MATERIAL E MÉTODOS
Grupo 9: Selante combinado com ClearfilS 3 Bond, contaminação com água
4. Limitações do protocolo experimental
4.2. O esmalte como substrato para a adesão
A escolha de incisivos bovinos como substrato para a adesão foi uma opção seguida em muitos dos trabalhos que se debruçaram sobre a adesão ao esmalte (Hitt e Feigal, 1992; Shinchi, Soma e Nakabayashi, 2000; Ibarra et al., 2002; Torii et al., 2002; Perdigão e Geraldeli, 2003; Miguez, Pereira e Swift, 2004; Erickson, Gee e Feilzer, 2006; Ibarra, Vargas e Geurtsen, 2006; Borges, Matos e Dias, 2007). Recentemente, Krifka et al. (2008) mostraram que o esmalte de origem bovina substitui o humano no estudo da adesão dos sistemas adesivos contemporâneos.
Mesmo assumindo a equivalência entre o esmalte humano e bovino, a literatura mostra que a zona de esmalte escolhida para testar a adesão não é um dado uniforme: tal como no presente trabalho, a maioria dos autores preferiu utilizar apenas o esmalte vestibular, como Hitt e Feigal (1992), Kanemura, Sano e Tagami (1999), Pashley e Tay (2001), Ibarra et al. (2002), Erhardt, Cavalcante e Pimenta (2004), Senawongse et al. (2004), Barroso et al. (2005), Söderholm et al. (2008), entre outros. No entanto, outros autores realizaram os procedimentos adesivos exclusivamente no esmalte interproximal (Brown e Barkmeier, 1996; Perdigão et al., 1997; Gomes-Silva et al., 2008), interproximal e lingual (Torres et al., 2005) ou vestibular e lingual (Agostini, Kaaden e Powers, 2001).
Os resultados obtidos para o esmalte vestibular não podem ser directamente extrapolados para o esmalte oclusal, uma vez que estas superfícies podem apresentar um padrão de condicionamento distinto (Silverstone, 1984). Por exemplo, o esmalte fissurário é mais resistente ao condicionamento ácido devido ao anel de esmalte aprismático disposto em torno da entrada e paredes das fissuras. Estes cristais de esmalte exibem uma orientação unidireccional e uma disposição densa, pelo que o condicionamento desta zona origina uma dissolução relativamente uniforme, com uma microporosidade limitada e extensões de resina mais superficiais (Gwinnet, 1973).
Outra variável inerente à caracterização do esmalte prende-se com o facto de este ser sequencialmente polido ou mantido intacto. Neste estudo, optou-se por testar a adesão ao esmalte intacto, à semelhança de outros trabalhos, como por exemplo o de Peutzfeldt e Nielsen (2004). Esta opção fundamentou-se no facto de a aplicação clínica
de selantes de fissura corresponder a uma situação que normalmente contempla a adesão ao esmalte não cortado, tendo sido tida em consideração a opinião expressada por Ellis, Latta e Westerman (1999), que defenderam que o polimento sequencial do esmalte cria um substrato artificial que não reproduz a topografia sobre a qual os selantes são aplicados no contexto clínico.
A adesão ao esmalte não cortado apresenta limitações, plenamente assumidas nesta investigação: trabalhou-se numa superfície não padronizada, com maior percentagem de esmalte aprismático, hipermineralizada e com maior conteúdo de material inorgânico e de flúor, sendo por isso provavelmente mais resistente à acção de condicionamento por parte dos adesivos utilizados (Kanemura, Sano e Tagami, 1999). A não instrumentação do esmalte determinou que este possuísse menor capacidade de molhamento (Retief, Middleton e Jamison, 1985) e implicou que não se tivessem realizado os procedimentos de adesão numa superfície completamente plana, mais favorável à correcta aplicação de forças nos testes de adesão (Sol et al., 2000).
Como consequência directa de se ter mantido o esmalte intacto, aceitou-se o facto de ter existido alguma variabilidade na configuração dos fragmentos de esmalte e que, pontualmente tenham sido utilizados espécimes com maior convexidade. Porém, uma vez que os incisivos bovinos são de grandes dimensões e apresentam uma grande área lisa no terço médio da face vestibular, os espécimes apresentaram-se todos com uma área plana bastante sobredimensionada face à zona delimitada para o teste.
Acredita-se que a não preparação do esmalte possa ter subestimado os resultados: Perdigão e Geraldeli (2003) observaram que a instrumentação prévia do esmalte não influencia a resistência adesiva de alguns adesivos de auto-condicionamento mas pode ser um factor chave na melhoria da resistência adesiva de outros, entre os quais o AdperTMPromptTML-PopTM.
Apesar das limitações referidas, a literatura suporta a opção de não se ter instrumentado o esmalte: Ibarra et al. ( 2002) e Ibarra, Vargas e Geurtsen (2006) demonstraram que a preparação do esmalte não influencia a adesão mediada pelos sistemas de auto-condicionamento nem o respectivo padrão de condicionamento, grau de hibridação e morfologia ultraestrutural da interface, ao passo que Pashley e Tay (2001) mostraram que os sistemas adesivos de auto-condicionamento, incluindo os de
agressividade média, conseguem interagir com o esmalte superficial aprismático, formando uma camada híbrida espessa. Estes autores mostraram ainda que o AdperTMPromptTML-PopTM dissolve eficazmente os prismas de esmalte aprismático e
gera, em esmalte intacto, um padrão agressivo de microporosidades e uma camada híbrida com o esmalte sub-superficial comparável à gerada pelo ácido fosfórico - contínua, bem definida e com uma espessura aproximada de 4 µm.
Finalmente, a última variável a considerar na caracterização da superfície de esmalte é a presença de contaminação. No que diz respeito à avaliação do desempenho dos selantes aplicados em esmalte contaminado, os protocolos diferem sobretudo no tempo de contaminação e nos respectivos procedimentos de descontaminação:
Quanto ao tempo de contaminação, é possível encontrar tempos longos, na ordem dos 60 segundos (Hormati, Fuller e Denehy, 1980), 20 segundos (Barroso et al., 2005; Torres et al., 2005), bem como tempos de contaminação mais curtos, na ordem dos 10 segundos (Askarizadeh, Norouzi e Nemati, 2008; Gomes-Silva et al., 2008) e dos 5 segundos (Hitt e Feigal, 1992; Tulunoglu et al., 1999). Esta disparidade de tempos pode não ser importante na comparação dos resultados, tendo em conta que Tandon, Kumari e Udupa (1989) não observaram diferenças na resistência adesiva dos selantes, para tempos de contaminação salivar distribuídos num intervalo entre um segundo e um minuto.
Quanto à remoção da saliva da superfície, alguns autores procederam à secagem durante 5 segundos com jacto de ar (Barroso et al., 2005) ou papel absorvente (Torres et
al., 2005; Gomes-Silva et al., 2008), ao passo que outros deixaram o esmalte
visivelmente molhado (Askarizadeh, Norouzi e Nemati, 2008). Esta disparidade de protocolos já poderá ser importante na comparação dos estudos (Hitt e Feigal, 1992).
O momento para a contaminação é um parâmetro mais consensual e que se enquadra no protocolo cumprido nesta investigação: para os selantes aplicados pela técnica clássica, a contaminação foi feita após a obtenção de uma superfície de esmalte branca e opaca (Barroso et al., 2005); nos selantes combinados com adesivos de auto- condicionamento, a contaminação fez-se logo no início, antes de se realizarem os procedimentos de condicionamento e adesão (Gomes-Silva et al., 2008).