2. O DESENVOLVIMENTO DE UM PLANO DE AÇÃO: JUSTIFICATIVA E OBJETIVOS
3.2. Escolhendo takuapi: diálogos sobre narrativas, história de vida e etnobiografia
Debruçar-se sobre as práticas cotidianas dos txeramõi e das txedjaryi é debruçar-se não só pelos espaços territorial, sociais e doméstico em que vivem, mas também sobre os conhecimentos que por eles são produzidos, os quais vão se configurando mediante suas experiências de vida - ou nas palavras de Barros (2012, p. 2), o tempo vivido -, e por vezes são revelados através de seus relatos, de suas narrações. Afinal, o povo Guarani é um povo de tradição oral, e a pessoa para eles é construída por meio das palavras de orientação, faladas pelas divindades, desde a sua geração no ventre materno, quer seja de modo direto ou indireto, através dos líderes espirituais30.
Nessa perspectiva, as narrativas são pertinentes, pois revelam as vivências dos
txeramõi e das txedjaryi e, consequentemente, as histórias que constroem a organização e
práticas socioculturais Guarani. Assim posto, a fim de me aprofundar acerca da cotidianidade dos txeramõi e das txedjaryi Mbya do Espírito Santo e do que era ser ancião e anciã naquele contexto, optei por realizar entrevistas semiabertas como instrumento e estratégia-chave para ouvir os relatos de suas experiências (passadas ou contemporâneas) e, assim, agregar as informações à construção dos dados, o que já vinha realizando mediante a observação e o uso do caderno de campo.
Todavia, pude perceber, no meu convívio com os txeramõi e com as txedjaryi das aldeias Piraquê-Açu, Três Palmeiras, e Boa Esperança, que o modo como narravam o seu viver - seus gestos, o tom de suas vozes, os caminhos escolhidos para responder às minhas indagações, os assuntos que por vontade própria decidiam contar, o trecho de suas histórias de vida priorizados e as memórias emergidas em suas falas - ia se constituindo em uma maneira única de expressar-se e transmitir os sentidos de “txeramõi” e de “txedjaryi”, bem como seus fazeres e as relações imbricadas, configurando, assim, seu cotidiano.
Nesse sentido, a expressão história de vida emergia na construção do relato dos
txeramõi e das txedjaryi Mbya do Espírito Santo, revelando um pertinente papel de amparar
as narrativas, seja sobre fenômenos, acontecimentos ou períodos de tempo, conforme aponta a
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O debate sobre a intrínseca relação entre o ser-pessoa Guarani e a palavra será desenvolvido de modo minucioso no tópico 4.3 Noção de pessoa Guarani Mbya: entre a literatura e apontamentos no campo, do capítulo 4.
discussão de Silva e Barros (2010) em torno das possibilidades que tal noção oferece ao/à pesquisador/a do campo das Humanidades31.
Nessa perspectiva, a noção de história de vida pode ser compreendida nesse estudo como recurso que proporcionou o acesso a memória, a qual, enquanto lócus das lembranças, das reminiscências, do tempo vivido, tem papel fundamental na compreensão da cotidianidade dos anciãos e na relação pesquisador/pesquisado, pelo fato produzir e figurar sentidos tanto na relação que constitui entre as experiências do passado, do presente e do futuro que há de vir, quanto na relação que estabelece “com a subjetividade daquele que escuta, num processo dialético entre a subjetividade do ouvinte e a do narrador” (SILVA; BARROS, p. 69). Conforme aponta Portelli (2010, p.19): “os conteúdos da memória são evocados e organizados verbalmente no diálogo interativo entre fonte e historiador, entrevistado e entrevistador”, entre pesquisador e interlocutor/narrador.
Quem conta uma história, faz necessariamente apelo a sua memória e a trabalha para dar inteligibilidade à experiência e para ressignificar o vivido, conferindo-lhe uma logicidade que constrói, organiza e justifica seu ponto de vista. Ao relatar sua história de vida, o narrador concatena parte dos fatos e eventos que a constituíram de acordo com a situação e com as relações que ocorrem durante a própria narrativa (SILVA; BARROS, p. 69).
