REVISÃO DA LITERATURA
2.3. ESCRITA BASEADA EM ELEMENTOS VISUAIS
2.3.2. Escrita Chinesa
Da família sino-tibetana, o chinês, uma das línguas que melhor guarda as caraterísticas de transição entre o desenho e a escrita moderna, é a única que sobreviveu até aos dias de hoje, mantendo em uso um sistema de linguagem com mais de seis mil anos. Tal acontecimento deve-se ao seu fascinante modo de escrita: os misteriosos caracteres que escondem relatos de histórias, literatura, arte e de sabedoria popular (Fazzioli & Ling, 2010, p. 11; Sampaio, 2009, p. 84).
Cordões de nós, entalhes em bastões de madeira e, para os processos divi- natórios, um tipo de notação baseado na interpretação de hexagramas e outro de traços produzidos pelo fogo no casco de uma tartaruga, eram meios de comuni- cação chineses utilizados pelos primórdios. No caso dos hexagramas, o adivinho manipulava varetas de um tipo de árvore e extraía uma forma geométrica constituída por seis linhas horizontais, ao que cada uma poderia ser interrompida ou contínua. Sessenta e quatro combinações foram possíveis e intituladas. O escritor francês James G. Février observa que este processo já se tratava de um sistema pictográ- fico, pois cada um dos 64 hexagramas continha uma identificação representativa do
foram a base gráfica e simbólica dos caracteres chineses que hoje conhecemos. Consecutivamente, os primeiros caracteres considerados oficiais foram gravados com um pauzinho de madeira, uma pedra afiada, uma faca de jade ou uma caneta de bronze, em cerâmica, ossos, vasos e nos objetos de bronze. Uma das razões da transformação gráfica dos caracteres é o instrumento utilizado para a sua escrita e a utilização de novos suportes como a madeira, a seda e o papel. Em bronze (XVI-XI a.C.) temos o desenho de uma caneta-tinteiro, formada por um recipiente em copo, colocada em cima de uma palha furada que depositava o líquido corante nas folhas de bambu. O resultado era um sinal espesso e uniforme. Por volta do ano 213 a.C. apareceu o uso de um pincel de ponta fibrosa, capaz de escrever na seda: um instrumento mais rápido mas ainda demasiado rígido, que deixava um traço espesso, quadrado. Nos mesmos anos é substituída a parte fibrosa por uma ponta de couro. Mas é a do general do exército imperial da dinastia Qin (220-206 a.C.) que se deve a escolha do instrumento de escrita. Meng Tian substituiu a ponta de couro por um tufo de peles de animal. O seu contributo também permitiu a descoberta de um novo suporte: o papel. Este absorvia rapidamente a água permitindo nuances na cor dos traços. Além do instrumento e do suporte, a tinta da China também foi um importante contributo _ extraída da fuligem amassada com cola e aromatizada com cânfora e almíscar (Fazzioli & Ling, 2010, p. 11-12).
Em linhas gerais, a evolução dos caracteres chineses pode ser dividida em quatro etapas cronológicas: o período primitivo, de 8000 a 3000 a.C., no qual o homem se exprimia através de sinais convencionais que funcionavam como elementos memoráveis e posteriormente com desenhos que reproduziam a realidade que o rodeava, os pictogramas. O período arcaico, de 3000 a 1600 a.C., na qual os pictogramas se transformaram em ideogramas, passando do direto para o conceito abstrato. O período histórico, onde nascem os caracteres definidos e os fonéticos, desenvolveram-se os estilos principais e determinaram-se formas e sig- nificados. Finalmente, o período contemporâneo, iniciado em 1949 com a fundação da República Popular da China. Um período importante para as ações tomadas a nível da grafia e estrutura dos caracteres, devido à preocupação de eliminar o anal- fabetismo. As modificações desenvolveram-se sobre três orientações: a simplifica- ção dos caracteres difíceis mas de uso corrente, a unificação nacional da pronúncia com o Putònghuà (língua comum) e a transcrição dos caracteres em letras alfabéti- cas segundo um sistema denominado Pinyin (combinar os sons em sílabas) (idem, p. 12-14).
