IV.2 Fundação e conversão
IV.2.1 Escrita e conversão
Manuel da Nóbrega, no Diálogo sobre a conversão do gentio constitui o índio, assim como o português, como um ser semelhante a “bestas por natureza corrupta” 227. Os
jesuítas, opondo-se à tese colonialista e herética de que os índios não teriam linguagem228, dizem que um dos principais indícios de sua bestialidade é sua língua, desprovida de Bem, portanto desmemoriada de Deus. Segundo Hansen, “a concepção jesuítica tem fundamento agostiniano [Sto. Agostinho, De trinitate, XV, XIII, 22] e pressupõe que é da visão interior daquilo que se sabe que nasce a visão do que se pensa e, portanto, daquilo
Deus, São Paulo, Herder, 1965, p.16.
225Frei Vicente do Salvador, História do Brasil (1500-1627), 4ª ed., São Paulo: Melhoramentos, 1954. 226 Ernst H. Kantorowicz, Os dois corpos do rei—um estudo sobre teologia política medieval, p.135. 227 Nugueira: — Despois que nosso pai Adam pecou (...), foi tornado semelhante à besta, de maneira que todos, asi Portugueses, como Castelhanos, como Aimurés, ficamos semelhantes a bestas por natureza corrupta, e nisto somos semelhantes. Manuel da Nóbrega, “Diálogo sobre a conversão do gentio”. p.333 228 Diz o huguenote Jéan de Léry, calcado na Escolástica calvinista: “Por mim reputo certo descender essa pobre gente da raça maldita de Cham, mas isso não basta para abalar minha fé, graças a Deus, firme e segura. E não concluo, com os epicuristas, que não existe Deus, porém, ao contrário, que há grande diferença entre as pessoas iluminadas pelo Espírito Santo e as Santas Escrituras e os indivíduos abandonados à cegueira de seus sentidos.” Jean de Léry, Viagem à terra do Brasil. p. 221-222.
que se expressa”.229 Sendo as práticas indígenas como a poligamia, a antropofagia e a nudez, para citar algumas, consideradas abomináveis, evidencia-se, desta forma, para o Padre, o afastamento dos índios do Bem: eles não conseguem pensar segundo a ordem da verdade eterna e necessária.
Cabe então uma questão; se os índios, assim como os portugueses e castelhanos são tidos como “bestas por natureza corrupta”, após a queda de Adão, será que como no dizer do P. Gonçalo Alvarez do “Diálogo sobre a conversão do gentio”:
Gonçalo Alvarez: – Estes têm alma como nós? 230
Após o primeiro encontro com o gentio, comparado a “besta”, portugueses e espanhóis questionam sua humanidade, já que se havia constatado que os habitantes do chamado Novo Mundo, assim como os negros, eram filhos de Cam, um dos três filhos de Noé, que por ter visto a nudez do pai, foi amaldiçoado, bem como todos seus descendentes. Mas como provar que os índios tinham alma, portanto eram homens e podiam ser convertidos? Para Nugueira, a resposta à pergunta de Gonçalo Alvarez era simples:
Nugueira: – Isso está claro, pois a alma tem tres potentias, entendimento, memoria,
vontade, que todos tem.231
Possuidor das três potências definidoras da alma — memória, entendimento e vontade —, o índio poderia ser convertido após a catequese e, então, conduzido ao corpo místico do império português232, porém obedecendo a uma hierarquia, a uma analogia proporcional.
229 João Adolfo Hansen, op. cit., p. 14 230 Manuel da Nóbrega, op.cit., p.332. 231Manuel da Nóbrega, op. cit., p.332
Esta prática, segundo Alcir Pécora, “representa a mais alta finalidade do descobrimento”233.
No entanto, os jesuítas encontravam obstáculos à conversão do gentio. Apesar de um bom entendimento, os índios possuíam memória e vontade fracas. No “Diálogo sobre a conversão do gentio”, Nugueira alerta Gonçalo sobre a inconstância do gentio, dizendo que tantos quanto forem convertidos, serão desconvertidos, “por serem inconstantes, e não lhes entrar a verdadeira fee nos coraçõis” 234. Mais adiante Gonçalo Alvarez,
concordando com Nugueira, conta o caso de um índio, que criou desde criança, mas que acabou voltando para os seus 235, e conclui dizendo:
Gonçalo Alvarez: [...] Sabeis qual hé a maior dificuldade que lhes acho? Serem tam
faciles de diserem a tudo si ou pâ [sim], ou como vós quizerdes; tudo aprovão logo, e com a mesma facilidade com que dizem pâ, dizem aani [não]. [...] 236
Outro obstáculo, além da inconstância 237, porém relacionado a ela, era a ausência de categorias cristã-ocidentais, como pecado, Deus, diabo e Jesus, para citar algumas. Na distinguem “uma ‘multidão de homens’, como ‘agregado qualquer sem nenhuma ordem ou união física e moral’, de um ‘corpo místico’ justamente na medida em que este, ‘mediante uma vontade especial ou de comum acordo’ reúne estes homens em ordem a um ‘corpo político, por meio de um vínculo social para se ajudarem mutuamente em ordem a um único fim político’. Alcir Pécora, op.cit, p.458.
233 Ibid, p.428.
234 Manuel da Nóbrega, op.cit, p. 320. 235 Ibid, p.321-322.
236 Ibid, p.322.
237Para o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, em seu artigo sobre a inconstância dos índios — um dos principais obstáculos encontrados pelos jesuítas à conversão do gentio —, a conversão só foi completa no momento em que os índios abandonaram seus hábitos contra-natureza, principalmente a antropofagia. Porém, para Eduardo Viveiros de Castro, o fato de não possuírem a letra ‘R’, como diria Gandavo, ou seja,
desconhecendo a noção de rei, não podiam perseverar em sua palavra: porque não tinham rei, desacreditavam nos padres; porque não o tinham, acreditavam. Para o autor, a ausência das três letras estava causalmente encadeada: “não tinham fé porque não tinham lei, não tinham lei porque não tinham rei.” Por isso a
inconstância do índio e, segundo Nóbrega, a facilidade com que diziam, ao mesmo tempo, ‘sim’ e ‘não’. Cf. Eduardo Viveiros de Castro, O mármore e a murta: sobre a inconstância da alma selvagem,p.38.
poesia tupi anchietana encontramos passagens que exemplificam a solução encontrada para este problema: “peimoeté paí Iesu” (v. 610); “São Lourenço, añé oipirú” (v. 613)238.
No entanto, os jesuítas aproveitaram-se do temor dos índios por Tupã (o trovão), e por
anhanga (ser fantástico da floresta), para definir respectivamente as categorias Deus e
Diabo. Deste modo, a partir da poesia tupi e, principalmente, do auto, que além da palavra tem o auxílio da imagem, é criada uma “memória artificial” e o gentio passa então a relembrar as categorias, ritmos e hábitos, que, segundo os jesuítas, estavam esquecidos em suas almas.
Desta forma, o auto, assim como outras práticas textuais quinhentistas, fazia parte de um projeto retórico e político-teológico de condução do gentio ao corpo místico do império português, definindo seus inimigos, escrevendo a história destas terras recém descobertas, restituindo, grafando sua memória.