na região da Paulista e de Higienópolis com grande infraestrutura e os bairros operários em questão.
Tabela 5 - Primeiras escolas públicas da ZL (1900-1935)
Ano Escola Pública Distrito
1905 E.E. Orestes Guimarães Pari
1909 E.E. Amadeu Amaral Belém
1911 E.E. Carlos de Campos Brás
1913 E.E Anchieta Padre Brás
1913 E.E Santos Dumont Penha
1914 E.E. Oswaldo Cruz Mooca
1925 E.E Visconde de Congonhas do Campo Tatuapé
1928 E.E Doutor Antonio de Queiroz Telles Mooca
1932 E.E Republica do Paraguay Vila Prudente
1932 E.E Professora Maria Augusta de Ávila Artur Alvim
1933 E.E Professor Theodoro de Moraes Água Rasa
1933 E.E Barão de Ramalho Penha
1935 E.E Pedro Taques Guaianases
Fonte: Cadastro de Escolas Secretaria da Educação. “Relação de Escolas Ativas com Data do Ato de Autorização/Criação”. Data base: 02/05/2016. Elaboração própria.
A expansão do ensino público na República teve como ideário o mote modernizador a que a cidade de São Paulo se propunha. As disputas entre a classe operária que se formava e os negros recém-libertos no campo educacional continham grande desvantagem para o último grupo, que buscou resistir para conseguir mobilidade social, com pouco sucesso.
O debate da escolarização do negro no período pós-abolicionista foi interpretado pela ótica senhorial, sem considerar a experiência escrava e seus anseios e lutas nas campanhas abolicionistas, como concebe o historiador William Lucindo (2016). Por isso, o autor compartilha a ideia de que pouco se vincula a atuação do escravizado como sujeito histórico e suas condições de vida e resistência. Entretanto, as mudanças na historiografia têm buscado trazer luz à participação dos negros no mundo letrado em diversas áreas da sociedade. Uma das ferramentas utilizadas por negros para socializar os libertos na era republicana era a imprensa negra, antes mesmo do jornal O Clarim d’Alvorada de 192474.
Também foram criados espaços associativos que tinham como meta ensinar aos negros os valores republicanos e a se inserirem naquele novo tempo. Um dos principais representantes foi a Frente Negra Brasileira (FNB), que buscou mobilizar e instruir negros em uma sociedade que havia libertado os negros, mas que propagava os ideários do
74 Ver também a dissertação População negra e escolarização na cidade de São Paulo nas décadas de 1920 e 1930 de Carlos Eduardo Machado (2009).
racismo científico. Os negros letrados do período haviam absorvido o imaginário republicano de que a educação era uma oportunidade de inserção na cidade que crescia e se modernizava. Tanto a imprensa negra quanto as associações tentavam socializar o negro para a nova conjuntura, segundo Domingues (2016).
Uma das hipóteses desse tipo de incentivo era pela tentativa de tirar os negros da “apatia”, fazendo-os crer que a educação era a grande oportunidade de mudança social. No entanto, a pesquisa oral de Lucindo (2016) com antigos depoentes negros paulistas confirmam a dupla dificuldade de acesso à escola pública: a física e a simbólica. De um lado, muitas escolas públicas não permitiam a matrícula dos não brancos em São Paulo, constituindo a maioria do seu quadro os filhos dos imigrantes. Por outro, a discriminação pela cor e a ausência de vestimenta adequada eram alguns dos motivos que levavam os alunos a desistirem da escola. Como sugere este trabalho, o projeto de escola pública republicana paulista que se expandia não se interessava pela inclusão do negro que precisava de muito esforço pessoal e material para romper os obstáculos. Sobre as escolas confessionais de São Paulo, não era permitida a presença de negros75.
