Segundo Teorema de Morse
4.1 Espa¸ co de adjun¸ c˜ ao
Sejam X um espa¸co topol´ogico, Y um conjunto e π : X −→ Y uma aplica¸c˜ao sobrejetiva.
Defini¸c˜ao 4.1. A topologia quociente em Y determinada por π ´e definida de-clarando um subconjunto U ⊆ Y sendo aberto se, e somente se, π−1(U) ´e aberto em X.
Se, na defini¸c˜ao acima,Y for um espa¸co topol´ogico, ent˜aoπ´e chamadaaplica¸c˜ao quociente.
Seja ∼ uma rela¸c˜ao de equivalˆencia em X. Denotamos por X/ ∼o conjunto das classes de equivalˆencia deX.Sejaπ :X −→X/∼a proje¸c˜ao natural que leva cada ponto em sua classe de equivalˆencia. Dotado com a topologia quociente determinado por π, o espa¸co X/ ∼ ´e chamado de espa¸co quociente (ou espa¸co de identifica¸c˜ao) de X determinado por ∼ .
Defini¸c˜ao 4.2. Sejam X e Y dois espa¸cos topol´ogicos. A uni˜ao disjunta de X e Y ´e o conjunto
XtY = (X× {0})∪(Y × {1}).
Observamos que existem aplica¸c˜oes injetivas canˆonicas i0 : X −→ XtY e i1 : Y −→XtY,definidas como i0(x) = (x,0) ei1(y) = (y,1),respectivamente. Geralmente, identificamos implicitamenteX com sua imagem na uni˜ao disjunta, vendo assim X como um subconjunto deXtY. A mesma observa¸c˜ao vale para Y.
37
Cap´ıtulo 4. Segundo Teorema de Morse 38
Definimos atopologia da uni˜ao disjuntaemXtY,declarando um subconjunto A⊆XtY como sendo aberto se, e somente se, A∩X ´e aberto em X e A∩Y ´e aberto em Y.
Proposi¸c˜ao 4.3. (Propriedades da topologia da uni˜ao disjunta) Sejam X, Y espa¸cos topol´ogicos e XtY munido com a topologia da uni˜ao disjunta.
(a) Um subconjunto F ⊆X tY ´e fechado se, e somente se, F ∩X ´e fechado em X e F ∩Y ´e fechado emY.
(b) Cada aplica¸c˜ao inclus˜ao i0 : X −→ X t Y e i1 : Y −→ X t Y ´e um mergu-lho topol´ogico, isto ´e, ´e um homeomorfismo sobre a imagem munida da topologia induzida.
Demonstra¸c˜ao: Veja ([7], p.604).
Teorema 4.4. Sejam X, Y espa¸cos topol´ogicos e π:X −→Y uma aplica¸c˜ao quociente.
Se B ´e um espa¸co topol´ogico, uma aplica¸c˜ao F : Y −→ B ´e cont´ınua se, e somente se, F ◦π :X −→B ´e cont´ınua.
Demonstra¸c˜ao: Veja ([7]. p.605).
Sejam X e Y espa¸cos topol´ogicos, A ⊆ X um subespa¸co e ϕ : A −→ Y uma aplica¸c˜ao cont´ınua. Definimos a rela¸c˜ao de equivalˆencia “∼” em XtY, pondo
(x1,0)∼(x2,0) se x1 =x2 ou ϕ(x1) =ϕ(x2);
(x,0)∼(y,1) se ϕ(x) =y;
(y1,1)∼(y2,1) se y1 =y2. As classes de equivalˆencia s˜ao dadas por:
• [(x,0)] ={(x,0)} se x∈X−A;
• [(x,1)] ={(x,1)} se x∈Y −ϕ(A);
• [(x,0)] ={(x,0),(x0,0),(ϕ(x),1); ϕ(x0) = ϕ(x), x0 ∈A} sex∈A;
• [(y,1)] ={(y,1),(x,0); ϕ(x) = y, x∈A}se y∈ϕ(A).
Defini¸c˜ao 4.5. O espa¸co quociente de XtY /∼, munido da topologia quociente, ´e cha-mado espa¸co de adjun¸c˜ao. Denotamos este espa¸co quociente porY ∪ϕX (ouY ∪AX) e dizemos ser formado colando X a Y ao longo de A via aaplica¸c˜ao de colagem ϕ (ou ainda ao longo de A).
Observa¸c˜ao 4.6. Convencionamos que se Y =∅, ent˜ao Y ∪AX =X.
Um caso particular de espa¸co de adjun¸c˜ao ´e o seguinte. Sejam M um espa¸co topol´ogico e X e Y dois subespa¸cos fechados de M tais que X ∩Y 6= ∅. Considere a aplica¸c˜ao de colagem ϕ =i : X ∩Y −→ Y, como sendo a aplica¸c˜ao inclus˜ao. A rela¸c˜ao de equivalˆencia correspondente no espa¸co XtY ´e tal que:
• [(x, ε)] = {(x,1),(x,0)} sex∈X∩Y;
• [(x, ε)] = {(x, ε)} se x /∈X∩Y, onde ε∈ {0,1}.
Note que, dados x, y ∈X∪Y e ε, ε0 ∈ {0,1}, temos que
(x, ε)∼(y, ε0)⇒x=y. (4.1)
Lema 4.7. Considere X ∪Y munido da topologia induzida. Ent˜ao os espa¸cos X ∪Y e Y ∪X∩Y X s˜ao homeomorfos.
Demonstra¸c˜ao: Seja g :X∪Y −→Y ∪X∩Y X a aplica¸c˜ao definida por g(x) = [(x, ε(x))],
onde
ε(x) =
( 0, se x∈X;
1, se x∈Y −X.
Vamos provar que:
i) g ´e bijetiva;
ii) g e h s˜ao cont´ınuas, ondeh=g−1.
Prova i). Vamos exibir a inversa deg.Seja h:Y ∪X∩Y X−→X∪Y a aplica¸c˜ao definida por
h([(x, ε)]) =x.
• h est´a bem definida;
Com efeito, isso segue imediatamente de (4.1).
• g◦h =IdY∪X∩YX
Seja (x, ε)∈Y ∪X∩Y X, com ε∈ {0,1}.Como
(g◦h)([(x, ε)]) =g(x) = [(x, ε(x))], devemos mostrar que
[(x, ε)] = [(x, ε(x))].
Cap´ıtulo 4. Segundo Teorema de Morse 40
Seja ε∈ {0,1},Por um lado, temos
[(x, ε)] =
( {(x,1),(x,0)}, se x∈X∩Y; {(x, ε)}, se x /∈X∩Y, isto ´e,
[(x, ε)] =
{(x,1),(x,0)}, se x∈X∩Y;
{(x,0)}, se x∈X−Y =X−X∩Y; {(x,1)}, se x∈Y −X =Y −X∩Y.
(4.2)
Por outro lado, temos
[(x, ε(x))] =
( [(x,0)], se x ∈X;
[(x,1)], se x ∈Y −X, isto ´e,
[(x, ε(x))] =
{(x,1),(x,0)}, se x∈X∩Y; {(x,0)}, se x∈X−X∩Y; {(x,1)}, se x∈Y −X.
(4.3)
Comparando (4.2) e (4.3), vˆe-se que [(x, ε)] = [(x, ε(x))], para todo [(x, ε)] ∈ Y ∪X∩Y X. Portanto, (g◦h) = IdY∪X∩YX.
• h◦g =IdX∪Y. De fato,
(h◦g)(x) =h([(x, ε(x))]) =x.
Logo, h´e a inversa deg.
