2.6 Parte V – (Cri)atividade escrita no espaço sócio-escolar: a questão do
2.6.4 Escrita enunciativa: autoria, singularidade e subjetividade no processo
Neste tópico, problematizamos a escrita enunciativa, de maneira que estabelecemos uma relação aproximativa entre autoria, singularidade e subjetividade em contiguidade com a noção de enunciação benvenistiana, considerando que essa aproximação permite-nos pensar sobre os aspectos iterativo e inventivo da linguagem na produção escrita.
Ao mobilizarmos a noção de escrita enunciativa, baseamo-nos na questão da irrepetibilidade em Benveniste (2006 [1965]), pois consideramos que a escrita enunciativa está em relação direta com a noção de irrepetibilidade que é da ordem da enunciação, dado que Benveniste mantém a noção de irrepetibilidade a partir da noção de enunciação que se instaura no tempo da enunciação, em referência ao locutor (eu), ao co-locutor (tu), ao ele (não-pessoa do discurso) e ao lugar (aqui). Por conseguinte, essas referências o ―eu‖, o ―tu‖, o
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―ele‖, o ―aqui‖, e o ―agora‖ imbricam-se na ordem de um novo ato, conforme certifica o seguinte dizer:
Ora, este ato de discurso que enuncia eu aparecerá, cada vez que ele é reproduzido, como o mesmo ato para aquele que o entende, mas para aquele que o enuncia, é cada vez um ato novo, ainda que repetido mil vezes, porque ele realiza a cada vez a inserção do locutor num momento novo do tempo e numa textura diferente de circunstâncias e de discursos. (BENVENISTE, 2006 [1965], p. 68).
A escrita enunciativa, então, estaria para a materialidade desse ato de discurso que enuncia ―eu‖. Ela é representada por palavras escritas que significam, posto que ―saíram do mundo das relações vivas‖ (BENVENISTE, 2014 [1968-1969], p.172). Por esse motivo, podemos (re)(s)significar, a partir de Benveniste, a noção de autoria, dado que estamos atribuindo à escrita uma estreita relação com a enunciação que é da ordem do irrepetível, produzindo, com efeito, um sujeito único, singular. Disso, presumimos que autoria, singularidade e subjetividade constituem, pois, as categorias que compõem a escrita enunciativa.
Constitutivamente, essa escrita abre para a (cri)ação, já que o scriptor sempre lida com o novo, o irrepetível. Podemos pensar, a título de exemplificação, na produção escrita em que há a repetição de uma mesma temática. A produção escrita do aluno – locutor-scriptor – independentemente de ela configurar-se na repetição do tema – a cada ato constitui-se em um ato novo e singular, no ―aqui‖ e ―agora‖.
Sobre esse traço, ato novo e singular, no ―aqui‖ e ―agora‖, há uma passagem de Barthes (2012 [1968]) sobre o scriptor moderno e que nos interessa por manter uma estreita relação com a enunciação benvenistiana que é da ordem de uma irrepetibilidade. Barthes (2012) afirma que o nascimento do scriptor funde-se com o nascimento do texto, ―não é de modo algum o sujeito de que o seu livro seria o predicado; não existe outro tempo para além da enunciação, e todo o texto é escrito eternamente aqui e agora‖ (BARTHES, 2012 [1968], p.61, destaque do autor). Com essa asserção, Barthes deixa-nos escapar que ―a autoria poderia ser entendida como um efeito de enunciação‖ (FLORES, 2008, p.256).
Nesse sentido, ao fazermos referência a Barthes, um leitor benvenistiano, não temos a pretensão de atribuir à noção de nascimento da escrita – assim como fez Barthes, a partir a noção de enunciação de Benveniste – uma maneira de pensar a morte do autor, como atesta o dizer barthesiano: ―a voz perde a sua origem, o autor entra na sua própria morte, a escrita começa‖ (BARTHES, 2012 [1968], p.58).
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Queremos reafirmar que, neste estudo, abrigamo-nos sobre a noção benvenistiana de sujeito que se constitui na e pela língua e, portanto, é um efeito. Desse modo, a existência desse sujeito manifesta-se a partir do momento de apropriação da língua pelo locutor que, virtualmente ou não, projeta o alocutário, o outro (o tu). Esse ato traduz a efetiva realização linguística, tanto para a enunciação falada quanto para a enunciação escrita (relação entre uma e outra que nos parece constituir espaços de continuidade). Em consequência, o locutor e o alocutário, apropriando-se de um sistema linguístico, imprimem suas realizações, enquanto experiência de linguagem que revela a experiência subjetiva e, com efeito, a (cri)ação.
Tomemos o trabalho de Flores (2008), intitulado de ―Enunciação, singularidade e autoria‖. Nele há um interesse desse autor em colocar em implicação a noção de autoria e a ideia de singularidade sob uma perspectiva enunciativa. Conforme já apontamos, Flores (2008) retoma a noção de autoria em Barthes (2012, [1968]), com o intuito de elucidar que essa noção poderia ser comparada a ―um efeito de enunciação‖ (FLORES, 2008, p.257), para, em seguida, promover um deslocamento que produza a compreensão de autoria e singularidade sob o viés enunciativo de Benveniste.
