MEUS PRIMEIROS PASSOS
Fragmento 3: Espaço do Pet Shop
“Ser criança não implica em ter que vivenciar um único tipo de infância. As crianças, por serem crianças, não estão condicionadas
as mesmas experiências” (BRASIL, 2009, p. 22). Durante o ano de 2011as crianças da turma A, crianças com dois anos e meio e três anos,começavam a dar indícios de que algo não estava indo bem dentro da sala, eram choros, brigas, mordidas, o não querer vir para a escola e os espaços e brinquedos da sala estavam sendo estragados. Muitas eram minhas perguntas e inquietações junto com a coordenadora no decorrer dos nossos acompanhamentos: Poderia ser o planejamento? O espaço? O tempo e maneira de execução das propostas? Ou já estava na hora de trocar o espaço? Alimentá-lo? Assim, através das minhas observações em relação as brincadeiras e movimentos das crianças dentro da sala e da escola, juntamente com as conversas com a coordenadora, surgiu o espaço do pet shop.
Para iniciar organização do mesmo, entramos em contato com as famílias através de bilhete para que nos enviassem cachorros de pelúcia, vidros de shampoo, perfumes e remédios para cachorros vazios,coleiras, roupas para cachorros, imagens e fotos de cachorros entre outros acessórios. A partir do material que veio de casa, fomos até os pet shop da cidade para ver se tinham material para doação para terminar de compor nosso espaço.
Figura10- Crianças brincando no pet shop- Imagens dos registros docentes do ano de 2015, na segunda versão do espaço do pet shop. Sequencia fotográfica tirada pela educadora Aline Dezengrini de Souza
Então, após a organização do mesmo, posso dizer que o espaço era uma réplica de uma loja de pet shop, nele havia o computador e telefone para atender as pessoas que ali chegava, existia uma banheira para lavar e tosar os animais, consultório para as vacinas, espaço com brinquedos, ração, roupas, uma das crianças fazia o papel de veterinário, outras de cachorro, entre muitos movimentos que ali aconteciam. Era uma verdadeira loja de pet shop para brincar.
Olhando o movimento das crianças constatei que, conforme diz Barbosa (2006) citada por Rodrigues(2012, p 78. ), “os espaços criam novas formas de ação, de movimento, de experiência”. Assim, como um passo de mágica e devido ao olhar atendo e escuta sensível, as crianças pareciam ser outras naquele espaço.
SegundoRodrigues (2012, p 78. )
“o espaço do pet shop foi organizado com muitos elementos, transformando a sala num convite diário a todos os cuidados com os cachorros, muitos enredos se estabeleciam entre as crianças e entre as crianças e os objetos, banho, vacina, tosa, atendimento ao telefone informando valores dos serviços prestados no pet shop, pagamento. E claro também o cotidiano dos cachorros, brincando com as bolinhas, levando para passear, alimentando e até uma disputa por ossos não poderia faltar, ora eram os verdadeiros cachorros e ora brincavam com os cachorros que haviam nesse espaço, podendo afirmar que a inserção do pet shop na sala provocou a mudança nas relações entre os pares, das crianças com os objetos da sala, qualificando o brincar com outros elementos”4. Guimarães(2006, p. 75) nos faz pensar que os espaços nos convidam à “ação e à imaginação, por isso a importância de o educador funcionar quase como um cenógrafo, possibilitando as cenas que serão criadas pelas crianças, ajudando que essas cenas possam ser sustentadas e ampliadas”.Dessa forma, o espaço precisa também ser olhado e estar no planejamento, no registro, no vivido, no revisitado. O espaço não pode ser neutro diante da nossa prática, pois ele é um outro educador junto as crianças, ele diz de nossas concepções
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Esta prática já foi descrita na dissertação da autora, porém os registros fazem parte do cotidiano da escola e também é parte da minha experiência e do meu fazer, compondo os meus registros diários do ano de 2011.
e da nossa prática, bem como da mudança da mesma,conforme nos ensina a escola italiana.
Nesta perspectiva, o espaço precisa ser visto e organizado como um lugar para a aprendizagem; um lugar de bem-estar, alegria e prazer(...) precisa ser aberto às vivências e interesses das crianças de forma organizada e flexível; plural e diverso; seja estético, ético, amigável; seja seguro; seja lúdico e cultural (OLIVEIRA e FORMOSINHO,2008).Segundo as mesmas autoras, procura-se assim,que o espaço seja um lugar de encontro, um lugar para habitar, para acolher, para abrigar (...)Este conceito de espaço como lugar de encontro e de habitar nos conduz à ideia de espaço(s) de pertencer e participar, experienciar criar e narrar. Um lugar para o(s) grupo(s) mas também para o individual, um lugar para brincar, um lugar para descansar, um lugar que acolhe os diferentes
Nesse sentido,Horn (2006, p.35) conceitua o espaço sob uma perspectiva definida em diferentes dimensões: a física, a funcional, a temporal e a relacional, legitimando-se como um elemento curricular”. Assim, um espaço por si só, sem nenhum atrativo, não é um espaço que contribui ou que proporcione diferentes experiências. À medida que algo é produzido dentro desse espaço, a identidade, as percepções e até mesmo com a cultura de quem o faz ficam ali inseridos, esse local passa a ser parte integrante do individuo e responsável pelas suas aprendizagens.
Horn e Rodrigues (2013) reforçam que , os espaços dentro das escola, são resultado das histórias das pessoas e dos grupos sociais que os habitam, das formas como trabalham, como produzem e são produzidos. Nenhum lugar é neutro, pelo contrário, é repleto de histórias (HORN; RODRIGUES, 2013, p. 124).
Portanto, muito mais que falar de espaço dentro da escola, é necessário refletir sobre sua influência frente a criança, as propostas pensadas pelo educador e a forma como ele é habitado.Assim, enquanto age, escreve, reflete e revisita, sua prática em seus registros diários, ele vai tendo a possibilidade de transformar seu conhecimento, transformando também sua ação e a forma de pensar os espaços.
Este educador, pouco a pouco torna-se um educador-pesquisador, que tem sua ação como objeto de reflexão e como eixo do conhecer. Ele tem a possibilidade de entender cada vez mais, a partir das necessidades surgidas na própria ação concreta, sobre o processo de conhecer de suas crianças e suas ações dentro dos espaços da sala. Assim, a questão do espaço versus planejamento não é algo dado que se percebe, planeja e muda.. Ele retorna, pois diz muito de nós, de nossas leituras, concepções e vivências. Vai muito além da organização, pois ele precisa ser vivido tanto por crianças quanto pelos adultos para que possa ser revisitado, replanejado, modificado, experenciado a partir dos nossos registros tanto escritos como fotográficos.