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2 BASE ANALÍTICA α: DA ANTIGUIDADE AO RENASCIMENTO:

2.1.2 Espécie Vegetal, Conhecimento e Utilitarismo

Ao observarmos a natureza, notamos que as árvores diferenciam-se entre si, mas têm algo em comum; esse fenômeno foi indutivamente explicado pela taxonomia animal21, o

sistema de classificação criado pelo filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C.), e a taxonomia vegetal criada pelo filósofo grego Teofrasto (372-287 a.C.), que realizou pesquisas sobre as plantas, estabelecendo, a princípio, a distinção entre a utilização e a forma de cultivo.

Percebe-se que, na academia grega, ocorreu um movimento transformador entre o processo antigo empírico de conhecimento e o processo experimental clássico, origem da Filosofia Natural que se expandiu no período do Império Romano (27 a.C.-476 d.C.).

Na Antiguidade, os homens acreditavam que os fenômenos naturais (trevas, calor, frio, vida e morte) eram controlados por deuses e espíritos, que podiam habitar nos elementos naturais (astros, rochas, árvores, rios) e que deveriam ser reverenciados em troca de benevolências. O politeísmo greco-romano reverencia o temor da morte, prestando o culto doméstico aos parentes mortos que viviam ao lado dos deuses. O monoteísmo judaico-cristão acredita no Deus único, transcendente, onipotente, o criador de todas as coisas, reverenciando o ‘culto à Sua palavra’ para ser transmitida ao público na Igreja Cristã (BARROS, 2009).

Na transmigração da cultura oriental (Grécia) para o Ocidente (Roma), os ensinamentos teóricos e práticos provenientes dos filósofos gregos foram compilados pelo naturalista romano Plínio Segundo, ‘o Velho’22 em Naturalis Historia, uma enciclopédia composta de

trinta e seis livros, dos quais doze foram dedicados aos estudos da vegetação. Segundo o autor, a natureza é um sujeito personificado, de caráter vivo e transcendente, que pode ser classificada como providencial ou protetora (mãe-natureza) e também cruel (mãe-

20 Originários dos povos mouros e islâmicos que introduziram na Península Ibérica: expressão artística na

composição paisagística dos jardins de sensibilidade cuja intenção era de ostentação, sedução e encantamento.

21 A Taxonomia classifica os seres vivos. É parte da Sistemática, ciência que estuda as relações entre

organismos e que inclui a coleta, preservação e estudo de espécimes, além da análise dos dados vindos de várias áreas de pesquisa biológica.

22Caio Plínio Segundo (23-79). Romano, naturalista, autor de Naturalis Historia (77), enciclopédia dedicada a

várias ciêcias: geografia, cosmologia, fisiologia animal e vegetal, medicina, história da arte, mineralogia e outras; os volumes de XII a XXIX específicos para os temas relacionados com botânica, agricultura, horticultura e farmacologia.

devastadora), que guarda a primazia sobre tudo e onde se encontra o homem que deve ter consciência sobre suas ações e seus efeitos (VIEIRA, 2010). Segundo a filosofia grega, o processo evolutivo entre os seres vivos (homem, animais e vegetais) é um produto intrínseco da Natureza e por ela deve se responsabilizar em seus atos. Para Aristóteles (384-322 a.C.): “[...] Os animais estão em guerra uns com os outros quando ocupam os mesmos lugares e quando, para viver, utilizam os mesmos recursos” (ARISTÓTELES. apud ACOT, 1990, p.3).

Assim como os animais, as plantas, na busca da sobrevivência, lutam por seu locus

naural (ODUM, 1979). Segundo a visão judaico-cristã, não há luta, mas uma dádiva suprema,

alheia às forças naturais, que ‘entrega’ ao homem, um jardim, o ‘Éden’, para ser cuidado e cultivado. Segundo o pensamento hegeliano, torna-se possível entender a semelhança entre o conteúdo da filosofia e o da religião cristã quanto à verdade, porque ambas são igualmente culto divino.

Em primeiro lugar, a filosofia tem, de fato, seus objetos em comum com a religião. As duas têm a verdade por seu objeto, decerto no sentido mais alto: no sentido de que Deus é a verdade, e só ele é a verdade. Além disso, ambas tratam do âmbito do finito, da natureza e do espírito humano; de sua relação recíproca e de sua relação com Deus, enquanto sua verdade. (HEGEL, 1995, p.39).

No Império Romano ocorreu a redução teleologia > teologia23, e o conhecimento sobre

o meio, ‘Natura Naturans’, se tornou uma dádiva de Deus para serem assimiladas em crença pela comunidade cristã. Crença e Religião, sendo semelhantes, se unem à estrutura social feudal, com base na vida do campo, na agricultura, no trabalho escravo e na propriedade privada, uma importante coligação política, o feudalismo, e ocorre a disseminação da cultura cristã ocidental, ‘romanização’. Assim, a arte românica era também utilizada24 como meio de

comunicação e educação para a população que não entendia (ler, escrever, ouvir) a língua latina. Os artistas inspiravam-se nos textos sagrados para tecer as iluminuras das igrejas e dos conventos, através das paredes (afrescos, mosaicos) dos altares (retábulos).

