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6.1 DESCRIÇÃO DO PROCESSO

6.1.5 Escuta dos alunos

Um momento traçado no plano de trabalho para este processo foi a escuta dos alunos jovens e adultos realizada pela equipe de Reorientação Curricular.

A participação dos alunos no processo de Reorientação Curricular é importante para saber o que pensam, sabem e querem da escola. Partindo dos eixos norteadores da concepção trabalho, ciência, cultura e tecnologia e considerando os conhecimentos e as experiências, o objetivo era investigar qual relação entre escola e vida fazem os alunos da EJA I. Os apontamentos dos alunos colaboram na elaboração curricular, de forma a refletirmos quais são os conhecimentos, conceitos que o currículo precisa abarcar.

A organização desse trabalho foi realizada de forma que o Grupo Currículo tivesse acesso a todos os alunos das unidades escolares.

A preocupação inicial era criar estratégias para realizar essa escuta de forma a garantir a participação dos alunos, deixando-os à vontade para falar, criando um ambiente favorável, já que o Grupo Currículo não era conhecido dos alunos e isso poderia criar certa inibição (SANTO ANDRÉ, 2015a). As estratégias utilizadas contribuíram para aprofundar a discussão de cada eixo, assim, em grupos menores foi possível um direcionamento para focar as discussões em torno da concepção envolvendo os alunos de forma qualitativa e acessível para uma participação efetiva. Os recursos foram utilizados com o objetivo de sensibilizar e

problematizar questões referentes à cultura, história, ciência, experiências e aprendizagens no trabalho, identidade, espaço e as relações que se estabelecem na escola.

As seguintes questões foram feitas para nortear este momento de escuta: O que os alunos pensam que é currículo escolar? O que é trabalho? O que é cultura? O que é ciência? O que é tecnologia? Qual a relação desta discussão com a escola? Quais as sugestões de mudanças na opinião dos alunos? Além disso, foram apresentados dois vídeos: Vida Maria e Luna, disponíveis no site do youtube, para as discussões sobre o eixo trabalho e cultura. Foram feitas duas exposições de fotos: linha do tempo da estação ferroviária de Santo André, para as discussões do eixo ciência e tecnologia; e exposição de fotos de escolas do mundo, do fotógrafo Julian German, para todos os eixos.

De acordo com o documento Integrando o currículo (SANTO ANDRÉ, 2015a), quando os alunos foram questionados sobre currículo escolar, a grande maioria se referia ao currículo profissional, dizendo: “é aquilo que a gente leva para procurar emprego”, outros já consideraram que o currículo é ter bons professores, boa escola, conhecimento (saber escrever, dominar a leitura e fazer operações matemáticas).

Nas intervenções baseadas no eixo trabalho, o que predominou foram às ideias de sobrevivência, independência, valor de troca, experiência, interação com o mundo. Indicam como importantes os trabalhos não remunerados, como o trabalho voluntário e os trabalhos domésticos, as mulheres que cuidam da casa e dos netos, valorizam o seu trabalho. Falam em uma divisão de trabalho, apresentam que o trabalho intelectual é fácil, leve e que o trabalho braçal é difícil, pesado e suas compreensões sobre eles se relacionam com o que percebem e vivenciam no cotidiano (SANTO ANDRÉ, 2015a).

Das aprendizagens construídas no exercício do trabalho, os alunos enfatizam os conhecimentos obtidos nas interações com os chefes, colegas, familiares e as estratégias que elaboram para facilitar o próprio desempenho, driblando as limitações cognitivas. Desta forma, mantêm o emprego e o êxito em muitas de suas ações.

Os alunos não relacionam as aprendizagens da vida com o que a escola ensina, da mesma forma que muitas vezes a escola não valoriza e reconhece esses conhecimentos. Relataram que nunca haviam pensado no trabalho como parte da vida humana, de que o trabalho é tudo o que se faz (SANTO ANDRÉ, 2015a).

No eixo cultura, relacionam, num primeiro momento, com conhecimento acumulado, principalmente leitura e escrita. Falam da importância da família na transmissão de diferentes culturas, modos de enxergar a vida e ainda se referem à culinária, crenças, costumes, músicas.

Percebem as aulas de artes e a música como manifestações culturais, ao mesmo tempo em que não as reconhecem como um conteúdo expressivo de aprendizagem.

Relacionaram o filme Vida Maria’ com os traços da cultura de origem de muitos alunos, na linguagem, vestimenta e paisagem. A cultura indígena foi lembrada por eles e sinalizaram ainda que cultura “é conhecer o mundo, ir ao teatro, ser educado, ter conhecimento”.

Ao serem questionados se existe uma cultura melhor, responderam que eram coisas diferentes, que todas precisam ser respeitadas, pois não existe cultura melhor ou pior, mas é o modo de ver a vida.

No eixo ciência, os alunos definem ciência como sabedoria, “significa que a pessoa estudou”, “engenheiros fazem ciência, a ciência do engenheiro está na construção, a do médico está no estudo para ser médico” (SANTO ANDRÉ, 2015a), consideram que não aprendem ciência na escola, somente Português e Matemática. Quando questionados onde entra ciências na escola, respondem no laboratório de informática e nos livros. Colocam diversas experiências e saberes: soldar, fazer comida, reciclar, etc.; relatam que trazem essas experiências para a escola, mas não conseguem relacionar o que sabem com que a escola ensina (SANTO ANDRÉ, 2015a).

No eixo tecnologia, os alunos colocaram que ela se manifesta “nos avanços ferroviários, avião, navio, celular, câmeras inteligentes, GPS, rádios, TVs, micro-ondas, tablets, máquinas de lavar, tanquinho, geladeira”. Sobre a relação que fazem da tecnologia com a ciência disseram “em tudo existe tecnologia”, “tem que ter cabeça para usar a tecnologia” (SANTO ANDRÉ, 2015a).

Foram apresentadas fotos que retratam as mudanças, ao longo do tempo, da estação ferroviária de Santo André; nas observações feitas, os alunos relataram as marcas de tecnologia e fizeram considerações sobre suas experiências de vida. Alguns alunos curiosamente relataram como se faz para construir uma escada de madeira (como a mostrada na foto exibida), para este aluno foi perguntado se ele aprendeu a construir a escada na escola e ele responde que não, mas que aprendeu com seu chefe e com os outros trabalhadores. Refletimos sobre quantos conhecimentos os alunos possuem e que não foram ensinados pela escola.

Reconhecem as mudanças tecnológicas e as transformações na paisagem humanizada, nos materiais e nos costumes, inclusive comportamentais da sociedade.