3 A INTERTEXTUALIDADE E A PARÓDIA
3.4 Espaços e Cia.
O tempo e o espaço são indissociáveis na obra literária, segundo Mikhail Bakhtin, que denomina esse fato de cronotopo porque determina a unidade artística do texto em relação à unidade efetiva. Trata-se de um elemento notável que não pode vir isolado do seu conjunto, senão pela análise abstrata, conforme pretende o autor em sua obra Questões de Literatura e de Estética: a teoria do romance (1998). Assim o designa com a justaposição de dois vocábulos gregos – crono/tempo, topo/lugar, lembrando que o momento da criação é uma explosão emocional em que tempo e espaço são buscados em parceria, em todas as suas dimensões: se a arte é vida, a vida acontece no espaço inseparável do tempo.
Se toda a imagem de arte literária é cronotópica, é cronotópico o bojo da palavra, o signo mediador que transporta os significados originais e espaciais para as relações temporais (no sentido mais amplo), conforme enuncia Bakhtin. Logo, o caráter dialógico reside na relação do Escritor com as manifestações de seu próprio tempo, lugar e cultura. Para o teorizador, o tempo na vida real não é menos organizado na vida real que na literatura; não existe fora da inter- relação espaço-tempo.
Para além das inter-relações entre os cronotopos, no âmago da obra, indaga-se de que ângulo espaço-temporal o autor visualiza as ocorrências mais referendadas?
Tanto Pinheiro Torres, quanto Silviano Santiago observam a geografia como segmento essencial da construção de seus romances. Desse ângulo, apresentam uma leitura elucidativa que confirma que, embora usualmente se considere o enredo e a estrutura de uma obra literária como constituídos de temporalidade, esquece-se o papel do espaço, localização e geografia. Como atestam as direções e ênfases dos argumentos narrativos em Em Liberdade, e como aqui foi referido, é relevante para este subcapítulo lembrar que o espaço fabular dimensiona-se no espaço geográfico e psicológico, onde se localizam o protagonista Graciliano e seus convivas: a cidade do Rio de Janeiro, local da prisão em que permaneceu Graciliano Ramos, registrada em Memórias do Cárcere; da pensão em que se hospeda; o local onde residia o escritor José Lins do Rego, (Rua Alfredo Chaves), cuja família era solidária ao autor de Vidas Secas.
Fica visível, inclusive, o jogo de contrastes semânticos entre as imagens dos primeiros dias de liberdade de Graciliano, ou seja, fora da prisão, nas ruas, nos passeios pela cidade do Rio de Janeiro, diante da vista da praia e do mar, e as imagens dos lugares onde se efetivam as instâncias de crise, ou reflexão (sobretudo no quarto da casa dos Lins do Rego), que ilustram os paradoxos da “liberdade”. Às vésperas do Carnaval, a cidade, iluminada pelo verão, pela juventude ao ar livre, provoca incômodos em Graciliano; há essa contraposição dos espaços abertos com os internos, dos impasses de não-liberdade, como a
“escuridão”, o “frio”, a “cegueira”, o “corpo morto”, a “falta de dinheiro”, a “insegurança” e a “sombra negra”. Na sua acepção, ao se abrirem as portas da prisão, a liberdade não chega mais depressa, e é sujeita a instabilidades, uma aspiração com os riscos de escapar-se num momento qualquer.
Também em Espingardas e Música Clássica são visíveis sucessivos momentos da vida cotidiana das personagens, em suas mudanças dramáticas e em sua continuidade. Há em todas um instante de metamorfose, pelo menos para o epílogo, a revelação da vida privada dá-se evolutivamente e guarda uma relação com a vida pública, verificada na veiculação de notícias a respeito da revolução ultramarina de Portugal, das prisões e das injustiças praticadas no espaço de Frariz. A sala de visitas, a varanda, a paisagem, a natureza, o rio Tâmega, o Hotel de D. Guiomar etc. são extensões onde ocorrem e se resolvem os problemas familiares, entre o Juíz Tadeu, sua família, a criada e também com os visitantes, os homens da PIDE e da GNR. e onde se desencadeiam determinados fatos de importância para o andamento da narração na provinciana cidade de Frariz do Tâmega, lugar do tempo cíclico, dos costumes e das peripécias, nessa obra (TORRES, 1989, p. 44).
É forte a presença do ambiente em capítulos inteiros. O capítulo 6 refere “A paisagem” que se debruça ao longo do Rio Tâmega; no capítulo 8, denominado “uma terra cheia de buracos”, há menções às cavernas da região, uma herança da perfuração de minas, quando da dominação árabe, refúgio dos cães e dos amantes; o capítulo 11, “A política dos espeleólogos”, reenvia ao
tema das cavernas. Ali, encontros fortuitos se realizam e os perseguidos pela polícia se ocultam para tomar decisões.
O Rio Tâmega é um ponto de referência na visão que a sociedade do local tem de si mesma. Por este viés, ela se reconhece, se pensa e se sonha, ressaltando, uma vez mais, na obra, a importância do universo simbólico da cultura que o produz. Afluente do Rio Douro, sua denominação corresponde, em português, à do Rio Tâmisa, dos ingleses.
