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No horizonte assinalado em (e por) Versus, esse exercício reflexivo-propositivo sobre a escrita, manifesta-se, sobremaneira, na companhia de referências e personagens compartilhados com suas publicações hermanas – nos marcos do exame das condições de uma escrita continental. O quadro a seguir sintetiza tal intenção por meio de indícios e sinais expressivos propagados pela publicação brasileira:

Figura 37 – Indícios e sinais da escrita comprometida.

Título/Texto Edição Trecho

A paixão pelo testemunho. Retrato de um homem que gostava de contar histórias. (*Texto publicado quando do assassinato e desaparecimento do jornalista Rodolfo Walsh).

Versus n. 11, p. 14. Rodolfo Walsh não era só um grande jornalista, mas um escritor que soube expressar em seu estilo sintético, de singular densidade (onde substantivo valia por dezenas de adjetivos), a profundidade humana de um sensível observador da natureza e da sociedade. Suas matérias sobre os habitantes do Tigre, o delta do rio Paraná,

próximo a Buenos Aires, e sobre uma ilha-leprosário que

34 Como pontua Claudio Coração, “a metalinguagem fundamenta-se em uma concepção de consciência e

construção”, desempenhando, em seu próprio funcionamento de investigação da linguagem, “o apontamento do

significado da natureza e da função do próprio ato de escrever”. Ver: CORAÇÃO, Claudio. Repórter-cronista em

o governo mantinha no litoral argentino, revelavam outra face de sua personalidade profissional, a do escritor- jornalista que consegue dar expressão sutil e fluida a esse ponto em que se intercruzam e se interfluenciam o drama individual e o drama social, sobre o fundo de uma natureza sempre

condicionante. E, nesse sentido, seu jornalismo teve alguma coisa de Hemingway.

Um escritor esquecido. (*Nota que acompanha trecho do livro Operação Massacre, de Rodolfo Walsh).

Versus n. 5, p. 13. Por fim, importa destacar a contribuição de Walsh a um fenômeno já generalizado nos trabalhos artísticos dos últimos anos: a incorporação dos outros, os anônimos, os que não são personagens nem do jornalismo oficial. Esse fenômeno implica uma opção estético-ideológica, a da cultura como forma de ação.

Fuentes e as “Belas Letras”.

(*Nota que

acompanha o texto de Carlos Fuentes, “A morte de Rubén Jaramillo”).

Versus n. 6, p. 12. “A morte de Rubén

Jaramillo” é reportagem ou literatura? Ou é mergulho numa realidade,

acompanhado por palavras precisas? O que é “A morte de Rubén Jaramillo”? Ou outras histórias reais escritas circunstancialmente por Fuentes? (...) O colonialismo não está ausente a esta questão. Para as mentes colonizadas, todo jornalismo em que o texto não é relatório burocrático, plasmado na escola do jornalismo americano, é “novo jornalismo”. E, assim, condena-se ao esquecimento textos como este.

141 Na trilha de

Macondo (um jogo de perguntas e respostas) com Gabriel Garcia Marquez. (*Entrevista traduzida de Maria Esther Gilio a Gabriel Gabriel Garcia Marquez).

Versus n. 10, p. 29. Maria Esther Gilio é uruguaia, jornalista e escritora. Foi uma das principais repórteres da revista Crisis. Galeano disse dela: “Não conheço ninguém que saiba montar tão bem o depoimento e um personagem ou recolher as vozes de pessoas do povo”. Julio Cortázar: Turismo aconselhável. (*Texto traduzido de Julio Cortázar). Versus n. 17, p. 22- 23.

Aos turistas deste verão: o escritor argentino Julio Cortázar (há muitos anos na Europa) recomenda uma viagem à realidade. Neste texto, o “Último round”, a realidade é Calcutá, Índia, a estação de trens, a menina sentada no chão brincando com outros meninos, as esmolas...(...) neste Turismo Recomendável que poderia ser feito também pelas estações de trens ou de ônibus, pelas ruas, do Brasil e da América Latina. Do repórter policial: Estes olhos viram 7 sicilianos mortos. (*Texto traduzido de Gabriel Garcia Marquez).

Versus n. 2, p. 10. Este texto foi escrito por Gabriel Garcia Marquez, em 1958, quando vivia em Caracas, na Venezuela, e era – como disse – “feliz e não tinha documentos”. Nele se descobre o repórter-de-texto- literário – e com veia de ficcionista.

Dois poemas de Juan Guelman.

Versus n. 7, p. 28. Juan Guelman, desconhecido no Brasil, é considerado na América espanhola um dos mais importantes poetas do continente. (...) Encontrou em

seus poemas um modo sólido de conjugar a aventura com o compromisso social e político de nossos tempos.

O sangue e outras palavras.

(*Texto de Marcos Faerman).

Versus n. 11, p. 40. Economês. Sociologuês. Francesismos. O último livro europeu. Pedantismo

universitário. Pensar a realidade como a realidade quer. Não sair do circuito acadêmico. Cultura de “professores”. Universidade (no fundo) a-crítica. Não tocar na linguagem

instaurada. Respeitar todas as regras do pensamento. (Basta). Peron. (*Texto de Eduardo Galeano. Acompanha nota, sem título, da qual o trecho foi extraído).