Prova ii). Primeiro vamos mostrar queh´e cont´ınua. Pelo Teorema 4.4, basta mostrarmos que
h◦π : XtY −→ X∪Y (x, ε) 7−→ x,
´e cont´ınua, ondeε∈ {0,1}. Seja F ⊆(X∪Y) fechado. Temos
(h◦π)−1(F) = (h◦π)−1[(F ∩(X−X∩Y))∪(F ∩(Y −X∩Y))∪(F ∩X∩Y))]
= (h◦π)−1(F ∩(X−X∩Y))∪(h◦π)−1(F ∩(Y −X∩Y))∪
(h◦π)−1(F ∩X∩Y)
= (F ∩(X−X∩Y)× {0})∪(F ∩(Y −X∩Y)× {1})∪
((F ∩X∩Y)× {0})∪((F ∩X∩Y)× {1})
(h◦π)−1(F) = [F ∩(X−X∩Y)∪(F ∩X∩Y)]× {0}∪
[F ∩(Y −X∩Y)∪(F ∩X∩Y)]× {1}
= (F ∩X)× {0} ∪(F ∩Y)× {1}.
Agora,
(h◦π)−1(F)∩(X× {0}) = [((F ∩X)× {0})∪((F ∩Y)× {1})]∩(X× {0})
= [(F ∩X)× {0}]∩(X× {0})∪[(F ∩Y)× {1}]∩(X× {0})
= (F ∩X∩X)× {0} ∪ ∅
= (F ∩X)× {0}
e
(h◦π)−1(F)∩(Y × {1}) = [((F ∩X)× {0})∪((F ∩Y)× {1})]∩(Y × {1})
= [(F ∩X)× {0}]∩(Y × {1})∪[(F ∩Y)× {1}]∩(Y × {1})
= ∅ ∪(F ∩Y ∩Y)× {1}
= (F ∩Y)× {1}.
Por hip´otese sabemos que X, Y s˜ao fechados em M e F ´e fechado emX∪Y. Esses fatos implicam queF ´e fechado emM.LogoF∩XeF∩Y s˜ao fechados emM,e portanto,F∩X
´e fechado emX e F ∩Y ´e fechado emY. Pela Proposi¸c˜ao 4.3 segue-se que (h◦π)−1(F) ´e fechado emXtY, e portanto, h´e cont´ınua.
Agora, vejamos que g ´e cont´ınua. Seja A⊆Y ∪X∩Y X um subconjunto fechado.
Considerandoπ :XtY −→Y ∪X∩Y X a proje¸c˜ao definida anteriormente, ´e f´acil ver que π−1(A) = (F × {0})∪(G× {1}), onde F = π−1(A)∩X e G = π−1(A)∩Y, e usando o item (a) da Proposi¸c˜ao 4.3 tem-se que F e G s˜ao fechados em X e Y, respectivamente.
Vamos mostrar queg−1(A) = H∩(X∪Y), com H fechado em M.
Afirma¸c˜ao: g−1(A) = F ∪G.
Primeiro, vamos mostrar queg−1(A)⊆F ∪G.Se x∈g−1(A), ent˜ao, g(x) = [(x, ε(x))] =π(x, ε(x))∈A,
isto ´e, (x, ε(x)) ∈ π−1(A) = (F × {0})∪(G× {1}). Isso implica que x ∈ F ∪G. Agora, vejamos a outra inclus˜ao. Considere x∈F ∪G.Analisaremos dois casos.
Caso 1:x∈F.
Temos que
Cap´ıtulo 4. Segundo Teorema de Morse 42
g(x) = π(x, ε(x))
= π(x,0) (pois x∈F ⊆X)
∈ π(F × {0})
⊆ π((F × {0})∪(G× {1}))
= π(π−1(A))
= A.
Caso 2:x∈G.
Sex ∈G∩(Y −X), a prova ´e an´aloga ao caso anterior. Agora, vejamos o caso em que x∈G∩X. Note que
F ∩Y = (π−1(A)∩X)∩Y. (4.4)
Temos que:
g(x) = π((x, ε(x)))
= π((x,0)) (pois x∈G∩X)
∈ π((G∩X)× {0})
= π((π−1(A)∩Y)∩X)× {0})
= π((F ∩Y)× {0}) (veja (4.4))
⊆ π(F × {0})
⊆ π((F × {0})∪(G× {1}))
= π(π−1(A))
= A.
Logo, em qualquer um dos casos, temos que x ∈ π−1(A). Isso conclui a prova da nossa Afirma¸c˜ao.
Agora, o fato que F e G s˜ao fechados em X e Y, respectivamente, implica que existem fechados M1 eM2 em M tais que:
F =M1∩X e G=M2∩Y. (4.5)
Assim, temos
g−1(A) = F ∪G (veja `a Afirma¸c˜ao)
= (M1 ∩X)∪(M2∩Y) (veja (4.5))
= [(M1∩X)∪(M2∩Y)]∩(X∪Y).
ComoM1, M2, X eY s˜ao fechados emM,segue que H = (M1∩X)∪(M2∩Y) ´e fechado em M,e assim, g−1(A) ´e fechado em X∪Y.
4.2 Segundo Teorema de Morse
Sejam Mm uma variedade, f : M −→ R uma fun¸c˜ao suave e a, b n´umeros reais tais que a < b. Nesta se¸c˜ao estudamos o tipo de homotopia de Mb quando f possui um
´
unico ponto cr´ıtico n˜ao degenerado emM[a,b].
No que se segue usaremos a seguinte terminologia e nota¸c˜ao para todo inteiro k≥0 :
• Bk={x∈Rk:kxk ≤1} - Bola fechada de centro 0 e raio 1 emRk.
• Bk={x∈Rk:kxk<1}- Bola aberta de centro 0 e raio 1 em Rk.
• Sk−1 ={x∈Rk:kxk= 1} - Esfera de centro 0 e raio 1 em Rk.
Usamos a nota¸c˜aok.k para indicar a norma euclidiana. No caso em que k = 0 definamos R0 ={0} eS−1 =∅.
Defini¸c˜ao 4.8.
(a) Uma c´elula fechada de dimens˜ao k (ou k-c´elula fechada) ´e um par (ek, ω), onde ek ´e um subconjunto de X e ω :Bk −→ek ´e um homeomorfismo.
(b) Uma c´elula aberta de dimens˜ao k (ou k-c´elula) ´e um par (ek, ω), onde ek ´e um subconjunto de X e ω:Bk−→ek ´e um homeomorfismo.
Nota¸c˜ao 4.9. Usaremos a nota¸c˜ao ek para indicar uma k-c´elula e a nota¸c˜ao ek para indicar uma k-c´elula fechada, mencionando o homeomorfismo ω somente quando for ne-cess´ario.
Define-se o bordo de (ek, ω) como sendo o conjunto dado por:
∂ek =:{q∈ek; kω−1(q)k= 1}, onde a nota¸c˜aok.k indica a norma euclidiana.
Teorema 4.10. (Segundo Teorema de Morse) Sejam f : M −→ R uma fun¸c˜ao suave e p um ponto cr´ıtico n˜ao degenerado com ´ındice λ, tal que f(p) = c. Suponha que exista ε0 >0 tal que f−1([c−ε0, c+ε0])seja compacto e n˜ao contenha nenhum ponto cr´ıtico de f al´em de p. Ent˜ao, para todo 0< ε ≤ε0 suficientemente pequeno, o conjunto Mc+ε tem o mesmo tipo de homotopia que o conjunto Mc−ε∪∂eλ eλ.
Antes de provarmos o Teorema 4.10 daremos um exemplo. Sejam M =T2 o toro (de dimens˜ao 2 em R3) considerado no Exemplo 2.6 e f :T2 −→R uma fun¸c˜ao definida por f(x, y, z) = z. Provamos no Exemplo 2.6 que f possui quatro pontos cr´ıticos n˜ao
Cap´ıtulo 4. Segundo Teorema de Morse 44
degenerados: p1, p2, p3 e p4. Sejam f(p1) = c1, f(p2) = c2, f(p3) = c3 e f(p4) = c4 os valores cr´ıticos de f.
Figura 4.1: Pontos cr´ıticos de f. Figura 4.2: Valores cr´ıticos de f.