Sendo assim, enquanto a história de vida produz os sentidos às vivências, as narrativas exercem o papel de meio dinâmico, intercambiável e conectado com outras histórias, através do qual as pessoas organizam e tornam a realidade compreensível. A narrativa é um tempo que se vive simultaneamente ao tempo vivido, no qual o ato de narrar elabora e reelabora a experiência (SILVA; BARROS, 2010; CARVALHO, 2003). Logo, os conteúdos das narrativas dos anciãos com os quais dialoguei não foram evocados apenas pelas interlocuções formais que se deram nas entrevistas, mas também por conversas informais surgidas durante a pesquisa de campo. Foi na experiência dos encontros e na medida em que meu vínculo com os
txeramõi e as txedjaryi, com seus familiares e a comunidade, se afinava, que as narrativas
foram tomando forma.
Contudo, Silva e Barros (2010, p.69) atentam para o fato de que nem sempre o processo de acessar a memória é um ato racional, como o abrir de uma gaveta para se pegar
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De acordo com os autores Silva e Barros, a expressão história de vida pode ser operada para múltiplos fins enquanto instrumento de “metodologia de estudo na pesquisa social, procedimento clínico, registro estrito de biografias e de depoimentos pessoais - sejam eles escritos ou orais” e por profissionais de diversas áreas do conhecimento tais como “sociólogos, antropólogos, historiadores, psicólogos e, mais recentemente, por terapeutas ocupacionais” (SILVA; BARROS, 2010 p. 69). Os autores apresentam um debate relevante em torno dos termos história de vida, história oral de vida e memória, para o leitor que queria uma compreensão mais ampla acessar a referência.
um objeto qualquer desejado, por exemplo; há “dimensões que escapam ao próprio narrador”. Tal apontamento é justificado pelos autores por meio do debate de Bardin (1997, p. 170), que apresenta e explicita o discurso como “um momento num processo de elaboração”, e não como “produto acabado”; logo, nele cabem incongruências, objeções e irregularidades (BARDIN, 1997, p. 170 apud SILVA; BARROS, 2010, p. 69).
Na mesma direção, a discussão proposta por Gonçalvez, Marques e Cardoso (2012, p. 10) também destaca que as narrativas não são neutras, pois os indivíduos não são meras manifestações da representação coletiva; são “pessoas-personagens”, cuja “individuação criativa [...] desenvolve uma autonomia de significados que não está submetida diretamente à força imanente da sociedade”. Para os autores, as narrativas podem ser entendidas como mediadoras, pois “criam e agregam novos significados ao mundo e às coisas, ao mesmo tempo em que transformam aqueles que [a] constroem”.
Tal debate me atentou a observar outras possibilidades dentro da escolha por trabalhar com entrevistas, para além da sua função metodológica de construção de dados, e me fez compreender que o próprio ato de narrar é uma experiência por si só, pois, “entre um acontecimento e sua significação, intervém o processo de dar sentido ao que aconteceu ou ao que está acontecendo” (PASSEGGI, 2011, p.149).
Ademais, as narrativas etnográficas, ainda à luz de Gonçalvez, Marques e Cardoso (2012, p. 10), transformam tanto o “antropólogo” (ou todo/a pesquisador/a que se proponha trabalhar metodologicamente com base na etnografia) quanto o personagem etnográfico. Logo, no trabalho de campo etnográfico, as narrativas também podem ser experiências, e por isso observadas, “evidenciando sua função poética de dar forma ao real”.
Foi nesse sentido que, a fim de direcionar o tratamento dos dados construídos nas entrevistas e como concepção para posteriormente pensar as narrativas e refleti-las na análise e discussão dessa dissertação, escolhi também a etnobiografia como estratégia metodológica, compreendendo que
[...] No lugar de tratar a narrativa como distinta de práticas sociais ‘concretas’, a etnobiografia recusa a separação entre discurso, linguagem e experiência, insistindo na qualidade produtiva do discurso. Da mesma forma o conceito de etnobiografia afeta necessariamente não só o modo como tratamos as histórias que os sujeitos etnográficos nos contam, mas também como contamos nossas histórias etnográficas sobre essas histórias e seus personagens-pessoas. Em outras palavras, a etnobiografia implica uma dimensão metanarrativa da etnografia, em que o lugar da agência da própria narrativa etnográfica torna-se objeto etnográfico (GONÇALVEZ, MARQUES E CARDOSO, 2012, p. 10).
