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Os Diagramas IV e V representam o espaço das propriedades sociais dos 8 membros mais longevos e recorrentes do CMN construído a partir das variáveis supracitadas. A interpretação visual do Diagrama IV – que apresenta a distribuição das modalidades nos eixos 1 e 2 – e do Diagrama V – que apresenta a distribuição das modalidades nos eixos 1 e 3 – somada a análise dos dados referentes às contribuições e coordenadas das variáveis e modalidades que são apresentados na Tabela 2 permitem compreender as principais oposições que estruturam o espaço social em questão.

Diagrama IV: Espaço das propriedades - eixos 1 e 2 (10 modalidades ativas e 1 suplementar)

Fonte: elaboração própria

Diagrama V:Espaço das propriedades - eixos 1 e 3 (10 modalidades ativas e 1 suplementar)

Fonte: elaboração própria

A Tabela II demonstra que todas as 4 variáveis empregadas na construção da ACM apresentam uma contribuição acima da média para a estruturação de ao menos um dos três eixos considerados. No eixo 1, a principal oposição se dá no âmbito do regime político em que os agentes atuaram no CMN – entre ditadura e democracia15. No eixo 2, as principais oposições se dão no âmbito da profissão principal – entre os adm. privados e os acadêmicos – do grupo geracional – entre os nascidos no período 1905-1929 e os nascidos no período 1930-1939 – e da classe social de origem – entre os oriundos da classe baixa/média16 e os oriundos da classe alta. E no eixo 3, a oposição mais relevante se dá no âmbito da profissão principal – entre os adm. privados e os adm. públicos.

Por fim, a projeção da variável referente ao posicionamento econômico dos agentes como uma variável suplementar permite verificar – lançando-se mão da medida convencional17 fornecida por Le Roux & Rouanet (2010 apud KLÜGER, 2018) – que no eixo 2 existe uma distância apreciável (no valor de 0,84) e, por conseguinte, uma oposição significativa entre os posicionamentos hawkish18 e dovish19 em economia. Os dados demonstram ainda que existe uma afinidade entre, de um lado, a profissão de acadêmico, a origem social baixa/média e o posicionamento dovish e, de outro, a profissão de adm. privado, a origem social alta e o posicionamento hawkish.

15 O termo ditadura é usado para se referir ao período 1965-1989, momento em que os presidentes foram escolhidos através de eleição indireta. E democracia é usado para se referir ao período 1990-2018, momento em que os presidentes foram escolhidos através de eleição direta.

16 Modalidade recodificada criada a partir do agrupamento das modalidades classe baixa e classe média. As classes dos agentes foram definidas a partir das profissões dos pais e outras características familiares.

17 Tal medida se baseia na classificação da distância entre as modalidades, a qual é mensurada “[...] de acordo com as coordenadas de cada um dos pontos em cada um dos eixos. Caso a distância seja menor que 0,5, não se trata de uma apreciável. Se estiver entre 0,5 e 1,0 é uma diferença possível de ser notada.

Tratando-se de uma distância maior que 1,0, consiste em uma grande diferença.” (KLÜGER, 2018, p. 90).

18 Hawkish ou hawk (em português, literalmente “águia”) são termos usados para designar os formuladores de políticas que adotam medidas econômicas de caráter contracionista, ou seja, que tem como meta principal a manutenção da inflação em patamares baixos mesmo que isso custe o crescimento econômico.

19 Dovish ou dove (em português, literalmente “pomba”) são termos usados para designar os formuladores de políticas que adotam medidas econômicas de caráter expansionista, ou seja, que tem como meta principal a manutenção do crescimento econômico e que são mais tolerantes com a inflação.

Tabela II: Contribuições das modalidades e variáveis para os eixos 1, 2 e 3 social em três pequenos subgrupos profissionais significativamente coerentes. Em azul, estão os administradores públicos (3 indivíduos), em preto os acadêmicos (3 indivíduos) e em verde administradores privados (2 indivíduos). O subgrupo dos adm. públicos se caracteriza por uma origem social alta (66,6% dos agentes), por um posicionamento pragmático em economia (66,6% dos agentes) e por atuar no CMN durante o regime ditatorial (100% dos agentes). O subgrupo dos acadêmicos se caracteriza por uma origem social baixa/média (66,6% dos agentes), por um posicionamento dovish em economia (66,6% dos agentes) e por atuar no CMN durante o regime democrático (66,6% dos agentes). E o subgrupo dos adm. privados se caracteriza por uma origem social alta (100% dos agentes), por um posicionamento em economia que vai do pragmático ao hawkish e por atuar no CMN igualmente durante os regimes ditatorial e democrático.