Figura 11 _ Vinte caracteres de uso comum e a sua evolução no tempo (Fazzioli & Ling, 2010, p. 15).
Ninguém sabe com precisão quantos são os caracteres chineses. O dicioná- rio mais recente elenca 85 568, contudo um sujeito de nacionalidade chinesa bem instruído conhece entre 6 000 e 7 000 caracteres. Para fazer uma leitura de um jornal são requeridos cerca de 3 000. O governo da República Popular da China considera alfabetizado um indivíduo que conhece 2 000 caracteres. Este problema já tinha preocupado dois estudiosos que viveram durante a dinastia dos Han de Leste (25-220), Liú Xin e Xu Shén. Este último, depois de ter analisado e reagru- pado todos os caracteres em seis categorias, codificou a técnica para construir novos sistemas categóricos, conservando as mesmas peculiaridades dos caracte- res antigos (Fazzioli & Ling, 2010, p. 19-20; Nemitz & Villas-Boas, 2009, p. 20-21). Assim nasceram as Seis Famílias dos caracteres:
• Pictogramas (Xiàng xíng _ imagens do objeto): representam de forma estili- zada o objeto que pretendem invocar;
• Indicadores (Zhi shi _ símbolos indiretos): acréscimo de traços para mudar o seu significado, como por exemplo (madeira) e (nascente, raiz, fonte);
• Ideogramas (Huì yì _ associativos): resultado da combinação de dois ou mais pictogramas com o objetivo de formar caracteres compostos de duas partes, das quais uma sugere o significado e a outra determina a pronúncia, como por exemplo (pessoa) + (palavra) = (acreditar) ou (mulher) + (filho) = (bem, bom);
• Fonogramas (Xing sheng _ determinativos fonéticos): caracteres compostos de duas partes, das quais uma sugere o significado e a outra determina a pronúncia, como por exemplo (rio) constrói-se através da fonética (possibilidade) e do significante (água);
• Deflectidos (Zhuãn zhù _ símbolos de interpretação recíproca): caracte- res semelhantes no desenho, ligados em termos de significado mas diferentes na pronúncia, como por exemplo = (velho) e = (examinar, testar),
• Emprestados (Jiã jiè _ caracteres fonéticos por empréstimo): junção de dois ou mais pictogramas formando palavras compostas, como por exemplo (uni- versidade = grande escola).
Figura 12 _ Seis Famílias dos caracteres chineses (Fazzioli & Ling, 2010, p. 20).
A complexidade de expressão desta língua, denota simples palavras ou verbos em ideias pormenorizadas da sua ação. Telefonar é entendido, generica- mente, como um verbo interiorizado por uma ação: o ato de falar via telefone com outrem. Em chinês este apresenta-se pela sua descrição: (falar com eletrici- dade). O mesmo sucede-se com o objeto bicicleta: (carro que se move com o pé) (Nemitz & Villas-Boas, 2009, p. 13-14). Deste modo, a língua chinesa remete- nos a uma certa similaridade com os hieróglifos egípcios: utilização de um código enigmático, similar ao princípio de rébus. Ambas apresentam uma ideia, objeto ou conceito como justificação à representação visual, no entanto o seu conjunto
egípcios desapareceram e os caracteres chineses continuam ativos? A resposta baseia-se na simplicidade gráfica. Enquanto os hieróglifos apresentam-se porme- norizados no seu grafismo, mantendo-se fiéis à realidade, os caracteres chineses têm manifestado uma evolução gradual conforme a necessidade do ser humano
(Abdullah & Hubner, 2006, p. 18).
A caligrafia chinesa é uma chave de leitura do homem, cada caractere revela não só o estilo mas também a cultura, a arte, a alma, as paixões de quem o pinta. Representam a impressão digital individual, a contribuição genial de uma cultura bastante antiga.