4.3 Resultados e discussão
4.3.3 Esforço amostral
Na Figura 4.2, está registrado o esforço amostral no âmbito do IFFSC na Floresta Estacional Decidual. As quadrículas com menor número de Unidades Amostrais podem ser resultantes de área de contato com a Floresta Ombrófila Mista que foram excluídas deste trabalho ou no local não havia floresta para ser inventariada. Apenas quatro áreas se destacam com riqueza superior a 126 espécies, com média observada entre 52 e 100 espécies.
Figura 4.2. Esforço amostral e riqueza de espécies da Floresta Estacional Decidual em Santa Catarina, plotadas em células de 20 km x 20 km.
Figure 4.2. Sampling effort and species richness in Seasonal Deciduous Forest in Santa Catarina, plotted on 20 x 20 km cells.
A manutenção dos fragmentos com maior riqueza, bem como, ações de enriquecimento na restauração dos demais fragmentos é fundamental para que a Floresta Estacional Decidual possa se recuperar das grandes interferências antrópicas que a tem tornado cada vez mais simplificada em sua composição. Como já mencionado, embora o conjunto possua elevada riqueza de espécies em sua integralidade, o mesmo não ocorre quando os remanescentes são analisados em particular. No entanto, mesmo internamente simplificados e perturbados cumprem um papel importante como fonte de diásporos e abrigo de espécies da fauna.
Stehmann et al. (2009) destacam a importância da conservação da Floresta Estacional Decidual, que, juntamente com a Floresta Estacional Semidecidual e das formações campestres, contém cerca de 50% da diversidade do bioma Mata Atlântica.
Com intuito de esclarecimento, foram adicionadas as bacias em que ocorrem as espécies com amostras coletadas e incorporadas ao herbário FURB. Contudo, o esforço amostral diferente em cada quadrícula e em cada bacia impossibilita comparações. Ao todo, 28 espécies foram coletadas em todas as bacias hidrográficas. Outras 33 espécies apareceram em todas as bacias exceto na do rio Pelotas, que possui apenas duas Unidades Amostrais (941 e 1000), ambas situadas no município de Anita Garibaldi. A não coleta de uma espécie em determinada bacia não significa que ela não ocorra nela, pois esta espécie pode ter sido medida em campo pelo inventário, com coleta de amostras estéreis para identificação, que não foram incorporadas ao acervo do herbário FURB.
Relativo à conservação da riqueza específica, deve-se ressaltar que esta pode ser drasticamente reduzida, especialmente com a ampliação do complexo hidrelétrico ao longo do rio Uruguai e dos seus principais afluentes, pois estes têm atingido importantes remanescentes florestais ao longo das suas margens (Prochnow 2005).
A degradação constatada durante os trabalhos de campo do IFFSC na região de estudo teve reflexo sobre algumas espécies, tanto que as mesmas não foram amostradas. Essa degradação pode provocar redução do número de espécies existentes nos fragmentos, levando à formação de florestas simplificadas, com área restrita, diferentes daquelas originais desta região fitoecológica em Santa Catarina.
Igualmente, os resultados aqui apresentados reforçam a relevância deste inventário para a caracterização da Floresta Estacional Decidual em Santa Catarina, bem como a importância das coletas externas às Unidades Amostrais, no registro da biodiversidade existente.
