no desenvolvimento de propostas civilizadoras para a escola brasileira.
Vale destacar que, para além das instituições formadoras, alguns discursos médicos também se configuraram na sociedade civil, por meio de sociedades
255 RIBEIRO, G. D.A creança operária. Rio de Janeiro, RJ, 1913, p. 9.
256 LIMA, L. A. F. S. S.Hygiene mental e educação.Rio de Janeiro, RJ, 1927, 176 p.
257 GOMES, H.Os flagellos nacionaes. Rio de Janeiro, RJ, 1927, 107 p.
258 Proposta de instituição escolar a fim de educar meninas no trato com as crianças.
259 CABRAL, O. R.Problemas educacionaes de hygiene. Rio de Janeiro, RJ. 1929, 150 p.
temáticas, tais como: Sociedade Brasileira de Higiene, Sociedade Brasileira de Eugenia, Liga Brasileira de Higiene Mental, entre outras. Alguns discursos produzidos por essas instituições serão apresentados no capítulo seguinte.
As tendências que compuseram a formação de médicos no Brasil resultaram também do conjunto dessas organizações civis, nas quais os “doutores” se reuniam e traçavam estratégias para solucionar problemas de saúde nacionais.
Síntese delicada de ciência e arte, produtora de teorias e ações constituintes do saber científico e da atividade política, a medicina transmutou-se no início do século XX em um conjunto de saberes que, a partir de um núcleo básico de conceitos e de um sistema de práticas fundamentais, apresentou-se à sociedade brasileira como a “panacéia para todos os males.”260
Os discursos médicos produzidos foram expressão de modelos de construção do conhecimento, não-lineares, que se traduziram em diferentes e amplas propostas de intervenção social.
Entre miasmas e germes, contágio e transmissão, cidades, instituições e indivíduos, raça e ambiente, os discursos higienistas dos médicos brasileiros tomaram, em alguns momentos, por locutor privilegiado o Estado, com ações diretas sobre as condições de vida e de saúde da população e sobre os movimentos sociais gerados nessas condições. Em outros momentos, prescreveram e normatizaram regras e padrões de comportamento à população.
Tão emblemático quanto o eixo campanhista na formação médica, o higienista foi, a nosso ver, paradigmático, modelador, emissor de prescrições, produtor de uma multiplicidade de propostas que circularam pelo urbano, pelo rural, pelo mundo escolar, pela corporeidade, ou seja, pela proposta médica de civilização para o Brasil do final do século XIX e início do século seguinte.
O modelo proposto de civilização não era inócuo. Na segunda década do século XX, para o médico Milton Munhoz, então candidato à Cátedra de Higiene na Faculdade de Medicina do Paraná, o ser humano se apresentava como “escravo da
260 LUZ, M.Medicina e ordem política brasileira:políticas e instituições de saúde (1850-1930). Rio de Janeiro: Graal, 1982, p. 16; MACHADO, R. Danação da norma: a medicina social e a constituição da psiquiatria no Brasil, 1978, p. 17.
civilização”, de maneira que sofria constantemente o influxo das atividades sociais,
civilização”, de maneira que sofria constantemente o influxo das atividades sociais,