ENTRE EXPERIÊNCIA, LINGUAGEM E PENSAMENTO
Capítulo 1 – Dos Modos de Insuportabilidade da Experiência
1.3. Escrita e atopia: percorrer uma «distância infinita»
Compreendemos que a afirmação de uma acentralidade constitutiva da noção blanchotiana de experiência neutra nos coloca diante de um modo inconjugável da questão da insuportabilidade da escrita, inserindo-a numa exigência de compreensão da sua constituição fundamentalmente atópica. No âmbito da tradição ocidental, a recorrência da noção de «atopia» é consagrada pela filosofia socrático-platónica. O termo topos é frequentemente traduzido como «espaço», «lugar», «território», «região». A noção de topos insinua também a aceção de «fundamento», «matéria», «sustentação», «suporte». A palavra atopia adquire frequentemente uma conotação negativa, presente nas diferentes instâncias gramaticais, semânticas e ortográficas do termo atopos- desde o substantivo feminino atopia, até aos adjetivos, masculino e feminino, átopos, e o neutro átopon. Entre as diferentes
traduções que lhe são atribuídas, a palavra atopia é, em geral, traduzida como «sem-lugar», ou ainda, «não-lugar». Para além da ideia de «privação do espaço», «restrição» ou «inacessibilidade absoluta», a palavra convoca outros sentidos, como «incompreensibilidade», «estranhamento», «deslocação», atributo do que é «inclassificável» e «insituável» (e também, como «parte doente de um corpo»). A palavra atopótatos é designada para se referir àquele que é estrangeiro na própria cidade, evoca a simultaneidade do «próximo» e do «distante», do «espaço» e de sua «suspensão», demonstrando uma não- diretividade e uma perspetiva não-dicotómica da tensão intrínseca à noção. A elaboração da questão da insuportabilidade no pensamento blanchotiano supõe a compreensão de uma constituição atópica da «experiência da escrita»:
percebemos que, na impossibilidade, não é somente o caráter negativo da experiência que a tornaria perigosa, é o «excesso da sua afirmação» (o que há nesse excesso de irredutível ao poder de afirmar), e percebemos que o que emerge da impossibilidade não se subtrai à experiência, mas é a experiência do que não se deixa mais subtrair e não concede nem retirada, nem recuo, sem deixar de ser radicalmente diferente […]. Presente no qual todas as coisas presentes e o eu que nelas está subtraído são suspensos, todavia exterior a si próprio e exterioridade da própria presença; percebemos, enfim, aí, o ponto onde o tempo e o espaço se encontrariam na disjunção original: a «presença» tanto é a intimidade da instância como a dispersão do Fora (Dehors), mais estritamente é a intimidade como Fora, o exterior tornado a intrusão que sufoca e a inversão de um e de outro, aquilo a que chamámos «a vertigem do espaçamento»88 (Blanchot, 2009: 65)
Reconhecemos a noção de «atopia» no pensamento blanchotiano através da análise das ruturas que a «experiência da escrita» produz nas coordenadas do espaço e na supressão dos territórios. A suspensão da referencialidade topográfica presente na compreensão elaborada por Blanchot para pensar experiência da escrita implica uma redefinição da noção de «distância» e a contestação dos planos conceptuais que concebem a distância como o
88 Blanchot refere-se à afirmação da ideia de uma «vertigem do espaçamento» desenvolvida anteriormente no capítulo «La solitude essentielle», de L’espace littéraire, no qual relaciona a noção de «experiência» e a noção de «fora» [dehors], indicando-nos a questão da atopia: «Là où je suis, le jour n’est plus que la perte du séjour, l’intimité avec le dehors sans lieu et sans repos. La venue ici fait qui celui qui vient appartient à la dispersion, à la fissure où l’extérieur est l’intrusion qui étouffe, est la nudité, est le froid de ce en quoi l’on demeure à découvert, où l’espace est le vertige de l’espacement ». (Blanchot, 2014: 28)
espaço que separa o território circunscrito por um perímetro. A condição atópica da experiência – da escrita, da palavra e da distância subjacente ao diálogo entre duas diferenças – é exemplarmente pensada por Blanchot através da relação entre «mestre» e «aluno»:
A existência do mestre revela uma estrutura singular do espaço inter-relacional, no qual resulta que a distância do aluno ao mestre não é a mesma que a distância do mestre ao aluno – e mais ainda: que há entre o ponto ocupado pelo mestre, o ponto A, e o ponto ocupado pelo discípulo, o ponto B, uma separação e como que um abismo, separação que vai doravante ser a medida de todas as outras distâncias e de todos os outros tempos. Digamos mais precisamente que a presença de A introduz para B, mas em consequência também para A, uma relação de infinidade entre todas as coisas e, antes de tudo, na palavra que assume essa relação. […] O mestre não oferece nada a conhecer que não se mantenha determinado pelo «desconhecido» indeterminável que ele representa, desconhecido que não se afirma pelo mistério, pelo prestígio, a erudição daquele que ensina, mas pela distância infinita entre A e B. (Blanchot, 2009: 5)
