2.2 Nascimento das Escolas Criminológicas Tradicionais
2.2.3 Escolas Intermediárias e Teorias Ambientais
Com o pensamento de Enrico Ferri e os postulados da Estatística Moral, surgiu uma nova concepção criminológica, que mais tarde viria a reunir seus estudos e colaborar com a Sociologia Criminal. As escolas intermediárias que se sobressaíram foram a Escola Francesa de Lyon, os pensamentos ecléticos da Terza Scuola italiana, da Jovem Escola Alemã sociológica e, da Defesa Social.
A escola de Lyon, também chamada de Escola Antropossocial ou Criminal- sociológica, era composta, pela maioria, de médicos. Esta escola foi influenciada pelo químico Pasteur, onde seus representantes, Lacassagne e Aubry utilizaram o símil do micróbio para explicar a importância do meio social para a criminalidade.
“O micróbio é o criminoso, um ser que permanece sem importância até o dia em que encontra o caldo de cultivo que lhe permite brotar”. (LACASSAGNE apud GARCÍA- PABLOS DE MOLINA; GOMES, 2006, p. 152).
Lacassagne (1843-1924) distinguiu duas classes de fatores criminógenos, com a ajuda de Aubry, os predisponentes (corporais) e os determinantes (sociais). Também é de sua autoria a conhecida frase: “As sociedades tem os criminosos que merecem”, ressaltando a importância do meio social.
Ainda, dividiu o ser humano em três classes, a partir de topografias cerebrais, sendo os intelectuais (região frontal), os afetivos (occipital) e os volitivos (parietal). Com isso, o desequilíbrio de algumas dessas zonas classificava o delinquente, juntamente com os aspectos socioeconômicos do indivíduo. Reconheceu que o criminoso possuía anomalias corporais e anímicas, mas ao contrario de Lombroso, seriam produtos do meio social.
Quanto às Escolas Ecléticas, essas tentavam conciliar os postulados das escolas positivista e clássica, em ambos os planos metodológicos quanto de suas ideias. Não tomaram parte de nenhuma das teorias da criminalidade, mas abordavam problemas relevantes e atraentes para a visão criminológica.
A Terza Scuola, tinha como representantes importantes nomes como Alimena, Carnevale e Ipallomeni. Dentre seus postulados:
[...] nítida distinção entre disciplinas empíricas (método experimental) e disciplinas normativas (que requeriam um método abstrato e dedutivo); contemplação do delito como produto de uma pluralidade muito complexa de fatores endógenos e exógenos; substituição da tipologia positivista por outra mais simplificada, que distingue os delinqüentes em “ocasionais”, “habituais” e “anormais”; dualismo penal ou uso complementar de penas e medidas de segurança, frete ao monismo clássico (monopólio da pena retributiva) ou ao positivismo (exclusividade das medidas de segurança); atitude eclética a respeito do problema do livre arbítrio, conservando a ideia da responsabilidade moral como fundamento da pena, e a de temibilidade como fundamento da medida; atitude de compromisso, também, quanto aos fins da pena, conjugando as exigências de retribuição com as de correção do delinqüente. (GARCÍA-PABLOS DE MOLINA; GOMES, 2006, p. 153-154).
Alimena menciona que a Terza Scuola foi significativa para a Criminologia, uma vez que o Direito Penal não pode ser absorvido pela Sociologia, mas sim, deve haver uma integração das demais ciências e disciplinas não jurídicas, para um enriquecimento do exame dogmático.
Outra importante escola que colaborou com o estudo da criminologia foi a Escola de Marburgo ou Jovem Escola Alemã de Política Criminal, a qual teve como representante de suas ideias F. von Liszt, juntamente com Prins e Van Hamel, onde ressaltaram a necessidade de investigações sociológicas e antropológicas, com base na investigação científica do crime, de suas causas e dos meios para combatê-lo. Foi Liszt que propugnou uma concepção finalista da pena com influência do pensamento evolucionista.
