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2. N O RASTRO DAS OBRAS PÚBLICAS : ALISTAMENTOS , TRABALHO E VOTO

3.2 Lida

3.2.2 Escolas para o trabalho ou “aprender na prática”?

Roçagem, corte de terra, extração de terra e pedra com pá, britamento de pedra com picareta, transporte de terra e outros materiais em carrinhos-de-mão eram os principais serviços desempenhados pelos trabalhadores-cassacos. Existiram, contudo, os obreiros que colaboraram em serviços que demandavam outros conhecimentos como de alvenaria para confecção de tijolos, telhas, adubos e erguimento de obras de “pedra e cal”; de ferragens para apontamento de ferragens, reparos de peças, confecção de grampos, parafusos; de pintura; de carpintaria e de marcenaria, entre outros.267

265 Palestra realizada no clube de engenharia do Rio de Janeiro, em 21 de maio de 1959, pelo chefe do serviço agroindustrial do Nordeste, José Guimarães Duque. In: DNOCS. Boletim. Rio de Janeiro: MVOP/DNOCS, v.19.n.4, boletim maio de 1959, pp.49,62.

266 A terminologia “aprender na prática” é utilizada aqui no sentido empregado por Paulo Fontes. Cf. FONTES, Paulo. Trabalhadores e cidadãos: Nitro Química: a fábrica e as lutas operárias nos anos 50. São Paulo: Annablume, 1997, p. 85-87.

267 Essas descrições foram extraídas das seguintes fontes: BERREDO, Vinícius. Relatório de obras de 1951.Rio de Janeiro: MVOP/DNOCS, 1952; MENDES, Luiz. Relatório de obras de 1954. Rio de Janeiro: MVOP/DNOCS, 1955.

Sabe-se que o DNOCS tinha em seus quadros trabalhadores qualificados para dar conta de ofícios mais especializados como os citados, mas em número consideravelmente reduzido diante dos trabalhadores-retirantes. Assim, é de se supor que nos trabalhos de marcenaria, ferraria, alvenaria – como foi o caso da confecção de 1006 milheiros de telhas e 980 milheiros de tijolos no açude Pentecoste em 1951 – havia a mão dos cassacos.268

Figura 7. Trabalhador na fabricação de tijolos. DNOCS. Fonte: PASSOS, José Cândido Castro Parente Pereira. Boletim. DNOCS/MVOP, novembro,1959, v.20.n.6.

A propósito, durante suas experiências como trabalhadores-cassacos, em contato com as mais diversas atividades, os obreiros poderiam aprender outros ofícios e ser arregimentados para outras funções. O engenheiro Paulo Guerra explica que, em alguns casos, “cassacos eram habilitados” em outras funções dentro do DNOCS. “Operários com pendor para mecânica, localizados em oficinas”, tornavam-se “competentes mecânicos”, outros aprendiam a montar e consertar “telefones, rádios e instrumentos diversos,” fora isso, formavam-se também operadores de “máquinas agrícolas, tratores, escavadeiras, buldozers, scapers”, “hábeis torneiros, eletricistas, ou etc”. Guerra narra que, certa vez, “um mecânico semianalfabeto, assessorado” por um “tradutor e um catálogo, deixou” uma máquina desmontada “funcionando

268 No açude de menor porte Santo Antônio de Arataiaçu, em Sobral, foram confeccionados 244 milheiros de tijolos e 150 milheiros de telhas.

em poucos dias”. Em outra ocasião, durante uma crise de técnicos nas construções da Paraíba, “conseguiram diplomar” “jovens alistados” em “topógrafos”.269

Ainda que não se tenha precisamente a proporção de trabalhadores especializados frente aos chamados “braçais”, nem quantos dos operários qualificados foram migrantes pobres que aprenderam ofícios dento das obras, é possível atestar que os retirantes eram alocados majoritariamente em serviços que não exigiam nenhum tipo de formação profissional específica. Na verdade, nos tempos de secas, o enorme volume de gente quase nada instruída formalmente dava conta da produção. Apenas esporadicamente precisava-se que trabalhadores aprendessem ofícios realmente novos para se juntar aos outros operários técnico-especializados do órgão.

Certamente, chegavam diariamente às obras trabalhadores acostumados com outra rotina de labuta, tendo que lidar com procedimentos desconhecidos aos seus costumes, como pontualidade de horários, hierarquia e tarefas que demandavam o manejo de ferramentas novas, contudo a maior parte dos serviços não era complexa e nem muito estranha às suas rotinas: limpar o terreno com enxada, cavar, expurgar e malhar a terra, quebrar pedra, empurrar carrinho de mão. Além do mais, mesmo quando eventualmente se precisava “formar” trabalhadores para alguma tarefa considerada atípica ao cotidiano de trabalho rural, isto não se dava por meio de cursos especializados e formação contínua, procedimentos ausentes nos relatórios institucionais, eles aprendiam fazendo, acompanhados por colegas de trabalhos.

