Dada a importância da esfera de produção para a análise aqui realizada – abordagem sócio-histórica da linguagem cunhada por Bakhtin e o Círculo – os contextos sociais doravante descritos constituem os projetos discursivos enunciados e aqui analisados, interferindo diretamente na forma dada ao material e no conteúdo dos gêneros produzidos em sala de aula. A história de ocupação das ilhas e dos bairros periféricos de Belém4, sinalizam caminhos para a compreensão do conjunto das atividades propostas tendo em vista sua
orientação diálogica situada na tensão entre Belém e sua natureza ribeirinha.
As circunstâncias violentas de apropriação da Amazônia, desde o Período Colonial até os dias atuais, precisam ser investigadas. Ainda no período Pré-colonial, a região era ocupada por povos indígenas, sobretudo os Tupinambás. Após a chegada dos portugueses, em 1616, as ilhas de Belém foram local de refúgios para a população indígena que resistiu à violência e à escravidão imposta pelos colonos. No século XVIII e XIX, com as rotas do tráfico de escravos africanos na Amazônia, a região insular de Belém e bairros de sua periferia, abrigaram lazaretos5 de quarentena de escravos doentes vindos da África. Na Revolução
Cabana ou Cabanagem (1835-1840), as ilhas localizadas na baía do Guajará serviram de abrigo para os colonos e as tropas da Coroa Portuguesa que ali se refugiaram após a tomada de Belém pelos cabanos6,
permanecendo até a chegada de reforço vindo da Província do Maranhão. Após a retomada da cidade pela esquadrilha real portuguesa, as ilhas serviram de esconderijos aos cabanos sobreviventes.
Dois grandes fluxos migratórios também marcaram o processo de ocupação das ilhas e bairros da periferia. O primeiro ocorreu durante o período do ciclo da borracha, no final do século XIX e início do século XX. O segundo durante o boom desenvolvimentista brasileiro, a partir dos anos 1960, momento marcado pelos grandes projetos na Amazônia. Esse contingente, somado à população vinda dos municípios do interior do estado, ocupou as ilhas e a periferia da cidade, áreas localizadas às margens dos rios e ao longo de estradas e vicinais. Ainda no século XX, durante a ditadura militar, por ordem do interventor Magalhães Barata, foi instalado um presídio na ilha de Cotijuba para onde foram levados presos políticos. A ocupação das ilhas e
4 Belém foi a primeira capital da Amazônia no período colonial decorrência de sua localização no delta do rio Amazonas. Cerca de
69% da área total do município é formada por 39 ilhas, onde moram aproximadamente 14 mil habitantes, do total de 1.485.732 população de Belém estimada em 2018 (BRASIL-IBGE, 2018).
5 Leprosário, estabelecimento para controle sanitário, onde são postas de quarentena as pessoas que podem ser portadoras de
moléstias contagiosas.
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da periferia de Belém é resultado das diásporas, dos fluxos migratórios, dos deslocamentos sócio-cuturais e da violência naturalizada com base na lógica colonial de civilização e republicana de modernização.
As dezenas de comunidades ribeirinhas que hoje habitam as margens do rio Guamá7 e da Baía do
Guajará mantêm em comum o modo de vida das populações tradicionais da Amazônia. São famílias que estão nesse território há várias gerações, em residências construídas sobre palafitas em áreas alagadas de várzea e estão distribuídas em comunidades situadas em braços de igarapés com foz no rio e na baía citados acima. Essa população vive, sobretudo, do extrativismo vegetal, da pesca artesanal hoje bem escassa, dos programas sociais de distribuição de renda do Governo Federal e dos serviços prestados aos turistas. De acordo com o atlas de vulnerabilidade social do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), os bairros próximos aos rios e à área insular de Belém concentram os maiores índices de exclusão e vulnerabilidade social (BRASIL-IPEA, 2018)8.
