Intervalo: Corpo em atos ambulantes
PARTE 3 AMC: COLETIVIDADE E AFECÇÃO
3.5 AMC: Afecção Mediada por Computador
3.5.1 Espaço compartilhado da comunidade virtual: CMC
A sociabilidade e o vínculo social constituem fatores para a constituição de um corpo social. Na sociedade de massa desenvolve-se a economia dos laços sociais, com fins de garantir uma coesão de condutas e pensamentos, a partir da repetição/reprodução dos modos de se relacionar; apolítico, acrítico, alienado... Fabricam-se modos de ser e modos de pensar. A sociedade televisionada vê sua imagem e semelhança em imagens
fabricadas. As TVs como brinquedotecas de crianças, induzem comportamentos; passivos infantes assistem sem pronunciamentos. A TV faz calar aquele que a assiste porque quer ser ouvida, em pronunciamentos de novelas que fazem chorar mais que a própria realidade. Sem comunicação corpos de mesma face exploram os mesmos gestos, produzem encontros apartados em imagens partidas pelo zaping. Para Couchot (2003, p.86), o regime de comunicação que caracteriza as mídias de massa é apenas um aspecto particular do modo comunicacional em geral. Essas redes não são auto reguladas, não existe nenhum feedback, pelo menos imediato entre a emissão e a recepção. Opera-se uma comunicação do tipo mass media, não retroativa.
Com o desenvolvimento da telemática desmonta-se uma série de esquemas da cultura de massa; considerando a interatividade proporcionada, a livre circulação de idéias, o não controle das informações veiculadas. Fugitivos da sincronia televisiva encontram-se na diacronia do ciberespaço. Em palavras mediadas, corpos interfaceados escutam outros corpos interfaceados. Já não tão calados, os sujeitos querem se ouvir. Surge não somente um novo espaço de vinculo social, mais que isso, ampliam-se as noções de cultura, tecidas entre ciberpunks, ciberativistas, blogueiros, hackers; corpos plugados compõe a cibercultura. Tal cultura emergente abala a hegemonia do Estado por seu caráter de “socialidade”. A socialidade distingui-se da sociabilidade que está ligada às formas institucionalizadas das relações sociais, a maneira como o Estado opera na constituição dos vínculos e relações sociais. A “socialidade”, para Maffesoli, constitui o substrato de toda a vida em sociedade. Todavia, diferenciam-se da sociabilidade por ser um conjunto de práticas quotidianas que escapam ao controle social. Não institucional e dionisíaca as práticas de socialidade rebelam-se contra o fixo e a dominação. Os autores Deleuze e Guattari (2007, p.21), propõem a “mundanidade” em oposição a “sociabilidade”. Tais grupos mundanos estão mais próximos dos bandos e das maltas, são do tipo rizoma, por oposição ao tipo arborescente que se concentra em órgãos de poder (próprio da sociabilidade). “Socialidade” e a “mundanidade” correspondem a agenciamentos de um mesmo bando.
As comunidades virtuais correspondem aos agregados sociais telemáticos, cuja comunicação se dá principalmente de forma a-central, sem concentrar a emissão da mensagem a um centro produtor. “A relevância política da CMC resulta de sua
capacidade para desafiar o monopólio dos poderosos meios de comunicação detidos pela hierarquia política e talvez assim revitalizar a democracia dos cidadãos” (RHEINGOLD, 1993, p.339). A “comunáutica” (FOREST, 2006) desmonta uma série de esquemas da cultura de massa. Joga com a interlocução, a interatividade, a (quase) livre circulação de idéias, o (quase) não controle das informações veiculadas. Todavia, muitas vezes atribui-se o estado de comunicação a qualquer veiculação de informação na rede mundial de computadores. Veiculação de informação confunde-se com comunicação (como ocorre na TV), tal como aponta Medeiros:
(...) ainda que se queiram interativos, não são mais do que sites de informação, estando a interatividade reduzida às possibilidades de caminhos a percorrer.(...) Toda informação está previamente formada e in-formada... De-formar, re-formar são eventos constantes da comunicação (MEDEIROS, 2007, p.4) .
A comunicação mediada por computador (CMC) constitui a atividade mais praticada nas comunidades virtuais. “A atividade primária característica desses lugares é a conversação, a qual desempenha o papel de principal veiculo de exposição e apreciação da personalidade e individualidade humana” (OLDENGURG in RHEINGOLD, p.42, 1993). Conversação nos emails, passando pelos grupos temáticos, os newsgroups que se constituem em fóruns de conversação. Salas de chat, IRCs (Internet Realy Chats), bate papo grupais e videoconferências. Além das comunidades virtuais locadas em sites de relacionamento (Hi5, Orkut, MSN, dentre outros), salas virtuais, jogos como o MUDse o MOOs, etc.
