CAPÍTULO 2 INADIMPLEMENTO RECÍPROCO
4. Mora
4.1. Espécies de mora
O art. 394 do Código Civil, de maneira conectada ao adimplemento, assinala três critérios para a configuração da mora, os quais serão examinados, a partir de agora, tendo em vista o contrato de distribuição.
Ocupar-se-á, em primeiro lugar, da mora de tempo, espécie mais corriqueira, para, em seguida, analisar os critérios que distinguem a legislação pátria de outros países de
169 A imputabilidade não só figura como requisito ou elemento da mora, mas como eixo central de toda a
teoria do inadimplemento, como visto no item anterior. Mais precisamente, somente haverá um autêntico inadimplemento (seja ele mora ou inadimplemento definitivo), se a causa do descumprimento for imputável ao obrigado. Se não imputável, há que se falar, a rigor, em impossibilidade.
tradição romano-germânica, ou seja, lugar e modo. Refletir-se-á, por fim, acerca das eventuais consequências trazidas pelo reconhecimento da relação obrigacional complexa para a mora, especialmente sobre sua incidência nos deveres que compõem a relação obrigacional.
4.1.1. Retardo
A primeira espécie de mora a ser tratada é o retardamento imputável ao obrigado no cumprimento da obrigação.
Neste caso, estará em mora o devedor que não cumprir a obrigação no termo pactuado. Caso não haja um termo fixado, será necessária interpelação, judicial ou extrajudicial, para a constituição em mora, nos termos do art. 397, caput e parágrafo único, do Código Civil. Para a configuração da mora, deste modo, é necessário que a prestação seja exigível.
A entrega atrasada de mercadorias pelo fornecedor ao distribuidor bem ilustra esta modalidade de mora. O atraso no cumprimento da obrigação de publicidade à cargo do distribuidor, ou na realização de treinamento pelo fornecedor em favor do distribuidor e seus empregados, ou, ainda, a delonga em prestar informações sobre o mercado para o fornecedor são outros exemplos de fácil ocorrência.
4.1.2. Lugar e modo
A mora no direito pátrio não se restringe ao retardamento no cumprimento da prestação. Conquanto existam opiniões doutrinárias em sentido diverso170, o art. 394 do Código Civil, de forma clara, estatui duas outras espécies de mora, quais sejam, lugar e modo.
Se a prestação é realizada no prazo avençado, todavia, fora do lugar ou de modo diverso do devido, o interesse do credor não é plenamente satisfeito e, consequentemente, não se pode falar em cumprimento. O descumprimento não ocorre somente quando não se
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De acordo com Jorge Cesa Ferreira da Silva, a mora define-se, exclusivamente, como atraso na prestação, como cumpre transcrever: “Apesar dos termos da definição legal, a mora no direito brasileiro continua vinculada exclusivamente ao tempo da prestação. Isso não significa, por certo, que a mora não ocorrerá quando a prestação for efetuada, ou seu recebimento realizado, no lugar ou na forma distinta do pré-fixado. Porém, nesses casos, o que realmente importará será o tempo que terá de ser gasto para a correta realização da prestação, período que envolverá o estado de mora. As hipóteses vinculadas ao lugar e à forma da prestação, assim, somente ensejarão mora na medida em que provocarem atraso no prestar ou no receber a prestação, ou seja, não são elas suficientes, individualmente, para caracterizar a mora.” (Cf. SILVA, Jorge Cesa Ferreira da. A boa-fé e a violação, op. cit., p. 145-146). No mesmo sentido, cf. STEINER, Renata Carlos.
cumpre a obrigação, mas também quando ela é cumprida no lugar ou de modo diferente do convencionado. De fato, se a prestação não foi executada no lugar ou no modo devidos, um autêntico cumprimento não há171.
Para a exata compressão, vale recorrer novamente ao exemplo do contrato de distribuição de computadores. Caso o fornecedor remeta os manuais dos computadores revendidos à loja equivocada, não há cumprimento da prestação, caracterizando mora de lugar. Igualmente, não há adimplemento da prestação quando estes manuais, a despeito de sua entrega no prazo e no lugar pactuados, são enviados em língua estrangeira, a despeito da existência de manuais escritos na língua pátria, o que caracteriza a mora de modo.
Não há ainda cumprimento quando se presta assistência técnica sem observar os padrões exigidos, quando se presta orientações incorretas sobre as vendas, quando a sugestões de preço é feita em moeda estrangeira ou ainda quando a publicidade é feita em praça equivocada.
Nestas hipóteses, caso o descumprimento seja imputável ao obrigado e subsista a possibilidade do cumprimento, haverá mora do devedor ou do credor. Deste modo, a mora no sistema brasileiro contempla, além do retardo, o cumprimento defeituoso em relação ao lugar e ao modo.
4.1.3. A mora frente à relação obrigacional complexa
A mora, em qualquer de suas modalidades (tempo, lugar e modo), é ligada, costumeiramente, a violação dos deveres de prestação, de modo a excluir de sua incidência a violação dos deveres de proteção172.
Para compreender esta afirmação e explorar sua adequação frente ao regramento brasileiro, convém discorrer brevemente sobre os deveres existentes na relação obrigacional complexa173.
