4 CAMINHOS EMBARALHADOS, RISCADOS E ATÉ REESCRITOS:
4.1 ESCOLHENDO, SELECIONANDO E ORGANIZANDO MATERIAIS
A partir desses entendimentos teórico-metodológicos, iniciamos nosso trabalho de buscar as contingências, os fatos expressivos os quais nos possibilitariam constituir uma análise histórica para compreender um fato do presente. Tendo como subsídio a noção de vertente externa, em que esse estudo ancora-se, ao empreender uma varredura nas tramas históricas, buscamos por rastros significativos, afim de fazer “emergir das exterioridades selvagens novos saberes que, ao serem trazidos à luz, transformam-se em novos problemas, em novas perguntas até então impensadas” (VEIGA-NETO, 1995, p. 42).
Para pensar e possibilitar a emergência de perguntas ainda não pensadas, temos empreendido alguns movimentos com o propósito de compreender a rede de relações que se estabelecem no interior das tramas históricas com relação às discussões de sexualidade em cursos de graduação. Com isso, escolhemos, selecionamos e organizamos alguns materiais que comporiam o corpus de pesquisa.
O primeiro movimento que realizamos foi o de mapear em todas as cinco regiões brasileiras – Norte, Nordeste, Centro-oeste, Sudeste e Sul – as universidades públicas devidamente credenciadas pelo Ministério da Educação (MEC).
Na pesquisa, estamos levando em consideração cursos de graduação em licenciatura, bacharelado e tecnólogos. O mapeamento das universidades foi realizado por meio do Portal do Ministério da Educação, em que é possível encontrar no link Instituições de Ensino Superior (IES) credenciadas pelo MEC.
No espaço “e-mec”15, foi possível realizar acompanhamento dos processos de regulamentação das instituições. Por meio desse espaço digital, é possível ter acesso a todas as universidades públicas credenciadas no MEC e atuantes no Brasil, bem como os cursos oferecidos em cada uma dessas IES. Sendo assim, navegar no portal do MEC e, em seguida, no espaço e-mec nos possibilitou conhecer as instituições com as quais trabalharíamos.
Com o intuito de delimitar o foco e o objetivo do trabalho, foi preciso realizar um recorte, pois teríamos um número muito extenso de instituições, o que também dificultaria a conclusão do trabalho dentro dos prazos estabelecidos. Então, para esse estudo, neste momento, estamos olhando apenas as universidades federais credenciadas no MEC.
Com acesso aos dados das instituições, cursos oferecidos, endereço, telefone, site, buscamos nos espaços virtuais das universidades federais, os cursos e as disciplinas que integram os currículos. Essas disciplinas poderiam estar no currículo como obrigatórias e/ou optativas.
No entanto, ao empreendermos esse movimento nos sites das IES, emergiram alguns questionamentos: Como buscar por disciplinas que discutem a sexualidade? Que marcadores olhar nessas disciplinas para dizer que elas problematizam ou não a sexualidade no Ensino Superior? Devemos olhar o nome da disciplina ou a ementa, ou ambos, para assim dizer que essa IE tem cursos com disciplinas que tratam da sexualidade?
A partir dessas indagações, a fim de refinar esse mapeamento nos sites, elencamos algumas palavras-chave que tentam expressar de maneira ampla, mas que também cercam o apanhado de possibilidades e temáticas, as discussões acerca da sexualidade. Sendo assim, optamos por olhar, primeiramente, a nomenclatura de todas as disciplinas oferecidas em cada um dos cursos das instituições pesquisadas e utilizamos as seguintes palavras-chave: gênero, diversidade, sexualidade, educação sexual e orientação sexual.
Ao encontrar essas palavras-chave já no nome das disciplinas, optativas e/ou obrigatórias, estas foram selecionadas como contendo discussão sobre a sexualidade. Esse processo, que chamamos de mapeamento, possibilitou-nos a construção de um olhar sobre o nosso País, ou seja, para as regiões do Brasil que, a partir de suas instituições de Ensino Superior, tem problematizado ou não a sexualidade, como podemos perceber na figura abaixo.
15 Implementado em 2007, o espaço e-mec foi constituído com o propósito de registrar os trâmites de credenciamento, recredenciamento, autorização, reconhecimento e renovação de reconhecimento dos cursos das Instituições de Ensino Superior (BRASIL, 2013).
Figura 1- Panorama regional da oferta de disciplinas que abordam a sexualidade nos cursos de graduação
Fonte: Autoria pessoal, 2013.
Pensando nessa oferta de disciplinas espalhadas nas nossas cinco regiões do país, produziu-se o seguinte panorama: na região Norte, apenas 7 disciplinas; na região Nordeste 131 disciplinas; na região Centro-Oeste 95 disciplinas; na região Sudeste 66 disciplinas e na região Sul 85 disciplinas.