Respaldando a mesma linha de interpretação acima, Petrônio Domingues (2016) defende que havia muita tensão nas disputas por espaço dos diferentes grupos étnicos, nas quais os negros estavam em desvantagem por causa da precariedade material que inviabilizava os projetos ao longo do tempo. Por isso, havia esforços e tentativas de criar escolas para negros desde a Abolição da Escravatura. O autor também confirma que a discriminação na rede de ensino era grande, além da dificuldade de matrícula, pois muitas escolas vetavam os negros, levando-os a se organizarem em associações, como a Frente Negra Brasileira, uma das mais importantes nesse sentido.76
É preciso rever a interpretação da “apatia” social diante da resistência negra. O autoritarismo e os mecanismos de coerção material e simbólica contra os negros requeriam um esforço quase sobre-humano para superar as barreiras físicas e simbólicas que foram sendo acumuladas ao longo do tempo. A “apatia” também foi uma estratégia de sobrevivência diante de tanta violência. No entanto, a resistência nunca deixou de estar
75 Os colégios tradicionais católicos não recebiam “pessoas de cor”, mesmo que seus pais pudessem arcar
com as despesas como o caso do Colégio Sion que não aceitou a filha do ator Procópio Ferreira. A resposta para a recusa pela superiora dizia “Não é nesse ponto, apenas, que se tornam rigorosos os nossos estatutos. Também não recebemos pessoa de cor, embora oriundas de família de sociedade” (Jornal Progresso, 24/03/1929, p. 2 apud DOMINGUES, 2016, p. 333).
76 Segundo Domingues (2016, p. 335): “A Frente Negra Brasileira foi resultado do acúmulo de experiência
organizativa dos afro-paulistas. De 1897 a 1930, calcularam-se cerca de 85 associações negras funcionando na cidade de São Paulo, sendo 25 dançantes, 9 beneficentes, 4 cívicas, 14 esportivas, 21 grêmios recreativos, dramáticos e literários, além de 12 cordões carnavalescos.”.
presente, mesmo que historicamente ocultada, exemplo disso era o interesse por parte dos negros de ascender pela educação, mas que para tal era necessário ultrapassar barreiras física e simbólica. Para quem conseguisse êxito, adentrava em uma escola que tinha valores e conteúdos voltados ao interesse de uma minoria que deteve os fundamentos da educação brasileira.
Na contemporaneidade, discute-se o racismo estrutural da sociedade, apontando sua longevidade como herança do sistema escravista. Tem-se como hipótese que um dos mecanismos ocultos para sua perpetuação foi o apagamento dos sujeitos negros como protagonistas da História e das Ciências Sociais, fato que os vários autores escolhidos nesta tese corroboram sob diversos vieses. O fator racial como campo cego produziu uma narrativa de apatia e marginalidade sobre os afrodescendentes cuja função social tem sido de confirmar, de maneira velada, a inferioridade dos negros.
A hipótese desses diversos autores é de que os negros buscavam o caminho da instrução como mobilidade social77, mas os mecanismos internos da escola criavam
fronteiras difíceis de ultrapassar. A barreira simbólica que reforça o estereótipo do negro como inferior está presente na escola como instituição e ela se constituiu como uma estratégia mais cruel que a barreira física, pois afeta a individualidade do negro na hierarquia social78. Esta seria uma faceta do racismo que se estrutura na sociedade de
forma velada e naturalizada, pois pouco se questiona sobre a gênese dessa escola, como foi concebida ou como são lecionados os seus conteúdos.
O escopo exploratório da expansão das escolas privadas na Zona Leste não permitiu análises documentais ou qualitativas sobre essas hipóteses levantadas e que precisam ser investigadas. Contudo, os estudos apresentados reforçam a ideia da revisão sobre o protagonismo negro na área da educação e seu apagamento. Nas primeiras décadas do século XX, a Zona Leste se expandia como subúrbio dos imigrantes italianos, recebendo escolas públicas e privadas que os acolhiam. A escola privada no subúrbio paulista é contemporânea da formação dos bairros operários. À medida que a população crescia, as ordens católicas se instalavam como uma possibilidade de educação para os filhos de operários imigrantes.