Da defini¸c˜ao de f segue que c1 < c2 < c3 < c4,e portanto, existem ε1, ε2, ε3 e ε4, ambos n´umeros reais positivos, tais que:
• c1+ε1 < c2;
• c2+ε2 < c3;
• c3+ε3 < c4.
• c1 < c2−ε2;
• c2 < c3−ε3; e
Ent˜ao o Teorema 4.10 nos diz que os seguintes pares de conjuntos tem o mesmo tipo de homotopia (abaixo, o s´ımbolo “≈” significa que os conjuntos considerados tem o mesmo tipo de homotopia - veja mais detalhes no Apˆendice B).
Figura 4.3: Conjuntose0 e Mc1+ε1
Figura 4.4: ConjuntoMc2−ε2 ∪∂e1 e1 Figura 4.5: ConjuntoMc2+ε2
Figura 4.6: ConjuntoMc3−ε3 ∪∂e1 e1 Figura 4.7: ConjuntoMc3+ε3
Figura 4.8: Conjunto Mc4−ε4 ∪∂e2 e2
A demonstra¸c˜ao do Teorema 4.10 ser´a consequˆencia dos lemas a seguir. Fixamos
Cap´ıtulo 4. Segundo Teorema de Morse 46
os seguintes elementos e nota¸c˜oes.
• Uma carta de Morse (U, ϕ) em p, com coordenadas locais u1, . . . , um. Assim, vale:
• ϕ(0) =p; e
• f(ϕ(x1, . . . , xm)) = c − x21 − · · · − x2λ + x2λ+1 + · · · + x2m, para todo x= (x1, . . . , xm)∈U.
• Um n´umero real ε > 0 satisfazendo ε ≤ ε0, com ε0 sendo o ε0 do enunciado do Teorema 4.10, tal que B[0,√
2ε] ⊆ U, onde B[0,√
2ε] = {x ∈ Rm; kxk ≤ 2ε}
denota a bola fechada centrada no ponto 0 e de raio √ 2ε.
• As fun¸c˜oes suave ξ, η :ϕ(U)−→[0,+∞[, definidas por ξ(q) = (u1(q))2 +· · ·+ (uλ(q))2 η(q) = (uλ+1(q))2+· · ·+ (um(q))2,
onde λ´e o ´ındice dep emf (como no enunciado do Teorema 4.10). Definimos essas duas fun¸c˜oes apenas para simplificar a nota¸c˜ao.
• Uma fun¸c˜ao suaveµ:R−→Rque satisfaz:
• µ(0)> ε;
• µ(r) = 0 para todo r≥2ε;
• −1< µ0(r)≤0 para todo r ∈R,onde µ0(r) = dudr; e
• µ(r)6= 0, para todor ∈[0,2ε[.
• A fun¸c˜ao F :M −→R definida por:
F(q) =
( f(q), se q /∈ϕ(U)
f(q)−µ(ξ(q) + 2η(q)), se q∈ϕ(U).
• O elipsoide E :={z ∈ϕ(U); ξ(z) + 2η(z)≤2ε}.
Abaixo, representamos os conjuntosMc+ε, Mc−ε∪eλeE na carta de Morse (U, ϕ).
As linhas coordenadas representam os planos uλ+1 =· · · =um = 0 e u1 =· · · =uλ = 0, respectivamente; o c´ırculo representa o bordo da bola de raio√
2ε; e as hip´erboles repre-sentam as hipersuperf´ıcies f−1(c−ε) e f−1(c+ε).
Figura 4.9: Conjunto Mc+ε. Figura 4.10: Conjunto Mc−ε∪∂eλeλ.
Figura 4.11: Conjuntos Mc+ε e E. Figura 4.12: Legenda.
Lema 4.11. (Propriedades de F) Sejam f, p e ε > 0 como no enunciado do Teorema 4.10. A fun¸c˜ao F ´e suave e goza das seguintes propriedades:
(a) F(q)≤f(q) para todo q∈M.
(b) F(q) =f(q) para todo q∈ Ec, onde Ec denota o complementar de E em M.
(c) F−1(]− ∞, c+ε]) =f−1(]− ∞, c+ε]) =Mc+ε. (d) Crit(f) = Crit(F).
(e) Crit(F)∩F−1([c−ε, c+ε]) =∅.
(f) Mc−ε⊂F−1(]− ∞, c−ε])⊆Mc+ε.
Demonstra¸c˜ao: Prova (a). Segue imediatamente do fato que µsatisfaz µ(r) ≥ 0, para todor≥0, e da defini¸c˜ao deF.
Prova (b).Primeiro, vejamos queE ⊆ϕ B[0,√ 2ε]
(veja Figura 4.11). Sejaa∈ E.Como
Cap´ıtulo 4. Segundo Teorema de Morse 48
. Isso mostra a inclus˜ao desejada. Agora, pela defini¸c˜ao de F sabemos que F(q) = f(q) para todo q /∈ ϕ(U). Dessa forma, resta analisarmos o
s˜ao conjuntos abertos que cobrem M. Claramente ϕ(U) ´e um conjunto aberto. Agora, pra ver que M −ϕ B
e fechado em M, pois pela compacidade de B[0,√
2ε] e continuidade deϕsegue-se queϕ B[0,√ 2ε]
´
e compacto emϕ(U),e portanto,
´e compacto em M.Como M ´e um espa¸co Hausdorff, tem-se que ϕ B[0,√
segue imediatamento do item (a) deste lema. Agora, mostremos a outra inclus˜ao, isto ´e, F−1(]− ∞, c+ε])⊂f−1(]− ∞, c+ε]). Pelo item (b) deste lema sabemos que as fun¸c˜oes F ef coincidem no conjunto Ec , logoF−1(]− ∞, c+ε])∩ Ec⊆f−1(]− ∞, c+ε]). Resta mostrar que F−1(]− ∞, c+ε])∩ E ⊆ f−1(]− ∞, c+ε]). Se F−1(]− ∞, c+ε])∩ E =∅, n˜ao tem nada para fazer. Se F−1(]− ∞, c+ε])∩ E 6=∅, basta mostrar que
E ⊂f−1(]− ∞, c+ε])
(veja Figura 4.11). Para ver isso, considereq ∈ E. Temos que f(q) = c−ξ(q) +η(q) ((U, ϕ) ´e uma carta de Morse)
≤ c+ 12ξ(q) +η(q) (Segue do fato que ξ(q)≥0, ∀q∈ϕ(U))
≤ c+ε. (Segue do fato que q ∈ E) Logo, q∈f−1(]− ∞, c+ε]).
Prova (d). Sejaq ∈M.Seq pertence ao conjunto aberto Ec,ent˜ao F ef coincidem (veja item (b) deste lema), e portanto, dFq = dfq. Nesse caso, os pontos cr´ıticos de F e f s˜ao os mesmos. Agora, vejamos o caso em queq ∈ E.Da igualdadeF =F ◦ϕ◦ϕ−1,segue-se
dFq=d(F ◦ϕ)ϕ−1(q)◦dϕ−1q .
Assim, para encontrarmos os pontos cr´ıticos de F basta encontrarmos os pontos cr´ıticos deF ◦ϕ, pois ϕ−1 ´e um difeomorfismo. Dado x= (x1, . . . , xm)∈U,temos que
(F ◦ϕ)(x) = c−(x21+· · ·+x2λ) +x2λ+1+· · ·+x2m−µ x21+· · ·+x2λ+ 2(x2λ+1+· · ·+x2m) . Denotando por s=x21+· · ·+x2λ+ 2(x2λ+1+· · ·+x2m),as derivadas parciais de F ◦ϕno pontox s˜ao
∂(F ◦ϕ)
∂xi (x) =−2xi−µ0(s)2xi, se 1≤i≤λ;
∂(F ◦ϕ)
∂xi (x) = 2xi−µ0(s)4xi, se λ+ 1≤i≤m.
