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Escolha do vencedor e repercussões no prosseguimento

4. A OPERAÇÃO URBANA ÁGUA BRANCA

4.2. Segunda Fase (2001-2004): introdução de novos conceitos e a base para a

4.2.2. Premissas para um Projeto Urbano 2: O Concurso Bairro Novo (2004)

4.2.2.4. Escolha do vencedor e repercussões no prosseguimento

Segundo Somekh (ANDRADE NETO, 2006, p.6), a escolha do projeto vencedor, pela comissão julgadora do concurso, deveu-se à opção de construir, na Água Branca, uma cidade homogênea, resgatando o desejo do que São Paulo poderia ter sido:

Muito da decisão do júri foi resgatar uma homogeneidade que sempre foi proposta pra São Paulo desde o Plano de Avenidas e que nunca conseguiu se constituir. É uma homogeneidade que é defendida desde Haussmann. No começo do século o Anhaia Melo foi para um seminário em Gante (Bélgica) e falou que todo o urbanista queria ser o Haussmann, no começo do século XX.

[...] Essa homogeneidade que não existiu em São Paulo, porém foi proposta, é o que ajudou o júri a definir o vencedor...

[...] Tem a cidade modernista, a cidade tradicional – ganhou a cidade tradicional. Que o segundo era modernista, muito Brasília... (SOMEKH, 2005, apud. ANDRADE NETO, 2006, p.6)1

Essa autora afirma que o desejo de Jorge Wilheim, então Secretário de Planejamento Municipal, mentor do concurso Bairro Novo, de transformar a paisagem urbana por meio de mecanismos que delineassem uma tipologia homogênea, já havia sido expresso em seu texto intitulado “Intervenções na Paisagem Urbana de São Paulo” de

1 As citações atribuídas à arquiteta urbanista Nadia Somekh, que fez parte da comissão julgadora, foram obtidas em entrevista a Gustavo Pires de Andrade Neto, em 21 de setembro de 2005. Segundo o entrevistado, na ocasião Somekh fez questão de registrar que não havia integrado a comissão que escolheu o projeto vencedor do Concurso Bairro Novo, em 2004. (ANDRADE NETO, 2006)

maio de 20002 (

ibidem

). Neste texto, Wilheim (2000) analisa a paisagem urbana e propõe a reconfiguração da cidade, de forma muito semelhante à homogeneidade típica da cidade tradicional.

[...] é importante notar que a relativa má qualidade estética da paisagem construída decorre do abandono do critério de homogeneidade das fachadas sobre as ruas e da legislação recente que estabeleceu uma tipologia dominante: a do edifício alto e isolado; com efeito, desde que se abandonou a regra do gabarito (altura máxima ou mínima da fachada sobre a rua) e se liberou os recuos sobre o alinhamento, prevalecendo outros critérios para os projetos, abdicou-se de privilegiar o espaço público como ponto de partida para a criação da paisagem urbana construída e anulou-se a viabilidade. (

ibid

., p.15) Para Pedro Sales (2005), assessor técnico da SEMPLA, entre 2001 e 2004, e tradicional de edifícios contíguos e homogeneizados.

Nesse contexto de aceitação, tanto pelo governo municipal, quanto pela comissão julgadora do concurso, é que o modelo de cidade homogênea, proposto pelo arquiteto Euclides Oliveira, foi escolhido como vencedor.

Como continuidade, a equipe vencedora deveria desenvolver os projetos executivos com os honorários pagos nos termos do edital do concurso. Havia ainda a necessidade de que o projeto vencedor fosse objeto de um projeto de lei submetido à aprovação da Câmara de Vereadores, para subsidiar a revisão da Lei 11.774/1995 da Operação Urbana Água Branca, o que não chegou a acontecer.

Em 2005, em meio a várias polêmicas com relação à continuidade do projeto vencedor, o então prefeito José Serra determinou que fosse suspenso o contrato com o escritório vencedor e declarou que o projeto não seria implantado, justificando que a contratação dos serviços era irregular.

2 Este texto é resultado de uma consultoria prestada por seu escritório, Jorge Wilheim Consultores Associados, ao Instituto Florestan Fernandes de Políticas Públicas – IFF, presidido na ocasião pela candidata e futura prefeita Marta Suplicy, em que se discutiram vários aspectos da administração pública para serem postas em prática pelo governo municipal.

