1.3. Características gerais
1.3.1. Escribas e corretores
Segundo Tischendorf (1863, pp. LXII-LXXXI), quatro diferentes escribas teriam sido encarregados de copiar a Septuaginta e os livros cristãos no Códice do Sinai, ele os
80 Cf. METZGER, Bruce M. Un comentario textual al Nuevo Testamento Griego. Stuttgart: Deutsche
Bibelgesellschaft / German Bible Society, 2006.
81 Cf. ALAND, Kurt. et al. (Eds.). O Novo Testamento Grego. 4. ed. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2008. 82 Até a descoberta do Códice do Sinai, a Epístola de Barnabé era conhecida apenas mediante uma tradução latina
muito malfeita e o Pastor de Hermas, apenas pelo título, conforme Paroschi, (2012, p.48).
83 É junto com o Códice do Sinai um dos mais antigos e completos manuscritos da Bíblia em grego coiné. O nome
"Vaticano" deve-se ao fato de estar guardado na Biblioteca do Vaticano, pelo menos desde o século XV E.C., cf. Metzger e Ehrman (2005, p.67).
84 Muitas outras características poderiam continuar sendo elencadas, porém não é objetivo deste trabalho focar na
análise minuciosa de todas as peculiaridades do Códice do Sinai. Assim, estão sendo apresentadas características gerais do códice para contextualizar a obra na qual está inserido o texto grego do evangelho de Marcos, fulcro deste trabalho.
denominou de A, B, C e D. Ainda em sua análise, presumiu a existência de cinco corretores (chamados por ele de a, b, c, d, e), os quais teriam feito emendas no texto do manuscrito. Tischendorf acreditava também que um dos corretores seria contemporâneo dos escribas
originais e que os outros teriam trabalhado no códice nos séculos posteriores.85
Milne e Skeat (1938, pp.22-50) fizeram uma nova análise no códice e consideraram que a tese de Tischendorf estava, em parte, equivocada. Para eles o escriba C – que na tese de
Tischendorf (1863pp. LXII-LXXXI) teria escrito os livros poéticos do Antigo Testamento –
não existiu realmente. 86
Jongkind (2007, p. 12) ponderou que os livros poéticos estão escritos num formato diferente do resto do manuscrito - o texto ali está disposto em duas colunas (ao invés das quatro
do resto do códice) e escrito esticometricamente 87 – o que provavelmente levou Tischendorf a
interpretar a diferença como sinal da existência de outro escriba. Os outros três escribas são, ainda hoje, identificados pelas letras A, B, e D propostas por Tischendorf em 1863.
Atualmente é consenso entre os pesquisadores do CS que o escriba A teria copiado
a maior parte dos livros históricos88 e os livros poéticos do Antigo Testamento, quase todo o
Novo Testamento e a “Epístola de Barnabé”. O escriba B seria o responsável pelos livros proféticos89 e pelo “Pastor de Hermas”. O escriba D teria transcrito os livros de “Tobias” e
85 Cf. TISCHENDORF, Constantin V. Novum Testamentum Sinaiticum: sive Novum Testamentum cum epistula
Barnabae et fragmentis Pastoris ex codice Sinaitico. Leipzig: F.A. Brockhous, 1863.
86 MILNE, H. J. M; SKEAT, T. C. Scribes and Correctors of the Codex Sinaiticus, London: British Museum,
1938.
87 Esticometria é a prática de contar linhas em textos. Conforme a tese da Esticometria de Ohly (1928, p. ch. I), os
romanos e gregos antigos mediam o comprimento de seus livros em quantidade de linhas exatamente como se mede hoje contando páginas. Esta prática foi redescoberta por estudiosos alemães e franceses no século XIX. "Stichos" é a palavra grega para "linha", de prosa ou verso, e o sufixo "metria" é derivado da palavra grega para "medida". O comprimento de cada linha na "Ilíada" e na "Odisseia", que podem ter sido os primeiros textos gregos longos escritos, tornou-se a unidade de medida padrão para a antiga Esticometria. Por isso, a linha padrão tinha o mesmo tamanho do hexâmetro épico e continha cerca de 15 sílabas ou 35 letras gregas. Essa atividade existiria por diversas razões práticas, por exemplo, os escribas eram pagos por linha e seu pagamento por linha era, muitas vezes, fixado por decreto legal. Autores posteriores citavam passagens de obras de outros autores fazendo referência ao número da linha de forma aproximada. Os compradores de livros utilizavam a quantidade total de linhas para conferir se os textos copiados estavam completos. E, finalmente, os catálogos das bibliotecas listavam o total de linhas de cada obra juntamente com o título e o nome do autor, cf. OHLY, Kurt. Stichometrische
Untersuchungen. Leipzig: Otto Harrassowitz, 1928.
