• Nenhum resultado encontrado

Escolas-Serras que abrigam uma das pedras preciosas

2 CAMINHOS DE UMA PESQUISA QUALITATIVA NO ENSINO DE ARTES

3.2 Escolas-Serras que abrigam uma das pedras preciosas

Como mencionado anteriormente, a professora Rubi trabalha em duas escolas, uma municipal em Uberlândia-MG e outra estadual na cidade de Araguari-MG. A descrição desses espaços tem a intenção de apresentar as diferentes situações de trabalho da professora o que gera diferenças no envolvimento dela com as instituições e especificamente no seu modo de trabalhar com os alunos e de avaliá-los.

A Escola Estadual Serra da Canastra é pequena e fica em uma periferia da cidade, próxima à rodoviária da cidade de Araguari. Tem em média seiscentos alunos e funciona em dois turnos: manhã e tarde, sendo ambos com Ensino Fundamental. O prédio possui dois pavilhões e apenas o andar térreo, que conta com treze salas de aula. A escola ocupa meio quarteirão do bairro e é construída com tijolinho à vista. Possui duas entradas em ruas diferentes, uma de frente para a outra, formando um corredor de entrada. Uma das entradas é prioritariamente para os professores, que são 36 no total, e a outra é para os alunos. O que não impede que professores e alunos entrem por um ou outro lado. A professora Rubi entra sempre pela entrada dos alunos, pois é mais próxima de sua casa. Os pavilhões onde estão as salas de aula ficam à esquerda de quem entra pela entrada dos professores. Na entrada dos professores fica um jardim bem cuidado e um pequeno estacionamento. Na entrada dos alunos está a quadra de esportes; pela entrada dos professores, há três portas: uma é da secretaria, outra do almoxarifado e outra da sala dos professores e da diretora. Na parede externa do prédio, ao lado da secretaria está colocada uma placa comemorativa do jubileu de prata da escola em 1994, o que significa que essa escola funciona há 34 anos.

Nas duas 8ª séries em que a professora Rubi trabalha as salas são grandes, aproximadamente 5 x 6m, e possuem paredes com os tijolinhos à vista lixados. Cada uma fica

de um lado do pátio sem cobertura. No entanto, as duas salas são exatamente iguais no que diz respeito ao projeto arquitetônico. Do lado esquerdo há três janelas grandes com vidros transparentes. Na 8ª B há uma tela de arame para proteção nessas janelas por estarem ao lado do muro externo da escola. Do lado direito há apenas a porta na frente da sala e três vitrôs do tipo pleno ar. Não há cartazes e nem enfeites. Acima do quadro negro há um relógio. As mesas e as cadeiras são de compensado de madeira e possuem muitos estragos. O chão é de granitina cinza. A 8ª B é mais disciplinada que a 8ª A e, segundo informações da professora Rubi, a maioria dos alunos é repetente.

A Escola Municipal Serra da Mantiqueira também fica na periferia da cidade de Uberlândia, mas é muito grande. Em média 1800 alunos e 180 professores distribuídos em três turnos: manhã, tarde e noite. Possui um pavilhão principal com três andares e um pavilhão menor em forma de ‘U’ térreo. Há uma entrada separada para esse pavilhão menor e lá funcionam as salas de introdutório à terceira série. No pavilhão maior, assim que se entra, há uma escada muito íngreme para a subida de alunos e professores para os outros andares. A sala de professores fica no térreo e a sala de Artes, que é uma sala específica para o trabalho com essa disciplina, contendo mesas grandes, bancos, pias, armários com materiais de uso dos alunos e aparelho de som, fica no primeiro andar. A escola tem uma grande quadra coberta, sala de informática e várias salas para aulas específicas como oficinas de dança e artesanato. Também tem alguns espaços com plantas, mas que não são tão bem cuidados.

A 2ª série B fica na sala onze da Unidade II da escola, aquela em formato de “U”. A sala é construída com blocos de cimento e pintada em verde com barrado de 1,30 m aproximadamente, e a parte de cima é branca. Há uma porta de um banheiro feminino na frente da sala. Esse banheiro tem outra porta de entrada no pátio. As portas e janelas da sala são brancas com moldura verde. A sala mede aproximadamente 4 x 6m. Na frente há um palhaço com os nomes das crianças ao lado do quadro negro. No fundo da sala há um varal com vários prendedores para a colocação de trabalhos das crianças. Do lado oposto à porta de entrada há outra porta, que nunca vimos aberta, e seis janelas grandes, com abertura parcial. Na porta há um desenho de uma casinha e no meio desta se vê um sol. É um material para acompanhamento do clima. Em cada uma das janelas há letras coloridas em tamanho de trinta centímetros aproximadamente. Na porta do banheiro há um cartaz com as centenas escritas. São 27 alunos matriculados, mas em média, estavam presentes 23 durante as aulas observadas. Os alunos foram muito receptivos e durante todo o período de observação eles conversavam conosco e nos mostravam suas produções.

