1. INTRODUÇÃO
1.3 Escolhas metodológicas e processo da escrita
Nos processos de escrita e na elaboração das formulações do objeto central de estudo, qual sejam, as masculinidades, parto das autoras feministas Linda Alcoff (2018), Gayatri Spivak (2010), Sandra Harding (2004), Djamila Ribeiro (2017) e Donna Haraway (1995) para elaborar os tensionamentos entre lugar social na produção da escrita do conhecimento científico, nas práticas do saber e na produção do que é fazer pesquisa (ciência). Reconheço que as práticas de produção estão relacionadas a mecanismos de poder, por meio dos quais indivíduos são e estão inseridos socialmente. No meu caso, me insiro no Direito.
Antes de mais nada, desloco os espaços de reconhecimento científico perpetrados pela hegemonia, quais sejam os saberes ditos e reconhecidos como universais, imparciais e neutros são atravessados pela branquitude, pelos regimes de poder dos conhecimentos e da corporalidade do homem cisheteronormativo. É sobre essa lógica de produção que busco a ressignificação do conhecimento, o qual temos acesso e fomos estruturados para reproduzir. Na academia brasileira, em especial, não é diferente: neste lugar, na maior parte do tempo, tenta-se explorar um regime batenta-seado na pretensa impessoalidade, batenta-seado no produtivismo acadêmico, ocultando corporalidades diversas.
Entretanto, subverto esse regime de silenciamento e ocultamento de grupos minoritários por meio do discurso contra hegemônico, em especial, pela inclusão e reconhecimento de quem fala parte de um lugar de enunciação (não só geográfico, mas de reconhecimento social), das formas alternativas de produção do que é ciência e incrementando, nos meus estudos, saberes ditos como subjugados. As formas tradicionais - produzidas pela lógica hegemônica de poder - tão amplamente divulgada e imposta na academia e, principalmente, no Direito demonstram práticas e relações hierárquicas rígidas, autorizando alguns e silenciando outros. Nesse lugar, são impostos instrumentos de operacionalização das práticas jurídicas em consonância com burocracias e formalidades, como um modelo único de escrita, vestimenta, linguagem e modos rígidos de hierarquias que devem ser padronizados e consonantes.
É por meio dessa roupagem e da adequação nesses espaços é que se conseguem os chamados prestígios, méritos e acesso a cargos e privilégios. Esses acessos, contudo, são permeados pela exigência de adequações rígidas, que não permitem subversões e mecanismos
alternativos. Por intermédio da repetição, da capacidade de avaliar se o indivíduo consegue replicar esses códigos é que se obtém o chamado sucesso acadêmico e profissional.
O saber, para esse sujeito hegemônico, envolve três mecanismos, os quais classifico de acordo com a ideia de (a) ser, (b) estar e (c) ter:
(a) Digo ser, pois na academia, tradicionalmente, o homem branco cisheteronormativo sempre foi valorizado; o conhecimento estava e, ainda está concentrado em suas mãos, o reconhecimento da produção e do saber científico só podia estar sob seu monopólio. A valorização da lógica da citação baseada no uso do sobrenome é, por exemplo, um uso sexista e generificado, pois, além de ocultar escritoras e localizá-las, é um mecanismo que permite perceber a linhagem familiar, isto é, a valorização do poder pelo sobrenome como reconhecimento.
(b) Em relação ao "estar" diz respeito a lugares e acessos de reconhecimento e prestígio ao cargo (desembargador, juiz, magistrado) ou, na carreira acadêmica, o título de doutor, dado aqueles que conseguem galgar os passos e os procedimentos burocráticos e rígidos do conhecimento científico. É reconhecido e condecorado aquele que consegue ser aprovado pelo ritual hierárquico da banca, geralmente, por outros doutores. Mas, no contexto brasileiro, quem pode se dedicar para conseguir esse título? Quem consegue acesso a esse sistema, em que se privilegia a dedicação exclusiva? Que saber é esse que reconhece alguns e exclui outros saberes?
(c) Por fim, em relação ao ter, indago quem são os sujeitos que conseguem acesso a academia, quem são os indivíduos que obtêm, em larga maioria, o grau de doutor e quem são os que possuem maior concentração de renda. É uma elite intelectual e econômica, em um país que possui altas taxas de analfabetismo, marcado pelas desigualdades socioeconômicas, que detém o monopólio do conhecimento e dita quem deve ou não o ter.
Feitas essas considerações, aplico à presente dissertação essas problematizações, pois considero o meu lugar social, espaço ocupado pelo sujeito enunciador na sociedade, conforme explica Ramón Grosfoguel (2008, p. 119), enquanto homem gay, visto e reconhecido, como uma masculinidade dissidente. Soma-se, também, ao elemento social, qual seja, a primeira pessoa a acessar o ensino superior de minha família. A partir desses lugares imbricados e conexos, considero o meu corpo dissidente nesse espaço, estranhado, pois fujo das hegemonias apresentadas.
Em segundo plano, não desejo esgotar todos os elementos que pretendo apresentar, pois não seria capaz de fazê-lo em um ano. Este trabalho, por si só, já está fadado a limitações e se
permite a recortes a partir das formulações e tensionamentos propostos. Não sou capaz de abarcar todas as leituras, todas as hipóteses possíveis. Não pretendo abrir muitos caminhos epistemológicos. Quero, também, dizer que trabalharei com a ideia de silenciamentos da pesquisa, oportunidade em que selecionarei quais serão os sujeitos e as sujeitas que estarão fora da pesquisa.
