• Nenhum resultado encontrado

Capítulo III A apropriação de gêneros discursivos: reflexão de identidades

4.1 Escolha do contexto e dos sujeitos para estudo

A partir de um estudo comparativo, pudemos observar que os problemas de apropriação de determinados gêneros discursivos pelos alunos de instituição privada de ensino são semelhantes aos dos alunos de escolas públicas27, apesar das grandes diferenças de

contexto existentes entre elas, como infra-estrutura, carga horária, formação de profissionais, quantidade de estudantes por turma e classes sociais muito diversas.

Embora todas as séries (5ª, 6ª e 7ª série) apresentem problemas, a série em que ocorrem maiores dificuldades na apropriação dos gêneros discursivos é a sétima série, pois é nesta fase que alunos têm um contato mais aprofundado com textos argumentativos, apresentando dificuldade e resistência à aprendizagem.

Vale notar que este trabalho surgiu a partir das minhas próprias inquietações e dúvidas em relação a minha própria prática docente. Antes de lecionar nessa escola, já havia trabalhado em escolas públicas, onde eu acreditava que a dificuldade e o desinteresse referentes à aprendizagem eram fruto da falta de recursos e oportunidades dos alunos somados ao sistema das escolas públicas, bem diverso do sistema das escolas da rede privada de ensino, ao contexto em que os estudantes se encontravam, geralmente periferias desprovidas de recursos, muitas com problemas de violência, tráfico de drogas, além da estrutura familiar bastante desestruturada.

Porém, quando comecei minhas atividades nesta escola pertencente à rede privada de ensino, considerada por três vezes a melhor escola da cidade de São Carlos, a partir de resultados do ENEM, observei logo no início que havia problemas de aprendizagem semelhantes aos encontrados nas escolas públicas em que eu havia trabalhado. Embora o contexto e as condições destes alunos fossem melhores aos dos estudantes de escolas públicas, notei que o acesso a livros, as diversas possibilidades de participação em eventos de letramento (viagens, teatro, cinema, bibliotecas etc) não eram suficientes para que os alunos atingissem de forma eficaz a produção de textos argumentativos.

27 É importante ressaltar que trabalhei durante quatro anos como docente em várias escolas públicas de diversos

Com o passar do tempo, percebi que havia outras questões relacionadas às práticas de produção de texto, principalmente a identificação dos alunos em relação a estas, pois apareciam relatos freqüentes de que não gostavam destas práticas, além de não conseguirem ver utilidade para estas. Tudo isso somado ao fato do descontentamento em relação ao livro didático28 utilizado.

Desse modo, nesse período, eu já havia decidido que cursaria Mestrado, embora ainda não soubesse muito bem qual seria o tema de minha pesquisa, contudo tinha certeza de que teria relação com meu trabalho em sala de aula. A partir do levantamento dessas questões e do estudo das produções de textos argumentativos de meus alunos, finalmente defini o meu tema de pesquisa, a fim de entender a dificuldade, assim como o desinteresse das turmas acerca desta prática por meio do uso do livro didático.

Embora lecionasse em duas classes de sétima série, escolhi para estudo a sala da sétima série A, pois além de apresentar maior índice de desinteresse e dificuldade de aprendizagem, há também nesta classe algumas diferenças de aprendizagem entre alunos, que poderiam ser explicadas por sua condição social, bem como por suas expectativas, valores, crenças e identificações.

Dentre todos os alunos da sala de sétima série em estudo, constituída por vinte e dois alunos, escolhi dois deles para estudo: Ana e Roberto. Apesar de estarem envolvidos no mesmo contexto escolar, os dois chamaram minha atenção por vários motivos, mas, principalmente, pelo fato de possuírem características completamente diversas, desde a classe social a que pertencem até o nível de aprendizagem e objetivos diferentes perante a escola.

Ana passou por muitas dificuldades quando ingressou nessa escola, pois estudou até a quinta série em escolas públicas, fato que, no início, representou um atraso em sua aprendizagem em relação aos seus colegas. Mas, durante toda a sexta série, Ana teve todo o auxílio da equipe de apoio, esforçou-se muito e, na sétima série, conseguiu sobressair-se em relação aos colegas.

Ao contrário de Ana, Roberto sempre estudou nessa escola, seus pais têm nível superior de ensino, são profissionais liberais, proporcionando todas as condições necessárias para seu desenvolvimento intelectual. De acordo com as expectativas sociais, Roberto deveria ser um aluno exemplar e aplicado, visto que, em princípio, teria tudo para ter um futuro brilhante e cursar qualquer universidade que desejasse, mas, na realidade, não é o que ocorre.

28 Trata-se de: SOARES, M. Português: uma proposta para o letramento. Ensino Fundamental, livro 7. São

Ele apresenta muitas dificuldades, principalmente no que diz respeito à escrita e à produção de textos.

