3. O TRABALHO DOS IMIGRANTES PERUANOS NA FEIRINHA DA
3.1. Espaço e território em contexto de imigração
Os avanços das tecnologias da informação, comunicação e transporte caracterizam o mundo contemporâneo, tornando as grandes cidades em centros de processos sociais, culturais, políticos e econômicos que traspassam os limites do próprio estado-nação. A internacionalização e mobilidade do capital produziram uma reconfiguração das atividades econômicas repercutindo diretamente no mercado de trabalho a nível mundial. Essa reconfiguração, somada aos conflitos internos de cada pais expressados em crise econômica, politica e social impulsionam a imigração de milhões de pessoas que buscam um futuro além das fronteiras dos seus países. As grandes metrópoles intervêm diretamente nos vínculos culturais, sociais e familiares dos imigrantes, mas também podem se tornar um lugar onde os sujeitos (re)elaboram no urbano novas formas de pertencimentos e identidades (LEFEBVRE, 2004).
A imigração contemporânea não pode ser mais explicada pelo tempo de permanência dos indivíduos nem pela direção dos seus deslocamentos “Conceitos como mobilidade da força de trabalho e exercito industrial de reserva também não satisfazem mais as formas de explicar o mundo no qual o migrante é integrado” (HEIDEMANN, 1998, p. 16). A imigração, por sua vez, é um fenómeno social, histórico, psicossocial e também geográfico por possuir implicações a nível territorial e existencial. O migrante é deslocado do seu lugar de origem e é justamente nessa mobilidade que se pretende encontrar o significado de ser imigrante analisando os processos de desterritorialização e reterritorialização.
Para falar de novas territorialidades e multiterritorialidades é preciso abordar algumas definições em relação a território e territorialidade. Primeiramente é importante estabelecer uma distinção entre espaço e território, termos que em ocasiões são erroneamente relacionados como equivalentes. O espaço antecede ao território, não tem valor de troca, mas de utilidade. O espaço é como se fosse dado, uma espécie de matéria-prima que antecede a toda ação (RAFFESTIN,1993). O território é o espaço no qual os seres se organizam, articulando e delimitando-se com outros espaços já existentes. “O espaço é a prisão original, o território é a prisão que os homens constroem para si”. (op. cit. p, 144). A territorialidade, além de conter uma dimensão politica, engloba também relações culturais e econômicas já que esta estreitamente ligada à forma como as pessoas se organizam no espaço, à utilidade que as pessoas dão para a terra e ao conjunto de significações que dão para o território.
O território é uma produção a partir do espaço, é uma construção social que resulta da ação das relações de poder. O poder a sua vez, é a parte intrínseca de toda relação e tem implicâncias em todas as praticas espaciotemporais. A relação território- poder é então inquestionável, mas não se refere unicamente ao poder tradicional e absoluto, aquele mais visível e identificável como o Estado-poder. Refere-se ao poder concreto e simbólico da produção do espaço partindo das percepções, vivencias e concepções no nível individual, grupal e social. O poder concreto ou de dominação esta vinculado ao valor de troca e à funcionalidade do espaço. Este poder guarda estreita relação com a dominação politica e econômica, própria das sociedades modernas capitalistas. O segundo tipo de poder é o simbólico ou de apropriação, guarda relação com o valor de uso e compreende os aspectos culturais, simbólicos e marcas do vivido do espaço.
A apropriação e a dominação do território deveriam ir juntas e, no melhor dos casos, a apropriação deveria prevalecer sobre a dominação. Mas infelizmente a dinâmica de acumulação no sistema capitalista faz que a dominação se anteponha à apropriação, impedindo que os territórios sejam re-apropiados por estar dominados pelo estado e pela empresa privada. (LEFEBVRE, 1986; em HAESBAERT, 2004).
A sua vez o território, compreendido como espaçotempo vivido, é sempre múltiplo. É diverso, complexo e não unifuncional como a lógica capitalista o define, reduzindo o território no sentido do valor de troca transformando-o em mercadoria. Sob essa condição de diversidade e complexidade, própria dos processos de apropriação e dominação, é que se deve pensar na multiplicidade de manifestações do território e, ao mesmo tempo, diversidade de poderes a traves dos diferentes sujeitos involucrados. Os territórios deveriam estar diferenciados de acordo com os diversos sujeitos ou agentes que os compõem, sejam indivíduos, grupos, empresas, estados, instituições, etc.
O território apresenta seu próprio processo histórico, atravessando por uma serie de variações e transformações no decorrer do espaçotempo. Em outras palavras, os processos de territorialização ao longo das diferentes sociedades históricas vão adquirindo diferente significado. Assim, Haesbaert (2004), diferença três tipos de sociedades ao longo do tempo: sociedades tradicionais, sociedades disciplinares modernas e sociedades de controle ou pós-modernas. Nas sociedades tradicionais, a apropriação simbólica do território, dotava de sentido o espaço na sua totalidade mantendo assim sua cultura manifestada também a traves de uma profunda identificação com seu território. Nessas sociedades o território era mais estável e ao mesmo tempo
excludente em relação a outros grupos socioculturais. Nas sociedades modernas o território adquire um sentido utilitarista ao ser considerado um instrumento de domínio para o conhecimento das necessidades humanas. Nessas sociedades a construção da identidade individual é mais importante do que a grupal, reforçando assim o individualismo dos sujeitos, levando em conta que é um objetivo dessas sociedades disciplinar a traves do espaço.