Contudo, faço o esforço em reunir todas as autoras e autores, em suas diferentes percepções, mesmo que no mesmo campo de pensamento, a fim de possibilitar um trabalho crítico, diverso. Aqui, considero a pluralidade, a ecleticidade como elementos essenciais para se fazer uma pesquisa potente. Por isso, considero a importância de me colocar no texto de duas formas:
Em primeira pessoa do singular, pois dessa maneira, parto do lugar de enunciação a partir das minhas experiências, do lugar dissidente dessa masculinidade que evoca uma complexidade de ações e compromissos epistêmicos em provocar o debate, tensionar, promover rupturas, pois "o conhecimento racional é um processo de interpretação crítica contínuo entre campos de intérpretes e decodificadores" (HARAWAY, 1995, p. 19). Ao me colocar em primeira pessoa, destaco que esta pesquisa terá a rigidez científica tão aclamada pelos saberes hegemônicos, contudo, subvertendo a forma de fazer ciência, partindo da epistemologia queer crítica e reconhecendo as reivindicações das feministas apresentadas.
Em outros momentos, utilizo a primeira pessoa do plural ao concordar e reforçar a concordância de pontos de partida em conjunto. Considero, também, uma forma de falar como coletivo, estruturando o saber científico como uma somatória de forças e reconhecendo que ele se dará de forma conjunta, de modo a completar e endossar vazios científicos. Busco essa prática que privilegia “a contestação, a desconstrução, as conexões em rede e a esperança na transformação dos sistemas de conhecimento e nas maneiras de ver” (HARAWAY, 1995, p.
24).
Utilizo-a, posto que reconheço a necessidade de questionar os saberes hegemônicos e percebo que não há como se desprender das minhas vivências nos processos de escrita. Não nego os métodos tradicionais, mas busco ressignificar e transformar os processos de fazer ciência, a partir das bases críticas, sedimentadas por autoras e autores das epistemologias dissidentes.
Em outra dimensão da pesquisa, utilizo algumas formas de expressar o português no feminino, como, por exemplo, utilizar "as gays, as bixas", pois considero a linguagem uma maneira subversiva no fazer científico. Utilizo-a como ferramenta de resistência e enfoque no signo do feminino que, por sua vez, desde a colonização, sofreu processos violentogênicos. Até
hoje, tais processos marginalizam figuras que performam diferente da expectativa binária do sexo. Dessa maneira, adoto, em muitos momentos, a linguagem não sexista, já que a língua transmite e reforça as relações assimétricas, hierárquicas e não equitativas entre os gêneros.
Busco a forma linguística que perfeitamente se adapta à necessidade e ao desejo de comunicar as formas opressivas, na tentativa de criar uma sociedade mais equitativa. A linguagem sexista, utilizada de forma irrestrita, impõe-nos que o masculino seja empregado como norma, ficando o feminino incluído como referência ao discurso masculinizado. A autora Djamila Ribeiro (2017, p. 35), ao falar de pontos de partida, explica acerca do enfoque das condições sociais que permitem ou não que grupos subalternizados acessem lugares de cidadania. Ao ter como objetivo a diversidade de experiências e ao expressá-la na pesquisa, há a consequente quebra de uma visão universal.
A metodologia adotada visa, em muitos momentos, quebrar com a linguagem sexista, por meio da qual a norma sexo-gênero valoriza, sobretudo, a flexão dos substantivos e adjetivos no masculino, sendo como universais. As construções binárias das categorias femininas e masculinas ocorrem também por meio de prescrições e julgamentos que responsabilizam e conformam habilidades e preferências (BIROLI, 2016, p. 720-721). Portanto, reconheço que, ao se pensar nas gays afeminadas, pensa-se e idealiza-se, conforme expressão popular, como
"não homens", uma vez que estas não se adequam aos padrões hegemônicos das masculinidades e se aproximam, em muitos aspectos, do campo do feminino.
Não falo de forma impessoal, em grande parte do trabalho, emprego a primeira pessoa do singular por reconhecer que minhas experiências fazem parte do processo de escrita. E daí decorre outra indagação: se sou gay e falo de outros homens gays, posso falar, também, na primeira pessoa do plural? Inicialmente, acredito que sim. É preciso atravessar as experiências e buscar partilhar as vivências conjuntas. Por isso, penso na elaboração da pesquisa, questionando como me sentiria ou como já me senti numa situação similar. É preciso tensionar as experiências e trazer a coletividade na pesquisa. No entanto, também preciso me afastar do meu objeto em alguns momentos, pois sinto que, ao falar sobre experiências individuais e coletivas, preciso compreender que anulações são estas, quais os limites entre o eu, pesquisador, e as vivências de apagamento compartilhadas e não similares.
Jack Halberstam (2011, p. 15) ao formular a epistemologia queer do fracasso, propõe bases lógicas novas para a produção do conhecimento, “padrões estéticos diferentes para ordenar e desordenar espaços, formas de engajamento político que sejam diferentes daquelas invocadas pela imaginação liberal”. Por meio da ampliação e do questionamento do que é
ciência, penso que esse saber indisciplinado busca ampliar o conceito do que é ciência, ressignificar campos vistos como obscuros ou formas e técnicas fora dos padrões da hegemonia.
O Direito é esse saber rígido, com uma linguagem que não consegue acessar as camadas populares, sua linguagem rebuscada e suas formas de expressar burocráticas impedem com que os cidadãos não acessem de fato esse sistema. Reivindico por tanto uma nova forma de fazer ciência em que as reclamações feministas sob a norma sejam ressignificadas. Para isso, pretendo utilizar o primeiro nome das autoras e dos autores e seu sobrenome a fim de que todas e todos possam ser visualizadas. Proponho, desse modo, o que Jack Halberstam (2020, p. 22) afirma em desestabilizar o campo da hegemonia do conhecimento e da academia, em que a produção do saber está relacionada às pessoas pela repetição, por meio de métodos prescritivos e lógicas fixas.