A relação obrigacional abarca uma série de deveres, os quais não se vinculam somente aos deveres de prestação. A superação da concepção de que a obrigação se esgota no dever de prestar, e no correlato dever de exigir a prestação, faz com que, a par destes,
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“A não-satisfação pode provir de ser antes ou depois do tempo fixado, ou fora do lugar que fora indicado, ou em quantidade inferior à que se prometera, ou em qualidade inferior a que se havia de exigir”. (Cf. PONTES DE MIRANDA, Francisco Cavalcanti. Tratado de direito privado, t. XXVI,. 3ª ed., 2ª reimp. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1984. p. 15).
172
Cf. MARTINS-COSTA, Judith. Comentários ao novo Código, op. cit., p. 327.
173 Para esta síntese, consultei C
OSTA, Mário Júlio de Almeida. Direito das obrigações, op. cit., p. 73 e ss; e MARTINS-COSTA, Judith. A boa-fé no direito privado, op. cit., 437 e ss.
coloquem-se os deveres laterais derivados da boa-fé objetiva. A relação obrigacional complexa, desta maneira, abrange:
a) Deveres de prestação: os deveres de prestação subdividem-se em deveres primários e secundários. Os deveres primários ou principais constituem o núcleo da relação obrigacional e, por isso, são responsáveis por definir o tipo contratual.
Os deveres secundários ou acidentais, novamente, repartem-se. Existem os deveres secundários meramente acessórios da prestação principal, que se destinam a auxiliar no cumprimento perfeito da prestação principal; e também os deveres secundários com prestação autônoma.
A prestação autônoma, por seu turno, pode figurar como sucedâneo da prestação principal, como a indenização resultante do inadimplemento definitivo que substitui a prestação principal; ou ainda como uma prestação que coexiste com a prestação principal, tal qual a indenização emergente da mora.
b) Deveres laterais (Nebenpflichten): denominados ainda como deveres acessórios de conduta, deveres de conduta, deveres de proteção ou deveres de tutela, decorrem da boa-fé e surgem ao lado dos deveres de prestação.
Estes deveres não visam ao adimplemento da prestação, nem funcionalizam a prestação principal. Prestam-se ao regramento da conduta devida pelas partes ou, por outras palavras, “à exacta satisfação dos interesses globais envolvidos na relação obrigacional complexa174”. Colocam-se entre eles, de maneira ilustrativa, os deveres de informação, os deveres de notificação e os deveres de cuidado relativos à pessoa e ao patrimônio da contraparte.
A breve síntese aqui apresentada pode ser depreendida através do resumo gráfico abaixo:
174Cf. C
OSTA, Mário Júlio de Almeida. Direito das obrigações, op. cit., p. 77.
Obrigação Deveres de prestação Deveres primários Deveres secundários Meramente acessórios Com prestação autonôma Sucedâneo da prestação principal Coexistente com prestação principal Deveres laterais Deveres de informação e esclarecimento Deveres de cuidado e proteção Deveres de lealdade e cooperação
Elaborada uma explicação propedêutica dos deveres presentes na relação obrigacional, cumpre investigar como esta classificação se apresenta no contrato de distribuição. Para tanto, será de grande valia a gradação dos elementos realizada no primeiro capítulo do presente trabalho.
Os deveres secundários meramente acessórios coincidem com aqueles definidos como elementos de segundo grau e, deste modo, abrangem a aquisição de cota mínima, a entrega de cota mínima, a manutenção de estoque mínimo e o uso da marca.
Os deveres secundários com prestação autônoma coincidem com os elementos de segundo grau. São eles: exclusividade territorial, exclusividade de comercialização, serviço de assistência técnica e publicidade dos produtos.
No que diz respeito aos deveres anexos, necessário notar que o enquadramento do contrato de distribuição como um contrato de colaboração produz efeitos imediatos sobre eles.
Nesta categoria negocial, os deveres comumente caracterizados como laterais são, geralmente, colocados para dentro do contrato por meio de estipulações das partes e tornam-se deveres de prestação. É o caso, por exemplo, do dever de informar. Na maioria dos contratos não classificados como de colaboração, o dever de informar decorre da boa- fé. No contrato de distribuição, por sua vez, o dever de informar está intrinsecamente relacionado à economia do negócio.
Estes deveres foram definidos como elementos de terceiro grau e abrigam as obrigações de prestar orientações sobre organização de vendas, treinamento de pessoal, sugestão de preço e prestação de informações sobre o mercado.
O reconhecimento da relação obrigacional complexa produz efeitos sobre a concepção de adimplemento, posto que não basta a satisfação do dever primário. Faz-se necessário o cumprimento de todos os deveres emanados do vínculo.
Tal entendimento produz, igualmente, consequências para o inadimplemento, o qual pode recair sobre deveres de qualquer natureza. O enquadramento da violação de cada espécie de dever frente às modalidades de inadimplemento suscita acesa discussão na doutrina pátria.
De acordo com parcela significativa, a violação dos deveres de prestação configura mora. Segundo esta mesma linha de raciocínio, a inobservância dos deveres de proteção
restaria por caracterizar a violação positiva do contrato175, figura advinda do direito germânico.
Outros, por sua vez, entendem que não se faz necessário o recurso a uma terceira espécie de descumprimento para abranger os deveres laterais, os quais podem se submeter, a depender da análise acerca da utilidade da prestação, a dois caminhos: mora ou inadimplemento definitivo176.
O presente trabalho, pelas razões que serão expostas detidamente no item 5 dedicado a violação positiva do contrato, filia-se ao último entendimento. Antes de iniciar tal tema, faz-se necessário, porém, concluir o estudo da mora através do exame de suas consequências.