Quanto ao manejo das entrevistas, utilizei um roteiro de temáticas e perguntas (Anexo I) para que orientasse a conversa com os anciãos, partindo do projeto de pesquisa, do levantamento bibliográfico realizado previamente e das sugestões elencadas pela própria comunidade. Assim, busquei operar as entrevistas na mesma direção apresentada por Portelli (2010, p.20), em que esse instrumento é mais do que um roteiro de perguntas e/ou temas a serem respondidos: é um espaço de construção da relação entre pesquisador e narrador, no qual primordialmente deve haver a “troca de olhares” entre eles, que suscita alteridade e modula o próprio ato narrativo e as narrativas produzidas a partir desse encontro, quer seja do/a pesquisador/a, quer seja do/a narrador/a. Desse modo, a cada encontro, as perguntas tomavam formas únicas, a fim de garantir ao interlocutor sua compreensão.
Para Diniz (2010), é a troca genuína que permite com que as perguntas do roteiro sejam redescritas mediante a singularidade de cada pessoa, pois quando há troca, as demandas e necessidades de ambos os lados encontram formas de se expressar, sendo essa a ação garantidora da qualidade ética da entrevista e da validação dos dados; o roteiro, por si só, não garante a validação. O que a autora defende não é que se abandonem os roteiros de entrevista e os planejamentos, “mas apenas que a capacidade de planejamento deve se subordinar ao imponderável de cada encontro entre pesquisador e participante” (DINIZ, 2010, p. 187).
Nesse sentido, os encontros com cada txeramõi e txedjaryi se deram em espaços diferentes, ora de maior proximidade, como a cozinha das casas, suas varandas e seus quintais, ora de maior coletividade, como a Opy e a cabana central da aldeia Três Palmeiras. Para realizar as entrevistas, precisei combinar os dias com antecedência e firmar com os anciãos e anciãs formas singulares de trocas pelas entrevistas cedidas32.
Ademais, nos contatos que antecediam as entrevistas, buscava estabelecer com o/a narrador/a a maneira pela qual a entrevista seria feita; negociava, assim, a forma mais confortável para responder as perguntas para cada pessoa. Ela poderia ocorrer tanto na presença de parentes ou só com a pesquisadora, seguir ponto a ponto do roteiro ou, após explicação geral, comentar conjuntamente. Os encontros poderiam ser em um dia ou em dias separados, com respostas na língua Guarani (com presença de intérprete) ou na língua portuguesa.
Após as negociações, as entrevistas eram gravadas em formato de áudio, no dispositivo LG Leon, gerando arquivos de extensão 3gp. No que tange ao tratamento das entrevistas, primeiramente, os arquivos de áudio foram transcritos e, mediante a necessidade
das falas, traduzidos da língua Guarani para a portuguesa. Para tanto, contei com o apoio de Genilson, Alice e seu cunhado Donizete como intérpretes Guarani. Nesse momento, iniciou- se também uma pré-análise, tendo em vista que os dados começavam a se organizar e tomar formas, o que possibilitou cessar as dúvidas emergidas junto aos anciãos e intérpretes.
As informações, seguidamente textualizadas, organizaram e permitiram que o texto ficasse inteligível, bem como possibilitaram o processo de adensamento do conteúdo das narrativas, conjuntamente com as notas do caderno de campo. Tendo em vista que essa etapa do processo de construção de dados estava dentro do prazo disponível para o trabalho de campo, a validação do texto junto com os txeramõi e com as txedjaryi foi conduzida, ainda que as narrativas não estivessem em sua conformação final, pois já era possível ver seus primeiros contornos e discutir com eles a forma e a direção que elas tomariam.
No processo de textualização, os intérpretes também colaboraram com sua escuta ativa e com as devolutivas acerca do texto em construção. Por fim, na conformação das narrativas, na perspectiva da etnobiografia, a composição do texto etnográfico incorpora os elementos extra-textos, constituindo uma versão final a partir da qual é possível maior profundidade nas discussões.
Nessa conjuntura, as narrativas apresentadas trazem histórias de vida, relatos de fazeres cotidianos, saberes e expressões, que, entrelaçados, vão configurando biografias individuais dos txeramõi e txedjaryi, com os quais dialoguei durante o meu estar nas aldeias Guarani Mbya do Espírito Santo. Dessas narrativas, emergem caminhadas distintas com diferenciações que ratificam as particularidades dos anciãos, e que me parecem apontar uma multiplicidade de caminhos, saberes e fazeres do ser ancião/ã e Guarani Mbya