No bairro da Condor, um bairro da periferia de Belém com profundos problemas sociais, está localizada a escola pública estadual investigada. Em 2017, constavam nos registros da secretaria de Educação do Pará, 362 matrículas nos anos finais do Ensino Fundamental. A escola funcionava em dois turnos, manhã e tarde, em que 109 matrículas eram de alunos do sexto ano, sendo três turmas no turno da manhã e duas turmas no turno da tarde.
Na turma 602 constavam 25 matrículas, entretanto, a frequência era sazonal, em época de avaliação essa frequência aumentava. No período normal de aulas, a frequência dos alunos caía em cerca de 30% e após o intervalo da merenda ocorria o esvaziamento das turmas nas últimas aulas. Os ribeirinhos estavam entre os poucos alunos que permaneciam em sala, pois os barcos orientavam-se pelos horários da escola para realizar o translado dos estudantes9.
A escola situada a poucos metros de um porto fluvial, o que explicava o grande número de matrículas de ribeirinhos, mantinha-se sob uma infraestrutura precária, paredes sujas e com infiltrações, cadeiras e mesas quebradas, banheiros em péssimo estado de conservação, não existia área de lazer, e os espaços pedagógicos se resumiam às salas de aula escuras e pouco arejadas. Nos dias em que faltava merenda, os estudantes eram liberados no intervalo das aulas, comprometendo os últimos horários e todo o planejamento pedagógico dos professores.
7 Extenso e importante rio da capital paraense, no qual se capta a água consumida em toda Região Metropolitana de Belém, fato que
levou o governo local a estabelecer unidades de conservação ambiental em torno da usina de tratamento de água do complexo Bolonha.
8 O índice de vulnerabilidade social (IVS) é medido com base no cruzamento de três subíndices: i) Infraestrutura Urbana; ii) Capital
Humano; e iii) Renda e Trabalho. Representando três grandes conjuntos de ativos, cuja posse ou privação determina as condições de bem-estar das populações nas sociedades contemporâneas. Cf. Atlas de Vulnerabilidade Social, IPEA. Disponível em: http://ivs.ipea.gov.br/index.php/pt/ Acesso em: Set. 2018.
9 Os estudantes ribeirinhos que participaram dessa atividade chegavam à escola nas embarcações contratadas pela Secretaria de
Educação, por meio de recursos vindos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação Básica (FNDE) destinados ao transporte escolar.
54 Entre as margens do rio Guamá em Belém do Pará: o texto...
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A proposta didática realizada nas aulas de língua portuguesa ocorreu durante o mês maio de 2017, teve o consentimento da professora, e contou com a participação de treze alunos.
Quatro etapas compuseram a sequência didática, a saber: (1) introdução do tema; (2) narrativa oral dos alunos contando o trajeto de casa para a escola; (3) produção escrita de narrativas verbo-visuais; (4) partilha e discussão. Na abertura da primeira etapa, com o objetivo de introduzir o tema, a pesquisadora relatou o próprio percurso feito entre sua casa e a escola. Para a melhor compreensão dos alunos, desenhou na lousa o trajeto, reunindo à narrativa oral elementos discursivos da realidade: (a) os lugares (supermercados, farmácias, nome de ruas, nome de praças etc.), o meio de transporte usado para o seu deslocamento e o tempo transcorrido entre os dois lugares; (b) o trajeto, um acontecimento da vida real ocorrido no percurso entre a residência e a escola, demonstrou as dificuldades em chegar à escola por falta de familiaridade com o lugar; e (c) a seleção de estratégias de leituras usadas para localizar-se no espaço desconhecido: leitura de placas dos nomes de ruas, interação com outras pessoas para obtenção de informações, identificação de pontos de referência no trajeto etc.
Na segunda etapa, com o objetivo de recuperar a narrativa oral dos estudantes, a pesquisadora pediu a eles que contassem seu trajeto até a escola, momento de muita participação dos alunos. Na terceira etapa, visando a produção escrita dos alunos relatando o percurso já narrado oralmente, a pesquisadora distribuiu uma folha em branco e os orientou a desenhar o trajeto percorrido entre a casa e a escola. Na última etapa, as produções textuais verbo-visuais foram socializadas em sala de aula.
