2.3 Adaptação organizacional
2.3.1 Escolha estratégica e determinismo ambiental
Hrebiniak e Joyce (1985) desenvolvem uma visão interativa do processo de adaptação nas organizações e revelam uma tipologia de decisão estratégica que facilita o estudo das interações entre voluntarismo e determinismo, permitindo uma integração das diversas e discrepantes literaturas da teoria organizacional, administração e economia que, segundo eles, atualmente focalizam a prepotência da escolha ou do determinismo ambiental no processo de adaptação.
Os citados autores argumentam que a escolha estratégica e o determinismo ambiental são variáveis independentes que podem ser posicionadas em duas variáveis contínuas, separadas para desenvolver uma tipologia de adaptação organizacional. As interações destas variáveis resultam em quatro tipos principais: (I) seleção natural, com escolha mínima e sem adaptação ou seleção; (II) diferenciação, com escolha alta, determinismo ambiental alto e adaptação dentro de limitações; (III) escolha estratégica, com escolha máxima, escolha com crescimento e adaptação através de design; e (IV) escolha indiferenciada, com escolha com crescimento e adaptação através da casualidade. Estes tipos influenciam o número e as formas de opções estratégicas das organizações e enfatizam a decisão nos meios ou fins, o comportamento político e o conflito e a procura de atividades da organização em seu ambiente.
Um dos argumentos mais importantes e central nos recentes tratados sobre adaptação organizacional diz respeito à derivação gerencial ou ambiental. Este assunto é uma visão de adaptação como um processo que reflete escolha e seleção
contra outro no qual o processo é uma reação necessária e decisiva de forças ambientais. Em condições análogas, o assunto é uma das prepotências do voluntarismo ou do determinismo externo no processo de mudança estratégica.
2.3.1.1 Tipologia da adaptação
Hrebiniak e Joyce (1985) argumentam que a escolha organizacional e o determinismo ambiental podem ser posicionados como variáveis independentes no processo de adaptação, que os indivíduos e as suas instituições podem escolher decidir circunstancialmente; que eles podem construir, eliminar ou redefinir as características objetivas de um ambiente e, assim, criar propositadamente as suas próprias medidas da realidade e delimitar as suas próprias decisões. Por outro lado, as características percebidas do ambiente atual também são importantes: características estruturais das indústrias ou domínios, e vários nichos claramente existentes, alguns dos quais são impossíveis de ser controlados pelos indivíduos e as suas organizações. Às vezes os efeitos destas características são decisivos; outras vezes devem ser consideradas pelo menos nas decisões estratégicas das organizações. Com isso, os autores enfatizam que a escolha e o determinismo têm que interagir ou têm que se fundir para definir uma construção causal ou contextual, ou para se habilitar a qualquer variação ou hostilidade organizacional.
Os autores apresentam as duas variáveis: a escolha e o determinismo, representados em eixos que vão de baixo para cima, demonstrado na Figura 7. Cada eixo denota variação em níveis de positivismo e potencial para influenciar outros. Os quadrantes ajudam a definir o domínio e extensão de poder no relacionamento entre a organização e o ambiente, e a vulnerabilidade relativa de cada cenário interativo.
O Quadrante I (seleção natural) basicamente mostra as condições ou suposições que repousam sob a ecologia da população, a abordagem de seleção natural para adaptação – baixa escolha estratégica e determinismo ambiental alto – cujo argumento é que as organizações não desfrutam virtualmente de nenhum controle sobre os fatores exógenos. A adaptação é determinada fora da organização, uma vez que o ambiente seleciona as organizações e permite que sobrevivam somente aquelas que atuam dentro das variações determinadas. Como a Figura 7 indica, os proponentes desta visão discutem que, sob estas condições, as organizações se adaptam ou deixam de existir.
Alta A III Escolha Estratégica Escolha máxima
Adaptação por design i E n s d c i o v l i h d a u a l II Diferenciação Escolha diferenciada Adaptação sem limitação
Baixa IV Escolha Indiferenciada Escolha incremental Adaptação ao acaso I Seleção Natural Escolha mínima
Adaptação ou seleção externa a S m e b l i e e ç n ã t o a l Baixa Alta ESCO LHA ESTRATÉG ICA DETERMINISMO AMBIENTAL
Figura 7: Relação de escolhas estratégicas e determinismo ambiental em adaptação organizacional.
Fonte: HREBINIAK, Lawrence G. JOYCE, Willian F. Organizational adaptation: strategic choice and
environmental determinism. Administrative Science Quarterly, USA, v. september, p.339, 1985.