O Programa de Marburgo de Liszt (1872) foi essencial no âmbito da Política Criminal e a sua teoria criminológica desenvolvida, deu importância a predisposição individual do delinquente, assim como afirmou que “o delito é o resultado da idiossincrasia do infrator no momento do fato e das circunstâncias externas que lhe rodeiam nesse preço instante”. (GARCÍA-PABLOS DE MOLINA; GOMES, 2006, p. 154).
Não menos importante foi a Escola ou Movimento da Defesa Social, a qual não abraçou nenhuma teoria, não é uma escola propriamente dita, mas uma filosofia penal, um modo de política criminal. Esse movimento surgiu na época do Iluminismo sendo posteriormente articulado como modo de defesa da sociedade mediante a ação integrada do Direito Penal, Criminologia e da Ciência Penitenciária, com fins humanitários.
As metas desejadas pelos representantes do Movimento de Defesa Social, Gramatica e Mark Ancel, não era castigar o delinquente, mas proteger a sociedade, de forma que não fosse utilizado unicamente o direito penal para isso, partindo do conhecimento da personalidade do indivíduo, neutralizando sua periculosidade de modo humanitário e singular. Por isso, esse movimento segue com a finalidade ressocializadora da pena, protegendo a sociedade e transmitindo uma imagem do delinquente como membro da sociedade, devendo ser reincorporado nela.
O pensamento do francês Gabriel Tarde (1843-1904) foi interessante para o estudo preliminar da sociologia criminal. Qualificado como psicossociológico, antecipou muitas das teorias posteriormente desenvolvidas, criticando e enfrentando a escola positivista e postulando por uma teoria da criminalidade com ênfase nos fatores sociais. Mencionava que os “fatores físicos e biológicos podem ter alguma incidência na gênese do comportamento delitivo, porem, nunca a decisiva que tem o meio social”. (GARCÍA-PABLOS DE MOLINA; GOMES, 2006, p. 155).
Para ele, o delinquente é um tipo profissional, que precisa de um período de aprendizagem, assim como os diversos profissionais que estudam ao longo do tempo, em um meio específico, com técnicas de intercomunicação e convivência com os demais indivíduos.
Uma frase de Tarde expressa muito bem essa teoria da aprendizagem, como crítica ao positivismo antropológico: “todo mundo é culpável, exceto o criminoso”. (apud GARCÍA- PABLOS DE MOLINA; GOMES, 2006, p.155).
O meio social influi de modo mais eficaz no comportamento delitivo, espalhando suas ideias, do que a hereditariedade, o clima, as enfermidades ou a epilepsia. Outro estudo de Tarde também manteve destaque, chamado de “as leis da imitação”, o qual o delito, como qualquer outro comportamento social, começa sendo moda, transformando-se em costume e depois, imitação.
Apesar de ter consciência do efeito preventivo da pena, Tarde era adepto da pena de morte e contra o sistema de jurados no ordenamento jurídico, pois faltava preparação
científica para os jurados tomarem decisões inteligentes e por ser a justiça mais técnica e profissionalizada. Já a responsabilidade penal do delinquente tem uma dupla exigência: a identidade pessoal do indivíduo e a similitude social, ou seja, a adaptação do indivíduo ao seu grupo, o que, sem isso, não seria possível a aplicação da pena. Sua teoria da pena tem uma base psicológica e, a seu ver, uma equipe de médicos e psicólogos deveria decidir sobre a responsabilidade do infrator, na administração penal.
Pela visão da política criminal, considerando que o delinquente é um profissional, Tarde sustenta que:
[...] a criminalidade é, então, uma indústria especial exercida por uma determinada classe de indivíduos que produzem delitos de acordo com as leis gerais do mercado. O aumento ou a diminuição da produção (delinqüência) será regida pelas mesmas normas da economia geral e do concreto mercado ao que pertence essa indústria ou atividade em particular. (apud GARCÍA-PABLOS DE MOLINA; GOMES, 2006, p. 156) (grifo do autor).