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N A ESCRITA DA MORTE , OS RELATOS DA VIDA : OS TESTAMENTOS COMO FONTE

Mapa 5 – Capitania de Minas Gerais Divisão político-administrativa e divisão

1 O ESCREVER POR OUTRAS MÃOS : CONCEPÇÃO , ALICERCES E LINHAS DE FORÇA

1.6 N A ESCRITA DA MORTE , OS RELATOS DA VIDA : OS TESTAMENTOS COMO FONTE

Nas últimas décadas, as potencialidades dos testamentos como fontes de investigação têm sido salientadas pelos historiadores da educação, uma vez que esses documentos permitem o rastreamento das “histórias de vida”, facultando desencobrir “práticas educativas” e estratégias de aprendizagem que se processaram para além dos espaços institucionais de educação. Sabemos, porém, que as narrativas contidas em seus textos são de representações elaboradas pelos sujeitos que os ditaram e/ou escreveram. Mesmo assim, tais “dizeres” nos revelam acerca da visão de mundo que os testadores possuíam, seus valores e hábitos, ou seja, nos possibilitam entender como homens e mulheres nomeavam a sociedade, elaboravam e organizavam pedagogicamente suas experiências individuais e sociais.

O testamento era/é o documento oficial, por meio do qual o indivíduo declarava suas últimas vontades e poderia ser redigido por ele ou por outro sujeito, geralmente alguém de sua

confiança: um familiar, um amigo ou um ente. Os textos testamentais eram declarações justas

e solenes da vontade do testador a respeito daquilo que determinava para após sua morte. De

acordo com Kátia de Queirós Mattoso:

Regra geral, o testamento é o ato pelo qual o indivíduo lega aos seus herdeiros obrigatórios, ascendentes ou descentes, ou, na falta destes, a terceiros, os bens que possuía quando vivo. Há, porém, casos em que o testador falece sem deixar nenhuma fortuna. Trata-se, então, de um testamento espiritual, em que são consignadas as últimas vontades do testador em relação ao modo de seu sepultamento e a várias devoções de caráter religioso (missas, esmolas aos pobres etc.), do cumprimento das quais são encarregados membros de sua família, parentes ou terceiros. (MATTOSO, 2004, p. 173).

Esses documentos continham as assinaturas do testador e das testemunhas. De acordo com as Ordenações Filipinas, deveriam ser feitas em “ato seguido”, ou seja, precisavam ser simultâneas, na presença uns dos outros.28

No caso do testador que não soubesse escrever, como por ele declarado no corpo do testamento, ou não pudesse escrever no ato da feitura do documento, impossibilitado por algum motivo, como moléstia, uma das testemunhas poderia assinar em seu lugar, a rogo, independentemente de o testador marcar o documento com uma cruz. Ainda de acordo com as Ordenações, o tabelião deveria declarar no testamento o dia, mês e ano de sua elaboração, “lugar e reconhecimento do testador e das testemunhas”, e se aquele estava em pleno gozo de suas faculdades mentais (ALMEIDA, 1870).

Como nos ensina a historiografia, as escrituras testamentárias originaram-se na França em fins do século XII, ancoradas na tradição jurídica romana, sendo que, nos séculos subsequentes, a atitude de testar tornou-se habitual naquela sociedade. No caso específico dos testamentos no Império Português da Época Moderna, os objetivos principais aos quais se destinavam, no século XVIII, eram de caráter religioso, com vistas à organização dos funerais, voltados enfaticamente para a salvação da alma, e, por isso, traziam as disposições para “se dizer missas” pelas almas do testador e de seus entes, familiares, escravos e almas do purgatório, além de declarações relativas às devoções. Nas palavras de Maria Luíza Marcílio:

Até meados do século XVIII, a preocupação religiosa é mais importante que o legado dos bens. O testamento era então um documento para a salvação da

28 Além da própria elaboração do testamento, as Ordenações Filipinas (1603), desde a constituição da América

portuguesa, regulavam assuntos relacionados à vida familiar e aos “direitos” aí implicados, que poderiam ser ou não mencionados no testamento, como, dentre outros aspectos, as formas de casamento e, consequentemente, o destino do espólio, o direito de herança e sucessão, os legados pios, as legítimas dos herdeiros.

alma, era uma verdadeira prece generosa feita a Deus, à gloriosa Virgem Maria e aos intercessores celestes, ante a morte iminente. Só mais tarde ele tornou-se um texto que apenas regulamentava as questões materiais. (MARCÍLIO, 1983, p. 68, grifo da autora).