A 6ª série fica no térreo do pavilhão maior da escola municipal. As paredes são iguais às da 2ª série. As janelas são grandes e se abrem totalmente para o lado da quadra coberta. Mesmo assim, há ventilador na sala. As aulas de Artes ocorriam após o recreio dessa turma e durante o recreio de outras turmas. Dessa forma, os alunos demoravam a chegar e o barulho que vinha de fora era intenso. Não há cartazes ou enfeites na sala. Nas duas primeiras semanas de observação havia apenas cinco borboletas dependuradas no meio da sala e um calendário grande próximo à mesa do professor. Na terceira semana as borboletas não estavam mais lá. Durante o período de observação estavam presentes em média dezoito alunos, mas a turma tinha matrícula de 28 alunos.

Em um dos dias de observação nessa sala perguntamos a três alunas que estavam próximas a nós se as faltas eram constantes ou se eram apenas nas sextas-feiras e elas confirmaram que nas sextas vinham menos alunos, pois eles já estavam cansados e eram aulas de Geografia, História, Artes, Matemática e Religião. Segundo elas, com duas aulas de disciplinas menos sérias, era mais fácil faltar nesse dia. Os alunos da 6ª série também foram receptivos, mas permaneciam distantes de nós. Alguns, quando se dirigiam a nós, perguntavam sobre a pesquisa: o que estávamos fazendo lá, se a professora de Artes ganharia alguma coisa com aquilo, quanto tempo permaneceríamos acompanhando as aulas.

No que diz respeito especificamente aos alunos, durante o período de observação das aulas da professora Rubi, foi possível verificar que nas duas escolas, em todas as quatro turmas em que realizamos as observações, os alunos se dispunham a auxiliar a professora a todo o momento. Entretanto em alguns instantes a conversa se tornava intensa e a professora precisava parar a aula para chamar a atenção dos alunos. Rubi não se incomodava com a conversa, em tom moderado de voz, nos momentos de produção visual dos alunos e entendia que essa conversa era importante para os alunos no sentido de troca de informações e experiências que pudessem auxiliá-los na resolução de problemas apresentados na execução dos trabalhos.

Na Escola Estadual Serra da Canastra, na 8ª série B eles eram mais disciplinados, mas conversavam muitos assuntos alheios às aulas. Como era o primeiro horário da segunda-feira, eles chegavam contando as novidades do fim de semana, as conquistas amorosas, os comentários sobre futebol e as festas que frequentaram.

Já na 8ª A, segundo a professora Rubi uma turma com mais alunos repetentes, eles eram mais indisciplinados, respondiam à professora com cinismo e desrespeito sendo que por duas vezes alunos saíram da sala sem a autorização da professora. Ao retornarem foram recriminados por ela em voz alta.

Por serem em sua maioria vizinhos da escola e por estudarem lá desde a 1ª série, todos os alunos das duas 8ª séries eram conhecidos pelo próprio nome pela equipe pedagógica da escola e por várias vezes outros professores chegavam à porta das salas durante as aulas de Artes para perguntar questões pessoais aos alunos, tais como: - sua mãe melhorou? Seu irmão saiu no Congado? Você está com o seu livro de Geografia aí?

Os alunos da Escola Municipal Serra da Mantiqueira eram muito agressivos e por várias vezes tanto na porta da escola, antes da entrada para as aulas, quanto dentro de sala de aula ou no recreio, presenciamos cenas de agressão física e verbal. Na 2ª série quatro alunos eram responsáveis pela maioria dos processos de indisciplina que lá aconteciam. Eles batiam nos colegas, tomavam materiais, respondiam a professora com desrespeito. Os demais eram dóceis, amorosos e atenciosos. A professora Rubi usou de várias estratégias para tentar modificar a conduta desses quatro alunos, desde a conversa individual em voz baixa até a ameaça de retirá-los da sala e de nada adiantou.

Conforme mencionado anteriormente, na 6ª série as aulas aconteciam após o recreio e eles chegavam atrasados, tumultuando a sala com o arrastar de carteiras e cadeiras. Uma aluna era a mais indisciplinada e quase não participava das aulas. No entanto, quando começou o projeto sobre Grafite ela se interessou e começou a participar.

Fomos muito bem recebidas nas duas escolas. Apesar de estar a dois anos nas duas escolas, a professora Rubi envolvia-se pessoalmente de modos diferentes nos dois espaços. Na escola estadual todos a conheciam: professores, gestores e pessoal administrativo. Quando não estava em sala de aula ela ficava na sala dos professores fazendo planejamentos e preenchendo diários. Como ela morava perto da escola, convivia com os alunos como seus vizinhos. Na escola municipal apenas alguns professores e os gestores a conheciam e ela se envolvia mais com a equipe de professores de Artes. Raramente ela ficava na sala dos professores nos horários de entrada e recreio. Preferia estar na sala de Artes nesses momentos. Procuramos apresentar detalhadamente os dois espaços de trabalho da professora Rubi assim como uma breve descrição dos alunos em sua totalidade de sala de aula, sem nos referirmos aos casos específicos. O período de observação das aulas da professora Rubi foi também um período de trocas constantes e aprendizagem intensa, o que nos proporcionou rever nossa própria prática pedagógica, tanto como professora da Educação Básica quanto do Ensino Superior.

No próximo capítulo apresentamos um histórico do ensino de Artes desde a promulgação da LDB 5692/71 e relacionamos cada período ao modelo de avaliação praticado.

4 O ENSINO DE ARTES A PARTIR DA LEI DE DIRETRIZES E BASES DA