ANO 1869 1870 1871 1872 1873 1874 1875* 1876* 1877 1878* 1879 Matrículas M 2462 2480 2755 3023 3088 3200 ---- ---- 3042 ---- 3522 F 1817 1903 2127 2599 2633 2808 ---- ---- 3087 ---- 3912 Escolas M 26 26 35 35 35 38 42 49 49 44 44 F 17 21 32 32 32 35 36 46 46 46 46
Tabela 3: Matrículas & Escolas Públicas. Fonte Levantamento da autora nos Relatórios do Império.
Cabe ressaltar que a tabela serve apenas como referência inicial, pois seus dados necessitam de cruzamento com outras fontes. Embora a apresentação de números em sua forma absoluta, não expliquem os processos, nos indicam possibilidades e caminhos de investigação. Desta forma, observa-se que ao longo da década as matrículas de meninas aumentaram 115% e a matrícula de meninos subiu um pouco mais de 43%, na mesma medida as escolas femininas aumentaram mais que as masculinas.
Os números também não indicam em que proporção estas escolas e matrículas se dividiam pelas diferentes freguesias do município da Corte. De forma geral, pode-se afirmar que ao longo da década houve aumento da oferta de vagas e matrículas nas escolas públicas primárias da Corte.
Publicado no Almanak de 1870 (suplemento, p. 130), o relatório do ano de 1868 do ministro Conselheiro Paulino José Soares de Souza73, afirmava a importância da instrução primária e reconhecia o esforço do legislador e do governo para garantia da instrução popular, mas reclamava suas condições reais: ―Sinto, por ter de dizer-vos que as condições de instrução primária nesta corte estão ainda longe de satisfazer as necessidades sociais. Temos poucas escolas, e mesmo nestas não se obtém os resultados, que poderiam apresentar, por
71 Os dados dos relatórios publicados no Almanak foram conferidos com os relatórios do Ministério publicados pela Global Resources Network. Disponível em:< http://www-apps.crl.edu/brazil/ministerial/imperio >. 72 É importante sinalizar que foram consideradas somente as escolas públicas administradas diretamente pelo
Ministério do Império, excluindo as escolas particulares subvencionadas, as escolas públicas do Ministério da Marinha e da Guerra e as da Câmara Municipal.
73 Ministro e Secretário do Estado dos Negócios do Império de 16.07.1868 a 29.09.1870. Maiores informações < https://ihgb.org.br/perfil/userprofile/PJSSouza.html >.
falta de bons professores‖. A matéria ainda citava que as escolas públicas funcionavam em casas alugadas sem condições apropriadas para funcionamento.
O mesmo ministro no relatório do ano de 1869, refletia sobre a questão da frequência e a importância de implementar a obrigatoriedade escolar estabelecida pelo Decreto n. 1331 de 17/02/1854 (Reforma Couto Ferraz). Entretanto, ponderava que para obrigar pais e responsáveis a enviarem seus filhos à escola, seria preciso construir prédios escolares adequados. Reclamava que, apesar de ter solicitado crédito para estas construções, não lhe fora concedido e por isso não pode realizá-las. Comemorava a aprovação na Câmara Municipal da Corte, da construção com verba pública, ―um edifício apropriado para os trabalhos do ensino primário. Será a primeira escola desta Corte que se alojará em casa própria e adequada ao seu destino‖ (LAEMMERT, 1871, suplemento, p.25).
O Almanak de 1872 publicou o relatório entregue à Assembleia Geral em maio de 1871, pelo novo Ministro dos Negócios do Império, João Alfredo Corrêa de Oliveira74. Neste relatório, o Ministro apresentava um projeto de lei para reformar o sistema de ensino com base nos seguintes pontos: ensino obrigatório; escolas de instrução primária de 2º grau; formação do professor primário com a organização de duas escolas normais; melhorias na direção, inspeção e fiscalização do sistema de ensino; eliminação dos exames de capacidade para professores particulares; melhoria nas condições financeiras dos professores. O relatório também ressaltava a questão dos prédios escolares como um dos principais obstáculos ao melhoramento da instrução pública na Corte.
O relatório do ano de 1872, publicado em 1873, citava a inauguração da Escola da Freguesia de São Sebastião, a primeira edificação escolar do município da Corte, construída com verba pública.
No primeiro relatório de 1876, o ministro José Bento da Cunha Figueiredo75 sinalizava a existência de diferenças no tratamento entre as freguesias urbanas e as suburbanas quanto à oferta de escola:
Ainda há necessidade de mais algumas escolas públicas para as paróquias urbanas, em que é mais crescida a população escolar. Nas paróquias suburbanas, em que a população se acha dividida em diversos núcleos, separados uns dos outros por largas distâncias, e em que, portanto, cada escola só aproveita ao povoado em que é situada, considero preferível o
74 Ministro e Secretário do Estado dos Negócios do Império de 29.09.1870 a 25.06.1875. Disponível em: < http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/index.php?option=com_content&view=article&id=377 >. 75 Ministro e Secretário do Estado dos Negócios do Império de 25.06.1875 a 05.01.1878.
sistema de subvencionar escolas particulares, com as quais se faz menor despesa com maior proveito (IMPÉRIO, 1876-1A, p.39).