Rheingold enfatiza o potencial humano como imprescindível ao desenvolvimento tecnológico: “A tecnologia não concretiza sozinha esse potencial interventivo, sendo necessário que suas capacidades latentes sejam conduzidas (...) por uma população esclarecida” (1993, p.17). Ferrara se coloca em posição similar: “A tecnologia não faz a comunicação (...) A construção e a frágil permanência da multiterritorialidade comunicativa não se faz, senão, pelo trabalho colaborativo dos internautas.” (FERRARA, 2008, p.143). A comunidade é constituída por subjetividades.
Forest aponta que, as questões que direcionam o “como viver juntos” estão implicadas nas novas práticas sociais, nas comunidades virtuais como espaço criativo que reinventa
o como viver. Mas, como viver juntos em meio ao binômio ausência-presenca que acompanha a telepresença, e, logo, as comunidades virtuais? “Desejo de uma comunidade tão real quanto ausente” (NEGRI, 2007, p.38). No que tange a constituição da comunidade virtual, Suzete Venturelli enfatiza o interesse comum:
Esses conjuntos de indivíduos não constituem necessariamente uma comunidade, particularmente se esses indivíduos não se consideram como tal. O que une uma comunidade não é uma estrutura, mas um estado de espírito, um sentimento de comunidade (VENTURELLI, 2004, p.141).
O que define a comunidade virtual é o reconhecimento destes agrupamentos por seus praticantes. Muitas vezes é preciso imaginar a comunidade para que ela exista, tal como afirma Benedict Anderson em seu livro Imagined Communities. Imaginar é reconhecer- se como tal.
A potência do comum é evidenciada nos agrupamentos telemáticos, seja de teleperformação ou nas comunidades virtuais. Está em jogo a vida em multidão. “A potência da vida da multidão, no seu misto de inteligência coletiva, afetação recíproca, produção de laço, capacidade de invenção de novos desejos (...), novas formas de cooperação” (PELBART, 2007, p.23). Mas, como pensar a multidão em comunidades virtuais que jogam com a hierarquia, quando o capitalismo cognitivo joga com a potência da vida em comum, frauda afectos e produz falsos laços com fins econômicos? Formas de cooperação são capturadas pelo capitalismo em rede (chamado também de capitalismo conexionista), que visa o lucro a partir da constituição de redes submissas, comunidades virtuais cooptadas. Sobre a força inventiva, das redes sociais Pelbart defende:
Deixam de ser reservas passivas a mercê de um capital insaciável (...) ensejando a comunialidade e a autovalorização (...) em vez de serem apenas objeto de vampirização por parte do Império, são positividade imanente e expansiva que o império reforça em regular, controlar (PELBART, 2007, p.133).
A tentativa de potência das multidões, sejam em comunidades virtuais ou em coletivos teleperformáticos, é uma evidência da cultura “telenóica” (ASCOTT in COUCHOT, 2002, p.248) que rompe com a cultura paranóica centralizada no eu, para ser sujeito- Nós. Este Sujeito-Nós é um neologismo criado por Couchot (2003) para indicar uma
subjetividade coletiva e interpessoal. Já para o Corpos Informáticos, evidenciar a importância do outro é distanciar-se da paranóia para encontrar-se na “prónoia”. Ainda que hajam cruzamentos, as comunidades virtuais e os coletivos performáticos desterritorializados diferenciam-se em suas práticas. Interessamo-nos pela afecção mediada por computador, pelo espaço social agenciado como arte e pelo espaço da arte agenciado como comunal. Ainda que as redes artísticas-performáticas se constituam também como redes sociais, se integra e se desintegram como socius, uma vez que a teleperformação envolve não só o instante da ação, mas a articulação do coletivo que a antecede. E-mails e mensagens delatam o processo da teleperformação; é preciso fazer uma rede de trocas, chamamentos e proposições. Mas, esta tentativa de agrupamento é defendida como tática de afecção e não como CMC propriamente dita.
O ciberespaço, em sua arquitetura das inter-redes, comporta outras redes que se querem mais como linhas de fuga, e não como comunidade virtual, tais como os coletivos de performação em telepresença. Para Certeau (1994, p.202), o espaço é um lugar praticado, existem tantos espaços quanto experiências espaciais distintas.