CAPÍTULO 3: A psicologia na Metafísica Alemã (parte racional) 3.1 Primeiros princípios do conhecimento e conhecimento das coisas em geral 3.1.3 Espécies de coisas: Coisas Compostas e Coisas Simples A primeira espécie de coisas engloba todas aquelas que são constituídas por partes conectadas e ordenadas entre si, e cuja essência consiste na estrutura, ou seja, no modo como suas partes podem compor-se (§.59), às quais Wolff chama de coisas compostas (§.51). Pela ordem das partes, estas coisas preenchem um espaço (§.52) e possuem extensão, ou seja, largura, comprimento e altura (§.53), assim como forma (limite da extensão) (§.54) e magnitude (o conjunto das partes que se dá em certa ordem) (§.61). Na medida em que não ocupam seus lugares de forma necessária (§.50), também pode dar-se nelas o movimento, que consiste na mudança de lugar (§.57). E pela mesma razão, podem se decompor ou compor (§.55), no que se encontra o fundamento de sua origem e cessação (§.64) (quando a composição final implica uma estrutura diferente da inicial), assim como das suas mudanças de magnitude (tornando-se maior ou menos pela adição ou subtração de partes) (§.65) e forma (§.70), nas quais não se prejudica a essência, na medida em que se mantém a estrutura (§.71). Estrutura, extensão, magnitude, forma, preencher um espaço e movimento constituem, portanto, as propriedades de uma coisa composta (§.73), e nada além destas pode mudar nela (§.72). Isto é o que Wolff pressupõe para a compreensão de tudo o que conhecemos na experiência como corpos, incluindo o nosso com suas partes constituídas pelos órgãos dos sentidos. No entanto, prossegue Wolff, na medida em que tudo tem uma razão suficiente, há que se admitir a existência daquilo que dá origem às coisas compostas, o que, por sua vez, não pode ser uma coisa composta, ou o resultado seria a divisibilidade infinita das partes. A partir disto, Wolff admite uma segunda espécie de coisas, a das coisas simples, as quais não possuem partes (§.75), e constituem o fundamento das compostas (§.76). Na medida em que são completamente diferentes das coisas compostas, e não se lhes pode atribuir nada do que se percebe nestas (§.82), a existência das coisas simples não se pode estabelecer pela simples experiência, a qual, na medida em que consiste no conhecimento que alcançamos prestando atenção às sensações e mudanças da alma, que não são outra coisa senão representações das coisas compostas que causam mudanças em nosso corpo, só nos oferece conhecimento direto das coisas compostas (§.83). Por isso, a existência das coisas simples é objeto especial da reflexão de Wolff, que assim prossegue: caso não houvesse coisas simples, seria necessário admitir que algumas coisas compostas de partes possuem forma e magnitude sem razão suficiente (como pretendem os atomistas), ou que são indivisíveis, seja necessariamente, ou em função da vontade e onipotência divina (§§.77-78). No entanto, diz ele, na medida em que tudo possui uma razão suficiente, a primeira suposição não pode proceder; a segunda desconsidera que algo é necessário quando seu contrário é contraditório, o que não ocorre ao admitir-se as coisas simples (§.79); por fim, tampouco procede a tese da onipotência de Deus, na medida em que mesmo para as atividades divinas há que existir razão suficiente (§.80). Wolff conclui que, portanto, deve-se admitir a existência das coisas simples, ainda que esta não se possa estabelecer pela experiência. Quanto à sua origem (e fim), no entanto, outro problema se estabelece. Pois, diz Wolff, em primeiro lugar, as coisas simples não podem originar-se das compostas, pois tudo o que deriva de um composto possui sua razão na essência do composto e, antes mesmo disso, todo composto pressupõe uma coisa simples (§.87). No entanto, tampouco podem originar-se de outras coisas simples, pois são indivisíveis e não podem entregar nada seu (§.88). Assim, a não ser que fossem necessárias, elas devem originar-se em uma coisa prévia (§.89), mas não como as compostas que originar-se transformam sucessivamente umas nas outras pela mudança das partes e da estrutura, mas instantaneamente, o que não se pode inteligir ou definir compreensivelmente (pois só compreendemos aquelas coisas que se fundamentam umas nas outras sucessivamente, de acordo com o princípio de razão suficiente) (§§.90-91), e do que não se possui conceito algum (§.113) – o que, portanto, se compreenderá de forma meramente simbólica, na reflexão sobre Deus. Mas como existem e não podem deixar de ser por si mesmas, continua Wolff, deve haver nas coisas simples algo perene, o qual, por sua vez, deve possuir limites mutáveis pelos quais se compreendem as diferenças nas coisas compostas (§.112), mas que não são mais do que graus que se representam como se fossem partes do todo que é o perene, pelos quais possui a coisa uma magnitude e é mensurável (§.106). Como nada recebem ou dão de si, as variações desses limites devem fundamentar-se na própria coisa, e constituem, portanto, suas ações, do que se infere que possuem uma força (§.125), que mediante ela modificam continuamente seu estado (§.126), e que constituem também uma coisa existente por si mesma (§.127). E neste ponto, Wolff oferece um exemplo que nos é significativo: Por exemplo, nossa alma possui uma força mediante a qual produz seus pensamentos sucessivamente em ordem estrita, e é por isso uma coisa existente por si mesma. Pelo contrário, tanto os conceitos por ela produzidos quanto seu apetite [...] não são mais que limitações dessa força que surgem quando se vê determinada por algo concreto estando ela disposta a uma multiplicidade infinita. (Wolff, 1751/2000, p. 86, §.114) Mais à frente, continua: [...] mais adiante demonstrarei que a alma é uma coisa simples (§.742); veremos também que seus efeitos se podem compreender e se deixam explicar de maneira inteligível, apesar de que até agora ninguém tenha se atrevido a tal coisa. E o que se disse sobre as coisas simples pode esclarecer-se ainda mais se se ilustra com o exemplo da alma (Wolff, 1751/2000, p. 89, §.128). Como vemos, portanto, Wolff demonstrará que a alma consiste em uma coisa simples, e possui uma força pela qual produz de maneira constante todos os seus efeitos – pelo que reconhecemos que sem a investigação do conhecimento geral sobre as coisas nada poderíamos compreender na doutrina racional da alma. E com isto temos o suficiente do conhecimento geral sobre as coisas para avançarmos no conhecimento racional da alma. No entanto, antes de chegar à reflexão sobre a alma, Wolff enfatiza que para a compreensão de sua essência é necessário compreender primeiramente o que é um mundo e como está constituído (§.540) – pois, como veremos, estes conceitos fazem parte de sua definição. Devemos, portanto, contemplar o conhecimento sobre o mundo. 3.2 Conhecimento sobre o mundo No documento THIAGO CONSTÂNCIO RIBEIRO PEREIRA A CONCEPÇÃO DE PSICOLOGIA NA METAFÍSICA ALEMÃ (1720) DE CHRISTIAN WOLFF. Orientador: Saulo de Freitas Araujo (páginas 54-57)