A compreensão blanchotiana da noção de «distância infinita» formula-se a partir de uma análise crítica que rompe com o quinto postulado euclidiano.89 Deste modo, a afirmação de uma experiência que se funda sobre uma condição atópica da escrita convoca outros planos de compreensão da noção de «distância» que se aproximam das geometrias não- euclidianas ou que se fundam sobre a sua recusa. Blanchot desenvolve a ideia de distância infinita ao recusar o quinto postulado de Euclides, realizando uma abordagem conceptual que faz referência a três outras geometrias durante o século XIX: a geometria de Riemann, a geometria de Lobatchevksi-Bolyai ou «hiperbólica» e a geometria «projetiva». No primeiro caso, suspende-se o postulado euclidiano pela ideia de «ausência» de um plano unitário no qual as distâncias se produzem por um movimento elíptico; na compreensão hiperbólica rejeita-se a afirmação de uma relação de unidade entre dois termos a partir de uma «multiplicidade infinita» que a distância percorre e, em relação à geometria projetiva, reconhece-se uma grandeza abstrata e absoluta através da qual se determinam as distâncias:
89 « le cinquième postulat, appelé encore ‘le’ postulat d’Euclide, est le plus souvent énoncé sous la
forme : ‘par un point extérieur à une droite, on peut mener une parallèle et une seule à cette droite’. Pendant des siècles, à l’initiative d’Euclide lui-même, il fut l’objet de considérations particulières qui conduisirent, au XIXe, à l’élaboration des géométries non-euclidiennes ». (Bouvier; George; Lionnais, 1974: 276)
como novo postulado, se [numa reta] não podemos conduzir nenhuma paralela a essa reta, obtemos a geometria não-euclidiana de Riemann, chamada, ainda, elíptica. Se, ao contrário, exigimos que, por um ponto exterior a uma reta possamos conduzir duas paralelas distintas, demonstramos então que, por esse ponto, podemos conduzir uma infinidade de paralelas e obtemos a geometria de Lobatchevski-Bolyai, chamada também de hiperbólica. A geometria projetiva rejeita o quinto postulado de Euclides, mas não o substitui por nenhum outro. Deste modo, não é, em geral, qualificada como não-euclidiana, ainda que seja distinta da geometria euclidiana. (Bouvier; George; Lionnais, 1974: 509-510)
A partir dessa compreensão, a afirmação blanchotiana de uma «relação de infinidade» entre todas as coisas pressupõe uma transfiguração da noção de «distância» na qual a separação entre duas ou mais diferenças não se constitui através de uma linearidade diretiva (uma linha reta). O «espaçamento» entre duas ou mais diferenças não se assume como uma relação simétrica e equidistante entre dois pontos (A e B), Blanchot elabora uma compreensão da noção de distância que não pode ser medida através da determinação de pontos localizáveis numa reta ao considerar uma «potência de infinito» a partir da qual as relações são estabelecidas numa distância incomensurável. A distância entre dois ou mais pontos estará sempre implicada numa relação de infinidade (uma «relação exorbitante») que ultrapassa a possibilidade de situá-la numa extensão topográfica. O pensamento blanchotiano abandona o princípio da referencialidade simétrica e imediata subtendido pela definição da distância como uma linha reta entre dois pontos. Na perspetiva blanchotiana, a noção de distância supõe um espaçamento impossível de ser calculado ou situado num plano:
A relação da palavra na qual se articula o desconhecido é uma relação de infinidade; daí se segue que a forma pela qual essa relação se realizará deve, de uma maneira ou de outra, ter um índice de «curvatura» tal que as relações de A à B nunca serão diretas, nem simétricas, nem reversíveis, nem formarão um conjunto e não terão lugar num mesmo tempo, não serão, portanto, nem contemporâneas, nem comensuráveis. (Blanchot, 2009: 6)
As distâncias, tal como pensadas por Blanchot, são impossíveis de percorrer numa linha reta, uma vez que, para além de infinitas, são insuportáveis, estabelecendo uma relação entre as diferenças que ocorre através da própria ausência (impossibilidade) de relação. A distância entre duas ou mais diferenças será sempre infinita porque não admite nenhuma
forma de contacto, de passagem ou de troca entre as singularidades. Na análise blanchotiana, a distância não se define através da possibilidade de percorrer o espaço (uma extensão topográfica), mas como um espaçamento (uma suspensão do espaço, dos territórios e das suas coordenadas). As forças implicadas numa relação de infinidade entre as diferenças não são consideradas como termos ou como pontos referenciais, mas constituem-se como
singularidades abertas: «[c]omo se, no espaço-tempo inter-relacional, precisássemos pensar
sob uma dupla contradição, pensar o Outro – uma vez como a distorção de um campo todavia contínuo e como a deslocação, a rutura, da descontinuidade – a seguir como o infinito de uma relação sem termos e a infinita terminação de um termo sem relação» (Blanchot, 2009: 105) – uma insuportabilidade que ilimita as relações entre as diferenças sem, contudo, dissipá-las.