Logo x∈U ´e um ponto cr´ıtico de F ◦ϕse, e somente se, ( 2xi(−1−µ0(s)) = 0, se 1≤i≤λ;
2xi(1−2µ0(s)) = 0, se λ+ 1 ≤i≤m.
Como−1< µ0(r)≤0, para todor ∈R,segue-se que
−1−µ0(s)<0 e 1−2µ0(s)≥1.
Logo, o ´unico ponto cr´ıtico de F ◦ϕem U ´e x= 0. Comoϕ(0) =p,tem-se que p´e ´unico ponto cr´ıtico deF em ϕ(U). Isso conclui a prova da afirma¸c˜ao.
Prova (e). Pelos itens (a) e (c) deste lema, tem-se queF−1([c−ε, c+ε])⊂f−1([c−ε, c+ε]) (veja as Figuras 4.13 e 4.14 abaixo). Pelo item (d) deste lema e a hip´otese de que p´e o
´
unico ponto cr´ıtico de f em f−1([c−ε, c+ε]), segue-se que o ´unico candidato a ponto
Cap´ıtulo 4. Segundo Teorema de Morse 50
cr´ıtico de F em F−1([c−ε, c+ε]) ´ep. Masp /∈F−1([c−ε, c+ε]), pois F(p) = f(p)−µ(0) =c−µ(0) < c−ε.
A desigualdade estrita segue do fato queε < µ(0).
Prova (f). Primeiro vejamos a inclus˜ao Mc−ε ⊂F−1(]− ∞, c−ε]) (veja a Figura 4.16).
Pelo item (a) deste lema segue-se que Mc−ε ⊆ F−1(]− ∞, c−ε]). Agora, provamos no item (e) deste lema que F(p)< c−ε,e portanto, p∈F−1(]− ∞, c−ε]).Por outro lado, p n˜ao pertence ao conjunto Mc−ε, pois c−ε < f(p) = c. Isso garante a inclus˜ao estrita.
A inclus˜aoF−1(]− ∞, c−ε])⊂Mc+ε ´e ´obvia (veja item (c) deste lema).
Figura 4.13: Conjuntos Mc−ε e f−1([c−ε, c+ε]). Figura 4.14: Legenda.
Corol´ario 4.12. F−1(]− ∞, c −ε]) ´e um retrato por deforma¸c˜ao de Mc+ε = f−1(]−
∞, c+ε]).
Figura 4.15: Conjunto Mc+ε=F−1(]− ∞, c+ε]).
Figura 4.16: Conjunto F−1(]− ∞, c−ε]).
Demonstra¸c˜ao: Pelo item (c) do Lema 4.11, sabemos que F−1(]− ∞, c+ε]) = Mc+ε. Logo, para provar o desejado, basta mostrar que F−1(]− ∞, c −ε]) ´e um retrato por
deforma¸c˜ao deF−1(]− ∞, c+ε]).Para ver isso, basta observar queF satisfaz as hip´oteses do Teorema 3.3:
• F−1([c+ε, c−ε]) ´e um conjunto compacto.
De fato, pelos itens (a) e (c) do Lema 4.11, temos que F−1([c−ε, c+ε]) ´e um subconjunto fechado do compactof−1([c−ε, c+ε]),logoF−1([c−ε, c+ε]) ´e compacto.
• N˜ao existem pontos cr´ıticos de F em F−1([c−ε, c+ε]).
Com efeito, segue do item (e) do Lema 4.11.
O resultado segue.
Observa¸c˜ao 4.13. A grande diferen¸ca entre f e F ´e a condi¸c˜ao (e) do Lema 4.11, que nos diz que F n˜ao possui pontos cr´ıticos em F−1([c−ε, c+ε]), ao contr´ario de f, o que nos permite aplicar o Teorema 3.3 no Corol´ario acima.
DadoZ ⊆M,denotaremos porZ o fecho do conjuntoZ com respeito `a topologia deM.
Definamos
H := F−1(]− ∞, c−ε])−Mc−ε e eλ := {q ∈ϕ(U); ξ(q)≤ε e η(q) = 0}.
Note queeλ ´e naturalmente umaλ-c´elula fechada. Alguns autores chamam o conjuntoH de “al¸ca”. Assim, a regi˜aoMc−ε∪H ´e descrita como Mc−ε com uma “al¸ca” colada.
Figura 4.17: Conjuntos Mc−ε, H e eλ. Figura 4.18: Legenda.
Lema 4.14. Sejam H e eλ como definidos anteriormente. Ent˜ao valem as seguintes afirma¸c˜oes.
(a) H 6=∅ e H ⊆ E.
Cap´ıtulo 4. Segundo Teorema de Morse 52
(b) F−1(]− ∞, c−ε]) = Mc−ε∪H.
(c) Mc−ε∩H 6=∅ e Mc−ε∩H =f−1(c−ε)∩H.
(d) eλ ⊆H.
(e) Mc−ε∩eλ =∂eλ.
Demonstra¸c˜ao: Prova (a). Segue da demonstra¸c˜ao do item (f) do Lema 4.11 que p ∈ F−1(]− ∞, c−ε])−Mc−ε ⊆H. Logo, H 6=∅.
Agora, vejamos queH ⊆ E.Primeiro vamos mostrar queE ´e fechado emM.ClaramenteE
´e fechado emϕ(U),e sabemos pela prova do item (b) do Lema 4.11 queE ´e um subconjunto do compactoϕ B[0,√
2ε]
.Logo, E ´e compacto em ϕ(U), e portanto ´e compacto em M.
ComoM ´e Hausdorff tem-se que E ´e fechado em M.
Agora, vejamos que
F−1(]− ∞, c−ε])−Mc−ε⊆ E
(veja Figura 4.17). Para ver isso, suponha por absurdo que exista q ∈ (F−1(]− ∞, c− ε])−Mc−ε) tal que q /∈ E. Pelo item (b) do Lema 4.11, segue-se que f(q) = F(q). Mas isso ´e um absurdo, pois por hip´otese temos F(q) ≤ c−ε e f(q) > c−ε. Isso mostra a inclus˜ao desejada. Portanto, pelo dois fatos que acabamos de provar segue que
H =F−1(]− ∞, c−ε])−Mc−ε⊆ E =E.
Prova (b). Pelo item (f) do Lema 4.11 tem-se que Mc−ε ⊂ F−1(]− ∞, c−ε]). Assim, podemos escrever
F−1(]− ∞, c−ε]) =Mc−ε∪ F−1(]− ∞, c−ε])−Mc−ε
.
Logo,
F−1(]− ∞, c−ε]) = Mc−ε∪ F−1(]− ∞, c−ε])−Mc−ε
= Mc−ε∪ F−1(]− ∞, c−ε])−Mc−ε
= Mc−ε∪H.
ComoF−1(]− ∞, c−ε]) e Mc−ε s˜ao conjuntos fechados em M, segue-se que
F−1(]− ∞, c−ε]) =Mc−ε∪H. (4.6)
Prova (c). Primeiro vejamos que Mc−ε ∩H 6= ∅. Afirmamos que ∂eλ ⊆ Mc−ε ∩H. Seja
q∈∂eλ.Pela defini¸c˜ao de∂eλ,sabemos queξ(q) =εeη(q) = 0.Vejamos queq∈Mc−ε∩H.
• q ∈Mc−ε.
De fato, como por hip´otese vale ξ(q) = ε e η(q) = 0, temos que f(q) =c−ξ(q) +η(q) = c−ε.
Portanto, temos o desejado.
• q ∈H.