Versus n. 9, p. 8. Galeano é um dos mais importantes jornalistas e ficcionistas do continente. Seu livro é o repertório de uma vida jogada na América Latina, de ponta a ponta: nas cidades, selvas e montanhas.

Cesar Vallejo, Versus n. 8, p. 39. Cesar Vallejo escreveu

poeta e homem da novelas, contos, ensaios,

América. peças para teatro, artigos para

jornais e, principalmente, poemas. Ao longo da obra dele descobrimos um inovador (a palavra correta seria revolucionário). Foi precursor da poesia real. Não se submeteu a manter uma métrica forçada, nem se escondeu atrás de flores seus verdadeiros sentimentos. Submeteu-se, sim, às mais duras críticas de seus

contemporâneos, mas nunca mudou seu estilo nem a

143 direção do seu pensamento: o

homem na sua própria condição humana.

Fonte: Produzido pela autora.

Concepção da escrita, jornalismo e literatura, antiacademicismo – a trinca corrente e presente no recorte realizado das páginas de Versus. A preocupação apontada em torno de uma radiografia latino-americana, da inclusão de novas vozes, da confecção de um outro tipo de texto. O comprometimento. A atuação engajada. E o modo como tudo isto desenrola-se no entrelaçamento da cultura e da política.

Se as personagens marginalizadas emergem como alicerces de uma (re)escrita e (re)leitura da América Latina, o ato de escrever apresenta-se como uma ação capaz de salvaguardar não apenas suas histórias, mas sobretudo as representações de outros modos de vida e de existência para além das referências europeias e estadunidenses – tão bem conformadas às faixas sociais usualmente presentes nos discursos jornalísticos e literários hegemônicos.

Assim, no roll de personagens marcantes desse quarteto de experiências jornalísticas há um pouco de tudo no amplo espectro que procura dar conta da formação identitária latino- americana – seja no âmbito coletivo ou individual: guerrilheiros, presos políticos, imigrantes, pedreiros, peões, operários, garimpeiros, seringueiros, migrantes, exilados, trabalhadores rurais, moradores de favelas, índios, negros35.

É sob este aspecto que o jornalismo de Versus – no caminho aberto por suas publicações hermanas – desenvolve certas marcas fundacionais, pois ao percorrer os meandros daquilo que nos instaura, nos incomoda e nos atormenta vai ao encontro e ao exame das nossas matrizes identitárias, em um trabalho de intensa revisão historiográfica com o fim de assinalar outros lados da realidade. Mais do que inovação em termos de linguagem, tanto Versus quanto Marcha e Crisis – sendo Casa de las Américas o primeiro grande norte dessa bússola – inovam na abordagem dos temas, assinalando o desejo consciente de construir um caminho próprio de jornalismo.

35 Por isso mesmo, como já visto ao longo do capítulo 2, também marcam presença alguns dos líderes que travaram

lutas continentais emblemáticas contra a dominação estrangeira – Tupac Amaru, José Martí, Símon Bolivar, Zapata, Che Guevara.

Desse modo, como visto até aqui, as apostas jornalísticas realizadas por essas publicações sustentam um caráter propositivo pela busca inquietante acerca do continente latino-americano, alicerçado em um intenso debate em torno do próprio sentido da escrita.

Nota-se, pois, que Versus ganha vida em meio à coordenadas continentais ora difusas, ora claras, ora distantes, ora aproximadas, erguendo ao seu modo uma práxis jornalística na qual a confecção textual comporta uma ação de comprometimento entre o autor e o texto. Comprometimento este, como pontua Claudio Coração, a moldar não apenas o universo singular descrito e retratado, mas também a própria elaboração textual que, neste direcionamento, constrói-se por meio da entrega às esferas sociais marginalizadas36.

Um jornalismo no qual o exercício da escrita dirige-se, por meio dos afetos, a uma razão maior, sendo a reportagem o lugar privilegiado deste exercício. Mas não o único, já que há de se considerar também os espaços da crônica, do perfil e da entrevista como aptos para tal – afinal, o caráter propositivo, aqui, funde-se ao próprio confeccionar jornalístico.

No plano teórico, tomando como base mais especificamente o panorama brasileiro e o surgimento de Versus, o que está posto – e, sobretudo, enfatizado nas linhas anteriores de Marcos Faerman – é a negação do ensino norte-americano de comunicação, do enfoque funcionalista e do ensino técnico instrumental do jornalismo, prevalecente ao longo da década de 60. Ao mesmo tempo, também a extensão da apreensão da realidade para além do new journalism dos novos-jornalistas estudanidenses, em favor de um quadro referencial latino- americano, do qual Rodolfo Walsh, talvez, seja a síntese mais bem acabada.

Com um perfil impossível de ser precisamente definido, Walsh foi cronista, jornalista, tradutor, editor, escritor, militante, criptógrafo e dramaturgo37. Embora cada uma dessas ocupações sejam peças-chave para a compreensão de sua pessoa, é no conjunto de sua obra que se encontram os elementos reveladores sobre o personagem híbrido do jornalista. A fascinação pelo gênero policial, inspirado nos contos ingleses à la Sherlock Holmes, o levaria a escrever suas primeiras publicações, em 195338.