A análise da condição atópica da experiência da escrita evoca a sensibilidade de outros modos de deslocação (daquilo que não se desloca por transposição de pontos numa extensão dada). Percorrer uma distância infinita não será traçar uma linha entre dois pontos, mas habitar uma região sem pontos de referência, um espaço suspenso que se abre infinitamente (uma travessia sem passo). Neste espaçamento sem lugar (infinito, ilimitado) e sem linha divisória, orientar-se é expor-se ao risco da perda de sentido e à ameaça de um vasto abismo na tentativa de distinguir ínfimas nuances e intensidades da imensidão, como num vasto deserto branco:
[o] deserto não é ainda nem o tempo, nem o espaço, mas um espaço sem lugar e um tempo sem engendramento. Lá podemos somente errar e o tempo que passa não deixa nada atrás de si, é um tempo sem passado, sem presente, tempo de uma promessa que apenas é real no vazio do céu e na esterilidade de uma terra nua onde o homem nunca está lá, mas sempre fora. O deserto é esse fora onde não podemos permanecer, porque estar aí é estar sempre já fora. (Blanchot, 1971: 119)
Blanchot recorre frequentemente às imagens da vastidão branca e do deserto, ou ainda, da imensidão ondulatória de um meio oceânico, para pensar esta possibilidade de deslocação que se afirma como uma experiência das subtilezas insuportáveis, dos silêncios sufocantes e das existências quase impercetíveis. Neste contexto, os romances blanchotianos apresentam uma articulação entre lugar (topos) e a sua coincidência com um espaçamento vazio: o
espaço circunscrito e conhecido (o «quarto»90 – de hotel, de uma instituição, de uma casa) é, simultaneamente, um espaçamento infinito (uma imensidão desértica e labiríntica):
Para o homem mensurado e de medida, o quarto, o deserto e o mundo são lugares estritamente determinados. Para o homem desértico e labiríntico, destinado ao erro de um caminhar necessariamente um pouco mais longo do que a sua vida, o mesmo espaço será verdadeiramente infinito, mesmo se sabe que não o é e ainda mais porque saberá. […] Ao que se juntam esses traços singulares: do finito que é, no entanto, fechado, podemos sempre esperar sair, enquanto que a infinita vastidão é a prisão, sendo sem saída; da mesma maneira que todo lugar absolutamente sem saída se torna infinito. O lugar de deambulação ignora a linha reta; aí não vamos nunca de um ponto ao outro, não partimos daqui para ir além, nenhum ponto de partida e nenhum começo para o caminho. Antes de ter começado, recomeçamos; antes de ter realizado, repetimos. (Blanchot, 1971: 139-140)
90 A imagem do «quarto» como ponto de coincidência entre uma abertura infinita e um espaço de
confinamento, de loucura e de morte está intensamente presente nas obras blanchotianas; as
narrações, romances e textos literários fragmentários escritos por Blanchot apresentam frequentemente o espaço lacunar de uma «casa» ou de um «quarto» como um espaço de exílio, ou ainda, de institucionalização (asilos, reformatórios, hospitais, prisões, manicómios): um espaçamento sem referencialidade e absolutamente atópico: « v Il n’est pas vrai que tu sois enfermé avec moi et que tout ce que tu ne m’as pas encore dit te sépare du dehors. Ni l’un ni l’autre, nous ne sommes ici. Seules quelques-uns de tes mots y ont pénétré, et de loin nous écoutons » (Blanchot, 2013a [L’attente, L’oubli]: 24); « v La caractéristique de la chambre est son vide. Quand il entre, il ne le remarque pas : c’est une chambre d’hôtel, comme il en a toujours habité, comme il les aime, un hôtel de moyenne catégorie. Mais, dès qu’il veut la décrire, elle est vide, et les mots dont il se sert ne recouvrent que le vide » (Blanchot, 2013: 15); « v ‘Somme-nous ensemble ? Pas tout à fait, n’est- ce pas ? Seulement, si nous pouvions être séparés.’ – ‘Nous sommes séparés, j’en ai peur, par tout ce que vous ne voulez pas dire de vous.’ – ‘Mais aussi réunis à cause de cela.’ – ‘Réunis : séparés’ » (Blanchot, 2013: 33); «v Ils allaient, laissant venir, immobiles, la présence. – Qui pourtant ne vient pas. – Qui pourtant n’est jamais déjà venue. – D’où pourtant vient tout avenir. – Où pourtant s’efface tout présent. / ‘Par où passe le chemin ?’ – ‘Par votre corps confié, parcouru en ce dernier parcours.’ » (Blanchot, 2013: 119); « Je me suis enfermé, seul, dans une chambre, et personne dans la maison, au-dehors presque personne, mais cette solitude elle-même s’est mise à parler, et à mon tour, de cette solitude qui parle, il faut que je parle, non par dérision, mais parce qu’au-dessus d’elle veille une plus grande qu’elle et au-dessus de celle-ci une plus grande encore, et chacune, recevant la parole afin de l’étouffer et de la tarer, au lieu de cela la répercute à l’infini, et l’infini devient son écho» (Blanchot, 2003 [L’arrêt de mort]: 57); « Il continua avec ce nouvel outil à creuser les lignes ; leur enchevêtrement lui apparaissait toujours plus grand, il s’éloignait de plus en plus du point de départ, et les cercles qu’il traçait étaient comme les différents chemins d’un labyrinthe qui n’avait pas d’issue» (Blanchot, 2012 [Aminadab]: 234); «Vous en savez assez pour pressentir que les conditions matérielles y sont défectueuses et que pour cette maison on ne peut y rencontrer que le vide et le déserte» (Idem : 217); « Il voyait la salle telle qu’elle était, mais, au lieu d’y jouir tranquillement de son repos, il découvrait que le plancher était en pente et faisait glisser les objets vers les marches et la deuxième partie de la pièce. Il lui semblait – curieux vertige ! – qu’il était entraîné dans un lent mouvement qui l’obligeait à se tourner vers d’immenses espaces vides ». (Idem: 239)
Blanchot afirma a realidade de uma experiência atópica da escrita através da presença de hiatos entre o sono e o sonho, o cansaço e a força, numa dimensão sem dentro, nem fora, simultaneamente dentro e fora, no interstício.91 Os escritos blanchotianos traduzem esta relação através das perambulações labirínticas das personagens, das transmutações dos lugares e dos caminhos à deriva. Numa deslocação sem sequencialidade, o caminhar prescinde da continuidade e da mobilidade, os percursos são descontínuos e as passagens são fendas, lapsos, que reenviam para fora da possibilidade de se situar no espaço. As trajetórias rompem-se em pontos aleatórios, lançando-nos num retorno aos mesmos lugares que, contudo, nunca são os mesmo, em transfigurações estáticas e vertiginosas. Desta maneira, entendemos que percorrer uma distância infinita implica a insuportabilidade de uma experiência que suspende as palavras através de uma dissolução das coordenadas de sentidos. Percorrer uma distância infinita pressupõe, mais do que uma deslocação, um deslizamento, um desmoronamento, uma deriva na qual cada instante se desdobra e se declina em infinitas trajetórias, afastando-se dos pontos referenciais e produzindo séries múltiplas de fragmentos (superfícies sem suporte) da experiência da escrita. Blanchot assinala a presença destes deslizamentos atópicos que fraturam o espaço (e o tempo), por exemplo, na literatura de Borges (Aleph) e nos escritos de Michaux (sobre a mescalina):
[p]or um lado, pela fragmentação ao infinito, como se o tempo, segundo a exigência espacial, se dividisse em ínfimas unidades de tempo, sempre mais divisíveis; por outro lado, pela passagem ao limite, cada vez a continuidade é oferecida (e recusada) pela pura e excessiva sequência da descontinuidade; a intermitência, prodigiosamente
91 A condição atópica da experiência da escrita desenvolve-se no pensamento blanchotiano através
