1. DO JUDAÍSMO E SUA INSCRIÇÃO NA LITERATURA BRASILEIRA:
1.3 Escrita e silêncio: a dupla marca do trauma
A Shoah, como vimos, constitui um evento cuja compreensão nos escapa (Cf. MARRUS, 2003). Bastaria isso para que fosse silenciado qualquer discurso que se levantasse na tentativa de explicá-la, ou representá-la para os que não a vivenciaram. No entanto, ela permanece viva nas narrativas tanto testemunhais quanto literárias que tematizam a condição ou a identidade diaspórica e, portanto, fraturada do judeu. É sobre esse terreno ambivalente que se assenta um dizer difuso, entre a escrita (faltante, por natureza) e o silêncio (consequência da indizibilidade do evento traumático).
Isso se dá porque, de acordo com escritores como Elie Wiesel e Primo Levi25, sobreviventes de campos de concentração alemães, o testemunho configura-se como um dever para aquele que sobreviveu ao extermínio implementado pelos nazistas contra o povo judeu. Wiesel (In: VIEIRA, 1994, p.23), ao tentar explicar de onde vem sua pulsão para a escrita, afirma: “nunca pretendi ser filósofo ou teólogo. O único papel que procurei foi o de testemunha. Eu acreditava que, tendo sobrevivido por acaso, era minha obrigação dar significado à minha sobrevivência [...]”. Logo, após esse evento, o compromisso com a transmissão, que já se apresentava como um elemento constituinte da condição judaica, tornou-se ainda mais representativo para esse povo, sobretudo em virtude da necessidade de transmitir aos jovens o legado traumático do Holocausto.
No entanto, testemunhar não é uma tarefa fácil ou imune a problematizações. Para Levi, aquele que consegue testemunhar somente o faz por não ter vivido o todo. Lilenbaum (2007, p.2), esclarece: “a vivência dessa experiência-limite poderia ocorrer em vários graus, e os que conseguem verbalizar teriam vivenciado um grau menor do que os que não conseguem expressá-la”. São palavras de Levi (apud HOBSBAWN, 1995, p.11):
25
Químico judeu italiano que se tornou escritor após sobreviver ao genocídio perpetrado pelos nazistas, tendo sido aprisionado no campo Auschwitz-Monovitz.
Nós, que sobrevivemos aos Campos, não somos verdadeiras testemunhas. Esta é uma ideia incômoda que passei aos poucos a aceitar, ao ler o que outros sobreviventes escreveram – inclusive eu mesmo, quando releio meus textos após alguns anos. Nós, sobreviventes, somos uma minoria não só minúscula, como também anômala. Somos aqueles que, por prevaricação, habilidade ou sorte, jamais tocaram o fundo. Os que tocaram, e que viram a face das Górgonas, não voltaram, ou voltaram sem palavras.
Para o escritor, as verdadeiras testemunhas perderam o poder da linguagem, pois transmitir seria um esforço que sempre esbarraria na condição inimaginável do evento narrado. Nesse sentido, conforme Seligmann-Silva (apud LILENBAUM, 2007, p.2), ao observarmos aqueles que sobrevivem e não conseguem dar voz à experiência, há pelo menos duas maneiras de compreender essa incapacidade: “ou é do sobrevivente, que sofreu tamanho trauma a ponto de virar uma testemunha incapaz de testemunhar, ou é da própria linguagem, que não possui aparato linguístico e conceitual à altura da intensidade do evento”. De acordo com esse pensamento, o silêncio, embora não seja uma escolha, seria um modo de atestar que a experiência foi tão extrema que é inenarrável ou mesmo que, ainda que se pudesse narrar, as palavras são – por natureza – faltantes (Cf. PERRONE-MOISÉS, 2006) e, em razão disso, jamais conseguiriam traduzi-la. Vale considerar que, conforme aponta Nora Levin (apud MARRUS, 2003, p.27), “ninguém consegue compreender como um assassinato em massa em tal escala possa ter acontecido ou como se possa ter permitido que acontecesse”. De acordo com essa constatação, qualquer escrita possível será “visceralmente tensa” (LESSA In: FUKS, 2005, p.40), visto que, por mais que procure indicar um norte para a compreensão desse evento, sempre constituirá um hiato entre o fato e sua representação.