Esse relatório apresentava como característica, certo otimismo quanto aos resultados atingidos durante a década de 1870. O ministro ressaltava que, apesar dos problemas, haviam realizado progressos, principalmente, na instrução primária. Nota-se que o discurso presente nos relatórios anteriores, que apregoava a importância da colaboração entre o Estado e a sociedade na oferta da instrução popular, é tratado nesse relatório de 1876 como realidade. Escreveu o ministro que ―depois que, finalmente, para a grande obra da instrução popular se compenetrou da necessidade de apelar para o concurso patriótico de todos os cidadãos, realizou-se uma rápida transformação‖ (IMPÉRIO, 1876-1A, p. 18).
O relatório do ano de 1877 do Ministério do Império, publicado em 1878, pelo ministro Carlos Leôncio de Carvalho76 (IMPÉRIO, 1877) que havia tomado posse neste mesmo ano, elencava no relatório suas principais ideias e metas que prenunciavam a reforma conhecida na história pelo seu nome. Em primeiro lugar, apontava a liberdade de ensino como ―o sólido alicerce, sobre que deve assentar o edifício da educação nacional‖ (p. 23), citando como exemplo a educação norte-americana. A segunda medida apontava a incompatibilidade do magistério com cargos políticos e administrativos, através da proibição da acumulação de cargos e da melhoria dos vencimentos do professor. As demais: criação de faculdades livres através da associação de professores; acabar com a obrigatoriedade do ensino religioso no ensino secundário; importância das escolas profissionais; executar a obrigatoriedade na instrução primária; reorganizar o ensino primário ligando as escolas de 1º grau imediatamente as de 2º grau; instituir jardins de infância; coeducação dos sexos em escolas mistas; instituir caixas econômicas nas escolas; estabelecer bibliotecas e museus nos distritos; criar nos distritos caixa escolar e fundo escolar e, por último, escolas ambulantes para os lugares distantes e noturnas para adultos analfabetos.
Tanto José Bento da Cunha Figueiredo quanto Leôncio de Carvalho argumentavam tratamento diferenciado entre as freguesias. Segundo ele,
Em algumas paróquias, especialmente as suburbanas e rurais, convirá, em vez de crias escolas, conceder subvenções às particulares existentes que inspirem a necessária confiança e se obriguem ao ensino gratuito dado nas escolas públicas, sujeitas em tudo aos regulamentos destas. A economia que por esta forma conseguir-se reverterá em proveito geral, permitindo multiplicar os estabelecimentos de instrução nas localidades onde a
população se acha mais disseminada e dividida em pequenos núcleos distantes uns dos outros (IMPÉRIO, 1877, p. 64-65).
Neste mesmo relatório, flexibilizava o ensino obrigatório ao afirmar que ―os meninos que residirem à distância maior de um e meio quilometro da escola não serão obrigados a frequentá-la‖ (idem, p. 58).
Desta forma, podemos considerar que oficialmente o Estado Imperial pensava o processo de escolarização de forma diferenciada entre as freguesias. Usando como justificativa a distância e a densidade populacional, os investimentos na instrução da infância aconteciam em sentidos opostos: para as freguesias da cidade, a escola pública e obrigatoriedade escolar; para as freguesias de fora, a escola subvencionada e não obrigatória.
Esta diferença fora legalmente instituída na Reforma Couto Ferraz. Nesse Decreto que regulamentava o ensino primário e secundário do Município da Corte, apesar do art. 51 estabelecer no mínimo uma escola por paróquia, o art. 57 tornava flexível esta determinação afirmando que:
[...] quando em uma paróquia, por sua pequena população, falta de recursos, ou qualquer outra circunstância, não se reunir número suficiente de alunos que justifique a criação de escola ou sua continuação, e houver no lugar escola particular bem conceituada [...] contratar com o professor dessa escola a admissão de alunos pobres, mediante uma gratificação razoável (apud CASTANHA, 2013, p. 132).
Assim apoiados por uma determinação legal, os Ministros do Império, que enfrentavam os mais diversos tipos de problemas para escolarizar a população infantil, secundarizavam as freguesias mais distantes.
As tabelas a seguir, montadas a partir dos mapas77 fornecidos pela Secretaria da Inspetoria geral da Instrução primária e secundária do Município da Corte, assinados pelo Secretário Theophilo das Neves Leão, trazem informações que podem contribuir para a reflexão sobre a instrução pelas freguesias.
77 Incluídos como anexos nos relatórios do Ministério do Império dos anos de 1871 e 1874 entregues à Assembleia Geral pelo Ministro João Alfredo Corrêa de Oliveira.
F R E GU E S I A S D A C I D A D E ESCOLAS 1871 1874 M F M F 1. Glória 2 2 2 2 2. Candelária 1 1 1 1 3. São José 2 2 2 2 4. Santa Rita 2 3 2 3
FREGUESIAS DE