O termo Frariz foi muito bem formado pelo autor, para designar o espaço tópico da trama: compõe-se de Frades-França-Paris, sendo Paris e Londres referências de signficação, de espaço de liberdade para os degredados políticos que fugiam à perseguição salazarista e à dificuldade de se viver em Portugal. Frariz do Tâmega e a exótica Ilha dos Frades são o núcleo geográfico na criação do romance, em que se fundem no discurso, os elementos literários e históricos, levando na referência à Ilha dos Amores, de Os Lusíadas. Ali se realizam encontros e desencontros, decisões e mortes. Na atmosfera parada, de poucas chegadas e de poucas partidas, o Juíz Albuquerque observa o rio Tâmega da sala de visitas, ou da varanda de sua casa de três andares, lugar privilegiado na narrativa, como já foi referido.
Enquanto isso, o olhar do narrador também é de percorrer a paisagem pelos terraços da “casa grande”, portuguesa, onde residem o Magistrado e sua família e onde os problemas são colocados: “Olha a montante do rio, do lado oposto, na curva que faz o meandro que interrompe a linha do talvegue, os socalcos verdoengos, o cenário de casinhotos e pardieiros, escadórios musguentos” (TORRES, 1989, p. 44). Gaston Bachelard (1998), que se
dedicou também ao estudo do espaço, especifica que “a casa é o “microcosmos”, onde o homem encontra abrigo, refúgio e proteção, o “canto do mundo onde o homem tem sua privacidade”. Por ela transitam os atores da história de Espingardas e Música Clássica, inclusive a esposa do Juíz, Conceição de Albuquerque, infeliz com a situação reinante, de que foge pelo sono, a poder dos comprimidos belegard retard, enquanto o marido, entre discussões e visitas, ou entre um vinho e outro, especula acerca dos acontecimentos lá de fora para saber a quantas andam a situação de sua indústria têxtil e a busca dos homens responsáveis pelo sabotamento das máquinas. A rotina doméstica complementa-se com a filha e com a criada a quem acossa, além do primo, sempre portador das últimas notícias. Ao ligar seu “Grundig”, e percorrer as emissoras de Rádio, é que o Magistrado nota que elas só transmitem música clássica, ou de enterro, como a denomina. A paisagem, mais uma vez, intervém simbolicamente no rio Tâmega, sobre o qual se concentra o olhar do protagonista, no instante em que o contempla.
Também a casa do escritor José Lins do Rego é o abrigo provisório para a personagem Graciliano, na obra Em Liberdade, espaço de convívio não só com os familiares de Lins do Rego, mas com a esposa Heloísa. É aí que dá início ao diário, cuja ficção tangencia seu sofrimento e seu descontentamento, por estar vivendo “de favores”.
A viagem é outro fator a ser considerado, dada sua importância para os destinos da Nação: Simão e Teresa emigram para a França. A postura interativa do narrador condiciona o leitor a uma expectativa de conclusão dos fatos, narrados na instância de fabular, possibilitando que a história passe pela
instância do auto-reconhecimento. Embora nesse clima de retirada, que se instaura pela viagem forçada dos actantes, o narrador não questione a saudade, nota-se um tom melancólico sobre a ironia, de restar um único caminho para Teresa e Simão: buscar a felicidade fora de seu país. Sugerem- se, assim, as mágoas do exílio, da ‘viagem’ a que simbolicamente se viram submetidos todos os que foram obrigados a emigrar.
Diferente eixo da história de Frariz tem o que se passa pelo Hotel dos Guilhermes, espaço de contraponto da casa dos Albuquerques, onde pulsa o coração das gentes. Central de informações, é aí que os dias têm continuidade sob a tutela da proprietária, D. Maria da Graça, que esconde Simão, debaixo das “barbas” da polícia. É onde se hospedam o subinspetor da Pide, seus subordinados e se planejam as operações policiais diárias. Mas é Dona Maria, com seu jeito de falar, fresco e colorido, matizado de espanholismos, quem desvenda os fatos, dando forma e coerência, ao corrigir as escorregadelas do subinspetor “e deprime nele o orgulho da coorporação, ao revelar-lhe o óbvio do lugar” (TORRES, 1989, p. 15). O Hotel contrapõe-se ao ambiente ríspido e agressivo da residência do Magistrado, mas é nele que se respira o ar corrosivo de “instabilidade, que ilude as aparências como se “todos os frutos do madureiro já estivessem sovados”. Agentes da Polícia de Salazar procuram resolver o “teste do crocodilo”, importante nos concursos de promoção, fato que espelha a superação de um tempo em que pessoas contemplativas se contentam em olhar as margens do Tâmega, numa paisagem que se projeta na esfera do lírico, como a do rio que corre pela minha aldeia, em Alberto Caeiro.
Ao contrário de Amor de Perdição, os espaços aqui divisados se situam e se interagem em esferas diferentes. Todas as personagens mantêm uma característica de evolução, como personagens redondas que são. Os protagonistas evoluem de uma situação e de um estado psíquico iniciais até outros completamente distintos por meio de um percurso marcado por sentimentos-força fundamentais: o amor e a honra, que haviam sido francamente privilegiados no código de valores do Romantismo.
Fica, portanto, evidente que, tanto em Espingardas e Música Clássica, quanto em Em Liberdade, o espaço revivido remete ao mundo real, a cidade de Amarante e a cidade do Rio de Janeiro, correspondentes ao mundo ficcional de Frariz do Tâmega e da prisão e locais por onde circulou a personagem Graciliano.
A representação ficcionalizada reflete uma refiguração, segundo indica o próprio nome criado (?) pelo autor português, (Frariz); ou o nome real da cidade Rio de Janeiro, mostrado pelo autor brasileiro; o que leva a confundir com o objeto representado, suscitando eficientemente a simulação.