• Nenhum resultado encontrado

ESCRAVISMO E ATIVIDADE PASTORIL GUARAPUAVA E PALMAS

No documento 2014Jose Lucio da Silva Machado (páginas 83-87)

Ao estudarem as fazendas do Paraná provincial, as historiadoras paranaenses Altiva Pilatti Balhana e Cecília Maria Westphalen (1976) apresentaram quadro demonstrativo evidenciando nesses territórios as áreas de maior concentração de gados. Os dados levantados apontaram que as regiões de colonização tardias, como Guarapuava (1810) e Palmas (1839), constituíram-se nas maiores áreas de criação e invernagem de gados durante a segunda metade do século 19.

Em levantamento correspondente aos anos de 1862 a 1864, as referidas historiadoras observaram a distribuição de gado miúdo – lanígero e suíno –, e gado graúdo – vacum, muar e cavalar –, pelas propriedades do Paraná. De um total de 246.911 cabeças de gado para 1864, somando o gado miúdo e graúdo, 102.995 cabeças estavam abrigadas nos Campos de Guarapuava, e 72.409 nos Campos de Palmas. (BALHANA; WESTPHALEN: 1976, 13).

Observando de forma específica os gados graúdos, os números demonstram que Guarapuava concentrava, em 1864, uma quantidade de 46.440 cabeças de gado vacum, 1.930 de gado muar, e 46.885 de gado cavalar. Em Palmas, é possível observar condição semelhante para o mesmo ano, sendo a quantidade de cabeças de gado vacum 28.586, gado muar 1.405, e gado cavalar 35.283 cabeças. Esses números demonstram que nessas regiões, durante o século 19, ocorreu um predomínio da criação e invernagem de gados, em relação às áreas tradicionais. Destaca-se também o grande número de cavalos criados e invernados nesses campos como podemos observar na Tabela 5. (1976).

Tabela 5 - Porcentagem por área de criação de gado graúdo entre 1862-1864

Localidades Vacum % Muar % Cavalar %

Guarapuava e Palmas 64,0 39,0 93,0 Palmeira e Ponta Grossa 13,5 13,5 2,5

São José dos Pinhais

Castro 6,7 2,0 0,6

Outras 4,8 0,5 0,7

Total 100,0 100,0 100,0

Fonte: BALHANA, Altiva Pilatti; WESTPHALEN, Cecília Maria. Fazendas do Paraná provincial. In:

Simpósio nacional dos professores universitários de História, 8., 1975, Aracaju. Anais do VIII Simpósio

Nacional dos Professores Universitários de História. A propriedade rural. São Paulo: FFLCH-USP, 1976. v.2, 391-406. 403.

As grandes concentrações de gados nos Campos de Palmas e Guarapuava não demonstram apenas um deslocamento da economia pastoril das áreas tradicionais paranaenses, mas expressam também a gradativa decadência dessa economia pastoril. Os números referentes à região de Castro evidenciam isso. Castro juntamente com a cidade da Lapa estiveram no topo da economia pastoril paranaense, representando na maior parte da história desses territórios, com destaque para o inicio do século 19 e o auge do tropeirismo, os maiores núcleos de criação e invernagem de gados dos Campos Gerais paranaenses. (SANTOS: 2001, 56-57).

Diretamente influenciados pelos criadores das regiões dos Campos de Curitiba e dos Campos Gerais, os Campos de Guarapuava e os Campos de Palmas tinham sua economia pastoril ligada ao gado sulino. No inicio do século 19, a expansão das propriedades de criação para o interior do Paraná foi viável a partir da inclusão destas regiões nas rotas de comércio de gados. (BALHANA; EL-KHATIB: 1969).

Favoreceu significativamente esse processo a retomada de antigos caminhos utilizados pelos povos nativos, condição que já observamos no Mapa 1. Os caminhos ignorados durante longo período serviram novamente para fins econômicos expansionistas. Partes destes trajetos foram adequados às necessidades de condução de tropas vindas do Rio Grande do Sul. No caso de Palmas e Guarapuava, foi fundamental a utilização de parte dos antigos caminhos para estabelecer comunicação com a região das Missões no Rio Grande do Sul. (APPR: 1854, 98; 1866, 149; 1882b, 43-120; 1888, 122).

Fonte: Mapa político do Paraná, adaptação nossa. Disponível em: <www.ihggi.org.br/pag.php?pag=rotasdostropeiros> Acesso em: 08 set. 2013.

Como podemos observar no Mapa 3, a região de Palmas e Guarapuava esta inserida no Caminho das Missões, uma rota tropeira que segue traços de caminhos utilizados pelos nativos americanos, que foram convertidos em uma alternativa ao Caminho de Viamão. As áreas colonizadas nos Campos de Guarapuava e nos Campos de Palmas podem ser observadas como uma extensão dos Campos Gerais, baseadas na criação e invernagem de animais procedentes do Rio Grande do Sul e suas regiões de fronteiras. Então, considerando as características da base econômica escravista observada nas regiões do litoral, dos Campos de Curitiba e dos Campos Gerais, podemos levantar a hipótese de que a exploração da mão de obra do trabalhador escravizado também se constituiu como base da economia em Palmas e Guarapuava.