No século XIX, os testamentos foram deixando de cumprir objetivo preponderantemente espiritual, sendo que as versões mais recentes acabaram por se referir unicamente às disposições relativas aos bens materiais. Nas fontes utilizadas nesta investigação, percebemos que, pelo menos no que respeita às duas primeiras décadas do século XIX, os conteúdos testamentais não apresentam diferenças substantivas com relação aos das últimas décadas do Dezoito.

Para Sheila de Castro Faria, os rituais relacionados à morte nos séculos XVIII e XIX, no Brasil, primam pelo estilo barroco, tendo a pompa como uma das principais características das ações e dos processos ligados à morte. Nesse contexto, “os testamentos, um dos mecanismos essenciais de se estar em paz com a consciência, seguem padrões homogêneos de redação por todo século XVIII e início do XIX, possibilitando questionar se a fórmula notarial estaria se sobrepondo ao ato individual” (FARIA, 1998, p. 266). Circunstância e condição que, consoante a autora, haviam sido postas por Michel Vovelle, ao indagar “se a fórmula notarial é um estereótipo congelado e maciço […] ou indício sensível das mutações mentais, tanto do notário como de seus clientes” (VOVELLE apud FARIA, 1998, p. 266). De qualquer modo, muito embora de maneira geral a estruturação e o conteúdo desses documentos permaneçam semelhantes ao longo dos tempos, sem dúvida o testamento, enquanto atitude individual, expressa os comportamentos coletivos e, por isso, sua uniformidade é extremamente valiosa para o pesquisador.

Nesses textos, deparamo-nos talvez com o exemplo máximo da escrita como prática social situada, pois, enquanto faceta do ritual preparatório da morte, revela fatores fundamentais da vida. Em seus conteúdos é possível identificar objetivos, teor do discurso, reflexões sobre a vida ligadas às condições materiais de existência, isto é, ao patrimônio, às relações familiares, aos desejos, às crenças e à religiosidade.

Particularmente no que respeita à análise da “escrita” do testamento, destacamos que essa uniformidade, que a princípio poderia parecer problemática para o estudo dos usos da escrita, por padronizar a redação dos textos, na verdade, acaba apresentando-se como aliada, ao possibilitar o estabelecimento de pontos comuns entre os conteúdos dos documentos, isto é, ao se configurarem como eixos norteadores dos discursos das testadoras no registro de suas últimas vontades.

Eduardo França Paiva afirma que “muitos testadores registram suas últimas vontades quando pressentiram o fim, num momento em que a agonia do corpo e do espírito provocou alterações em seus sentimentos e em seu modo de viver” (PAIVA, 1995, p. 33). Essa ideia é compartilhada por Faria, que afirma ser verdade que, na maior parte dos casos, o documento não era elaborado com antecedência à morte, ou seja, “em boa saúde”, mas que “testamento e morte combinavam-se, sendo plausível supor que redigi-lo significava estar em risco de vida” (FARIA, 1998, p. 268). Cabe ressalvar, no entanto, que esses documentos, de acordo com a legislação da época, poderiam ser escritos em qualquer momento, a partir de certa idade, como veremos a seguir, mantendo-se inalterados, sofrendo reformulações ou até sendo revogados (REIS, 1997, p. 102). Nas fontes analisadas nesta pesquisa, as testadoras não necessariamente declaravam estar enfermas – fator constatado em muitos casos –, mas afirmavam, quase invariavelmente, estarem elaborando o documento “por temor da morte” e por não saberem o momento quando deixariam a vida, denotando, como sabemos, a intenção de salvação da alma e de se estar preparada para a “hora final”.