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F loresta E stacional D ecidual
Grupos florísticos estruturais da Floresta Estacional Decidual em Santa Catarina
1,2Structural floristic groups in Seasonal Deciduous Forest in Santa Catarina
André Luís de Gasper, Alexandre Uhlmann, Alexander Christian Vibrans,
Lucia Sevegnani, Leila Meyer Resumo
O objetivo deste trabalho foi identificar as possíveis similaridades estruturais entre remanescentes da Floresta Estacional Decidual em Santa Catarina. Associado a este objetivo primário, também se buscou a identificação das zonas de contato entre esta região fitoecológica e a Floresta Ombrófila Mista. Foram analisados os dados de 78 Unidades Amostrais instaladas em remanescentes da Floresta Estacional Decidual entre 2008 e 2009. Os dados foram tratados através da Análise de Correspondência Corrigida (DCA) e Análise de Agrupamentos, valendo-se de uma matriz de densidade de espécies por bacia hidrográfica. A análise foi feita tanto para o componente arbóreo/arbustivo quanto para a regeneração natural. A proporção da variância explicada pelos três primeiros eixos da DCA foi de 58,1% e 60,2%
(arbóreo e regeneração, respectivamente). Observada somente a ordenação provocada pelo primeiro eixo da DCA, vê-se a disposição das bacias do Leste, em um extremo, e das bacias do Oeste, no outro extremo deste eixo. Na extremidade direita do primeiro eixo, estão dispostas as bacias dos rios Canoas, Pelotas e do Peixe, caracterizadas pela presença de espécies como Ocotea pulchella, Zanthoxylum fagara, Lithrea brasiliensis, Matayba elaeagnoides, Cinnamodendron dinisii, comumente associadas com a Floresta Ombrófila Mista. Na extremidade esquerda, estão distribuídas as bacias de Oeste, grupo que inclui as bacias dos rios Jacutinga, Irani, Chapecó, das Antas e Peperi-Guaçu. Dentre as espécies que mais fortemente influenciaram os resultados na análise, cabe destacar Apuleia leiocarpa, Rauvolfia sellowii, Bastardiopsis densiflora, Chrysophyllum gonocarpum, Cordia trichotoma, Holocalyx balansae, Myrocarpus frondosus e Pisonia ambigua, frequentes em florestas estacionais do interior meridional do Brasil. Considerando que as altitudes tendem a declinar das porções Leste para Oeste, propõe-se a existência de uma zona de transição entre as duas regiões fitoecológicas na faixa dos 600 m s.n.m., onde ocorre a interdigitação de elementos da flora estacional e aqueles da Floresta Ombrófila Mista, resultando na delimitação de uma área núcleo da Floresta Estacional Decidual abaixo deste patamar altimétrico.
Abstract
The purpose of this study was to identify possible structural similarities between remnants of Seasonal Deciduous Forest forest in Santa Catarina. Associated with this primary objective, we also tried to identify transition areas with influence of Mixed Ombrophyllous Forest. Data from 78 Sample Plots were collected between 2008 and 2009 during the Forest Inventory Floristic of Santa Catarina (IFFSC). Data were analyzed through the Detrended Correspondence Analysis (DCA) and cluster analysis, using a density matrix of species by watershed. The analysis was performed for both the tree/shrub component and the natural regeneration. The proportion of variance explained by the first three axes of DCA was 58.1% and 60.2% (tree/shrub and regeneration, respectively). For the first ordination axis of DCA, the arrangement of the watersheds of the east was characterized by the presence of species such as Ocotea pulchella, Zanthoxylum fagara, Lithrea brasiliensis, Matayba elaeagnoides, Cinnamodendron dinisii, commonly associated with the Mixed Ombrophyllous Forest. On the other extreme, we observed watersheds of the west with Apuleia leiocarpa, Rauvolfia sellowii, Bastardiopsis densiflora, Chrysophyllum gonocarpum, Cordia trichotoma, Holocalyx balansae, Myrocarpus frondosus and Pisonia ambigua, which are common in seasonal forests of the southern interior of Brazil. As altitude tends to decline from east to west, the authors hypothesize the existence of a transition zone between the two phytoecological regions in the range of 600 m a.s.l. At this altidudinal level elements of both the seasonal flora and the Mixed Ombrophyllous flora coexist; below this level, a core area of Seasonal Deciduous Forest was delineated.
1 Parte deste trabalho foi submetido à revista Ciência Florestal em 06/07/2011.
2 Gasper, A.L. de; Uhlmann, A.; Vibrans, A.C.; Sevegnani, L.; Meyer, L. 2012. Grupos florísticos da Floresta Estacional Decidual em Santa Catarina. In: Vibrans, A.C.; Sevegnani, L.; Gasper, A.L. de; Lingner, D.V. (eds.). Inventário Florístico Florestal de Santa Catarina, Vol. II, Floresta Estacional Decidual. Blumenau. Edifurb.
Capítulo 5
5.1 Introdução
Florestas estacionais são caracterizadas por atributos estruturais relacionados à caducifolia condicionada por sazonalidade climática de temperatura e/ou precipitação. Baseado nestes atributos, o sistema de classificação da vegetação brasileira reconhece duas tipologias, a Floresta Estacional Semidecídual e a Floresta Estacional Decídual, as quais estão distribuídas principalmente no interior do Brasil, vinculadas essencialmente aos Biomas Mata Atlântica e Cerrado (Veloso et al. 1991).
