Wilson Sandano*
4.2 Escolas particulares
Enquanto na década anterior tínha- mos 3 escolas particulares, em 1883, o Ins- petor de Distrito registra cinco:
Existem n’esta cide. 5 aulas particulares,
das quaes 3 são mystas, e 2 do sexo masculº. das quaes uma é nocturna, e são as segtes.: = sexo masculino = Externato
regido pelo cidadão Ignácio de Azevedo Coutinho, installado a 10 de 7brº pp. onde leciona 1as. letras grammatica Portugueza,
arithmetica, Frances, e Hystoria Patria, pelo methodo simultaneo, existindo matricula- dos 22 alumnos: sendo 18 freqtes. Aula
nocturna de N. Srª. da Ponte, sustentada por Manuel José da Fonseca, installada a 25 de Junho pp. e regida plo. Cidadão
Germano de Pilar França somte. 1as. letras
e para os empregados menores da Fabrca.
de tecidos de N. Srª. da Ponte, na qual existem matriculados, 26 alumnos, sendo todos elles frequentes. = Mystas = D. Joaquina Genenbina de Oliveira, ensina 1as. letras e prendas domesticas, tendo 24
alumnos matriculados e frequentes sen- do 20 do femenino e 4 do masculino. D. Maria das Dores de Araújo Pavão, somte.
de 1as. letras, tendo 14 alumnos matricu-
lados e freqtes.: sendo10 do sexo femenº.
e 4 do masculino.
D. Belmyra Cerqueira Leite – Religião Pro- testante – instalada a 1º de 8brº. pp. onde leciona Portugues, Frances, Ingles, Geographia, historia caligraphia, arithmetica e metrica. Existem 40 alumnos matriculados e freqtes. sendo 24 do sexo
femenº e 16 do masculº.
Existem pr. tanto nas 5 escolas particula-
res, matriculados 126 alumnos de ambos os sexos não sendo freqtes. 4. Nestes per-
tencem ao sexo masculº. 72, e ao femenº.
54 – sendo estas todas freqtes. e d’aquelles
4 não freqtes.17
Na relação de escolas particulares, podemos realçar:
– uma escola noturna mantida por Manoel José da Fonseca, proprietário da Fábrica Nossa Senhora da Ponte, criada no dia da inauguração da Fábrica (ALEIXO IR- MÃO, 1969, p. 258);
– uma escola protestante.
Baddini faz referências a outras es- colas, como conseqüência de associação da população urbana:
A instrução particular foi outra modalida- de de associação da população urbana. A primeira iniciativa foi da Loja Perseveran- ça III em 1870, que organizou aulas no- turnas de primeiras letras gratuitas para os moradores; no entanto, não foi dura- doura. Na década de 1880, o Club Cientí- fico e Literário manteve, entre 1882 e 1885, uma escola noturna para alfabetização de adultos e crianças. Em 1882, também foi organizada uma aula noturna para os operários da fábrica de tecidos Nossa Se- nhora da Ponte, inaugurada naquele ano. Em 1888, foi reorganizada a escola notur- na de primeiras letras mantida pela Per- severança (BADDINI, 2002, p. 189)
Já Aluísio de Almeida faz referência à existência de 20 escolas particulares, em 1887 (ALMEIDA, 1951, p. 46). No entanto, essas escolas particulares tinham existência curta. À exceção das escolas ligadas às as- sociações, o fato parece dar razão à afirma- ção de que os professores que abriam as escolas, “por não terem outro ofício, se apro- veitavam da liberdade de ofícios e profis- sões estabelecida pela Constituição de 1824 e peregrinavam, de cidade em cidade, abrindo escolas [...]” (MANOEL, 1996, p. 27).
196 Wilson SANDANO. A escola em Sorocaba no final do império
5 Considerações finais
O período estudado nos mostra Sorocaba em grandes transformações eco- nômicas e sociais. A estrutura urbana se modifica. A cidade vai se tornando um cen- tro urbano de expressão, como mostra a visita da família imperial por duas vezes, no período.
A educação passa também por mu- danças. Há mudanças em relação à sua valorização pela população e há mudanças, especialmente no aspecto numérico.