Seja (qn)n∈N a sequˆencia em M, cujo termo geral ´e qn = (1−1/n)q (visto que ´e um resultado local, podemos supor que M ´e um subconjunto de Rm, e portanto, escreveremos qn = (1−1/n)q, em vez de qn = ϕ((1−1/n)ϕ−1(q))). Claramente qn −→q,logo se mostrarmos queqn ∈ F−1(]− ∞, c−ε])−Mc−ε
,para todon≥1, teremos queq ∈H.E f´´ acil ver que qn ∈eλ,para todon ∈N.Primeiro, vejamos que qn ∈F−1(]− ∞, c−ε]). Temos que:
F(qn) = f(qn)−µ(ξ(qn) + 2η(qn))
= c−ξ(qn) +η(qn)−µ(ξ(qn) + 2η(qn))
= c−(1−1/n)2ξ(q)−µ((1−1/n)2ξ(q)) (η(qn) = 0)
= c−(1−1/n)2ε−µ((1−1/n)2ε) (q∈∂eλ)
Ent˜ao,
F(qn)≤c−ε ⇔ c−(1−1/n)2ε−µ((1−1/n)2ε)≤c−ε
⇔ (1−1/n)2ε+µ((1−1/n)2ε)≥ε
⇔ µ((1−1/n)2ε)≥ε−(1−1/n)2ε.
(4.7)
Pelo Teorema da Desigualdade do Valor M´edio, tem-se que
|µ(0)−µ((1−1/n)2ε)| ≤sup|µ0(r)|(1−1/n)2ε].
Como µ´e decrescente e−1< µ0(r)≤0 para todo r ∈R,vem que µ(0)−µ((1−1/n)2ε)≤(1−1/n)2ε.
Logo,
µ((1−1/n)2ε) ≥ µ(0)−(1−1/n)2ε
> ε−(1−1/n)2ε (µ(0) > ε). (4.8) Comparando (4.7) e (4.8), conclu´ımos que qn ∈F−1(]− ∞, c−ε]) para todo n∈N.
Cap´ıtulo 4. Segundo Teorema de Morse 54
Agora, resta mostrar que qn ∈/ Mc−ε, ou seja, quef(qn)> c−ε. Temos que:
f(qn) = c−ξ(qn) +η(qn)
= c−(1−1/n)2ξ(q) (η(qn) = 0)
= c−(1−1/n)2ε (q ∈∂eλ).
Ent˜ao,
f(qn)> c−ε ⇔ c−(1−1/n)2ε > c−ε
⇔ −(1−1/n)2ε >−ε
⇔ (1−1/n)2ε < ε
⇔ (1−1/n)2 <1.
Como (1−1/n)<1, para todon ≥1, segue-se que f(qn)> c−ε.
Isso mostra que∂eλ ⊆(Mc−ε∩H),e em particular, (Mc−ε∩H)6=∅,como quer´ıamos mostrar.
Agora vejamos que Mc−ε∩H = f−1(c−ε)∩H. A inclus˜ao “⊇” ´e trivial. Para provar a outra inclus˜ao basta mostrar que Mc−ε∩H ⊆f−1(c−ε). Para mostrar isso, considere q∈Mc−ε∩H.Suponha queq /∈f−1(c−ε),logo deve-se ter ouf(q)< c−εouf(q)> c−ε.
Como por hip´otese q ∈ Mc−ε, tem-se que f(q) > c−ε n˜ao ocorre. Agora, f(q)< c−ε tamb´em n˜ao ocorre, pois
q∈H = F−1(]− ∞, c−ε])∩ {z ∈M; f(z)> c−ε}
⊆ F−1(]− ∞, c−ε])∩ {z ∈M; f(z)> c−ε}
⊆ F−1(]− ∞, c−ε])∩ {z ∈M; f(z)≥c−ε}.
Portanto, deve-se ter q∈f−1(c−ε).
Prova (d). Seja q∈eλ. Consideremos trˆes casos.
Caso 1:q ∈∂eλ.
Provamos no item (c) deste lema que ∂eλ ⊆H.
Caso 2:q =p.
Provamos no item (a) deste lema que p∈H.
Caso 3:q ∈(eλ−∂eλ) e q6=p.
Nesse caso, temos que 0< ξ(q)< ε.Aplicando o Teorema do Valor M´edio e usando o fato que µ0(r)> −1 para todo r ∈ R, tem-se que −1< µ(ξ(q))−µ(0)
ξ(q) , isto ´e, −ξ(q)−µ(ξ(q))<
−µ(0).Logo,
F(q) = c−ξ(q)−µ(ξ(q))< c−µ(0) < c−ε,
onde usamos a hip´otese µ(0) > ε. Assim, q ∈F−1(]− ∞, c−ε]). Por outro lado, f(q) =
c−ξ(q)> c−ε, e portanto,q /∈Mc−ε.Assim, q∈(F−1(]− ∞, c−ε])−Mc−ε)⊆H.
Prova (e). De fato, seja q ∈ Mc−ε ∩eλ. Como q ∈ eλ, tem-se que ξ(q) ≤ ε e η(q) = 0.
Logo, segue-sef(q) = c−ξ(q)≥c−ε.Por outro lado, tem-sef(q)≤c−ε,poisq∈Mc−ε. Assim,
c−ε≤f(q)≤c−ε.
Portanto, deve-se ter f(q) = c− ε, isto ´e, ξ(q) = ε. Logo, Mc−ε ∩ eλ ⊆ ∂eλ. Para provar a outra inclus˜ao, considere q ∈ ∂eλ. Assim, ξ(q) = ε e η(q) = 0, donde f(q) = c−ξ(q) +η(q) = c−ε. Isso implica que q ∈ Mc−ε. Como por hip´otese q ∈ ∂eλ, tem-se queq ∈eλ. Logo, ∂eλ ⊆Mc−ε∩eλ. Isso prova o desejado.
Lema 4.15. Mc−ε∪eλ ´e um retrato por deforma¸c˜ao de Mc−ε∪H =F−1(]− ∞, c−ε]).
Figura 4.19: Conjunto F−1(]− ∞, c−ε]). Figura 4.20: Conjunto Mc−ε∪eλ.
Antes de provarmos o Lema 4.15 introduziremos alguns subconjuntos deϕ(U),os quais facilitar˜ao a prova do Lema 4.15. Aproveitaremos a importˆancia desses subconjuntos para organizar e demonstrar suas propriedades no pr´oximo lema.
Denotamos por V o conjunto ϕ(U)∩ Mc−ε∪H
=ϕ(U)∩F−1(]− ∞, c−ε]).
ComoH ⊂ϕ(U), tem-se que
V = ϕ(U)∩Mc−ε
∪H. (4.9)
DecompomosV em trˆes regi˜oes:
R1 = {q∈V; ξ(q)≤ε},
R2 = {q∈V; ε≤ξ(q)≤η(q) +ε} e R3 = {q∈V; η(q) +ε≤ξ(q)}.
Cap´ıtulo 4. Segundo Teorema de Morse 56
Figura 4.21: Regi˜oes de V. Figura 4.22: Legenda.
Lema 4.16. Sejam R1, R2 e R3 como definimos acima. Valem as seguintes afirma¸c˜oes.
(a) R1 ⊆H.
(b) R2 = (H−int(R1))∪(f−1(c−ε)∩ϕ(U)),ondeint(R1)denota o interior do conjunto R1 em V.
(c) R3 =ϕ(U)∩Mc−ε. (d) H =R1∪(R2∩H).
(e) R1∩R3 =R1∩Mc−ε={z ∈V; ξ(q) =ε e η(q) = 0}=∂eλ. (f ) R2∩R3 =R2∩Mc−ε=f−1(c−ε)∩ϕ(U).
(g) R1∩R2 ={a∈V;ξ(a) =ε}.
Demonstra¸c˜ao: Prova (a). Claramente eλ ⊆ R1. Pelo item (d) do Lema 4.14, eλ ⊆ H.
Agora, consideremosq ∈R1 tal que ξ(q)≤ε e η(q)>0. Temos ent˜ao:
f(q) = c−ξ(q) +η(q)
≥ c−ε+η(q) (Segue da hip´otese ξ(q)≤ε)
> c−ε. (Segue do fato que η(q)>0)
Isso implica que q /∈ ϕ(U)∩Mc−ε. Mas como q ∈ V = (ϕ(U)∩Mc−ε)∪H, (veja (4.9)) deve-se terq ∈H.