da noção de «fora» [dehors], a exigência de pensar as forças que atraem a escrita para fora do conhecido e fora da possibilidade; «l’impossibilité n’est rien de plus que le trait de ce que nous nommons facilement l’expérience, car il n’y a expérience au sens strict que là où quelque chose de radicalement autre est en jeu. Et voici la réponse inattendue : l’expérience radicale non empirique n’est nullement celle d’un Être transcendant, c’est la présence ‘immédiate’ ou la présence comme Dehors. […] De sorte que nous serons tenté de dire provisoirement : l’impossibilité est le rapport avec le Dehors et, puisque ce rapport sans rapport est la passion qui ne se laisse pas maîtriser en patience, l’impossibilité est la passion du Dehors même » (Blanchot, 2009: 66) ; « L’œuvre apprivoise momentanément ce ‘dehors’ en lui restituant une intimité […]. Mais ce qu’elle enferme est aussi ce qui l’ouvre sans cesse» (Blanchot, 1959: 58). « L’extériorité qui exclut tout extérieur et tout intérieur, comme elle précède leur succédant et les ruinant tout commencement et toute fin, et telle qu’elle se dérobe sous la révélation qui la représente à la fois comme loi là où toute loi est défaillante, comme retour là où manque toute venue, comme Même éternel quand la non-identité s’y démarque sans continuité sans interruption, comme répétition là où rien ne se compte : voilà le ‘concept’ (non conceptualisable) qui devrait nous aider à nous maintenir, nous les nommés, auprès de l’hôte inhospitalier qui nous a toujours précédés dans notre maison ou dans notre moi […] ». (Blanchot, 1984: 54)
sucessiva, é o ininterrupto que sempre já arruinou e pulverizou de antemão o todo em mais que tudo, em menos que nada. (Blanchot, 2010: 266)
Blanchot reconhece, neste contexto, duas direções opostas que se impõem e se revezam na tradição filosófica ocidental face à exigência de pensar uma potência de infinito como propriedade da realidade: a procura por uma i) «linguagem esférica» que termina por reduzir a descontinuidade fundamental das distâncias infinitas à ideia de um desenvolvimento simples; e tentativa de instituição da ii) «palavra imediata» que arrisca se tornar uma justaposição de termos indiferentes ou produzir uma continuidade de outro tipo, na qual o imediato significa a ausência de interrupção. Ambas ignoram que a relação de infinidade que se instaura entre «experiência» e «escrita» não é nem absolutamente contínua, nem absolutamente descontínua, mas uma implicação dissimétrica e sem reciprocidade.
[O] que é impressionante, e também compreensível, é que as soluções [para a questão de uma relação de infinidade] são procuradas em duas direções opostas. Uma comporta a exigência de continuidade absoluta de uma linguagem que poderíamos chamar esférica (como Parménides, o primeiro a propor a fórmula). A outra comporta a exigência de uma descontinuidade mais ou menos radical, aquela de uma literatura de fragmento (predomina tanto nos pensadores chineses como em Heraclito, e os diálogos de Platão também a refere: Pascal, Nietzsche, George Bataille, René Char mostram a sua persistência essencial. (Blanchot, 2009: 6)
A conceção blanchotiana de escrita pressupõe os desdobramentos de uma «experiência da palavra» que se assume como uma relação dissimétrica e que se estabelece através de uma distância infinita, afirmando uma distância incomensurável que palavra percorre. A experiência da palavra suscita uma relação com a insuportabilidade de um abismo cujos limites são infinitos: «¨ [h]averia uma discrepância do tempo, como uma discrepância de lugar, sem pertencer nem ao tempo nem ao lugar. Nessa discrepância, nós chegaremos a escrever» (Blanchot, 1984: 100); uma erosão espaciotemporal condicional das relações entre «palavra» e «escrita». A «experiência da palavra» e a «experiência da literatura» estão implicadas numa relação insustentável com a proliferação infinita de forças escritas (do mundo), demonstrando a impossibilidade de reunião (de circunscrição) dessas forças num resultado da linguagem e da criação literária: «[a]ssim, o mundo, se pudesse ser exatamente traduzido e repetido num livro, perderia todo o começo e todo o fim, e tornar-se-ia esse volume esférico, finito e sem limite, que todos os homens escrevem e onde são escritos; não
seria mais o mundo, seria, será o mundo pervertido na soma infinita dos seus possíveis»