77 O livro A História da Educação dos Negros no Brasil organizada por Fonseca e Barros (2016) reúne
diversos autores que tratam a educação do negro nos diferentes períodos históricos. A obra está dividida em quatro partes: 1ª. Os negros na historiografia educacional brasileira; 2ª. Educação e Escravidão no Brasil; 3ª. Educação e a Abolição da Escravidão no Brasil e 4ª. Educação no Período Pós-abolição.
78 A experiência de barreira simbólica pelo racismo na escola é um relato banal de crianças negras. A
3.3 As escolas privadas da ocupação migrante (1935-1964)
A ocupação migrante da ZL de São Paulo pode ser marcada pela chegada da indústria Nitro Química em São Miguel Paulista em 1935. Conforme o historiador Paulo Fontes (1997, p. 29-30):
Os fatores para escolha do bairro de São Miguel Paulista podem ser mencionados como a linha de ônibus desde 1930 que ligava o bairro até a Penha; a estrada de ferro que permitiu transportar o maquinário proveniente dos Estados Unidos, além de ser a via para receber a matéria prima necessária à indústria; como também o rio Tietê que era um grande reservatório de água para o funcionamento da Nitro Química. A distância em relação ao centro da cidade poderia ser uma vantagem para controlar a mão-de-obra e evitar problemas futuros.
A várzea do Tietê naquela localidade possuía as condições ideais para a instalação da nova indústria: o rio receberia os detritos industrias79; o trem facilitaria a instalação do
maquinário que era importado dos Estados Unidos, visto que a indústria nacional pesada era dependente da tecnologia estrangeira, pois não havia interesse das elites em concorrer na produção do conhecimento tecnológico nacional. A presença da linha férrea permitiria também o transporte de matéria-prima assim como o escoamento da produção futura, já que não havia ainda as grandes estradas de rodagem.
O controle da mão-de-obra nacional deveria, por sua vez, ser uma preocupação. Antes da migração interna, a proposta do branqueamento em São Paulo tinha como meta a força de trabalho estrangeira considerada a mais adequada para a fase de industrialização e modernização na cidade. Contudo, muitos dos imigrantes com experiência sindical e de militância anarquista80 foram um grande problema para o
controle nacional que resultou em muita repressão por parte do Estado.
A ocupação migrante derivou de novas políticas estatais do governo de Getúlio Vargas (1930-1945) que buscavam mudar o perfil do operariado pelo incentivo da mão- de-obra nacional em detrimento da estrangeira. Naquele governo, o liberalismo da Velha República não se enquadrava no período populista, na concepção de Luiz Cézar Ribeiro
79 O rio Tietê foi central para a história de São Paulo, pois era por ele que os bandeirantes faziam seu trajeto
de subida. Ao longo do tempo, ele sofreu diversas intervenções como contaminações por esgoto urbano, retificação, destruição da sua mata. Um breve histórico do rio pode ser visto em Ana Beatriz Oliveira (2014).
80 Conforme Lucia Parra (2014, p. 24), o anarquismo, embora seja estudado por muitas correntes, pode ser
definido em linhas gerais como uma luta individual ou coletiva contra formas de autoridade ideológica (Igreja), política (Estado, partidos políticos) ou econômica (propriedade dos meios de produção).
(2001), pois o tipo de nação a ser construída necessitava de maior intervenção estatal a fim de enfrentar a pobreza através de políticas que valorizassem o trabalho como estratégia de ascensão social. Para Ribeiro (2001, p. 143), “o trabalho é encarado como um meio de servir à pátria”. Como política que efetivasse essa visão, foram promovidas intervenções na previdência e assistência social, assim como na melhoria das condições de vida do trabalhador. No governo Vargas:
Tanto o panorama político interno quanto a conjuntura internacional promoveram intensas mudanças na política imigrantista brasileira, a ponto de o governo federal impor severas restrições à entrada de estrangeiros no país e incentivar a migração de brasileiros de outros estados para São Paulo, resultando em uma política de nacionalização da força de trabalho.