Nas escolas mantidas pela Província, há um aumento considerável de seu núme- ro: de 4, no final da década anterior, chega- mos a 12 na década estudada. O número de alunos passa de cerca de 150 a mais de 500. No entanto, esse atendimento, além de ser apenas referente à instrução primária, é feito de modo bastante precário no que se refere às instalações para as clas- ses, além, também, de ser em número insu- ficiente para as necessidades da população. Não há, também, o atendimento aos can- didatos à instrução secundária.
O município procura suprir a lacuna deixada pela Província e cria um Liceu Municipal, que teve uma efêmera duração. A escola particular, precariamente e de modo intermitente, vai também suprir a falta de escolas necessárias à população.
Verificamos também que, no final do período por nós estudado, já há uma melhor organização e início de consolida- ção da educação escolar na cidade de Sorocaba. No entanto o atendimento às ne- cessidades educacionais dos sorocabanos continuava bastante precária, apesar da
valorização da escola que estava presente em toda a sociedade.
Notas
1 Esta pesquisa é desenvolvida no Grupo de Pes-
quisa HISTEDBR – Sorocaba, vinculado do Progra- ma de Pós-graduação em Educação, da Universida- de de Sorocaba.
2 Este nome foi dado em homenagem à padroeira
da cidade, Nossa Senhora da Ponte. No entanto, a população a chamava de Fábrica do Fonseca, seu proprietário (Manoel José da Fonseca) (SOUZA FI- LHO, 2004, p. 151). Registre-se que esta denomina- ção chegou até nossos dias.
3 Sua qualificação para o cargo, apresentada à Câ-
mara, era a de ter sido pretendente às ordens.
4 Ofício encaminhado ao Inspetor Geral da Instru-
ção Pública, por Antonio Gonzaga Sêneca de Sá Fleury, Inspetor do Distrito da Instrução Pública de Sorocaba, em julho de 1885.
5 Ofício encaminhado ao Inspetor Geral da Instru-
ção Pública, por Antonio Gonzaga Sêneca de Sá Fleury, Inspetor do Distrito da Instrução Pública de Sorocaba, em 25 de novembro de 1883.
6 Ofício encaminhado ao Inspetor Geral da Instru-
ção Pública, por Antonio Gonzaga Sêneca de Sá Fleury, Inspetor do distrito da Instrução Pública de Sorocaba, em 25 de novembro de 1883. Segundo Marcílio (2005, p. 66), “Em São Paulo, cabia ao pro- fessor arcar com as despesas de aluguel de sua sala de aula, ou então ministrar as aulas em sua própria casa, com todos os inconvenientes que daí resultavam. Era uma situação generalizada pelo próprio império afora.”
7 Ofício encaminhado ao Inspetor Geral da Instru-
ção Pública, por Antonio Gonzaga Sêneca de Sá Fleury, Inspetor do Distrito da Instrução Pública de Sorocaba, em 14 de novembro de 1882. Segundo Marcílio (2005, p. 67), na Província de São Paulo, “Móveis e material didático nem pensar. Raramente o governo votava uma pequena verba para esse fim. A província de São Paulo, para o ano de 1867, havia previsto apenas dois contos de réis para ma- terial escolar das escolas públicas; quantia irrisória.”
Série-Estudos... Campo Grande-MS, n. 24, p. 187-199, jul./dez. 2007. 197 Pública, por Antonio Gonzaga Sêneca de Sá Fleury,
Inspetor do Distrito da Instrução Pública de Sorocaba, em 25 de novembro de 1883.
9 Diferentemente do que acontecia por volta de 1850,
quando os professores não tinham bom conceito junto ao Inspetor do Distrito (CAMMARANO GONZÁLEZ; SANDANO, 2004).
10 Ofício encaminhado ao Inspetor Geral da Instru-
ção Pública, por Antonio Gonzaga Sêneca de Sá Fleury, Inspetor do Distrito da Instrução Pública de Sorocaba, em 14 de novembro de 1882.
11 Relatório apresentado ao Inspetor Geral da Ins-
trução Pública, por Gertrudes Pires de Almeida Mello, professora da 3ª cadeira do sexo feminino, da cida- de de Sorocaba, em 1 de junho de 1881.
12 Marcílio (P. 78) nos informa que, em 1870, na
Província, só subsistiam as aulas particulares de instrução secundária – havia apenas uma aula pú- blica de latim e francês em Itu.