Além de marcarem a literatura policial argentina, as obras iniciais de Walsh contêm os ingredientes do que viria a ser a sua grande obsessão anos depois: a investigação de crimes.

36 Ao seguir as pistas da aproximação entre a produção periodística de Lima Barreto e João Antônio, Claudio

Coração debruça-se sobre estas questões. Não por acaso, João Antônio assinaria algumas crônicas em Versus. Acerca do tema: CORAÇÃO, Claudio. Repórter-cronista em confronto: João Antônio na trilha de Lima Barreto. São Paulo: Annablume; Fapesp, 2012.

37 Em 1959, Walsh viaja para Cuba e começa a colaborar na Prensa Latina, dirigida por Jorge Masseti. Ali,

aprenderia o ofício de criptógrafo.

38

145 Como observa a pesquisadora Graciela Foglia, se o triunfo da justiça acompanha o desfecho da narrativa dessas produções primeiras, tal característica mudaria, sobretudo, após seu envolvimento com os acontecimentos que o fazem escrever “Operação massacre”, publicado em 1957 – cujo acontecimento fundamental da narrativa se dá em torno de um fuzilamento ocorrido pouco depois da queda de Perón, em 1955.

Sentado em um café de La Plata, província de Buenos Aires, em meio a uma partida de xadrez, Walsh se verá envolvido nesse crime ao descobrir a existência de alguns sobreviventes, iniciando um processo de investigação feito na clandestinidade. A partir daí, as personagens anônimas entram em cena e, pouco a pouco, determinam não só o engajamento do autor com a narrativa, mas, especialmente, com o mundo a sua volta39.

Assim, tomado pela urgência dos acontecimentos sombrios e violentos da vida argentina, ele narra o factual, ao mesmo tempo, em que tece Operação massacre por meio de uma estrutura feita de elementos ficcionais sem constituir-se, contudo, em ficção. Afinal, os fatos são e mantêm-se verídicos. Em outras palavras: lapidava uma obra que anteciparia em quase dez anos o que Truman Capote viria a fazer em A sangue frio, o chamado new journalism – cujo texto fundacional é historicamente atribuído ao jornalista norte-americano.

Jornalista-escritor, escritor-jornalista, como avalia Marcelo Magalhães Bulhões40, Walsh, já no prólogo da primeira edição de Operação massacre, ao explicar as razões para sua escrita, traduz o significado de ação contido em tal ato: “Escrevi este livro para que fosse publicado, para que agisse”41. Condensa, portanto, o território da confecção textual discutida, por meio dos tempos, por essas publicações continentais – isto é, a escrita comprometida.

Ainda sobre o new journalism, independentemente de marcos fundacionais ou de qualquer tentativa de fixidez em gêneros e/ou categorias, é importante ter em mente a observação de Nilson Lage: a de que ele emerge em vínculo estreito com “a constatação de que o repórter não pode, ou não deve ser inocente e passivo quanto propõe a tradição do ofício e de que a objetividade que se persegue não pode ser atingida por inteiro”42. O que faz dessa empreitada um exercício consciente de “aprofundamento da realidade”43.

Retomando o viés teórico a partir do cenário brasileiro envolto no surgimento de Versus, como observa Claudia Peixoto de Moura, a década de 1970 emerge como contraponto aos

39 BUCCHIONI, Xenya de Aguiar. Rodolfo Walsh: compromisso com a palavra. In: XVI Colóquio Internacional

da Escola Latino-Americana de Comunicação, 2012, Bauru. Celacom (UMESP), 2012.

40 Ibidem. Entrevista concedida à autora desta pesquisa em outubro de 2011. 41

WALSH, R. Operação massacre. São Paulo: Cia. das Letras, 2010. p. 206-207.

42 LAGE, N. A reportagem: teoria e técnica de entrevista e pesquisa jornalística. Rio de Janeiro: Record, 2006. 43 Ibidem.

modelos teóricos importados, sendo marcada por estudos com vistas à fundamentação para “uma Teoria da Comunicação adequada à sociedade latino-americana”44. Mais uma mostra do território cultural que se converteu a América Latina, marcando uma época.

Posto isto, uma pergunta faz-se necessária: o que significava esse outro tipo de jornalismo do ponto de vista dos processos e práticas?

É no desejo de ater-me mais atentamente à atividade jornalística, tendo em mente o que foi visto nas linhas e nos capítulos anteriores, que me debruço mais profundamente em Versus de modo a assinalar suas rotinas produtivas e noticiosas, bem como seus mecanismos de circulação e apropriação social. Entender como se fundamenta seu projeto político-cultural a partir da perspectiva jornalística – e em sintonia com as coordenadas continentais observadas – é o mote do percurso a seguir.

Antes de avançar, no entanto, faço uma breve pausa para um registro visual da caminhada realizada até aqui.

4.3 Linha do tempo: breve balanço do cruzamento de caminhos entre Versus e a