Conforme Ata de Reunião 001/2006, da Diretoria de Projetos e Intervenções Urbanas/EMURB, realizada em 8 de março de 2006 (ver anexos), o cancelamento dos trabalhos, com o escritório vencedor do concurso, justificava-se pela ausência de apreciação do contrato pelo Conselho Gestor do Fundo Especial, tornando-o inválido perante o regimento, obrigando o escritório a devolver os valores recebidos até então.

Após discussões, o conselho deliberou:

1. Não reconhecer o contrato como válido no âmbito da Operação Urbana Água Branca dada sua extemporaneidade e não conformidade com o artigo 6º do regimento anexo ao Decreto que aprovou o regimento do fundo especial.

2. Retornar o processo à EMURB para as providencias de ressarcimento do valor indevidamente utilizado à conta da Operação Urbana.

3. Apurar eventuais outros valores utilizados indevidamente.

(ATA DE REUNIÃO 001/2006 DA DIRETORIA DE PROJETOS E INTERVENÇÕES URBANAS/EMURB)

No ambiente conturbado em que se tornou o concurso, várias polemicas foram levantadas com relação à realização do projeto. Segundo o escritório vencedor, tratou-se de questão política e de descontinuidade das ações da gestão anterior. Segundo esclarecimentos da Assessoria de Imprensa da EMURB3, o contrato foi rescindido por problemas técnicos decorrentes da falta de solução das questões de drenagem, da quantidade de movimentações de terra devido a erros de cota e do negligenciamento dos dois elementos relevantes territoriais: o Rio Tietê e a Ferrovia4.

Outro motivo apontado, segundo Andrade Neto (2004), foi a rejeição da proposta do projeto urbano, por parte da iniciativa privada, nos moldes como havia sido concebido.

Esse fato limitaria as intenções do governo municipal, de promover alternativas para que a operação urbana fosse viabilizada mediante adesão mercado imobiliário. A respeito deste último motivo, é relevante observar que todo o processo de formulação,

3 O Arquiteto Euclides Oliveira, após o rompimento do contrato por parte da EMURB, manifestou-se vastamente pelos veículos de comunicação e inclusive em carta afixada na Bienal de Arquitetura, com relação a sua indignação a posição do Município. Em resposta a manifestação do arquiteto a EMURB, por meio de sua assessoria de imprensa divulgou que entre outros motivos o projeto vencedor do concurso de 2004 era “tecnicamente ruim e incompleto (...) da forma como foi entregue é inexeqüível do ponto de vista da engenharia”.

4 Pelo projeto, a ferrovia estaria totalmente enterrada, de modo que a ferrovia e o rio não se inseririam no contexto urbano.

análise e aprovação foi conduzido de modo restrito à classe de arquitetos, ao meio acadêmico e à gestão pública, excluida a participação da população e do setor privado, das discussões e debates pertinentes aos seus interesses individuais.

Ao desconsiderar as posições destes dois entes partícipes do processo de requalificação, desprezou-se a opinião dos principais interessados: os proprietários da maior parte das áreas em que se desenvolveu o projeto urbano, e potencialmente, os maiores investidores. Tal fato demonstra uma falha nas relações de entrosamento dos setores público e privado.

Embora o projeto Bairro Novo não tenha trazido os resultados desejados, para que a Operação Urbana Água Branca “decolasse” como parte de um projeto urbano (

idem

), a iniciativa para requalificação dos bairros da Água Branca e Barra Funda contribuiu para que fosse retomada a visibilidade da área e para ampliar as possibilidades de sucesso da Operação Urbana, fomentando a revisão da lei. Além disso, introduziu-se na política pública a necessidade do projeto urbano que se desenvolveria incluindo os interesses dos setores envolvidos – principalmente o setor privado – ao mesmo tempo em que incorporaria os aspectos técnicos desconsiderados pelo projeto vencedor do concurso.

Um reflexo da retomada de visibilidade para a Operação Urbana foi a quantidade de processos que ingressaram para análise, posteriormente ao encerramento do contrato entre a equipe vencedora e o Governo em 2004, assunto a ser discutido no item 5.2.

As propostas encaminhadas indicam com clareza que os interesses da iniciativa privada são bastante distintos dos interesses propostos pelo projeto vencedor. Ou seja, o interesse dos empreendedores imobiliários em nada refletiam os objetivos apontados pelo concurso, ou pelo anseio por uma cidade do século XX, como propunha seu tema.