13 Ofício encaminhado ao Inspetor Geral da Instru-
ção Pública, por Antonio Gonzaga Sêneca de Sá Fleury, Inspetor do Distrito da Instrução Pública de Sorocaba, em 14 de novembro de 1882.
14 Ofício n. 60, encaminhado pela Câmara Municipal
da Cidade de Sorocaba ao Diretor Geral da Instrução Pública da Provínica, em 5 de novembro de 1887.
15 Relatório do Lyceu Municipal de Sorocaba – 1888,
apresentado pelo Professor Arthur Gomes.
16 Segundo Menon (2000, p. 275), os sorocabanos
que pretendiam cursar o ensino superior eram obri- gados a deslocarem-se para São Paulo, Itu ou Itapetininga, para realizarem seus estudos secun- dários. Somente em 1901 é que Sorocaba volta a ter o curso secundário, com a criação do Liceu Sorocabano, por iniciativa da Loja Maçônica Perse- verança III.
17 Ofício encaminhado ao Inspetor Geral da Instru-
ção Pública, por Antonio Gonzaga Sêneca de Sá Fleury, Inspetor do Distrito da Instrução Pública de Sorocaba, em 25 de novembro de 1883.
Referências
ALEIXO IRMÃO, José. A perseverança III e Sorocaba. Sorocaba: Fundação Ubaldino do Amaral, 1969. v. 1.
ALMEIDA, Aluisio de. História de Sorocaba –1822-1889. Sorocaba: Gráfica Guarani, 1951. v. 2. ______. Sorocaba: 3 séculos de história. Itu: Ottoni, 2002.
BADDINI, Cássia Maria. Sorocaba no império: comércio de animais e desenvolvimento urbano. São Paulo: Annablume, 2002.
CAMMARANO GONZÁLEZ, Jorge Luís; SANDANO, Wilson. A formação da educação escolar pública em Sorocaba: 1850-1880. Revista HISTEDBR On-line, Campinas, n. 16, dez. 2004. MACHADO, Maria Cristina Gomes. Uma reflexão sobre o surgimento das instituições escolares no Brasil no Século XIX. Revista Histedbr On-line, Campinas, n. 11, set. 2003.
MANOEL, Ivan A. Igreja e educação feminina – 1859/1919. A face do conservadorismo. São Paulo: Ed. da UNESP, 1996.
MARCÍLIO, Maria Luiza. História da escola em São Paulo e no Brasil. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo; Instituto Fernand Braudel, 2005.
MENON, Og Natal. A educação escolarizada em Sorocaba entre o Império e República. 2000. v. 3. Tese (Doutorado em História) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2000, v. 1.
198 Wilson SANDANO. A escola em Sorocaba no final do império RIBEIRO, Maria Luisa S. História da educação brasileira. A organização escolar. 6. ed. São Paulo: Moraes, 1986.
SÃO PAULO [ESTADO]. Exposição apresentada ao Dr. Jorge Tibiriçá pelo Dr. Prudente J. de Moraes Barros, 1} Governador do Estado de São Paulo, ao passar-lhe a administração no dia 18 de Outubro de 1890. São Paulo: Typ. Vanorden, 1980.
SÃO PAULO [PROVÍNCIA]. Relatório apresentado á Assembléa Legislativa Provincial de S. Paulo pelo Presidente da Provincia Laurindo Abelardo de Brito no dia 5 de Fevereiro de 1880. Santos: Typografia a vapor do Diário de Santos, 1889.
______. Discurso com que o o illustrissimo e e excellentissimo senhor dr. José Thomaz Nabuco d’Araujo, presidente da província de São Paulo, abrio a Assembléa legislativa Provincial no dia 1.o de maio de 1852. São Paulo: Typ. do Governo arrendada por Antonio Louzada Antunes, 1852.
______. Relatorio apresentado á Assembléa Legislativa Provincial de S. Paulo pelo Presidente da Provincia Laurindo Abelardo de Brito no dia 13 de Janeiro de 1881. Santos, Typographia a vapor do Diário de Santos, 1881.
______. Relatório apresentado á Assembléa Legislativa Provincial de S. Paulo pelo 1º Vice- Presidente da Provincia Conde de Três-Rios e apresentado no acto da installação da mesma Assembléa pelo 4º Vice-Presidente Dr. Manoel Marcondes de Moura e Costa. Santos: Typographia a vapor do Diario de Santos, 1882.
