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3 METODOLOGIA

3.3 ESCOLHA DAS REDES INTERORGANIZACIONAIS ESTUDADAS E

A pesquisa foi realizada em duas redes interorganizacionais horizontais, constituída

por pequenas e médias empresas do ramo de supermercados gaúchos, que fazem parte do elo

do varejo do segmento do agronegócio. A escolha das redes estudadas foi feita de maneira

intencional, a partir do interesse e da relevância deste elo, que é o varejo, para o agronegócio

de modo geral. O setor varejista é considerado um elo-chave na cadeia de produtos

agroalimentares, e exerce um papel importante e mesmo dominante na definição das escolhas

das atividades a serem desenvolvidas pela empresas (elos) que lhe fornecem seus produtos

para comercialização.

Vale acrescentar a contribuição de Ghisi (2005) ao apresentar os dados do setor

supermercadista brasileiro realizado através de consultas a diversas bases de dados. Em linhas

gerais, o estudo de Ghisi (2005) aponta que este setor é composto por quase 19 mil empresas

e 80% dos supermercados são considerados de pequeno porte e apresentam um faturamento

inferior a R$ 100 mil mensais. Além disto, a autora menciona que entre os anos de 2001 e

2002 foram investidos mais de R$ 1 bilhão no setor. Estes dados revelam a importância deste

setor, tanto em termos econômicos quanto sociais, principalmente ao se tratar de

supermercados de pequeno e médio portes.

Assim, segundo Saab, Gimenez e Ribeiro (2000), as grandes empresas, que são

consideradas líderes do setor de supermercados do Brasil, estão desenvolvendo uma série de

ações que procuram maximizar sua eficiência operacional e fidelizar o cliente. Tendo este

objetivo, tais empresas estão avançando sobre segmentos de mercado que, em geral, têm sido

atendidos por empresas de menor porte. Este fato tem levado as empresas menores a reagir

aos desafios que lhes estão sendo impostos também através de uma busca de maiores

eficiências administrativa e operacional (SAAB; GIMENEZ; RIBEIRO, 2000). Neste sentido,

objetivando permanecer no mercado, a estratégia de diversas das empresas menores tem

envolvido a associação dos varejistas entre si (SAAB; GIMENEZ; RIBEIRO, 2000), ou seja,

tem conduzido à formação de redes interorganizacionais para atender às demandas impostas

pelo setor.

A formação de redes supermercadistas entre organizações de pequenas e médias

empresas traz uma série de vantagens. Tais benefícios adicionais extrapolam simplesmente os

ganhos de escala proporcionados pelo poder de compra. Dentre estas vantagens se destacam:

o desenvolvimento de marcas próprias, a criação de cartões de crédito e de cartões-fidelidade,

assessorias jurídica e contábil, campanhas de marketing e a criação de maior identidade entre

os consumidores (SAAB; GIMENEZ; RIBEIRO, 2000). Estes aspectos não são tão fáceis de

serem incorporados pelas organizações inseridas em redes, visto que há necessidade de uma

atuação coletiva por parte de empresas que, habitualmente, exerciam suas atividades apenas

de forma individual. Além disto, também deve ser feito um esforço para a integração de

culturas diferenciadas, simultaneamente preservando os interesses dos envolvidos nestas

ações de cooperação (SAAB; GIMENEZ; RIBEIRO, 2000).

Acrescenta-se a esta discussão, o estudo desenvolvido por Ghisi (2005) em centrais de

negócios do ramo supermercadista ao apresentar os benefícios e as dificuldades que os

supermercados podem enfrentar com a formação de uma central de negócios. Ghisi (2005)

aponta como principais benefícios: a troca de experiências, a redução de custos, realização de

ações conjuntas, ampliação do mix de produtos e aumento da linha de crédito. Esta mesma

autora, sinaliza algumas dificuldades que podem ser enfrentados pelos supermercados, dentre

as quais destacam-se: a falta de ampliação do foco da união entre os supermercadistas, a

bitributação e o conflito de interesses (GHISI, 2005).

