Primeiro Capítulo: Teoria e metodologia de pesquisa
1.1 Breve exposição teórica de conceitos e reflexões relevantes para a pesquisa
1.1.2 Reflexões teóricas aplicadas ao uso de novas tecnologias na alfabetização
1.1.2.4 Escrita digital na escola: possibilidades de transformação?
Será que as oportunidades de uso do computador na escola, no período de alfabetização, podem contribuir para que os alunos possam se apropriar dos conhecimentos e habilidades de escrita para usá-los fora da escola?
Não podemos tratar dessa questão sem pensarmos em questões sociológicas mais profundas. Será que o domínio de determinadas formas da escrita adquiridas na escola alteram a condição social dos alunos, para além dos usos digitais da escrita?
Para Bourdieu (1975, p. 212-213), quando ressalta o papel reprodutor da escola, por mais que a escola deseje romper com o papel desempenhado na sociedade de classes, o máximo que pode conseguir é a ilusão de que sua ação traz alguma mudança. Segundo ele:
O sistema de ensino tradicional consegue dar a ilusão de que sua ação de inculcação é inteiramente responsável pela reprodução do habitus cultivado ou, por uma contradição aparente, que essa ação só deve sua eficácia diferencial às aptidões inatas dos que a ela são submetidos, e que é por conseguinte independente de todas as determinações de classe, embora nada mais faça do que confirmar e reforçar um habitus de classe que, constituído fora da Escola, está no princípio de todas as aquisições escolares, tal sistema contribui de maneira insubstituível para perpetuar a estrutura das relações de classe e ao mesmo tempo para legitimá-la ao dissimular que as hierarquias escolares que ele produz reproduzem hierarquias sociais.
Em outro texto, ao refletir sobre os efeitos da Reforma Educacional do final da década de 50 do séc. XX, na França, que possibilitou a grande parte da população ter acesso ao ensino secundário, Bourdieu (1998, p. 219-221) alerta sobre a ilusão que se criou nos sujeitos, a partir da continuidade no ensino, de que poderia ascender a postos de trabalho antes inalcançáveis. A esse respeito, comenta que:
[...] depois de um período de ilusão e mesmo de euforia, os novos beneficiários compreenderam, pouco a pouco, que não bastava ter acesso ao ensino secundário para ter êxito nele, ou ter êxito no ensino secundário para ter acesso às posições sociais que podiam ser alcançadas com os certificados escolares.
Em relação à experiência dos sujeitos-alunos que acompanhamos na pesquisa de mestrado em processo de apropriação da escrita digital na escola, podemos perceber na expressividade de suas falas12 um tom de legitimação desse novo saber conquistado na escola, bem como na empolgação da turma observada na pesquisa de doutorado em relação à aula no laboratório de informática. Assim como os sujeitos descritos por Bourdieu, a princípio, os alunos/usuários que observamos possuem expectativas muito positivas em relação ao conhecimento sobre a escrita digital oferecido pela escola.
O fato é que a valorização desse signo de um “capital cultural” (o computador) por esses alunos leva-nos a refletir que, talvez, por trás dessas expectativas positivas em elação ao computador se esconda o reconhecimento de toda uma cultura dominante: “Os demais, embora não tenham sido socializados na cultura dominante e, por isso, não sejam capazes de se apropriar plenamente dessa, aprenderiam a reconhecê-la e a valorizá-la” (NOGUEIRA; NOGUEIRA, 2006, p. 39).
É inegável que novas tecnologias de informação façam parte da vida cotidiana de todos nós que vivemos na sociedade ocidental contemporânea, exigindo, portanto, outras habilidades de leitura e escrita na tela. O que não podemos é confundi-las com mudanças sociais mais profundas, compreendendo
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Citamos a seguir algumas falas dos sujeitos de nossa pesquisa de mestrado quanto ao uso do computador na escola: “[...] porque fico mais animado para fazer a atividade da escola.” (aluno/usuário do 1º ano do ciclo intermediário da Escola A); “[...] porque nem toda escola tem sala de informática que a gente pode usar como a minha.” (aluno/usuário do 1º ano do 3º ciclo da Escola B); “[...] porque já vou me preparando para o trabalho no futuro.” (aluno/usuário do 1º ano do 3º ciclo da Escola B) (GLÓRIA, 2004, p. 73).
que apenas o seu domínio favoreça a inclusão. Mas, de qualquer forma, é inegável que seu domínio e apropriação trazem efeitos culturais inéditos.