O cultivo doméstico da planta (castelos, mosteiros, palácios) trouxe também a familiaridade com o elemento vegetal, estimulando a ‘experimentação’ da espécie e sua transformação por ‘alquimia’, estabelecendo a correlação entre filosofia e medicina natural;

23Teleologia: doutrina que estabelece metas, fins ou objetivos no processo evolutivo da natureza (aristotelismo,

hegelianismo). Teologia: doutrina ou ciência de Deus (religião cristã).

segundo Paracelso25, este processo constitui-se na base da Ciência Experimental, e o elemento

vegetal transformado por processo químico passou a exercer, de forma pragmática, a função ‘terapêutica’26, um ganho expressivo para a evolução da cura médica (REZENDE, 2010).

O prenúncio da Idade Moderna sugere o antropocentrismo, uma ideologia amparada pelo sistema Político (Absolutista) Religioso (Igreja Católica) e comercial (Burgueses); no início do século XVI, sob a luz da teologia, emerge uma geração de mentes revolucionárias predestinadas a despertar, do obscurantismo sedentário do conhecimento medieval, uma nova concepção religiosa, filosófica e artística, que originou a ciência moderna27.

Nesse contexto, o expansionismo marítimo demanda novas rotas exploratórias e o Império Colonial Português (1415-2002)28 ascende ao cenário mercantilista e ao conhecimento técnico (navegação, cartografia, tecnologia marinha) que se desenvolveu em função da comercialização das especiarias orientais, estabelecendo a ligação dos oceanos Atlântico e Índico (Cabo da Boa Esperança – 1488) e as descobertas do Caminho das Índias, (Vasco da Gama – 1498), da Terra de Santa Cruz, Brasil (Pedro Álvares Cabral – 1500). Durante o século XVI, em regime de talassocracia, uma série de feitorias e de fortificações costeiras, reforçava o monopólio português, ligando Lisboa com a África, Médio Oriente, Índia, Ásia, América do Sul, entre os oceanos Atlântico, Índico e Pacífico.

Figura 9 – Século XVI: Império Português

Principais rotas comerciais.

Fonte: Disponível em: < http://histgeo6.blogspot.com.br/ >.

25 Teofrasto Hohenheim (1493-1541). Francês, médico, físico, astrólogo, alquimista (Paracelso), pioneiro da

medicina holística, homeopática, farmacêutica, introduziu substâncias químicas no preparo dos medicamentos.

26 Termo de origem grega – therapeutiké – usado por Hipócrates e Galeno.

27 Leonardo da Vinci (1452-1519). Italiano, cientista, inventor, arquiteto, engenheiro, pintor, escultor, botânico;

Nicolau Copérnico (1473-1543). Polonês, cônego da Igreja Católica, autor da teoria heliocêntrica; Marinho Lutero (1483-1546). Germânico, monge, teólogo, precursor do movimento da Reforma Protestante; Jerônimo Cardano (1501-1576). Italiano, médico, matemático, astrólogo, mago, físico.

Às margens oceânicas, uma rede de portos e de fortificações costeiras, reforçava o monopólio português sobre esses mares. No litoral, eram reconhecidos os portos de atracação para manutenção e abastecimento das caravelas, na costa atlântica, origem da fundação da Cidade do Salvador, Bahia (Figura 9). As expedições marítimas contribuem para o conhecimento da espécie vegetal, disponibilizando o serviço médico para a tripulação de bordo, surgindo daí o locus apropriado para a sistematização e classificação das espécies medicinais29, um laboratório de análise, aclimatação, transformação e apropriação da espécie

em sua função utilitária. Deve-se referenciar o Horto Medicus de Garcia de Orta (Índia, Goa- 1543)30, para pesquisas de características farmacológicas dos reinos vegetais, animais e

minerais; a Companhia de Jesus (Inácio de Loyola, 1534) e o auxilio médico nas expedições e catequese portuguesas (1549). Na Bahia, os Jesuítas fundaram o Colégio do Salvador (1553), com os cursos de medicina, filosofia e ciências físicas e naturais; os ‘Postos de observação e análise da flora brasileira’; a ‘botica’, um laboratório anexo à enfermaria, apropriado e instrumentalizado para criar e manipular medicamentos secretos como a Triaga Brasílica, considerada como o medicamento mais cobiçado e prestigiado na Europa, Índia e África. A Botica deu origem ao método da sistematização em Portugal e suas colônias (WISSENBACH, 2009).