Prova (b).Primeiro vamos mostrar que R2 ⊆ H−int(R1)
∪(f−1(c−ε)∩ϕ(U)). Para provar isso vamos considerar dois casos. Sejaq ∈R2.
Caso 1:ξ(q)< η(q) +ε.
Note que segue imediatamente da defini¸c˜ao de R2 que q /∈ int(R1). Logo, para provar
a inclus˜ao desejada, basta mostrar que q ∈ H, o que pode ser feito mostrando que q /∈ ϕ(U)∩Mc−ε (veja (4.9)). Mas, isso ´e ´obvio:
f(q) =c−ξ(q) +η(q)> c−η(q)−ε+η(q) = c−ε.
Caso 2:ξ(q) =η(q) +ε.
Temos que
f(q) =c−ξ(q) +η(q) =c−η(q)−ε+η(q) = c−ε,
isto ´e,q ∈f−1(c−ε).Como q∈R2 ⊆V ⊆ϕ(U), vem queq ∈f−1(c−ε)∩ϕ(U).
Agora, vejamos a outra inclus˜ao. Sejaq ∈(H−int(R1)).Do fato queq ∈H,segue-se que c−ε≤f(q) (veja demonstra¸c˜ao do item (c) do Lema 4.14). Assim,c−ε≤c−ξ(q) +η(q), donde ξ(q) ≤ η(q) + ε. Como por hip´otese q /∈ int(R1), tem-se que ε ≤ ξ(q). Logo, ε ≤ ξ(q) ≤ η(q) +ε, e portanto, q ∈ R2. Agora, se q ∈ f−1(c−ε)∩ϕ(U) temos que c−ε=f(q) =c−ξ(q) +η(q), donde, ξ(q) = η(q) +ε. Logo, q∈R2.
Prova (c).Primeiro, vamos mostrar queϕ(U)∩Mc−ε ⊆R3. Sejaq ∈ϕ(U)∩Mc−ε. Temos f(q) =c−ξ(q) +η(q)≤c−ε,
donde,η(q) +ε≤ξ(q),e assim, q ∈R3. Para mostrar a outra inclus˜ao, considere q ∈R3. Temos
f(q) = c−ξ(q) +η(q)
≤ c−η(q)−ε+η(q)
= c−ε.
Portanto, q∈Mc−ε. Como R3 ⊆V ⊆ϕ(U), tem-se queq ∈ϕ(U)∩Mc−ε.
Prova (d). Primeiro vejamos a inclus˜ao R1 ∪(R2 ∩H) ⊆ H. Sabemos do item (a) deste lema que R1 ⊆H. Como (R2 ∩H)⊆ H, temos o desejado. Agora, provemos a inclus˜ao H ⊆ R1 ∪ (R2 ∩ H). Seja q ∈ H. Pelo item (a) deste lema sabemos que R1 ⊆ H, logo se q ∈ R1 n˜ao temos nada para fazer. Suponhamos que q ∈ (H −R1). Como q ∈ H = F−1(]∞, c−ε])−Mc−ε, temos que c− ε ≤ f(q) = c−ξ(q) + η(q), donde ξ(q) ≤ η(q) +ε. Por outro lado, temos que q ∈ (H −R1,) e H ⊆ V, o que implica que ξ(q) > ε, e portanto, vale ε ≤ ξ(q). Logo, ε ≤ ξ(q) ≤ η(q) +ε, isto ´e, q ∈ R2. Assim, q∈R2∩H. Segue o desejado.
Prova (e). Primeiro mostraremos a igualdade R1 ∩ R3 = ∂eλ. A inclus˜ao “⊇” decorre imediatamente das defini¸c˜oes de R1 e R3. Agora, vejamos a outra inclus˜ao. Seja q ∈ R1∩R3. Logo vale
η(q) +ε ≤ξ(q)≤ε,
Cap´ıtulo 4. Segundo Teorema de Morse 58
o que ´e poss´ıvel somente se η(q) = 0 e ξ(q) =ε, isto ´e, se q ∈∂eλ. Isso prova a igualdade desejada.
Agora, provemos a igualdade R1 ∩R3 = R1 ∩Mc−ε. A inclus˜ao R1 ∩R3 ⊆ R1 ∩Mc−ε decorre do fato que R3 ⊆ Mc−ε (veja item (c) deste lema). Para provar a outra inclus˜ao consideremosq∈R1∩Mc−ε. Do fato que q∈Mc−ε, temos
f(q) = c−ξ(q) +η(q)≤c−ε ⇔ −ξ(q) +η(q)≤ −ε
⇔ η(q) +ε ≤ξ(q).
Comoq ∈R1 implica que q∈V. Portanto, q∈R3.
Prova (f). Primeiro mostraremos a igualdade R2 ∩R3 = f−1(c−ε)∩ϕ(U). Dado q ∈ R2∩R3, segue-se das defini¸c˜oes deR2 eR3 que
η(q) +ε≤ξ(q)≤η(q) +ε.
Logo, deve-se terξ(q) = η(q) +ε. Isso implica que
f(q) =c−ξ(q) +η(q) =c−η(q)−ε+η(q) = c−ε,
donde, q ∈ f−1(c− ε). Como por hip´otese q ∈ R2 ∩ R3 ⊂ V ⊂ ϕ(U), segue-se que q ∈ f−1(c−ε)∩ϕ(U). Agora, vejamos a outra inclus˜ao. Dado q ∈ f−1(c−ε)∩ϕ(U), temos
f(q) = c−ε ⇔ c−ξ(q) +η(q) =c−ε
⇔ −ξ(q) +η(q) = −ε
⇔ η(q) +ε =ξ(q) Logo, q∈R2∩R3.
Agora, provemos a igualdade R2 ∩R3 = R2 ∩Mc−ε. A inclus˜ao R2 ∩R3 ⊆ R2 ∩Mc−ε
decorre do fato que R3 ⊆ Mc−ε (veja item (c) deste lema). Para provar a outra inclus˜ao consideremosq∈R2∩Mc−ε. Do fato que q∈Mc−ε, temos
f(q) = c−ξ(q) +η(q)≤c−ε ⇔ −ξ(q) +η(q)≤ −ε
⇔ η(q) +ε ≤ξ(q).
Comoq ∈R2 implica que q∈V. Portanto, q∈R3.
Prova (g). A inclus˜ao “⊇” decorre imediatamente das defini¸c˜oes de R1 eR2. Agora, veja-mos a outra inclus˜ao. Seja q∈R1∩R2. Logo vale,
ε≤ξ(q)≤ε,
donde implica queξ(q) = ε. Isso prova a igualdade desejada.
Demonstra¸c˜ao do Lema 4.15: Seja r : Mc−ε∪H ×[0,1] −→ Mc−ε ∪H a aplica¸c˜ao definida como segue
r(q, t) =
r1(q, t) =ϕ(u1(q), . . . , uλ(q), tuλ+1(q), . . . , tum(q)), se q ∈R1; r2(q, t) =ϕ(u1(q), . . . , uλ(q), stuλ+1(q), . . . , stum(q)), se q ∈R2;
r3(q, t) =q, se q ∈Mc−ε,
onde st´e o n´umero real definido por
st=
t+ (1−t)
qξ(q)−ε
η(q) , se η(q)>0; e
0, se η(q) = 0,
para todoq∈R2.
Afirma¸c˜ao 1: st ∈[0,1].
De fato, dado q ∈ R2 temos duas possibilidades: η(q) = 0 ou η(q) > 0. Se η(q) = 0 j´a temos o desejado. Agora, seη(q)>0 tem-se 0≤ξ(q)−ε≤η(q), e portanto,
s
ξ(q)−ε η(q) ≤
s η(q) η(q) = 1.