A necessidade de preparação para a “hora da morte” fazia parte do denominado pela historiografia como pedagogia do medo, mecanismo por meio do qual a Igreja Católica inculcava nos fiéis a necessidade de obediência às determinações eclesiásticas. O católico, para ter a “boa morte”, fazia questão de deixar registrado em seu testamento a subordinação aos ensinamentos da Igreja, ainda que, durante a vida, esses não tivessem sido seguidos à risca. Nas palavras de Cláudia Rodrigues:

[…] a morte era o momento em que os fiéis se viam mais próximo da

possibilidade de salvarem ou não a sua alma e de irem ou não para o inferno, de acordo com as pregações que a Igreja repetira insistentemente ao longo de suas vidas. Por esse motivo, morria-se fazendo questão de expressar, através do testamento e das derradeiras práticas, o exercício daquela aprendizagem. (RODRIGUES, 2005, p. 39).

Mesmo que os “dizeres testamentais” visassem, sobretudo, expressar tal aprendizado e apenas escrever sobre o cumprimento de determinadas disposições – não significando sua efetiva realização em vida –, é correto afirmar que, especialmente após o Concílio de Trento (1545-1563) e até o século XVIII, a “arte de bem morrer” passa por transformações, apresentando como premissa, diferentemente dos séculos XIV e XV, a noção de que somente tendo-se uma vida correta seria possível se ter uma “boa morte”. O caminho para a salvação da alma desloca-se, nesse contexto, do momento da morte e passa a ser a trajetória vivida.

Portanto, diferentemente do que afirmam Faria e Paiva, a elaboração dos testamentos comporia a conduta característica de uma “boa vida”, e, por isso, não necessariamente seria ato realizado na iminência da morte. Ainda nas palavras de Rodrigues: “a partir do século XVII e do XVIII, os textos das artes moriendi passaram a ter uma nova base e neste contexto, os manuais portugueses de preparação para a morte orientavam os fiéis a elaborarem seu testamento em boa saúde, e não esperarem pela enfermidade para fazê-los” (RODRIGUES, 2005, p. 63).

No período de nossa eleição, o Código Filipino e a Igreja eram os responsáveis por coordenar e legislar sobre os testamentos e garantiam a “faculdade de livremente testar” aos cidadãos, excetuando-se a mulher menor de 12 anos e o homem que ainda não tivesse completado 14 anos de idade. Da mesma forma, mentecaptos, loucos e hereges, as pessoas condenadas à morte natural, pródigos, surdos e mudos de nascença, escravos, religiosos professos estavam excluídos. Quanto aos filhos que estivessem sob o pátrio poder, esses só poderiam testar com a autorização de seus pais (ALMEIDA, 1870).

Como afirma Marcílio (1983), no Brasil, conhecemos apenas os testamentos nuncumpativos e hológrafos, os quais necessitam da “mediação do oficial público”. A partir do que define essa autora e também dos esclarecimentos que nos traz Kátia de Queirós Mattoso (2004), podemos assim classificar os referidos documentos:

 testamento nuncumpativo: “feito in extremis”, isto é, na iminência da morte. Era elaborado oralmente pelo testador, ou seja, de viva voz, ou por ele escrito, perante testemunhas e tabelião público. “Este ato de testar pode ser feito no tabelionato ou no próprio domicílio do testador, se estiver impossibilitado de se locomover.” (MATTOSO, 2004, p. 167).

 testamentos místicos ou hológrafos: São aqueles completamente escritos, datados e assinados pelo próprio testador, ou por ele ditado, o que significa ter sido escrito a rogo. Esse tipo de testamento era lacrado (cerrado) e somente poderia ser aberto depois do falecimento do testador. “Essa prática permite ao testador guardar o segredo de suas intenções de última vontade, e é o privilégio de pessoas alfabetizadas que possuem desejos e meios de aceitar um processo um pouco mais complicado do que o imposto pelo testamento nuncumpativo.” (MATTOSO, 2004, p. 167).