Em Santa Catarina, esta floresta expressa a deciduidade das folhas no período entre maio e setembro, como resultado de fatores climáticos restritivos, como o frio e o menor fotoperíodo do semestre de inverno. A deciduidade, segundo Klein (1972; 1978) e IBGE (1991), ocorre especialmente nas plantas do dossel e emergentes, atingindo valores superiores a 50% das espécies componentes, o que levou os proponentes do sistema de classificação da vegetação brasileira a enquadrá-la como uma Floresta Estacional Decídual (Veloso et al. 1991). Neste estado, sua área original ocupava 7.967 km2 distribuídos em parte da bacia hidrográfica do rio Uruguai, incluindo as porções médias e baixas dos seus tributários rios Pelotas, Canoas, do Peixe, Jacutinga, Irani, Chapecó, das Antas e Peperi-Guaçu (Klein 1978). A flora frequentemente associada à Floresta Estacional Decidual inclui espécies como Aspidosperma polyneuron, Handroanthus heptaphyllus, Gallesia integrifolia, Balfourodendron riedelianum, Peltophorum dubium, Cordia trichotoma e Apuleia leiocarpa (Leite 1994).
Esta representa uma vegetação recente em Santa Catarina (Bigarella 1964), com seu ingresso posterior àquele dos campos e da Floresta Ombrófila Mista, sendo considerada um prolongamento das florestas da bacia do rio Paraná e migrações da província de Missiones (Rambo 1951; 1956; Spichiger et al. 2004; Pennington et al. 2009). Spichiger et al. (2004) ressaltaram o papel dos corredores formados pelos canais fluviais da bacia do Paraná na difusão de elementos bióticos, conforme pode ser deduzido por meio da visualização dos mapas de vegetação dos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul (Klein 1978; Maack 1947; 1968; Rambo 1951). Como consequência desta possível expansão, zonas de contato com a Floresta Ombrófila Mista (floresta com araucária) e com a Estepe (campos naturais) são formadas em Santa Catarina recebendo contribuições florísticas destas. No Paraná, ao longo do vale do rio Tibagi, Torezan (2002) descreveu a ocorrência de uma zona de contato entre a Floresta Estacional e a Floresta Mista estabelecida em uma faixa altimétrica situada entre 500 e 800 m.
Apesar de ser uma região fitoecológica importante sob o ponto de vista biológico, Pennington et al. (2000) ressaltaram que estas florestas estariam recebendo pouca atenção da sociedade, tanto no que diz respeito aos esforços de conservação, quanto por parte de pesquisas visando a compreensão dos padrões disjuntos de sua distribuição no Neotrópico. Nos três estados da região Sul do Brasil, as florestas estacionais ocupam destaque, pois sua distribuição original está vinculada à região de grande desenvolvimento agrícola e pecuário. No estado de Santa Catarina, poucos são os trabalhos que abordam as florestas estacionais.
Diante desta carência de dados, este trabalho pretende contribuir com a exposição de novos conhecimentos sobre a floresta estacional do estado de Santa Catarina, baseando-se nos dados de um extensivo levantamento feito através do Inventário Florístico Florestal de Santa Catarina (IFFSC).
Deseja-se verificar se existem variações expressivas na estrutura das florestas estacionais catarinenses e que estas são o resultado de variações de caráter ambiental, principalmente relacionadas com o clima (em última análise, ligadas à variação altimétrica). Um segundo aspecto que constitui objetivo deste trabalho é verificar a ocorrência de uma zona de transição no contato entre a Floresta Ombrófila Mista e a Floresta Estacional Decidual.
5.2 Metodologia
A área de estudo inclui parte das bacias dos afluentes do rio Uruguai em Santa Catarina (Figura 5.1) e que foi incluída por Klein (1978) na região fitoecológica da Floresta Estacional Decidual.
Figura 5.1. Área de distribuição da Floresta Estacional Decidual no Oeste de Santa Catarina e as Unidades Amostrais localizadas nas bacias hidrográficas dos tributários de margem direita do rio Uruguai.
Figure 5.1. Distribution area of the Seasonal Deciduous Forest in western Santa Catarina and the Sample Plots located in the watersheds of the right bank tributaries of Uruguai river.