Logo,
t+ (1−t) s
ξ(q)−ε
η(q) ≤t+ (1−t) = 1,
dondest≤1.Agora, como t ∈[0,1] segue-se que (1−t)≥0, e portanto, st≥0.
Afirma¸c˜ao 2: Mc−ε∪R1∪R2 =Mc−ε∪H.
De fato, primeiro vamos provar queMc−ε∪R1∪R2 ⊆Mc−ε∪H.Sejaq ∈Mc−ε∪R1∪R2. Seq ∈Mc−ε,claramenteq ∈Mc−ε∪H.Seq ∈R1,sabemos do item (a) do Lema 4.16 que R1 ⊆H, logo q∈Mc−ε∪H. Por fim, seq ∈R2, sabemos do item (b) do Lema 4.16 que
R2 = (H−int(R1))∪(f−1(c−ε)∩ϕ(U)).
Como (H− {a∈V;ξ(a)< ε})⊆H e (f−1(c−ε)∩ϕ(U))⊆Mc−ε,segue que, em qualquer caso, q∈Mc−ε∪H.
Agora, vejamos a outra inclus˜ao. Seja q ∈ Mc−ε ∪ H. Se q ∈ Mc−ε ´e claro que q ∈ Mc−ε∪R1∪R2. Assim, resta considerarmos o caso em que q ∈ H. Mas esse caso segue do fatos que H =R1∪(H−R1) e (H−R1)⊆(H−int(R1))⊆R2 (veja itens (a) e (b) do Lema 4.16). Isso conclui a prova da Afirma¸c˜ao 2.
Cap´ıtulo 4. Segundo Teorema de Morse 60
Vamos mostrar que:
(a) r est´a bem definida, isto ´e,
(i) r((Mc−ε∪H)×[0,1]) ⊆Mc−ε∪H;
(ii) r1 ≡r2 em R1∩R2×[0,1];
(iii) r1 ≡r3 em R1∩Mc−ε×[0,1];
(iv) r2 ≡r3 em R2∩Mc−ε×[0,1].
(b) r(q,1) =q, para todo q∈Mc−ε∪H;
(c) r(q,0)∈Mc−ε∪eλ,para todo q∈Mc−ε∪H;
(d) r(q, t) = q, para todoq ∈Mc−ε∪eλ; (e) r ´e uma aplica¸c˜ao cont´ınua.
Prova (a)−(i) Seja q ∈H =R1∪(R2∩H)) (veja item (d) do Lema 4.16). Definamos a fun¸c˜ao g : [0,1]−→Rpor
g(α) = c−ξ(q) +α2η(q)−µ(ξ(q) + 2α2η(q)).
A derivada de g ´e dada por g0(α) = 2αη(q) −µ0(ξ(q) + 2α2η(q))4αη(q) e g0(α) ≥ 0, pois η(a) ≥ 0, para todo a ∈ ϕ(U), e −1 < µ0(t) ≤ 0, para todo t ∈ R. Claramente, g ´e uma fun¸c˜ao cont´ınua, e portanto, dados α1, α2 ∈ [0,1] tais que α1 < α2, temos que g(α1)≤g(α2). Agora, note que g(α) =F(ϕ(u1(q), . . . , uλ(q), αuλ+1(q), . . . , αum(q))).Em particular, temosg(1) = F(q), e comoq ∈H, segue-se que g(1) =F(q)≤c−ε, e assim, vale g(α) = F(ϕ(u1(q), . . . , uλ(q), αuλ+1(q), . . . , αum(q))) ≤ c−ε, para todo α ∈ [0,1], donde
ϕ(u1(q), . . . , uλ(q), αuλ+1(q), . . . , αum(q))∈F−1(]− ∞, c−ε]),
para todoα ∈[0,1]. Mas, sabemos pelo item (b) do Lema 4.14 que F−1(]− ∞, c−ε]) = Mc−ε∪H. Isso conclui a prova de que r((Mc−ε∪H)×[0,1]) ⊆Mc−ε∪H.
Prova (a)−(ii) Seja q ∈R1∩R2.Temos dois casos a considerar.
Caso 1:η(q) = 0.
Neste caso st = 0, e portanto, r2(q, t) = ϕ(u1(q), . . . , uλ(q),0, . . . ,0). Por outro lado, η(q) = 0 implicauλ+1(q) = · · ·=um(q) = 0,e assim,r1(q, t) = ϕ(u1(q), . . . , uλ(q),0, . . . ,0).
Logo, r1(q, t) = r2(q, t).
Caso 2:η(q)>0.
Pelo item (g) do Lema 4.16 tem-se que R1∩R2 ={a∈V; ξ(a) =ε}.Assim, temos
st=t+ (1−t) s
ξ(q)−ε
η(q) =t+ (1−t) s 0
η(q) =t.
Isso implica que r2(q, t) =ϕ(u1(q), . . . , uλ(q), tuλ+1(q), . . . , tum(q)) =r1(q, t).
Prova (a)−(iii) Pelo item (e) do Lema 4.16 tem-se que R1 ∩Mc−ε = ∂eλ, e portanto, uj(q) = 0 para todo q∈R1∩Mc−ε ej ∈ {λ+ 1, . . . , m}.Assim, temos
r1(q, t) = ϕ(u1(q), . . . , uλ(q), t0, . . . , t0)
= ϕ(u1(q), . . . , uλ(q),0, . . . ,0)
= ϕ(u1(q), . . . , uλ(q), uλ+1(q), . . . , um(q))
= ϕ◦ϕ−1(q)
= q.
Como r3(q, t) = q, por defini¸c˜ao, segue que r1(q, t) = r3(q, t), para todo (q, t) ∈ R1 ∩ Mc−ε×[0,1].
Prova (a)−(iv) Seja q ∈ R2 ∩Mc−ε =f−1(c−ε)∩ϕ(U) (veja item (f) do Lema 4.16).
Temos dois casos a considerar.
Caso 1:η(q) = 0.
De maneira an´aloga a prova que fizemos em Prova (a)−(iii), vˆe-se quer2(q, t) = r3(q, t).
Caso 2:η(q)>0.
Pelo item (f) do Lema 4.16, f(q) =c−ε,ou seja, ξ(q) = η(q)−ε, donde
st=t+ (1−t) s
ξ(q)−ε
η(q) =t+ (1−t) s
η(q) +ε−ε η(q) = 1.
Logo,
r2(q, t) =ϕ(u1(q), . . . , uλ(q), uλ+1(q), . . . , um(q)) =ϕ◦ϕ−1(q) =q=r3(q, t).
Isso conclui a prova do item (a).
Agora, vamos provar que valem os itens (b), (c) e (d). Note que se q ∈ Mc−ε ´e imediato da defini¸c˜ao de r que q satisfaz os trˆes itens. Assim, resta provar que os trˆes itens s˜ao satisfeitos quando q ∈H =R1∪(R2∩H) (veja item (d) do Lema 4.16), e para isso consideramos dois casos.
Cap´ıtulo 4. Segundo Teorema de Morse 62
Caso 1:q ∈R1.
• r(q,1) =q;
De fato, isso segue imediatamente das igualdades
r(q,1) =r1(q,1) =ϕ(u1(q), . . . , uλ(q), uλ+1(q), . . . , um(q)) =ϕ◦ϕ−1(q) =q.
• r(q,0)∈Mc−ε∪eλ; Temos que:
r(q,0) =r1(q,0) = ϕ(u1(q), . . . , uλ(q),0uλ+1(q), . . . ,0um(q))
= ϕ(u1(q), . . . , uλ(q),0, . . . ,0).
Comoq∈R1,tem-se queξ(q)≤ε.Disso, mais o fato das ´ultimasm−λcoordenadas de r(q,0) serem nulas, segue-se que r(q,0)∈eλ.Logo, r(q,0)∈Mc−ε∪eλ.
• r(q, t) = q; para todo q ∈R1∩(Mc−ε∪eλ).