No Quadrante II (diferenciação), a escolha estratégica e o determinismo ambiental são altos, definindo um contexto turbulento para a adaptação. Sob estas condições, há certos fatores exógenos claros que afetam a tomada de decisão, mas a organização desfruta possibilidade de escolha apesar da natureza autoritária das forças e das limitações externas.
Hrebiniak e Joyce (1985) observam que, no extremo oposto da Figura 7, as organizações que existem sob as condições mais generosas e benignas estão localizadas no Quadrante III (escolha estratégica), marcadas pela alta escolha estratégica e pelo baixo determinismo ambiental. Nesse caso, a escolha estratégica determina domínio organizacional ou ambiente de trabalho, de forma que a
autonomia e o controle tornam-se regra, ao invés da exceção. No Quadrante III, as dependências de recursos não são muito problemáticas e, quando o poder é visto como o lado principal da dependência, as organizações desfrutam de uma influência sobre as outras nos seus ambientes de trabalho.
O Quadrante IV (escolha indiferenciada) é caracterizado pela baixa escolha estratégica e pelo baixo determinismo ambiental. As organizações incluídas aqui tendem a não ter escolha estratégica, apesar de uma menor restrição externa. Com uma escolha incremental, a mudança pode ser rotulada de “adaptação ao acaso”, uma vez que as organizações aparentemente não exibem estratégia coerente para tirar proveito das condições ambientais inesperadas.
A partir dessa relação entre escolhas estratégicas e determinismo ambiental, Hrebiniak e Joyce (1985) apresentam algumas das implicações da pesquisa da tipologia e sugerem que os problemas associados à adaptação organizacional, como o controle sobre os recursos escassos e as bases de poder, exercem influência sobre o domínio organizacional e o determinismo ambiental.
Com base nesse estudo, os autores representam o efeito dessas variáveis organizacionais aplicadas nos quatro quadrantes, por meio de uma tabela, demonstrada, a seguir, como Tabela 1.
Tabela 1: O efeito de quatro tipos organizacionais na tipologia de escolha estratégica e determinismo ambiental.
Efeito de Quatro Tipos Organizacionais na Tipologia de Escolha-Determinismo em Variáveis Organizacionais Variável Quadrante I Determinismo alto Baixa escolha Quadrante II Determinismo alto Escolha alta Quadrante III Baixo determinismo Escolha alta Quadrante IV Baixo determinismo Baixa escolha
Escolha Mínima Diferenciada Máxima Com incremento
Número de escolhas estratégicas
Poucos Médio-alto Alto Poucos
Ênfase de decisão Meios Primário-meios Secundário-fins (interesse na eficiência) Primário-fins Secundário-meios (efetividade interessa) Meios-fins
Estratégias genéricas Defensora, líder de custo Diferenciação Foco-analisadora Diferenciação Foco-prospectiva Reativa Autonomia, inovação Baixa (limitações
externas)
Média Alta Baixo (limitações
internas) Comportamento político, conflito Baixo-médio Alto (interorganizational) Alto (interorganizational) Baixo Procura solução-dirigida Solução-dirigida;
algumas procuras dirigidas
Procura negligente Problemática
Fonte: HREBINIAK, Lawrence G. JOYCE, Willian F. Organizational adaptation: strategic choice and
environmental determinism. Administrative Science Quarterly, USA, v. september, p.344, 1985.
Diante do modelo exposto, os autores concluíram que:
• A interdependência e as interações entre escolha estratégica e determinismo ambiental definem a adaptação. Estas variáveis não são suficientes para definir o processo de adaptação de uma organização, mas são necessárias para uma explicação satisfatória desse processo de adaptação organizacional.
• A adaptação é um processo dinâmico, resultado da força relativa e do tipo de poder ou dependência entre a organização e o ambiente.
• As forças representadas na Tabela 1 não são estáticas; as ações das organizações e os elementos ambientais que estão sob diferentes contextos estratégicos são potencialmente importantes para a criação ou alteração de dependências ou vulnerabilidades relativas que afetarão ações e decisões futuras.
• As mudanças são o resultado da interação entre escolha estratégica e determinismo ambiental, ou seja, o resultado da interação de várias forças políticas e econômicas combinadas com a interação entre os meios e os fins da organização ao longo do tempo.
• A escolha estratégica e o determinismo fornecem impulso para a mudança. Cada um representa uma causa ou uma conseqüência do outro no processo de adaptação. Para entender este fenômeno de mudança dinâmico, é necessário “pensar em círculos", investigar a reciprocidade de relações entre organização e ambiente e estudar o efeito mútuo obtido.