Roberto mal consegue escrever frases completas, não tem boa caligrafia, sua escrita apresenta muitos desvios em relação à ortografia e, principalmente, à concordância e coesão textuais. Conteúdos estes que são exigidos e cobrados com grande peso pela escola, que adota todos os princípios da Gramática Normativa. Em resumo, seguindo os parâmetros exigidos pela instituição privada na qual o adolescente estuda, ele não demonstra controle de sua expressão escrita e, por essa razão, não tem interesse em sua aprendizagem. Em contrapartida, Roberto controla sua expressão oral, pois é influente e popular entre os colegas, destacando-se em seminários, debates e discussões, desde que estes tratem de assuntos que lhe chamem a atenção de algum modo.

Assim, quando questionado pelo fato de não conseguir produzir textos escritos, de acordo com o que espera-se de um aluno de sétima série da referida escola, Roberto alega não gostar de produzi-los e acredita que a produção escrita nada tem a acrescentar em sua vida: “Ah professora, num gosto desse tipo de texto, pra que vou usar?”29. Esse discurso de Roberto pode estar ligado à visão que ele tem da escola, devido aos seus objetivos de vida. Esse aluno tem como meta cursar uma universidade no exterior para se tornar um profissional de tênis. Segundo ele, nesta universidade as únicas disciplinas estudadas são: Matemática, Inglês e Educação Física, desse modo, ele não vê sentido em estudar outras disciplinas escolares e não considera isso importante para sua vida.

É importante destacarmos que, além de ter dificuldades de aprendizagem na produção de textos escritos, Roberto também apresenta problemas de indisciplina, os quais se agravaram tanto que sua mãe chegou a propor ao coordenador que o filho não assistisse às aulas de Língua Portuguesa, pois não interessavam a sua carreira de tenista. Desse modo, observamos a visão da mãe do garoto acerca do papel da escola, que também se reflete nas atitudes do menino.

Ao contrário de Roberto, Ana possui um comportamento diferente, é uma aluna muito aplicada e dedicada. Devido as suas dificuldades iniciais, visto que foi aluna de escolas públicas, freqüentou durante quase um ano todas as aulas de apoio e plantões, conseguiu sobressair-se entre os alunos de sua sala em relação à interpretação, leitura e produção de textos. Mas, ao mesmo tempo, a aluna é introspectiva e apresenta problemas de relacionamento com os colegas de classe. Esse fato interfere na formação de grupos para

29 Reprodução de conversa entre mim e o aluno Roberto, durante a produção do primeiro texto argumentativo do

realização de trabalhos e apresentação de seminários, nos quais a menina é rejeitada pelos grupos. Assim, Ana tem problemas na apropriação da linguagem oral, da qual não tem domínio, talvez por sua inibição perante a classe.

A rejeição existente da classe para com a menina é recíproca, pois Ana também rejeita os colegas de todas as formas: seja em trabalhos em grupo ou até mesmo em conversas informais, pois não parece ter a intenção de estabelecer laços de amizade com os colegas de classe. Além disso, podemos observar que Ana não se insere no contexto social de sua escola, pois não se sente parte dele, já que seu mundo é tão diferente deste. Em minhas conversas pessoais com Ana, pude conhecer um pouco mais de sua vida cotidiana, como: hábitos, rotina, relação com sua família e amigos etc.

Ana vive em um bairro humilde da cidade, situado em uma periferia, não faz aulas particulares de idiomas e cursos diversos, não freqüenta clubes ou festas como seus colegas. Possui computador, embora seja velho e ultrapassado, não possui muitos livros em casa e sua família não costuma freqüentar teatros ou cinemas, e não realiza viagens. Sua família é pequena, Ana tem apenas um irmão, ainda bebê, sua mãe é dona de casa e seu pai é inspetor da escola em que estuda e, para conseguir complementar a renda de sua família, tem outros trabalhos temporários, como, por exemplo, o de entregador de pizza.

O mundo dos colegas de classe de Ana é bem diverso do seu. A maioria deles vive em condomínios de luxo, freqüenta teatro e cinema, viaja nas férias, faz cursos de idiomas, balé, artes marciais, dança, pintura, entre outros, além de possuir em casa todos os recursos necessários, tais como bibliotecas, computadores de última geração, filmes, instrumentos musicais etc.

Apesar de todas as suas limitações, Ana é freqüentadora assídua da biblioteca da escola, lê em média dois livros por semana. Utiliza os laboratórios da escola e empresta filmes para assisti-los em sua casa. Ana realiza com êxito todas as tarefas solicitadas, é estudiosa e atenciosa durante as aulas. Está sempre fazendo perguntas e tentando aprofundar seus estudos. Uma vez, conversando comigo, a menina explicou seu interesse pelos estudos: “Sabe como é né professora, eles30 têm tudo, não precisam se preocupar. Eu preciso estudar, se quiser ser

alguém na vida, meus pais não podem fazer muito”.

Fiquei impressionada com o discurso da menina e percebi o porquê de levar os estudos tão a sério. A escola para Ana representa um degrau para ter uma profissão e, talvez, buscar ascensão social, visto que tem origem humilde e que a família não tem recursos para ajudá-la

a buscar seus objetivos.