88 A maior parte do Antigo Testamento é formada por livros que os biblistas e teólogos classificam sob a
denominação de “livros históricos”, pois eles contêm relatos que vão desde a conquista da Terra Prometida até quase a época do Novo Testamento. A “Bíblia de Jerusalém” elenca como “históricos” os seguintes livros da Bíblia: Josué, Juízes, Rute, Primeiro Samuel, Segundo Samuel, Primeiro Reis, Segundo Reis, Primeiro Crônicas, Segundo Crônicas, Esdras, Neemias, Tobias, Judite, Ester, Primeiro Macabeus e Segundo Macabeus cf. (Bíblia, 1995, p. 09). Os livros de Tobias, Judite, Primeiro Macabeus e Segundo Macabeus não são aceitos pelas igrejas protestantes que adotam a Bíblia proposta por Lutero, bem como não são aceitos no cânone Judaico.
89 São assim denominados pelo fato de cada um deles ser intitulado com o nome de um profeta, o qual pode não
ser sempre o autor do texto. Na Bíblia, o conceito de profeta aparece também aplicado a muitas outras personagens, cujos nomes não constam da lista definitiva dos livros canônicos. O sentido original da palavra profeta (nabî) em hebraico deriva de uma raiz que significa "chamar, anunciar", portanto, o profeta seria aquele que é chamado ou que anuncia, um mensageiro e um intérprete da palavra divina, cf. (Bíblia, 1995, p. 1331).
“Judite”, a primeira metade de “IV Macabeus”,90 os primeiros dois terços do livro dos “Salmos” e os primeiros cinco versículos do “Apocalipse”.
De acordo com Jongkind (2007, pp. 79-90), “o melhor escriba seria D. O escriba B provavelmente tinha problemas para soletrar as palavras e o escriba A seria apenas um pouco melhor que B” (tradução nossa).
Os escribas A e B geralmente utilizavam os nomina sacra de forma abreviada. Por exemplo, a palavra ΠΝΕΥΜΑ (pneuma) - que pode significar “sopro”, “hálito” ou “vento”,
mas no contexto do Novo Testamento é traduzido por “espirito”91 – aparece abreviado p n a
em todas as ocorrências. ΚΥΡΙΟΣ (kyrios) – cujo significado no NT é “senhor”, “dono” ou
“patrão”,92 apresenta-se abreviado na forma ks (kappa-sigma, mas com o sigma “lunado”,
isto é, em formato da letra C) em todas ocorrências, exceto em duas. O escriba D geralmente utilizava os nomina sacra sem abreviações e ainda fazia distinção entre os usos sagrado e laico de ΚΥΡΙΟΣ (kyrios). Seus principais erros foram as substituições do ditongo épsilon-iota (EI) pelo iota (I) e vice-versa, ambos os casos bastante comuns.
Sobre as correções realizadas no códice, um estudo paleográfico realizado pelo
Museu Britânico em 1938 corroborou a tese de Tischendorf (1863,pp. LXII-LXXXI) sobre o
trabalho de corretores no manuscrito. Milne e Skeat (1938, p. 33) notaram que a correção do
livro de “I Macabeus” foi feita pelo escriba D e que o texto original é do escriba A. Jongkind
(2007, p. 44) acrescenta que “o escriba D corrigiu sua própria obra e a do escriba A, enquanto este se limitou a corrigir seu próprio trabalho” (tradução nossa). Metzger (1991, p. 77) menciona que o estudo paleográfico de 1938 revelou um número muito maior de correções e
indicou que as primeiras delas foram feitas ainda no scriptorium93 original. Metzger e Ehrman
90 O livro de “IV Macabeus” é uma homilia ou discurso filosófico elogiando a supremacia da razão sobre a paixão
piedosa. Não está na bíblia da maioria das igrejas, mas é um apêndice na bíblia da Igreja Católica Ortodoxa que é uma associação de igrejas cristãs autocéfalas, herdeiras da cristandade do Império Bizantino. A Igreja Católica Ortodoxa se separou da Igreja Católica Romana no “grande cisma” de 1054. Quanto ao livro de “III Macabeus” convém esclarecer que se trata de um livro encontrado em algumas bíblias da Igreja Católica Ortodoxa. Os Protestantes e Católicos Romanos consideram “III Macabeus” e “IV Macabeus” como livros não canônicos.
91 Cf. Rusconi, (2005, p. 379). 92 Ibid., p. 279.
93 Scriptorium significa literalmente “o lugar para se escrever”. O nome é usado habitualmente para se referir ao
cômodo dos mosteiros medievais europeus dedicados à realização de cópias dos manuscritos bíblicos. Outrossim, Paroschi (2012, p.11) esclarece que “no terceiro século Orígenes fundou em Cesareia uma importante escola teológica cuja biblioteca se tornou referência no mundo cristão. Inúmeras cópias bíblicas e patrísticas foram ali produzidas até a sua destruição pelos árabes no século sétimo. A partir de então e durante toda a Idade Média, a tarefa de copiar e preservar os livros bíblicos esteve quase sempre inteiramente ligada à atividade monástica. Praticamente cada mosteiro tinha uma biblioteca e um scriptorium.