A sociedade moderna capitalista, chamada por alguns como mundo pós- moderno, caracteriza-se porque o objetivo da territorialização é construir e, sobretudo, controlar os fluxos e a mobilidade dos sujeitos, da informação e das mercadorias. O território transforma-se então num território-rede, sendo a mobilidade um elemento crucial para a sua construção. A fragmentação do território, produto da nova organização condicionada pelos fluxos, redes e mobilidades, faz possível a assimilação de culturas estrangeiras no mesmo território.
Para começar a ampliar a nossa concepção de territorialidade é importante desconstruir o pensamento dicotômico entre mobilidade – fixidez, rede – territórios. Nosso tempo e contexto atual exige a aceitação de uma diversidade territorial, onde novos circuitos de poder desenham territorialidades cada vez mais complexas e diversas; em contraste com a ideia uniterritorial cuja única forma de controle, seguindo a logica capitalista, é a estatal, controlando os fluxos, áreas e fronteiras com fines políticos e econômicos.
Haesbaert identifica múltiplos territórios a traves de quatro tipos de territorialização. O primeiro são as territorializações mais fechadas, como é o caso de alguns grupos étnicos, cujo único território impõe uma homogeneização cultural tolhendo a existência de varias identidades assim como varias formas de poder. Outra territorialização é a mais tradicional como é o caso dos territórios centrados no estado- nação, os quais admitem certa diversidade mais não aceitam pluralidade de poderes. A terceira é a territorialização mais flexível que admite a sobreposição territorial, onde espaços multifuncionais coexistem nas áreas centrais das grandes cidades. E por ultimo encontram-se as territorializações múltiplas, características do contexto atual, de evidente mobilidade com presença de infinitas redes e fluxos. São as denominadas multiterritorialidades, conformadas por grupos e indivíduos que constroem seus territórios com conexão flexível de múltiplas funcionalidades e múltiplas identidades.
Segundo o autor, os humanos vivenciamos em todas nossas relações sociais (que são ao mesmo tempo relações de poder) diversos entrecruzamentos territoriais, pudendo
experimentar aso mesmo tempo vários territórios constituindo assim nossa multiterritorialidade. Nas ciências sociais fala-se também de um multipertencimento territorial afirmando que:
A relação entre o individuo ou grupo humano e o território não é uma relação biunívoca. Isto significa que nada impede este individuo ou este grupo de produzir e de habitar mais de um território. (...) é raro que apenas um território seja suficiente para assumir corretamente todas as dimensões de uma vida individual ou de um grupo. O individuo, por exemplo, vive ao mesmo tempo ao seu nível, ao nível de sua família, de um grupo, de uma nação (BAREL, 1986:135; em HAESBAERT, 2004).
O autor afirma que só um território não é suficiente para todas as dimensões de uma vida individual ou grupal. Os sujeitos vivemos no mesmo tempo num nível individual, familiar, grupal, nacional, etc., acomodando e articulando hierarquicamente nossos territórios nas diferentes dimensões do vivido. As multiterritorialidades compreendem então mudanças não só de maneira quantitativa, ao dispor de mais territórios, senão também qualitativa, ao poder combinar as vivencias e iterações em diversos territórios.
É justamente a traves da multiterritorialidades que poderíamos compreender as identidades e territorializações contemporâneas, já que nossos territórios atualmente estão sendo construídos mais por movimento e descontinuidade do que por fixação e rigidez. Um amplo exemplo é a dinâmica migratória. No caso dos migrantes, a formação de bairros, mais do que ser uma demanda da necessidade por moradia accessível com os seus salários, representa uma possibilidade de construir novas territorialidades onde, a traves de restaurantes, lugares de comercio de produtos dos seus países de origem, discotecas, canchas de futebol e demais lugares de encontro, os migrantes sentem-se parte do espaço da cidade. Os migrantes, na medida em que cheguem a pertencer a dois mundos simultaneamente, tentam manter, alguns de maneira existencialmente conflituosa, a memoria e costumes que os ligam a seu território de origem e, ao mesmo tempo, tem a necessidades de estabelecer novos contatos e diálogos com o novo lugar que constitui seu cotidiano, (re)construindo suas identidades, identificações e significados. Esses processos:
Descrevem aquelas formações de identidades que atravessam e intersectam as fronteiras naturais compostas por pessoas que foram dispersadas (migrantes) para sempre de sua terra natal. (...) Elas retém fortes vínculos com seu lugar de origem e tradições, mas sem a ilusão
de retorno ao passado. Elas são obrigadas a negociar com as novas culturas em que vivem, sem simplesmente serem assimiladas por elas e sem perder completamente a sua identidade. (...) devem aprender a habitar no mínimo duas identidades, a falar duas linguagens culturais, a traduzir e negociar entre elas (HALL, 1996:95; EM HAESBAERT, 1999).
Em outras palavras, o migrante quebra a concepção tradicional de território, cuja logica de território nacional afirma erroneamente a existência de limites e fronteiras territoriais bem delimitadas com identidades estáveis. As identidades mudam de acordo com o contexto espaço-temporal e com a maneira como as pessoas são reconhecidas, não existindo assim um foco único de identidade. Os sujeitos, dependendo das suas necessidades e interesses podem tornar suas identidades plurais, sendo estas ganhas ou perdidas. As redes aqui jogam um papel importante por revelar o caráter, flexível, dinâmico e relacional da ideia de identidade. O imigrante, como sujeito que se sente fazendo parte de dois ou mais territórios ao mesmo tempo, apresenta uma identidade cambiante, múltipla e diversa. E é justamente que partindo da noção das diversidades poderíamos repensar a dinâmica social mundial em todas suas dimensiones, construindo assim uma sociedade mais igualitária e inclusiva reconhecedora das diferenças humanas.