Embora esse mapeamento tenha nos possibilitado a produção de alguns olhares sobre a discussão da sexualidade no nosso país no cenário do Ensino Superior, esse levantamento apresentou alguns desencontros com o site do MEC; com isso, passaram a emergir alguns limites da pesquisa.
Os sites das IES apresentavam informações desencontradas com os dados presentes no site do MEC, então, qual site está atualizado? Conforme continuávamos com à pesquisa, mais desencontros emergiram, como, por exemplo: diferentes currículos são apresentados para o mesmo curso de graduação, ausência de um ou dois semestres no espaço destinado para a apresentação do currículo e das disciplinas ofertadas em alguns cursos, entre outras situações encontradas. No entanto, essas situações aos poucos foram sendo compreendidas e solucionadas com a produção de uma categoria de análise, instituições em que não foi possível ter acesso aos dados.
No entanto, quando esse mapeamento estava próximo do fim, surgiu um desencontro que nos levou a recomeçar a pesquisa, retomando e revisitando os sites de todas as universidades: ao navegar em um dos sites de uma instituição federal, percebemos que em um campus da universidade é oferecida uma disciplina que aborda as questões de sexualidade; ao olhar as informações sobre outro campus, não encontramos essa disciplina. Nesse momento, questionamos: Cada campus/campi da universidade tem seu currículo? Os campus/campi tem autonomia para ofertar disciplinas? Os cursos possuem um eixo comum, mas cada campus/campi pode fazer modificações nos seus currículos?
Assim que tomamos conhecimento dessa situação, foi preciso refazer todo o mapeamento e, então, buscar todos os campus/campi pertencentes a cada uma das IES para, em seguida, fazer o levantamento de todos os cursos oferecidos em cada um dos campus/campi.
Revisitar esse processo do mapeamento, ou seja, refazê-lo, nos fez perceber não somente que o método e o percurso vão sendo delimitados ao longo do caminhar na pesquisa.
Recomeçar o levantamento para a produção desse panorama nos levaram a buscar não somente a nomenclatura das disciplinas. Ao encontrar as palavras-chave no nome das disciplinas, fomos em busca também das ementas, a fim de investigar que discussões vinham sendo realizadas acerca da sexualidade.
Encontramos algumas ementas diretamente nos sites das instituições. Outras estavam presentes nos Projetos Político-Pedagógico (PPP), os quais também obtivemos acesso por meio dos sites das instituições. Em outros casos, não foi possível ter acesso a essas informações mais detalhadas sobre as disciplinas, nesse caso, as ementas.
Assim como no caso das ementas das disciplinas, também não conseguimos ter acesso nos sites a outros dados relevantes para a pesquisa, como por exemplo, a forma de oferta da disciplina, obrigatória ou optativa. Então, por meio do e-mail e telefone das IES, tentamos
contato com as universidades federais em que através dos sites não foi possível produzir os dados para a pesquisa.
Sendo assim, após essa produção dos dados nos sites das universidades federais do Brasil, e no espaço e-mec presente no portal do MEC, esse foi o nosso investimento no mapeamento, ou seja, aguardar o envio das informações que havíamos solicitado para as instituições. Através primeiramente de um contato telefônico com as coordenações dos cursos que possuem disciplinas que abordam a sexualidade e, em seguida, enviando um e-mail com ofício explicando a pesquisa e a relevância dessa produção de conhecimento é que buscamos pelos dados os quais não tivemos acesso.
Algumas instituições, já no contato por telefone, comprometeram-se em responder o e-mail, mas, ao final da pesquisa, a maioria dos e-mails não foram respondidos. Quando tentávamos um novo contato telefônico na intenção de obter uma resposta sobre as informações solicitadas, ouvíamos algumas justificativas, são elas: universidades que tiveram problemas com a manutenção do site e os dados não foram atualizados; outras diziam não ter autorização para fornecer tais informações; enfim, as pessoas que consegui contato, umas por e-mail e outras por telefone utilizaram inúmeros argumentos para dizer que não seria possível acessar esses dados.
A partir desses limites e sabendo dos prazos para a pesquisa que vão se reduzindo com o passar dos tempos, era preciso encerrar esse processo de produção dos dados. E foi essa a decisão que tomamos, estabelecemos um prazo para esse retorno dos dados, assim que ele se acabou partimos então para as análises.
A varredura nos sites das IES que disponibilizam em seus espaços virtuais as informações que estávamos buscando já nos possibilitou alguns achados para a pesquisa, que serão apresentados a seguir.