Sobre essas novas habilidades e competências para usar a escrita, Magda Soares (2002, p. 156) enfatiza a ideia de que “diferentes tecnologias de escrita geram diferentes estados ou condições naqueles que fazem uso dessa tecnologia em suas práticas de leitura [...]” e Lévy (1990, p. 232) comenta que:
Todo conhecimento reside na articulação dos seus suportes, na arquitectura da rede, no ordenamento dos interfaces. [...] aquilo de que se ocupam as teorias do conhecimento – saberes, informações e significações – são precisamente efeitos de suportes, de relações, de contiguidades, de interfaces. (grifo do autor)
Sem dúvida que a rede digital potencia ainda mais a interatividade, abrindo grandes possibilidades na relação emissor/receptor, estimulando o usuário a explorar, em camadas escondidas, significados diferentes, levando-o a buscar outras formas de saberes.
Entretanto, segundo Nogueira e Nogueira (2006, p. 46), a tese central de Bourdieu nos aponta que: “Os indivíduos normalmente não percebem que a cultura dominante é cultura das classes dominantes e, mais do que isso, que ela ocupa posição de destaque justamente por representar os grupos dominantes”.
Não estamos dizendo, com isso, que tal conhecimento não seja importante ou que ele não tenha significação no complexo processo de aquisição da escrita. No entanto, o que questionamos neste trabalho, em se tratando de pesquisa de campo e observando classes menos favorecidas, é se o conhecimento sobre a escrita digital adquirido na escola e tão valorizado por esses alunos representa um grau de letramento digital capaz de favorecê-los não apenas na fase e em conteúdos de alfabetização, mas em outras práticas textuais.
As boas expectativas cultivadas em relação ao computador, certamente, ajudam a alimentar esse discurso dominante de que é necessário hoje ter conhecimento de informática para se comunicar com o mundo.
Não descartamos a importância de tal conhecimento. No entanto, o que indagamos é se esse conhecimento sobre a escrita digital, inserido na escola através das práticas pedagógicas do docente e tão valorizado socialmente, representa um grau de letramento digital capaz de favorecer o sujeito fora da escola.
É evidente que o computador poderá ser o "novo" inovador, que suscitará avanço na compreensão, no desenvolvimento e na aprendizagem dos conteúdos escolares sob vários aspectos ou poderá ser o velho, vestindo uma roupagem nova que mascara aspectos já superados no processo de ensino-aprendizagem.
Não estamos, dessa forma, descartando o ”velho”, afinal só se pode construir o novo porque há algo para ser modificado; mas há que se trabalhar criticamente com a contribuição colocada pela cultura da nova tecnologia de informação e comunicação vigente.
Esse movimento que fizemos aqui, mais de provocação do que de respostas, leva-nos, sim, ao reconhecimento do valor do conhecimento produzido pelo professor no espaço escolar, tais como as estratégias produzidas para desenvolver nos alunos habilidades para escrever e ler em vários suportes, incluindo o computador.
Entendemos que esse capital adquirido pelo docente e pelos alunos em função dessas transformações pelas quais passam na experimentação de novos saberes (novas tecnologias de informação e comunicação, por exemplo), mesmo que muitas vezes não sejam reconhecidos em sua plenitude pelas instituições formadoras, são extremamente importantes no interior do espaço público escolar, pois podem contribuir na promoção de uma escola mais democrática, visto que os sujeitos que participam dela estão tendo a oportunidade de acesso a um ensino mais significativo.
Todavia, é bom lembrar que esse ensino significativo não representa, no caso do computador, montar simplesmente um laboratório de informática na escola ou colocar o sujeito na frente do computador; é preciso garantir a apropriação devida dessa outra forma de funcionamento da escrita. Certamente tal conhecimento, introduzido pelo docente em suas aulas, servirá para esses alunos/usuários como instrumentos de luta contra as desigualdades no acesso à informação fora da escola.
Esse movimento de reflexão que fazemos aqui leva-nos, sim, ao reconhecimento da importância da estrutura social de classe na estrutura e no cotidiano escolar, mas leva-nos também à percepção da escola articulada aos
processos de transformação social gerados pelas relações13 de contradição que caracterizam uma sociedade de classes.
Assim,
Entendemos que a escola deve cada vez mais avançar no uso das modalidades de tecnologia digital, para que aqueles alunos/usuários, que constituem o grupo dos menos favorecidos, desenvolvam o conhecimento de novas formas de construção do texto presentes na sociedade. Afinal, não basta dar acesso e freqüência ao computador, é preciso garantir uma apropriação significativa dessa outra forma da escrita acontecer. Certamente tal conhecimento servirá para esses alunos/usuários como instrumentos de luta contra as desigualdades no acesso à escrita (GLÓRIA, 2004, p. 77).
Por fim, quanto mais investigações forem desenvolvidas, quanto mais trabalhos científicos descreverem as reais condições de acesso e frequência dos alunos/usuários ao computador da escola, melhor será o instrumental para entendermos a formação desses alunos/usuários como produtores dessa escrita digital, e para refletirmos mais sobre o papel fundamental do espaço escolar como agente que possibilita a incorporação democrática desse “bem”.
1.1.2.5 Multimodalidade e repercussões do uso do computador na fase de