Nesse sentido, antes que se diga que as obras durante as secas eram “escolas para o trabalho”, deve-se considerar algumas problemáticas: primeiro, os obreiros das frentes eram empregados majoritariamente em serviços manuais, o DNOCS e o DNER dispensavam o uso de máquinas e caminhões para aproveitar mais trabalhadores; segundo, os labutadores já conheciam boa parte desses serviços a serem executados, a maioria; terceiro, o grosso do necessário às obras nem exigiam qualificação técnica; quarto, mesmo quando era preciso ocupar trabalhadores em operações mais específicas, a formação não era protocolar, dava-se por meio da observação, na prática; e, quinto, o alto índice de rotatividade e a exigência de se manter trabalhando para garantir a comida não combinam com um processo de aprendizagem formal.

Longe de menosprezar qualquer esforço desempenhado por engenheiros, especializados e técnicos que dedicaram uma parte do seu tempo para ensinar novos afazeres, num momento de necessidade de racionalização do trabalho, deseja-se aqui chamar atenção

para a incompatibilidade de se pensar numa educação para o trabalho, no contexto das centenas frentes de serviços estabelecidas prioritariamente para empregar um grande número de pobres abatidos pelas secas. Além do mais, não se desconsidera que, decerto, muitos trabalhadores aprenderam novos ofícios, todavia, fazendo.

As imagens mostram que, embora não fossem exigidas técnicas de trabalho especializado para empurrar carrinho, cavar buracos e malhar a terra, admiráveis eram os resultados alcançados pela multidão de migrantes pobres das secas. A prática cotidiana ia orientando esses obreiros e as fotografias são importantes para rejeitar a máxima do trabalho manual associado ao desqualificado. O fato de a maioria dos empregados serem pobres, famintos e com baixo grau de instrução formal e especialização, num contexto de labuta degradante, não implica concluir que era um trabalho desqualificado, de forma generalizante. Os engenheiros e suas equipes regiam os canteiros de obras, mas foram os trabalhadores- cassacos que construíram açudes, estradas, redes de irrigação e eletricidade, prédios, etc.

Os trabalhadores, portanto, quando precisavam lidar com ofícios novos, aprendiam na prática. Se o DNOCS possuía um discurso de educação para o trabalho, não era no sentido da profissionalização industrial, fabril ou da construção civil, era uma formação focada no trabalho agropecuário. Especialmente no final da década de 1950, com o fortalecimento do GTDN, criação da SUDENE e inserção de políticas agrícolas no DNOCS, os discursos de preparação do homem nordestino para acompanhar a dinâmica do progresso necessário ao Nordeste para integrá-lo ao Brasil se fortaleciam sobremaneira. Conforme o boletim do DNOCS de 1958, era necessário “educar” o sertanejo “para vencer a seca”, por isso, ao lado dos projetos de irrigação e postos agrícolas, deveriam existir escolas para ensinar os modernos processos de lida com a terra.270

A agricultura, segundo os gestores do DNOCS, exigia “conhecimentos, qualidades morais, operários habilitados, disciplina de trabalho, volumosas colheitas por hectare e preservação de fertilidade do solo”. Entretanto, como as comunidades interioranas tinham “demasiado zelo em não modificar os seus costumes”, essa tarefa era árdua e deveria começar na infância. 271 Dentro do contexto de modernização e estímulo à convivência com a natureza

árida do Nordeste, a educação agropecuária para famílias, o funcionamento das colônias agrícolas dos postos de irrigação e vazantes dos açudes, bem como as experiências dos

270 Departamento Nacional de Obras Contra as Secas. Boletim. Vol. 18. N.2, novembro,1958. p.26.

271 Departamento Nacional de Obras Contra as Secas. Boletim. Vol. 20. N.6, Novembro,1959, p.116; Departamento Nacional de Obras Contra as Secas. Boletim, Vol. 19. N.4, Maio,1959, p.61,64.

trabalhadores destes projetos, são seguramente assuntos que merecem maior apreço de pesquisadores.

Os trabalhadores-cassacos, então, tinham uma rotina de lida com serviços diversos e pesados, trabalhando em turmas, às vezes tendo que aprender novos afazeres. Trabalhar duro e em grupo não era algo estranho às experiências pregressas daqueles sujeitos, outras situações, entretanto, bem poderiam ser alheias a estes obreiros.