Para a noção de autoria tornar-se identificável, Flores (2008, p.256) coloca-a numa configuração em forma de nó, em três pontas: ―a ponta do autor; a ponta do leitor; a ponta do texto‖. Dessa maneira, a autoria estaria para o funcionamento (imbricamento) simultâneo desses três elementos constituintes no tempo da enunciação que, em Benveniste (2006, 2005), estaria para o irrepetível, pois o ―aqui‖ e o ―agora‖, respectivamente espaço e tempo, são únicos e irrepetíveis e, por conseguinte, singulares.
A partir disso, Flores (2008) procede a uma elaboração da noção de autoria pela via da enunciação benvenistiana, cuja definição tornamos a dizê-la: ―é este colocar em funcionamento a língua por um ato individual de utilização‖ (BENVENISTE, 2006 [1970], p. 82). Desse conceito, segundo Flores, depreendem-se o princípio da generalidade e o da especificidade. Tais princípios aplicam-se em razão de que, ao mesmo tempo, estão em funcionamento o universal e o particular. Por universal, compreendem-se os dispositivos que todas as línguas possuem e permitem a utilização singular pelos sujeitos; por particular, o modo de configuração dos sistemas linguísticos (como o das línguas particulares) e o uso específico, o manejo da língua, que os sujeitos fazem desses sistemas.
Dito isso, baseando-se nessa conceituação de enunciação em Benveniste, Flores procura reestruturar a noção de autoria. Tal movimento, conforme apresentado no parágrafo anterior, chama a si a noção de singularidade e aponta-nos para uma posição que nos diz respeito ao fato de que, ao convocar para si o geral e o específico, a enunciação ―pode abrigar
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a generalidade do específico‖ (FLORES, 2008, p.262), porque estamos lidando com a língua em funcionamento, e cada um fala essa língua de modo específico e irrepetível.
Como vimos, essa generalidade da especificidade é resultante da singularidade e pode ser entendida metaforicamente, segundo Flores, como ―uma espécie de um ‗funil‘‖ (FLORES, 2008, p.265, destaque do autor). O funil representaria o lugar onde o sujeito faz passar a língua na tentativa de promover um sentido; como efeito o monossemismo. De outra maneira, ao fazer o uso inverso desse funil, o sujeito promove abertura para o sentido em vista da polissemia. ―A tentativa de dar direção ao sentido‖ representaria, para Flores (2008, p. 265,
destaque do autor), o estatuto geral da singularidade enunciativa, e, desse modo, o conceito de enunciação é (re)(s)significado como ―o ato mesmo de tentar escolher a ‗palavra certa‘, de dar direção ao sentido‖ (FLORES, 2008, p.267, destaque do autor). e, mais precisamente, de ―uma tentativa de afunilar o sentido‖ (FLORES, 2008, p.268), posto que sempre nos deparamos com a impossibilidade de cercear a integralidade do sentido pretendido.
Sobre essa tentativa de dar direção ao sentido, Benveniste (2006 [1966], p.229) afirma que a frase é ―a expressão semântica por excelência‖. Essa afirmação deixa clara a posição de Benveniste em situar a frase no nível semântico, pois a frase está atrelada à língua em funcionamento e, consequentemente, o falante é quem a agencia. Desse modo, a definição de frase, em Benveniste (2006 [1966], p.229), dá-nos a possibilidade ―para nos mantermos no essencial, a produção do discurso‖. E é a partir dessa produção que é compreensível o entendimento sobre a tentativa de o locutor que se coloca na língua em ação dar ao que ele produz certa intenção, isto é, o sentido intentado, intencionado, ―do que o locutor quer dizer, da atualização de seu pensamento‖. A frase, então, implica referência à atitude do locutor, do intentado, e à situação do discurso que está para o ato discreto, sempre único de produção do discurso.
Desse movimento, decorre a premissa de que a enunciação está para a ordem do singular, do irrepetível. Por conseguinte, autoria estaria para o efeito, a saber: ―efeito de uma prática generalizada do sujeito na linguagem: a prática de enunciar‖; e ―efeito decorrente da busca de se singularizar na língua‖ (FLORES, 2008, p.267).
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Logo, se a autoria é um efeito de o sujeito singularizar-se na língua, esse efeito é que permite ao locutor-scriptor a (cri)acão. Portanto, a enunciação, por ser da ordem do irrepetível, permite vincular singularidade à autoria, cujo efeito, a nosso ver, é a abertura para a (cri)ação84 própria de cada sujeito que é único.
Feitas essas observações, ressaltamos que desejamos que a nossa análise corresponda aos objetivos propostos e, assim, possa contribuir com reflexões sobre o ensino de escrita em Língua Portuguesa na Escola, considerando o espaço da singularidade do sujeito na língua em funcionamento – visto que a própria língua reclama esse espaço singular (único) e subjetivo do sujeito nela – . É salutar, sim, que nos atentemos a essa demanda que, de certa maneira, é constitutiva da língua, não obstante a um cenário sócio-institucional da Escola em que não há um (re)conhecimento85 do campo enunciativo benvenistiano em favor do ensino de escrita no espaço sócio-escolar.