(2005, pp.66-67), esclarecem que esses corretores do scriptorium original têm suas correções
precedidas e designadas pela sigla אª. 94
Nos séculos posteriores ao término de sua produção, o CS recebeu muitas alterações
que foram designadas pelos corretores através da sigla אb. De acordo com Metzger, um
colofão95 no final dos livros de “Esdras” e de “Ester” indica que
a fonte destas alterações era “um manuscrito muito antigo que havia sido corrigido pelas mãos do santo mártir Pânfilo” martirizado em 309. Se for este o caso, o texto que começa em I Samuel até o final de Ester seria a cópia original da "Hexapla" de Orígenes. 96 A partir deste colofão, deduziu-se que a correção teria sido feita em
Cesareia no século VI ou VII (METZGER, 1992, p.46, tradução nossa).
Metzger (1991, p.77), destaca ainda que a sigla אc precede as “importantes
correções efetuadas no século XII E.C.
Em relação aos corretores que teriam trabalhado no códice, Aland e Aland (1995, p. 107) afirmam que seriam sete, número superior aos cinco corretores presumidos por
Tischendorf.97
Parker entende que
assim como sobre os escribas, não temos informações pessoais sobre os corretores e devemos lhes dar nomes práticos. Por causa das inconsistências na identificação original dos corretores por Tischendorf e devido à imprecisão de identificadores, o sistema é bastante confuso (mudar isso pioraria as coisas). Mas fica claro quando se sabe o que Tischendorf fez. Ele dividiu todos os corretores em cinco grupos (a, b, c,
d, e), depois fez diferenciações entre os membros dos grupos. Então, a e b representam
os três (ou quatro) escribas originais. Assim, a sequência dos corretores começa com
c e dentro desse grupo eles estão subdivididos em ca, cb, cc, cc* e cpamph. O grupo
94 א (Aleph) é o nome da primeira letra do alfabeto hebraico. A sigla אª é composta pelo Aleph mais a letra a do
alfabeto latino sobrescrita.
95 Colofão ou Cólofon deriva da palavra grega Κολοφών, (Kolophon) que significa “topo”, “cume” ou “final”.
Conforme Paroschi (2012, p.31), “ao contrário dos prólogos, que são notas introdutórias, os colofões são notas acrescentadas no final dos manuscritos. [...] Muitos colofões, especialmente nos primeiros tempos da tradição manuscrita, trazem apenas o título da obra, ao passo que outros incluem várias informações sobre a obra e indicações do copista, lugar e data em que a cópia foi feita, bem como outros detalhes referentes ao trabalho em si.”
96 É o nome de uma edição da Bíblia produzida por volta do ano de 245 por Orígenes, que compilou seis versões
em grego e hebraico do Antigo Testamento alinhando-as paralelamente. Segundo Würthwein, “A obra original teria por volta de 6.000 páginas em 50 volumes e provavelmente só existiu em uma única cópia. Ficou na biblioteca dos bispos de Cesareia por séculos, mas se perdeu, provavelmente, durante a invasão islâmica em 638”. Cf. WÜRTHWEIN, E. The text of the Old Testament: An Introduction to the Biblia Hebraica. Translated by Erroll F. Rhodes. 2 ed. Grand Rapids, Michigan: William B. Eerdmans Publishing Company, 1995, p. 59, tradução nossa. Ela teve uma significativa influência no texto do Antigo Testamento em diversos manuscritos importantes, como o Códice do Sinai. Os fragmentos sobreviventes e cópias parciais apareceram em diversas edições, como por exemplo a de Frederick Field (1875). Estes fragmentos foram republicados pela editora Facsimile Publisher em 2015 com material adicional descoberto desde a edição de Field.
97 Cf. ALAND, Kurt; ALAND, Barbara. The Text of the New Testament: An Introduction to the Critical Editions
and to the Theory and Practice of Modern Textual Criticism. Translated by Erroll F. Rhodes. Grand Rapids,
cb geralmente é representado por três mãos identificáveis, cb1, cb2 e cb3 (quado não
se pode distinguir entre elas, são chamadas de cb), o mais interessante é aquele chamado de cpamph (PARKER, 2010, p. 80-81, tradução nossa).
O grupo de corretores denominado c é o que mais revisou o CS entre os séculos V E.C. e VII E.C., sendo que cc* trabalhou apenas no livro do “Apocalipse” e o trabalho de
cpamph é encontrado apenas em dois livros, “II Esdras e “Ester”. O corretor d reescreveu
porções apagadas de texto e somente de forma ocasional efetuou correções. O corretor e fez algumas correções no livro de “Provérbios”, “Mateus”, “Primeira Carta a Timóteo” e “Atos dos Apóstolos”.
Na análise de Parker (2010, p. 89), o CS recebeu mais correções e alterações nos livros do Antigo Testamento que nos livros do Novo Testamento. Segundo ele pode-se especular que isso aconteceu por que o CS ficou em algum lugar onde havia menos cópias do Antigo Testamento do que do Novo Testamento, então o primeiro era mais usado ficando, portanto, sujeito a mais correções que o segundo.
Na próxima seção iremos lançar algumas reflexões sobre a importância do Códice do Sinai a partir das suas características e de sua história apresentadas anteriormente. O objetivo é finalizar a contextualização histórica do manuscrito para então focarmos na análise do evangelho de Marcos que figura no códice, objetivo principal desta dissertação.