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A escuta do interior do aparato e a escuta reduzida de Pierre Schaeffer

2. CAPÍTULO 1: A NATUREZA DA REPRESENTAÇÃO MUSICAL NA MÚSICA

2.1 Parte 1 Modelos de Representação: do gesto musical à realização da música

3.1.4 A escuta do interior do aparato e a escuta reduzida de Pierre Schaeffer

A situação de escuta do concerto de música concreta reflete, em certa medida, o conceito schaefferiano da escuta reduzida, que tenderia a uma postura de escuta que tem o som gravado como um dado objetivo, transferindo-o à categoria de objeto e apontando para uma relação analítica. Parece assim significativa a semelhança da proposição de Schaeffer com a auscultação: tanto para o diagnóstico de Laennec, médico inventor tanto do estetoscópio quanto da auscultação mediada, quanto para o exercício da escuta reduzida, o acusmatismo é uma condição fundadora de um método62 que visa isolar

objetos sonoros convenientes para cada caso: em Laennec, a descrição fisiológica; em

62 No caso de Schaeffer, a escuta reduzida só se dá a partir de reiteradas audições de um mesmo material sonoro gravado - portanto objetivamente idêntico nas versões, sempre distintas, de quem o escuta, ou de um ouvinte para outro. O objeto sonoro seria assim como que um substrato da experiência de acesso ao som gravado enquanto dado, diríamos, formal para a percepção, ou seja, como resultado de um exercício de escuta (a escuta reduzida) que busca isolar o som de seus correlatos causais (o som como índice: cf. Schaeffer, 1966, p. 268; nota 2) e semânticos, tentando também abstrair (ou reduzir) a variabilidade fenomênica, inerente tanto à escuta direta (não mediada) quanto aos diversos vieses decorrentes da experiência subjetiva de cada aparição de um mesmo fenômeno sonoro. A gravação garantiria objetivamente (isto é, para fora do sujeito que escuta) a repetição idêntica de um mesmo trecho sonoro; a intencionalidade da redução propiciaria tal isolamento semântico e causal. O acusmatismo, assim, a rigor não funda o método da escuta reduzida, mas como decorre da gravação sonora, é inerente a ele.

Schaeffer, a fundação de uma poética musical. Conforme Fernando Iazzetta, no caso da escuta reduzida “o ouvinte se livraria das referências contextuais da produção sonora e recriaria seu próprio ambiente acústico concentrado nas qualidades sonoras daquilo que ouve” (IAZZETTA: 2010, p. 73). Sterne por sua vez observou, na leitura do Treatise on the Diseases of the Chest and on Mediate Auscultation, de Laennec, uma tendência a tornar absoluta a interpretação do diagnóstico médico a partir apenas do método da auscultação em detrimento da narrativa do doente63 – focalizando a escuta nos caracteres acústicos

que levem ao diagnóstico. Em ambos os casos, portanto, o ouvinte é isolado de elementos contextuais, ou de qualquer outra significação que não a interpretação do som por si mesmo, indício apenas de sua causa material (no caso de Laennec), mas igualmente tomado como elemento objetivo. Ambos os esforços, além disso, tendem a uma discretização e um posterior léxico dos sons, tomados aqui apenas pela sua materialidade (e, no caso de Laennec, signos de uma patologia ou de um funcionamento específico do organismo). Tal racionalização, manifesta na tipo-morfologia do objeto sonoro, etapa primordial da “pesquisa musical”, é significativa na nossa análise da escuta proposta pela Symphonie se resgatarmos o projeto schaefferiano, no texto sobre as “artes-relé”, de construção de uma linguagem a partir destes meios que se exprimem 'concretamente'.

Tem-se aqui um esforço pela descrição dos sons tomados de modo autônomo e descontextualizado, cujo acesso se daria pelo aparato de gravação tanto pela situação acusmática inerente a este meio quanto pela idêntica reprodutibilidade. As “artes-relé”, reflete Schaeffer, “trazem imagens,[e] sons que seriam tão informes quanto o mundo se não nos esforçássemos em fazê-los dizer alguma coisa e unirem-se dessa vez às nossas ideias”. (Schaeffer, 2010, p. 74). A “(…) linguagem é propriamente simbolista e idealista, ela produz signos; o rádio e o cinema são realistas e naturalistas, eles não são signos do homem, mas sinais que lhe enviam os objetos” (idem, ibidem). Estes sinais, embora distantes enquanto “signos do homem”, são indícios 'diretos' dos objetos do mundo por serem ligados à sua materialidade (e portanto dirigidos ao sensível).

O texto schaefferiano de 1941-42 também traz uma concepção similar quanto aos sons tomados concretamente, que ali significam. Não é sem admiração que descreve os sons de uma “folha de papel amassada”, ou das particularidades de uma leitura

63 “O exemplo mais marcante deste novo procedimento da escuta médica estava na própria voz: enquanto antes os médicos estiveram interessados na voz dos pacientes por aquilo que eles narravam [da própria doença], agora estavam interessados somente no conteúdo sônico da voz” STERNE: 2003, p. 128.

transmitida pelo rádio,

(...) de modo que se deve ter em mente não serem textos o que o rádio nos fornece, mas um texto falado, absolutamente concreto, isto é, um texto no qual a menor inflexão, a menor acentuação, pode não apenas desequilibrar imediatamente a organização formal da frase, mas mudar-lhe o sentido ou deturpar-lhe a intenção. (SCHAEFFER: 2010, p.72)

Entretanto, sua tese central permanece na direção de se estabelecer uma linguagem a partir destes registros concretos, em “reencontrar o pensamento a partir das coisas” (SCHAEFFER: 2010, p. 74). O próprio suporte possui suas particularidades sonoras e traz novos sentidos ao objeto apresentado. Os sons tomados concretamente tenderiam a uma apresentação anterior (ou posterior) à linguagem, de modo que seria preciso formular um método para a criação de sentido a partir destes sons não codificados. Talvez a escuta reduzida e a subsequente classificação e descrição tipo-morfológica seriam, afinal, como sugere o editor Carlos Palombini (PALOMBINI In SCHAEFFER: 2010, p. 109), a depuração da teoria de 1942 e a proposição do método – certamente coerente por partir de uma possível condição de escuta que a própria mídia coloca. Mas, neste processo de sistematização, tenderia-se para uma desmaterialização e uma objetividade que teriam reflexo na própria obra musical schaefferiana de meados dos anos 50 (Étude aux allures, Étude aux objets) – obra cuja preocupação com o sonoro se dá de forma mais sistemática; em que o referencial aparece com menos evidência; cujas relações com uma escuta do corpo estão bem mais veladas.64