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Capítulo IV. Os “pretos de Guiné” na Amazônia

4.1. O trabalho escravo

4.1.1. Escravos fora do eito

Na Amazônia, os escravos trabalharam nas atividades domésticas em todo o período da escravatura, tanto no campo, quanto nas cidades dentro ou fora dos limites das grandes fazendas, obedecendo às necessidades dos seus proprietários, características que não diferenciavam a região amazônica, de acordo com Vicente Salles, de outras

221SHARP, Jim. “A História vista de baixo”. In: BURKE, Peter (org.). A Escrita da História.

sociedades escravistas.222 Por meio de algumas correspondências é possível relatar casos que retratam os afazeres domésticos. Em 1734, a escrava Rosa, cafusa, moradora na cidade de Belém do Grão-Pará, na casa de João Cordeiro Vilela e sua mulher Margarida de Siqueira Chaves, escrevia ao soberano, comunicando ser ela “de sua natureza livre isenta de todo o gênero do cativeiro”. A suplicante alegava que “João Severino Chaves junto (...) com seus filhos a tem pretendido por muitas vezes sujeitar a si e isto com o fundamento e motivo de uma Maria de Siqueira Freitas.” Estes a perturbavam “na sua liberdade e para o conseguirem têm costumado valerem-se de portaria dos governadores que têm ido aquele Estado, os quais menos bem informados lhe mandavam passar como o fizeram o ano próximo passado ao governador”. A escrava Rosa expõe que era “uma mulher pobre e miserável e os suplicados e os seus filhos poderosos”, pretendiam estes “tirá-la de casa do dito João Cordeiro Vilela e de sua mulher, os quais a estão sustentando pelo amor que lhe têm de criação”. Por esse motivo a dita Rosa com “o maior temor” recorria ao rei, pedindo que fosse “conservada na sua liberdade que por direito lhe compete na forma da sentença junta, isto em casa do dito João Cordeiro Vilela e de sua mulher donde assiste muito por seu gosto ou vontade ou donde melhor a ela lhe conviver e quiser assistir”.223

Tempo depois, a escrava Mariana, pertencente a Augusto Domingues de Sequeira, também suplicou a alforria ao soberano, visto estar enferma e não poder trabalhar. Esta se apresentava como “preta do Gentio de Guiné, da nação Corana”, escrava de Augusto Domingues de Siqueira, morador de Belém. A escrava argumentava que tinha “servido há perto de seis anos com boa fidelidade em cujo tempo lhe sobreveio uma enfermidade que a incapacita poder continuar na escravidão em que se acha reduzida”. Essa era a razão pela qual dizia ter tentado “manumitir-se” por “ter pessoa que movida de compaixão lhe ofereceu dinheiro para a sua alforria conforme o valor estimado em que fosse avaliada”, o que o seu senhor não quis aceitar, “embaraçando-lhe por todos os meios”. Esta solicitava que se lhe concedesse a alforria “visto ter pessoa que por

222 SALLES, Vicente. O negro no Pará, sob o regime de escravidão, pp. 139-158, 205.

223“Requerimento da escrava Rosa Cafusa para o rei D. João V”. Ant. 12 de fevereiro de 1734.

compaixão e amor de Deus lhe contribui por esmola o dinheiro em que for avaliada para poder lograr a liberdade que por natureza lhe é devida”.224

Em 1744, outra escrava alegou o mesmo pretexto que a escrava Mariana anos antes. Tratava-se da escrava mulata Cecília, moradora na cidade de São Luis que relatou não poder trabalhar para seus donos em virtude do seu estado de saúde. Argumentava que “padece várias enfermidades e sobre a sua escravidão correm pleito Vitoriano Pinheiro de Meireles e Bernardo Evangelho de Mendonça”. Argumentava Cecília que estava incapacitada para servir a qualquer deles, uma vez decidido o pleito, “porque além das moléstias que padece se acha quase aleijada de um pé”. Após expor a terrível situação, esclarecia que pretendia “resgatar-se”, pelo que requeria se mandasse passar ordem ao ouvidor para que fosse avaliada “por pessoa perita”.225

Esses casos indicam vários escravos – embora nem todos africanos – atuando em diversas residências na região. Além desses casos de escravos que desempenharam trabalhos domésticos, a documentação sobre a inquirição do Santo Oficio no Maranhão fornece mais informações, ao relatar escravos que trabalhavam na residência dos Távora, rica família, proprietária de fazendas e cativos, que nos anos trinta fora acusada de cometer práticas judaicas em São Luis. Durante essa inquirição algumas pessoas ao serem investigadas pelos inquisidores, citavam escravos relacionando-os aos acusados. Pelos interrogatórios tratava-se de escravos que atuavam fora do eito e serviam à casa dos Távora. Assim, Raimundo de Azevedo Carvalho, natural da cidade do Maranhão, ao ser interrogado, relatava que “estando ele fora de casa, fora achar uma preta por nome Inês escrava de Branca da Silva, filha de Duarte Rodrigues, e dera da parte dela a sua mulher Maria Silveira (…) o recado seguinte que sua senhora Branca da Silva mandava dizer ao senhor e capitão Raimundo de Azevedo Carvalho se tinha algumas imagens velhas que não servissem, lhes mandassem para brincar os meninos”.226

224“Requerimento da preta do gentio da Guiné da nação corana, Mariana para o rei D. João V”.

Ant. 28 de março de 1738. AHU, Avulsos (Pará), caixa 21, doc. 1948.

225 “Requerimento da escrava mulata Cecília ao rei D. João V”. 20 de Junho de 1744 AHU,

Avulsos (Maranhão), caixa. 28, doc. 2849

226 NOVINSKY, Anita Waingort. O Santo Oficio da Inquisição no Maranhão: a inquirição de

O relato desse morador possibilita argumentar que Inês prestava serviços aos seus senhores, nos afazeres domésticos, fato que lhe permitia deslocar-se de uma área para outra e até mesmo se inserir na vida social de seus proprietários, como sugere Vicente Salles, que entende que os escravos domésticos compreendiam além do interior das casas, as ruas, ao executar diversos serviços. Longe do eito, os escravos desempenharam outras ocupações. Serafim Leite cita a profissão de alfaiate que os pretos Francisco e Antonio aprenderam no colégio do Pará.227 (quadro 6) Também a função de porteiro desenvolvida pelo escravo João dos Santos que fugiu e, sem que os oficiais da Câmara soubessem foi nomeado para porteiro do Conselho, trabalhando até o momento em que “veio ao conhecimento de que era cativo e que andava fugido de seu dono”, foi preso e colocado na cadeia para “ser vendido na forma das ordens de V.M.”.228