Os dados das 78 Unidades Amostrais foram utilizados para a construção de uma matriz de densidades das espécies em cada bacia hidrográfica (tanto para o componente arbóreo/arbustivo quanto para o da regeneração natural). Nesta matriz, as linhas representaram as espécies e as colunas, as bacias hidrográficas, sendo cada célula preenchida pelo valor da densidade média (número de indivíduos por hectare) das espécies em cada bacia (conforme exemplo da Tabela 5.1).
No componente arbóreo/arbustivo as espécies raras com menos de um indivíduo por hectare foram removidas, já que estas não contribuem para a análise, segundo Gauch-Junior (1982). Também foram removidos indivíduos mortos e não identificados, restando 79 espécies. Com isso, originou-se uma matriz constituída por 79 espécies (linhas) e oito Unidades Amostrais (colunas), a qual foi submetida à Análise de Correspondência Corrigida (Detrended Correspondence Analisys – DCA) e à Análise de Agrupamentos. As duas análises apontam para os mesmos resultados e foram aqui apresentadas, pois facilitam a visualização dos resultados.
O mesmo procedimento foi feito para a regeneração natural, onde 109 espécies foram mantidas, dentre as 176 amostradas. Assim, a matriz constituída por 109 espécies (linhas) e oito Unidades Amostrais (colunas) foi submetida à Análise de Correspondência Corrigida.
A fim de classificar as Unidades Amostrais, de acordo com as suas similaridades florísticas, um dendrograma foi construído a partir de uma análise de agrupamento aplicada a uma matriz de similaridade (construída através do uso da distância euclidiana) e valendo do método de ligação de Ward’s. Antes da análise, contudo, as Unidades Amostrais foram identificadas como aquelas do grupo de Leste e de Oeste. Estas análises foram feitas com os dados
5 | Grupos florísticos estruturais da Floresta Estacional Decidual em Santa Catarina Inventário Florístico Florestal de Santa Catarina
O processamento dos dados e as análises foram feitas com auxílio dos softwares Mata Nativa 2 (Cientec 2002), Microsoft Office Excel (2007) e PC-ORD 6 (McCune & Mefford 2011).
Tabela 5.1. Modelo de matriz utilizada para as análises multivariadas da Floresta Estacional Decidual Table 5.1. Matrix model used for multivariate analysis of the Seasonal Deciduous Forest
Espécie Canoas Pelotas Peixe Jacutinga Irani Chapecó ....
Annona emarginata 5,13 0,00 2,50 0,00 0,00 2,50 0,00
Erythrina falcata 0,00 3,45 0,00 0,00 2,50 0,00 0,00
Cinnamodendron dinisii 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00
Bauhinia forficata 0,00 10,34 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00
Cordyline spectabilis 0,00 6,90 0,00 0,00 7,50 0,00 0,00
Pisonia ambigua 0,00 0,00 0,00 3,25 0,00 0,00 0,00
Ilex paraguariensis 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00
Trema micrantha 0,00 0,00 10,00 0,00 0,00 0,00 0,00
Cryptocarya aschersoniana 0,00 0,00 0,00 6,50 5,00 0,00 0,00
Rauvolfia sellowii 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00
Bastardiopsis densiflora 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00
Casearia decandra 7,69 0,00 0,00 0,00 7,50 7,50 5,00
Celtis iguanaea 0,00 10,34 0,00 0,00 2,50 0,00 0,00
Dalbergia frutescens 5,13 3,45 2,50 0,00 0,00 2,50 0,00
Banara tomentosa 0,00 0,00 0,00 3,25 2,50 0,00 5,00
Vitex megapotamica 15,38 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 2,50
Zanthoxylum fagara 0,00 0,00 2,50 3,25 0,00 0,00 0,00
Solanum sanctaecatharinae 2,56 3,45 2,50 16,24 0,00 0,00 0,00
Myrsine coriacea 0,00 0,00 0,00 0,00 2,50 0,00 0,00
Ficus luschnathiana 0,00 6,90 2,50 0,00 0,00 0,00 2,50
Ruprechtia laxiflora 0,00 3,45 0,00 0,00 0,00 5,00 0,00
Allophylus puberulus 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00
...
5.3 Resultados e discussão
No componente arbóreo/arbustivo, a aplicação da Análise de Correspondência Corrigida (DCA) à matriz constituída pelos dados de densidade média das espécies em cada uma das bacias hidrográficas
No componente arbóreo/arbustivo, a aplicação da Análise de Correspondência Corrigida (DCA) à matriz constituída pelos dados de densidade média das espécies em cada uma das bacias hidrográficas