Na Europa, a prática de transformar vegetais em produto medicinal deu origem aos primeiros Jardins Botânicos da Itália, em Pisa (1543) e Pádua (1545) onde foi implantado o “centro de estudos e de cultivo de plantas”, no Convento de Santo Antônio31 (MELLO

FILHO, 1985). Na Holanda, foi instalado o Hortus Academicus da Universidade de Leider (1590) 32 (SANJAD, 2001), contendo, ainda hoje, variadas espécies de jardins: japonês,

histórico, de inverno, de rosa, de samambaia e de ervas medicinais, campo de nozes e estufa tropical. No Brasil, o primeiro Jardim Botânico foi instalado em Pernambuco (1637-1654) 33,

o ‘jardim das plantas’, um locus anexo ao Palácio de Friburgo (1637), para centro de estudo

29 Locus: origem clássica em Homero. O termo locus amoenus remete à descrição da Natureza para um conjunto

de elementos específicos: campo verdejante com árvores e flores. No latim, locus refere-se à paisagem ideal, no Genesis, o jardim do Éden (Cf. CEIA, Carlos. Dicionário de termos literários. Disponível em: < http://www.edtl.com.pt/ >.).

30 Garcia de Horta (1500-1568). Português, filósofo natural e médico em Salamanca (1523), professor em

Coimbra (1530), médico do Rei D.João III, de Martim Afonso de Souza, o Vice-Rei da Índia (1542-1545), estabelecendo-se em Goa (1534) como clínico terapeuta, pesquisador e comerciante. Autor de Colóquio dos simples e drogas e coisas medicinais da Índia, (1563), obra divulgada durante as expedições.

31 O jardim botânico remete-se à Antiguidade; no Ocidente, foram inicialmente implantados na Itália, em Pisa

(1544) e Pádua (1545).

32 Jardim Botânico da Universidade de Leiden (1590), hortus academicus, criado pelo médico e botânico

flamenco Carolus Clusius (1526-1609), que traduziu para o latim a obra de Garcia de Horta (1567).

33 Johan Maurits van Nassau-Siegen (1604-1659). Alemão, Príncipe, Protestante, Militar. Administrador da

das plantas utilitárias em função da agricultura e para catalogar a flora, fauna e etnografia desta região brasileira34. Foi idealizado conforme o Jardim Botânico de Leider, para alimentar

e enriquecer as coleções da Holanda: segundo Sanjad (2010), o jardim “[...] existiu junto ao Palácio de Friburgo entre 1637 e 1644”, um posto de recepção e adaptação de espécies frutíferas estrangeiras e adaptadas, oriundas da Índia e da África.

Homem sintonizado com seu tempo, Mauricio de Nassau introduziu um inédito recinto na Nova Holanda e na América. [...] parece recriar um recinto europeu, um jardim holandês, com a sua pragmática lógica de implantação em canais desenhando quadrículas [...]. (SEGAWA, 1996, p. 55).

Os Jardins Botânicos, originalmente identificados como hortus medicus, hortus

academicos, postos de observação, jardins de plantas medicinais, foram criados em prol do

desenvolvimento da farmacologia, ampliando-se a pesquisa para as espécies alimentícias e decorativas para jardins. A sistematização da espécie vegetal tornou-se o estímulo para o paisagismo, uma atividade que se desenvolve através da produção sistemática da planta e da garantia sobre a ‘muda’ da espécie apropriada.

O Centro de Estudos e de Cultivo de Plantas do Convento de Santo Antônio de Pádua, na Itália é um locus originado das práticas monasteriais da Idade Média que se tornou o modelo referencial para a ciência botânica ocidental:

O Jardim Botânico de Pádua é o original de todos os jardins botânicos de todo o mundo, e representa o nascimento da ciência, de intercâmbios científicos e compreensão da relação entre natureza e cultura. Ele fez uma profunda contribuição para o desenvolvimento de muitas disciplinas científicas modernas, nomeadamente a botânica, química, ecologia e farmácia.35 (UNESCO, [s.d.])

34 O Locus de Pernambuco foi instalado por Williem Piso (1611-1678. Holandês, médico, naturalista. Autor de

Pesquisas relacionadas a doenças tropicais e tratamento terapêutico realizado pelos indígenas. Autor, em parceria com Georg Marggraf, da obra literária científica Historia Naturallis Brasiliae (1648). Considerado o primeiro naturalista a explorar os recursos naturais do Brasil (SEGAWA, 1996, p. 55); (SANJAD, 2001, p.33).

35 Parecer emitido pela instituição para solicitar ações institucionais favoráveis a se tornar o Centro, um

Figura 10 – Jardim Botânico de Pádua, Itália

Centro de Estudos e de Cultivo de Plantas do Convento de Santo Antônio de Pádua, Itália. Fonte: Disponível em: < http/www.m.ortobotanicopd.it >.

O atual Jardim Botânico de Pádua se destaca como o pioneiro que originou uma sequência de locais dessa natureza na França (Jardin Royal de Montpelier, 1593), em Portugal (Jardim Botânico da Ajuda, 768 e Jardim Botânico de Coimbra, 1772), no Brasil (Jardim Botânico do Pará, 1779, da Bahia, 1803, do Rio de Janeiro, 1808), entre outros.

Vale lembrar que, ao final da Idade Média, a transformação da ‘Natura Naturans’ em ‘Natura Naturata' se torna concretizada mediante um conjunto de proposições para a Botânica, que vão ocorrer no ambiente científico, político, econômico, religioso.