Nesse caso, deve-se ter q∈eλ, pois
R1∩(Mc−ε∪eλ) = (R1∩Mc−ε)∪(R1∩eλ)
= (R1∩Mc−ε)∪eλ (Segue do fato de eλ ⊆R1)
= ∂eλ∪eλ (Veja item (e) do Lema 4.16)
= eλ.
Assim, vale uλ+1(q) =· · ·=um(q) = 0. Ent˜ao temos
r(q, t) = r1(q, t) = ϕ(u1(q), . . . , uλ(q), t0, . . . , t0)
= ϕ(u1(q), . . . , uλ(q),0, . . . ,0)
= ϕ(u1(q), . . . , uλ(q), uλ+1(q), . . . , um(q))
= ϕ◦ϕ−1(q)
= q, para todo t∈[0,1].
Caso 2:q ∈R2.
Primeiro vamos analisar o caso em queη(q) = 0.De maneira an´aloga a prova que fizemos em Prova (a)−(iii), vˆe-se que r(q, t) =r2(q, t) =q. Agora, suponhamos η(q)>0.
• r(q,1) =q;
De fato, temos que
s1 = 1 + 0 s
ξ(q)−ε η(q) = 1.
Logo,
r(q,1) =r2(q,1) =ϕ(u1(q), . . . , uλ(q), uλ+1(q), . . . , um(q)) =ϕ◦ϕ−1(q) =q.
• r(q,0)∈Mc−ε∪eλ; Nesse caso s0 =
qξ(q)−ε
η(q) . Logo,
f(r(q,0)) =f(r2(q,0)) = f(u1(q), . . . , uλ(q), s0uλ+1(q), . . . , s0um(q))
= c−ξ(q) +s20η(q)
= c−ξ(q) +h ξ(q)−ε
η(q)
12i2
η(q)
= c−ξ(q) +ξ(q)−ε
= c−ε.
Isso mostra que r(q,0)∈Mc−ε,e portanto, r(q,0)∈Mc−ε∪eλ.
• r(q, t) = q, para todoq ∈R2∩(Mc−ε∪eλ) e η(q)>0.
Como estamos no caso em que η(q) > 0, segue que R2 ∩eλ = ∅. Assim, resta analisarmos o caso em que q∈R2∩Mc−ε.O desejado segue do item (a)−(iv).
Isso prova os itens (b), (c) e (d).
Prova (e). Vejamos que as hip´oteses do Lema A.6 s˜ao satisfeitas.
• Levando em conta a rela¸c˜aoH =R1∪(R2∩H) (veja item (d) do Lema 4.16), vˆe-se que (Mc−ε∪H)×[0,1] ´e a uni˜ao de trˆes conjuntos fechados:
(Mc−ε∪H)×[0,1] = Mc−ε×[0,1]
∪ R1×[0,1]
∪ (R2∩H)×[0,1]
.
• As restri¸c˜oes r1 =r|R1×[0,1], r|(R2∩H)×[0,1] er3 =r|Mc−ε×[0,1] s˜ao cont´ınuas.
Claramente, r1 e r3 s˜ao cont´ınuas. Para ver que r|(R2∩H)×[0,1] ´e cont´ınua, basta mostrar que r2 possui uma extens˜ao cont´ınua no bordo de eλ, e que essa extens˜ao coincide com a aplica¸c˜ao identidade nesse conjunto (veja a defini¸c˜ao de r). Assim, devemos mostrar quer2(q, t)−→q,quandoη(q)−→0 eξ(q)−→ε.Agora,η(q)−→
0 implica que uj(q) −→ 0, para todo j ∈ {λ+ 1, . . . , m}. Como st ∈ [0,1] tem-se stuj(q)−→0, quando η(q)−→0. Portanto,
r2(q, t)−→ϕ(u1(q), . . . , uλ(q),0, . . . ,0), isto ´e,
r2(q, t)−→ϕ(u1(q), . . . , uλ(q), uλ+1(q), . . . , um(q)),
Cap´ıtulo 4. Segundo Teorema de Morse 64
com uj(q)−→0, para todoj ∈ {λ+ 1, . . . , m}. Logo, r2(q, t)−→ϕ◦ϕ−1(q) =q.
Ainda dever´ıamos verificar que as trˆes restri¸c˜oes coincidem nas interse¸c˜oes comuns. Mas, isso j´a foi feito quando mostramos que a aplica¸c˜ao r est´a bem definida. Isso conclui a prova do Lema 4.15.
Demonstra¸c˜ao do Teorema 4.10: Segue do Corol´ario 4.12 e do Lema 4.15 que Mc−ε∪H ≈Mc+ε e
Mc−ε∪eλ ≈Mc−ε∪H.
Pela Observa¸c˜ao B.3 item 3), tem-se queMc−ε∪eλ ≈Mc+ε.ComoMc−εeeλs˜ao subespa¸cos fechados deM segue do Lema 4.7 queMc−ε∪eλeMc−ε∪∂eλeλs˜ao homeomorfos, e portanto, Mc−ε∪∂eλeλ ≈Mc+ε. Isso conclui a prova do Teorema 4.10.
Observa¸c˜ao 4.17. Mais geralmente, suponha que existam k pontos cr´ıticos n˜ao degene-rados, p1, . . . , pk com ´ındices λ1, . . . , λk em f−1(c). Ent˜ao uma prova similar mostra que Mc+ε tem o mesmo tipo de homotopia de Mc−ε∪∂eλ1 eλ1 ∪ · · · ∪∂eλk eλk.
Observa¸c˜ao 4.18. Para aplicar o Teorema 4.10, deve-se ter o cuidado de garantir que exista ε >0 tal que o conjunto f−1([c−ε, c+ε]) seja compacto. A seguir exibiremos um exemplo no qual n˜ao podemos aplicar o Teorema 4.10, pois n˜ao existe ε > 0, tal que a hip´otese da compacidade seja cumprida. Considere
f :R−→R, t7−→sin(t).
Claramente,f fun¸c˜ao ´e suave. Afirmamos quep=π/2´e um ponto cr´ıtico n˜ao degenerado de f de ´ındice 1. De fato, como sin0(t) = cos(t) implica que
sin0(π/2) = cos(π/2) = 0.
Logo p ´e um ponto cr´ıtico de f. Agora, vejamos que p ´e n˜ao degenerado. Temos que sin00(t) =−sin(t). Da´ı, tem-se
sin00(π/2) =−sin(π/2) =−16= 0.
Portanto, p ´e um ponto cr´ıtico n˜ao degenerado. E por fim, mostremos que o ´ındice de p
´e igual a1. Mas isso segue do fato de que Hessπ/2(f)´e uma forma definida negativa, pois Hessπ/2(f)(t, t) = −t2 <0, para todo t∈R− {0}.
Isso conclui a prova da nossa afirma¸c˜ao. Agora, vejamos que n˜ao existe ε > 0 tal que f−1([1−ε,1 +ε]) seja compacto. Como −1 ≤ sin(t) ≤ 1, tem-se f−1([1 −ε,1 +ε]) = f−1([1−ε,1]. Escolhemos ε >0 tal que valha
f(t0) = 1−ε, para algum 0< t0 < π/2.
Sabemos quesin(t) = sin(π−t),para todot≥0.Em particular, f(π−t0) = f(s0) = 1−ε.
Sabemos ainda que vale
f(t0) = f(t0+k2π) = 1−ε e f(s0) =f(s0+k2π) = 1−ε para todok ∈N. Assim, escrevendo tk =t0+k2π e sk=s0+k2π, temos que
f−1([1−ε,1]) = G
k∈N
[tk, sk].
Como f−1([1−ε,1]) ´e ilimitado, implica que n˜ao ´e compacto. Na Figura 4.23 a repre-senta¸c˜ao do gr´afico de f est´a de vermelho e o conjunto f−1([1−ε,1]) corresponde aos segmentos de reta de cor azul.
Figura 4.23: Gr´afico def.