O que estava subjacente à política de nacionalização da mão-de-obra, a partir da década de 1930, era a necessidade de remodelar as relações de trabalho, tendo em vista um projeto integrador para a nação. [...] Essas colônias [de imigrantes] foram consideradas como elementos que poderiam desestabilizar a segurança nacional. No final da década 1930, e principalmente a partir da Segunda Guerra Mundial, a preocupação com os núcleos de colonização estrangeira no país foi bastante expressiva (PAIVA; MOURA, 2008, p. 51)
Uma hipótese sobre a ameaça dos imigrantes à segurança nacional pode ser sugerida por uma releitura do motivo que levou à nacionalização da mão-de-obra desde a colonialidade do poder à brasileira. O discurso da integração nacional antes da República esteve atrelado ao contexto de resistência social. A mão-de-obra imigrante, por causa das precárias condições de trabalho, começou a se organizar em levantes sindicais81.
Esta questão foge do escopo desta tese, e precisa ser confirmada ou não por outras pesquisas, mas é importante para compreender a transição para a mão-de-obra nacional que, até então, foi preterida pela concepção eugênica, que tinha os imigrantes como os trabalhadores ideais para a modernização que a industrialização promoveria82. A
superação desse pensamento racista, explicado pelo fim da Segunda Guerra e a derrota dos alemães, também poderia ser pensada a partir do fato de que as elites nacionais
81 O grande exemplo foi a greve geral de 1917; deflagrada depois que os responsáveis de uma indústria
têxtil não concederam as reivindicações de aumento de salário e diminuição da carga horária noturna (BIONDI, 2009).
82 O trabalho de Aguilar Filho (2011) demonstra que as teses eugênicas entre 1930-1940, da superioridade
branca, imperavam como mote de uma prestigiada família da elite brasileira que se valeu do trabalho escravo de meninos negros órfãos. Por isso, é necessário mais investigação sobre o discurso nacionalista que preteria os estrangeiros, visto que a crença da superioridade branca era fundante nas relações trabalhistas.
buscaram se proteger das ameaças que a resistência organizada poderia causar a seus interesses pelos mecanismos já utilizados no passado: a coerção.
Naquele contexto, São Paulo recebeu o grande contingente de nacionais, oriundos principalmente do Norte e Nordeste, o que fez a população praticamente triplicar em 20 anos. São Paulo tinha 1.326.261 habitante em 1940 e passou para 3.781.446 em 1960 conforme a Tabela 3 (p.93). São Miguel Paulista e adjacências ficaram conhecidos como a “nova Bahia” pelo grande número de nordestinos que vieram trabalhar na indústria, modificando a paisagem urbana da região:
A presença, a partir do final dos anos 1930, de uma fábrica de tal porte transformou o bairro de São Miguel em um dos principais subúrbios industriais da Região Metropolitana de São Paulo, justamente no período em que a cidade conhecia um dos processos mais acelerados de urbanização e adensamento já conhecido. A cidade de São Paulo foi o caso mais evidente do ritmo vertiginoso de urbanização pelo qual o país como um todo passou a partir do final da II Guerra Mundial. Entre as décadas de 1940 e 1960, o ritmo de crescimento da população da cidade alcança os maiores índices do século. São Paulo torna-se a maior cidade do país com cerca de 3 milhões e 700 mil habitantes em 1960 e o ufanista slogan de que a cidade era a que “mais crescia no mundo” era repetido à exaustão. Nesse mesmo período, a mancha urbana da Região Metropolitana cresceu cerca de cinco vezes passando de 200 para aproximadamente mil quilômetros quadrados. (FONTES, 2008, p. 92)
Com a expansão da mancha urbana, a ZL pode ser compreendida pelos seus 33 distritos na fase da ocupação migrante (Mapa 7). Na atualidade, eles estão agrupados em prefeituras regionais, como descrito na Tabela 66, a partir das quais alguns dados serão