No que tange à existência dessa fissura, vale assinalar que, de início, as narrativas que se debruçavam sobre o sofrimento vivenciado pelos judeus nos campos de concentração, eram exclusivamente testemunhais (Cf. IGEL, 1997). Aqueles que escreviam procuravam fazê-lo do modo mais comprometido possível com a vivência dos fatos, o que nos permite perceber que tal literatura surge sob o impulso da reminiscência. Conforme Lilenbaum (2007, p.2), “a
partir da Shoah, evidentemente, estamos falando de uma literatura de testemunho que surge, com a força e a perplexidade paralelas à catástrofe que representa. Ou tenta representar”. Embora inimaginável e incompreensível (conforme defendem sobreviventes como Levi e Wiesel), o genocídio se torna matriz geradora de diversos discursos. No entanto, as fissuras existentes entre a palavra e o fato promovem o questionamento sobre a possibilidade de se narrar tal evento. “Como falar de um evento que, no limite, é indizível e irrepresentável, segundo padrões ordinários de causa e efeito?” (LESSA In: FUKS, 2005, p.230). Perguntas desse tipo são reiteradas incessantemente pelos que se propõem a tentar entender a natureza do impulso que gera narrativas experienciais/testemunhais influenciadas pelo terror do genocídio. Isso se dá porque o ato de narrar a história sob o signo do trauma desafia duplamente o poder da linguagem: o trauma complexifica ainda mais o fato histórico (Cf. SELIGMANN-SILVA, 1999), ao passo que a linguagem continua faltante por natureza para poder dizer dele. Em virtude disso, o verdadeiro sobrevivente (concepção defendida por Levi) vivenciaria a “impossibilidade de comunicar o terror da experiência. O silêncio [portanto] fica no lugar das palavras, incapazes de representar a dimensão do ocorrido” (LILENBAUM, 2007, p.4). No entanto, por mais indizível que seja o evento traumático, contraditoriamente, o impulso para a escrita continua a fazer-se presente. Diante desse dilema, por mais difícil que seja, segundo o pensamento de Lessa (In: FUKS, 2005, p.230, grifo do autor), os judeus têm “que falar da Shoáh, posto que ela [...] [lhes] pertence identitariamente”.
Pode-se recordar, então, o compromisso que o povo judeu estabelece com a memória e, em virtude disso, compreendem-se as narrativas dos sobreviventes como um ato de justiça não apenas com os que foram dizimados, mas com a própria tradição de zakhor (em hebraico, lembrar) que contribui para fundar o judaísmo. Os atos de lembrar, contar, conservar são caros ao povo judeu, especialmente àqueles que fizeram a promessa de recordar por terem sobrevivido ao genocídio. Nas palavras de Wiesel (In: VIEIRA, 1994, p.25):
Se digo que o escritor em mim quer permanecer leal, é porque é verdade. Esse sentimento move todos os sobreviventes: eles não devem nada a ninguém, mas tudo aos mortos.
Devo a eles minhas raízes e minha memória. Tenho a obrigação de servir-lhes de emissário, transmitindo a história do seu desaparecimento, mesmo que perturbe, mesmo que cause dor. Não fazê-lo seria traí-los e a mim mesmo. [...] Eu os vejo e escrevo”.
Conforme Wiesel aponta, o sobrevivente traz em si o compromisso com a voz de todos aqueles que foram silenciados e, por essa razão, certamente, a escrita não é signo de satisfação, mas constitui uma experiência dolorosa; e, além disso, perturbadora, pois o embate com uma linguagem que não dá conta da experiência é constante. Logo, essa atividade não é simples ou destituída de problematizações e conflitos, mas encarna a necessidade paradoxal de dizer o indizível. O testemunho é visto, então, como uma alternativa possível para vingar o que houve por meio da linguagem. Contudo, como se sabe que sempre há algo que escapa ou ultrapassa o poder das palavras, Lilenbaum (2007, p.3) aponta uma possibilidade: “se o testemunho carrega o limite da linguagem, e precisamente da linguagem literal, realista, talvez a possibilidade de expor o infinito devesse ficar a cargo das artes”. E, nesse caso, a representação sofreria uma subversão: o escritor buscaria a justiça por um caminho figurativo, e não estritamente literal ou realista. Para o romancista israelense, A.B. Yehoshua, essa via de representação da catástrofe encontra mais possibilidades ao passo que os escritores se distanciam temporalmente do evento. Para ele, “à medida que diminui o número de testemunhas oculares sobreviventes do período, mais livre estará a imaginação humana em sua tentativa de conseguir a compreensão” (YEHOSHUA apud MARRUS, 2003, p.35). Segundo esse pensamento, o evento em questão seria, talvez, mais bem representado através da ficção, visto que esta seria capaz de especular de modo mais verticalizado a condição humana que se coloca na superfície das letras e, com isso, expandiria as possibilidades de compreensão do narrado.