Com base no exposto, passa a ser um grande desafio o de entender como ocorre o

processo de aprendizagem entre as organizações que estabelecem relacionamentos horizontais

em rede, visto que há necessidade, dentre outras coisas, como menciona Cabral (2001, p. 77),

de um “domínio da linguagem do mercado, não apenas em termos de conhecimentos técnicos

e do desenvolvimento de novas competências, mas também e, em uma dose substancialmente

significativa, em termos de novos valores e visões de mundo compartilhados”. Na linguagem

de Argyris e Schön (1978), conforme recorda Cabral (2001), isto implica, respectivamente,

aprendizagem de circuito simples e de circuito duplo.

Assim, no presente estudo, são analisadas duas redes interorganizacionais horizontais,

constituídas de pequenas e médias empresas do setor varejista (supermercados), localizadas

no Estado do Rio Grande do Sul, que foram formadas a partir de pressupostos motivacionais

diferenciados. Uma destas redes se formou a partir de iniciativas dos empresários, que se

reuniram para estabelecer relações de cooperação sem a presença de um coordenador. E a

outra rede também foi formada através de iniciativas dos empresários, no entanto, foi

incentivada pelo Programa Redes de Cooperação do Governo do Estado do Rio Grande do

Sul, com a presença de um coordenador e com a adoção de uma metodologia

pré-determinada.

Para preservar a identidade das redes analisadas, as mesmas receberam a denominação

de Rede Merca I (formada por iniciativa dos próprios empresários sem a presença de um

coordenador externo) e Rede Merca II (formada através de iniciativas dos empresários, porém

incentivada pelo Programa Redes de Cooperação do Governo do Estado do Rio Grande do

Sul, com a presença de um coordenador e com a adoção de uma metodologia

pré-determinada). A sede central das redes analisadas concentra-se na região noroeste do Estado

do Rio Grande do Sul, nas cidades de Cruz Alta e de Santa Rosa. A Rede Merca I é composta

por 13 empresas, atuando em sete cidades, e a Rede Merca II é integrada por 17 empresas,

que atuam em 10 cidades gaúchas.

A escolha da rede Merca I foi feita de maneira intencional e por conveniência, o que,

segundo Hair et al. (2005), envolve a seleção de elementos que estejam disponíveis e que

possam oferecer as informações necessárias para a realização do estudo. Neste caso, tal rede

foi escolhida para estudo, em função de que uma acadêmica do Curso de Graduação em

Administração da Universidade Federal de Santa Maria estava realizando o estágio curricular

de final de curso em uma das empresas pertencentes à rede investigada, cujo diretor, no

momento desta pesquisa, era o Presidente da referida rede. Este fato, de certa forma, facilitou

o acesso às empresas pertencentes à rede, bem como a coleta dos dados. Já a escolha da rede

Merca II, incentivada pelo Programa “Redes de Cooperação”, se deu através de indicação do

Coordenador do projeto junto à SEDAI (Secretaria do Desenvolvimento e dos Assuntos

Internacionais) do Estado do Rio Grande do Sul, sendo uma rede com características similares

à Rede Merca I, e portanto, também é pertencente ao setor varejista do ramo de

supermercados.

Os entrevistados foram os gestores das organizações inseridas nas redes analisadas,

perfazendo um total de 29 pessoas, sendo que 13 destes gestores atuam na Rede Merca I e os

outros 16 gestores exercem suas atividades na Rede Merca II, destacando-se que um dos

gestores desta rede possui dois supermercados que integram a rede. Optou-se por entrevistar

somente o gestor das empresas que integram às redes analisadas, pelos fatos de: os mesmos

serem os representantes das empresas junto à rede; eles participarem das reuniões realizadas

pela rede; e também por serem os responsáveis pela tomada das decisões que envolvem ações

de natureza coletiva.

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