Diagrama VI: Espaço dos 8 ministros da Fazenda e do Planejamento e presidentes do BACEN mais longevos e recorrentes do CMN - eixos 1 e 2

Fonte: elaboração própria

Considerações finais

Conforme os dados analisados, o perfil típico entre os ministros da Fazenda e do Planejamento e presidentes do BACEN que foram membros do CMN no período 1965-2018 é o indivíduo do sexo masculino que é autóctone e/ou graduado na região Sudeste e que possui um volume relativamente alto de capital cultural, formação em economia (graduação e/ou pós), significativa internacionalização acadêmica e/ou profissional (que tem os EUA como centro) e um tempo de permanência no CMN relativamente baixo.

A pesquisa demonstra também que a população analisada se distribui em dois grandes grupos profissionais. De um lado, está o grupo dos acadêmicos/adm. privados, o qual se caracteriza por um elevado número de formados em economia e por elevados níveis de capital cultural e de internacionalização. E de outro, está o grupo dos adm.

públicos/políticos, o qual se caracteriza por um número menor de formados em economia e níveis mais baixos de capital cultural e de internacionalização.

De modo geral, os recursos que possibilitam o acesso aos cargos de ministro da Fazenda e do Planejamento e de presidente do BACEN e, por conseguinte, ao posto de membro do CMN são o capital cultural (maior ou menor conforme a profissão do agente)

e os capitais simbólico, técnico e social (acumulados a partir sobretudo de suas experiências educacionais e/ou profissionais).

O estudo demonstra ainda que – apesar do tempo médio de permanência dos 65 agentes analisados no CMN ser relativamente baixo – 8 indivíduos atuaram mais de 5 anos e foram membros mais de uma vez. Essa pequena “elite” se distribui em 3 subgrupos: 1) acadêmicos, que se caracterizam pela origem social baixa/média e pelo posicionamento dovish em economia; 2) adm. públicos, que se caracterizam pela origem social alta e pelo posicionamento pragmático em economia e; 3) adm. privados, que se caracterizam pela origem social alta e por um posicionamento que vai do pragmático ao hawkish. Os acadêmicos atuaram no CMN sobretudo durante a democracia, os adm.

públicos durante a ditadura e os adm. privados igualmente em ambos regimes.

A partir destes achados pode-se apontar as seguintes tendências: 1) o perfil dos 65 agentes analisados é relativamente homogêneo, fato que no tocante a área de formação e nível de instrução (i.e., pós em Economia) poderia ser justificado pela natureza de seus cargos, mas que no tocante ao gênero e a região de origem não encontra tal justificação;

2) a população pode ser coerentemente dividida em grupos e subgrupos profissionais; 3) a posse de volumes consideráveis de capital cultural e de capitais simbólico e técnico é essencial, mas não suficiente para que um agente se torne membro do CMN; 4) o capital social é indispensável para que um agente bem dotado de outros capitais se torne conselheiro20; 5) apesar do baixo tempo médio de permanência, tanto no período ditatorial como no democrático houveram ministros da Fazenda e Planejamento e presidentes do BACEN com grande longevidade e relevância no CMN.

Nas próximas etapas deste estudo, objetiva-se mapear e analisar as decisões mais importantes promulgadas pelo CMN à luz dos perfis de seus membros e dos padrões de interação entre eles (de disputa, de cooperação, etc.) assim como também das características políticas e econômicas dos períodos considerados.

Referências

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20 Tal achado é congruente com o que Klüger (2017) – em sua análise do espaço dos economistas no Brasil – chamou muito apropriadamente de “meritocracia de laços”. Segundo a autora, apesar do aumento da qualificação dos formuladores de políticas econômicas, o capital social continua sendo um recurso essencial para o acesso aos postos de prestígio na administração econômica estatal.

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