Os treze alunos produziram 14 textos verbo-visuais, dentre os quais oito têm autoria de jovens ribeirinhos. Dadas a criatividade e a singularidade das narrativas argumentativas, selecionamos seis para análise: três textos verbo-visuais foram produzidos por dois jovens da comunidade ribeirinha de Nossa Senhora do Livramento, identificados como R. (Fig. 1a, 1b ) e G. (Fig. 2); e os outros três foram produzidos por A. (Fig. 3), GL. (Fig. 4) e J. (Fig. 5) 10, alunos residentes na Condor, bairro onde foi realizada a pesquisa de
campo.
A comunidade ribeirinha de Nossa Senhora do Livramento, local de residência dos estudantes identificados pelas iniciais R. e G., está situada na zona continental rural-ribeirinha de Belém, área destinada a uma unidade de preservação ambiental desde 1940. É uma comunidade relativamente isolada e vizinha da usina de abastecimento de água da Região Metropolitana de Belém, o complexo Bolonha. Essa comunidade mantém-se exclusivamente do extrativismo de frutos e sementes (sobretudo do açaí e do cacau) e da pesca (de peixes e mariscos). São parcos seus recursos com que vivem, não há nenhuma infraestrutura de saneamento, e há ausência de energia elétrica e fornecimento de água tratada. Na época da pesquisa, a presença do Estado na comunidade resumia-se a uma escola de maderia sobre palafitas com vagas nos anos
10 Conforme orientação do Comitê de ética da USP, neste artigo os autores serão identificados pela letra inicial de seu nome,
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iniciais do Ensino Fundamental, à manutenção da Unidade de Conservação Nossa Senhora dos Navegantes e aos programas sociais de distribuição de renda do Governo Federal.
Na outra margem, na zona urbana, o bairro da Condor, onde residem A., GL. e J., foi espaço da boemia nos anos 40 do século passado. A praça Princesa Isabel, ao lado do Palácio dos Bares, onde esteve o terminal aeroviário Condor, em atividade entre os anos 20 e 40, deu nome ao bairro, hoje abriga o porto fluvial, local de embarque e desembarque dos estudantes ribeirinhos e dos moradores das ilhas próximas à Belém. A Condor é um bairro com cerca de 45 mil habitantes, e padece com as mazelas causadas pela precária infraestrutura urbana e pelo alto-índice de violência que cresce vertiginosamente, em consequência do aumento do narcotráfico e da atuação da milícia no local.
O continente urbanizado e as ilhas de Belém são espaços onde os domínios da diferença são vivenciados intersubjetivamente e coletivamente. As escolas públicas de Belém ainda se mantêm como principal agência de letramento das comunidades que habitam as periferias desta cidade. A sala de aula de português, constituída de sujeitos oriundos de diferentes culturas (da cultura oral-ribeirinha e da cultura urbana), foi o espaço onde os valores culturais negociados são materializados em narrativas argumentativas que tematizam os percurso de ir e vir para a escola. De acordo com Plantin (2008), a orientação dialógica de todo discurso, tese bakhtiniana,
é uma das aquisições em que baseaim a análise do discurso, em geral, e a do discurso argumentatuvo, em particular: “todo discruso é dirigido para uma resposta, e não pode escapar da influência profunda do discurso-réplica previsto” (op.cit., p. 103). Todo discurso seria não somente dialogal, mas polêmico. (PLANTIN, 2008, p. 19)
As narrativas dos deslocamentos diários dos estudantes coincidem com o processo de formação da cidade, mas, sobretudo, evidenciam o lugar único desses sujeitos sociais que enunciam a vida acontecendo na periferia de uma capital da região amazônica no contexto de uma comunicação socio-ideológica. Trata-se da arquitetônica do mundo real com base nos valores experimentados pelo sujeito que narra argumentando, afim de fazer do outro um co-participante do projeto de dizer.