Em As metamorfoses do escravo (1962, 104), o sociólogo paulista Octávio Ianni apontou números relativos à população do Paraná para 1854. Nestes dados, Guarapuava possuía uma população total de 2.520 habitantes, dos quais, 15% eram cativos. Em Palmas, a população era de 734 habitantes, sendo cativos, 22%. (IANNI: 1962, 104).

Ao longo do texto, procuramos demonstrar e contestar modelos explicativos que negam a importância e mesmo a existência do trabalhador escravizado em áreas

pastoris. No entanto, é necessário observar que os posicionamentos dos pesquisadores que defendem estas teorias não se sustentam sem convincentes justificativas, que são baseadas principalmente nas lacunas documentais referentes a estas áreas. Um grande problema que se apresenta ao estudioso do escravismo pastoril é o papel desempenhado por estes trabalhadores escravizados nessas áreas.

Nos últimos anos, transformações de ordem teórico-metodológicas no processo de análise historiográfica nos permitem abordagens mais amplas e com perspectivas diferenciadas dos fatos históricos. Os dados apresentados por Ianni (1962) quantitativamente contribuem nesse sentido, para superar os modelos explicativos que não consideram a existência de trabalhadores escravizados em áreas pastoris. Nesse sentido, a proliferação de centros regionais de pós-graduação e, consequentemente, de trabalhos acadêmicos com enfoque regional são significativos, pois trazem para análise documentos desconhecidos dos pesquisadores, geralmente concentrados nos grandes centros ou com foco em áreas onde a presença e exploração dessa mão de obra é incontestável.

Superadas as questões sobre a real presença de cativos em áreas de economia predominantemente pastoris, legitimada pela inconteste documentação, cabe analisar a importância desses trabalhadores para essa estrutura socioeconômica. Paulo A. Zarth ao analisar a escravidão nas estâncias do Rio Grande do Sul afirmou que em relação aos “escravos campeiros” ainda “persistem as dificuldades e as dúvidas, com base nos dados existentes, para afirmar sua real importância no conjunto das estâncias”. (2010, 204).

Observou ainda que as fontes disponíveis, geralmente inventários post-mortem, não “fornecem subsídios para determinar com segurança a especialidade do trabalho dos cativos nas estâncias”. (2010, 204). O que não nos impede de assinalar que independente da profissão desempenhada dentro da unidade pastoril, os cativos “estavam nelas por serem indispensáveis para o funcionamento desses estabelecimentos em suas múltiplas atividades.” (2010, 206).

Desta forma, consideramos que os trabalhadores escravizados estavam inseridos nas práticas pastoris e também nas atividades voltadas para a subsistência. Nestas áreas de colonização tardia, como nos Campos de Palmas, pode ter aumentado significativamente a importância do cativo para que estes colonos constituíssem suas fazendas, empenhados que estavam na transformação desses territórios em áreas pastoris produtivas. Considerando a importância desse tipo de mão de obra, destacamos

um aumento desta população cativa no Paraná, mesmo durante aquele contexto de proibição do tráfico de trabalhadores escravizados. (BALHANA; WESTPHALEN: 1976; SANTOS: 2001).

De modo geral, os números de trabalhadores escravizados aumentaram para toda a Província do Paraná, mostrando um crescente dinamismo econômico da mesma. Destacamos aqui o aumento relativo à região de Guarapuava e Palmas. Em 1876, em relatório do presidente da província, foram descritos os números de cativos no Paraná distribuídos por localidades. Esta relação é referente à distribuição dos valores do fundo de emancipação. (APPR: 1876).

De acordo com os dados apresentados no relatório do presidente da província, são registrados 576 cativos em Guarapuava e 273 em Palmas. Ou seja, em relação aos números apresentados para 1854, Guarapuava teve um aumento da população cativa superior a 65%, e Palmas superiores a 57%. (APPR: 1876, 16). Este aumento é significativo para regiões baseadas na economia pastoril. Destacando mais uma vez através destes dados o caráter indispensável, naquele então, do cativo para a formação e manutenção dessas áreas criatórias.

População, escravidão e Família em Guarapuava no século XIX, tese de

doutoramento de Fernando Franco Netto, apresenta dados importantes para a percepção dessas contribuições, com destaque para região de Guarapuava. (2005). As informações referentes às estruturas econômicas de Guarapuava e Palmas são muito similares, devido às suas ligações políticas e administrativas e suas origens colonizadoras, fatores já destacados anteriormente. Sem desconsiderar a grande influencia da vila de Guarapuava sobre a região dos Campos de Palmas, a partir da metade do século 19, é possível observar especificamente a região de Palmas, através da possibilidade de reunião de dados característicos da população livre e escravizada nesses campos.

No documento 2014Jose Lucio da Silva Machado (páginas 83-87)