______. Relatorio com que passou a administração da Provincia de S. Paulo ao Exm. Presidente Barão de Guajará o Vice-Presidente Visconde de Itú. São Paulo: Typographia do Commercio, 1883.
______. Falla dirigida à Assembléa Legislativa Provincial de S. Paulo na abertura da 1ª Sessão da 25ª Legislatura, em 16 de Janeiro de 1884, pelo Barão de Guajará. São Paulo: Typ. da “Gazeta Liberal”, 1884.
______. Falla dirigida à Assembléa Legislativa Provincial de S. Paulo na abertura da 2ª Sessão da 26ª Legislatura, em 10 de Janeiro de 1885, pelo Presidente Dr. José Luiz de Almeida Couto. São Paulo: Typ. da “Gazeta Liberal”, 1885.
______. Relatorio apresentado à Assembléa Legislativa Provincial de S. Paulo pelo Presidente da Provincia no dia 15 de Fevereiro de 1886. São Paulo: Typographia a Vapor de Jorge Sckler, 1886.
______. Relatorio apresentado à Assembléa Legislativa Provincial de S. Paulo pelo Presidente da Provincia Barão do Parnahyba no dia 17 de Janeiro de 1887. São Paulo: Typographia a vapor de Jorge Seckler, 1887.
______. Relatorio apresentado à Assembléa Legislativa Provincial de São Paulo pelo Presidente da Provincia Exm. Snr. Dr. Francisco de Paula Rodrigues Alves, no dia 10 de Janeiro de 1888. São Paulo: Typographia a vapor de Jorge Seckler, 1888.
Série-Estudos... Campo Grande-MS, n. 24, p. 187-199, jul./dez. 2007. 199 ______. Relatorio apresentado à Assembléa Legislativa Provincial de São Paulo pelo Presidente da Provincia Dr. Pedro Vicente de Azevedo, no dia 11 de Janeiro de 1889. São Paulo: Typographia a vapor de Jorge Seckler, 1889.
SOUZA FILHO, João Dias de (Sup.). Sorocaba 350 anos – uma história ilustrada. Sorocaba: Fundação Ubaldino do Amaral, 2004
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VIDAL, Diana Gonçalves; FARIA FILHO, Luciano Mendes. As lentes da história. Estudos de história e historiografia da educação no Brasil. Campinas: Autores Associados, 2005.
Documentos citados
Ofício encaminhado ao Diretor Geral da Instrução Pública da Província, pela Câmara Municipal da Cidade de Sorocaba, em 5 de novembro de 1887.
Ofícios encaminhados ao Inspetor Geral da Instrução Pública, por:
– Januaria de Oliveira Simas, professora da 3ª cadeira do sexo feminino, da cidade de Sorocaba, em 31 de maio de 1881;
– Venâncio José Fontoura, professor da 2ª cadeira do sexo masculino, da cidade de Sorocaba, em 4 de junho de 1881;
– João Dias Vieira, professor público da cidade de Sorocaba, em 28 de maio de 1881; – Gertrudes Pires de Almeida Mello, professora da 3ª cadeira do sexo feminino, da cidade de
Sorocaba, em 1 de junho de 1881;
– Gertrudes Pires de Almeida Mello, professora da 3ª cadeira do sexo feminino, da cidade de Sorocaba, em 1 de novembro de 1881;
– Zulmira Ferreira de Mello, professora da cadeira do sexo feminino, do Bairro de Jundiaquara, da cidade de Sorocaba, em 1 de novembro de 1881;
– Antonio Gonzaga Sêneca de Sá Fleury, Inspetor do Distrito da Instrução Pública de Sorocaba, em 14 de novembro de 1882;
– Antonio Gonzaga Sêneca de Sá Fleury, Inspetor do Distrito da Instrução Pública de Sorocaba, em 25 de novembro de 1883;
– Antonio Gonzaga Sêneca de Sá Fleury, Inspetor do Distrito da Instrução Pública de Sorocaba, em julho de 1885.
Relatório do Lyceu Municipal de Sorocaba – 1888, apresentado pelo Professor Arthur Gomes.
Recebido em 07 de julho de 2007.