CAPÍTULO 3 Para o estudo do papel das instituições nas
4 ESPANTAR A TIMIDEZ OU REVER AQUELE CONSENSO?
Sem perder de vista aquelas três perguntas destacadas do LUCC, lembro que os objetivos dos trabalhos para os quais aqui se buscam caminhos inovadores devem ser semelhantes aos dos pesquisadores de Indiana, como estampado no título. Não revelo um segredo se lembro, também, que me guio inicialmente pelo exame privilegiado do livro Ecossistemas Florestais – interação homem-ambiente, o qual reúne alguns dos resultados dos primeiros cinco anos de pesquisa do CIPEC e representa um louvável e atual esforço multidisciplinar de reflexão e prática teórica, metodológica e conceitual em LUCC1.
Trata-se de material riquíssimo para fomentar a crítica e a autocrítica, que são exercícios típicos da vida acadêmica e aos quais atribuo o mesmo entendimento dado pelo Professor Milton Santos em sua aula inaugural da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, em 10 de março de 1992:
A autocrítica é — no caminho — a busca de revisão do caminho. A crítica é o próprio caminho, uma visão, sempre a se renovar, do mundo, que espanta as imagens batidas e os conceitos surrados e propõe novas interpretações, novos métodos, novos temas. Nesse sentido, todos estamos chamados a filosofar e a filosofia não é mais um privilégio dos filósofos (SANTOS, 1992, p. 95).
Caminhando, portanto, olhando apenas parte da literatura produzida nesse centro, aquela reproduzida e citada neste livro, já se percebe que o recorte
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Conforme a nota da edição brasileira: “[…] reúne os resultados de um projeto de pesquisa de larga escala e multidisciplinar realizado por antropólogos, geógrafos, economistas, sociólogos, biólogos, cientistas políticos e ambientais, desenvolvido em mais de doze países e em cerca de oitenta locais diferentes.”
do objeto de pesquisa foi apenas o primeiro desafio transposto, não sendo suficiente para quebrar aquela timidez no envolvimento das ciências sociais anotada anteriormente - como era de se esperar, aliás.
É que, no meu juízo - modesto é verdade - esta timidez não é apenas em razão da “falta de hábito” ou uma questão de tempo para a adesão metodológica, como sugeriram Soares Filho et al. (2008) ao afirmarem que “os cientistas sociais ainda não são muito afeitos” às técnicas quantitativas; ou mesmo apenas decorrente da ausência de um recorte adequado do objeto.
Considerando a leitura do livro – especialmente dos capítulos dois e quatro1, defendo que ela, a timidez, é típica das relações entre disciplinas que são chamadas a se aproximarem em novas abordagens para velhos problemas, na medida em que a aproximação expõe profundos desacordos não apenas no comportamento dos cientistas e nas suas opções metodológicas, teóricas ou conceituais (epistemológicas), mas anterior e, principalmente, nas suas visões ou crenças ontológicas e, por incrível que pareça, hoje em dia, teleológicas – que nem sempre estão claramente definidas.
Isto fica claro, por exemplo, no campo teórico que suporta o segundo capítulo. Ali as autoras reúnem e criticam “as teorias relevantes para mudanças de uso e cobertura da terra”, dividindo-as em dois grupos: “aquelas que postulam uma relação unidirecional e determinística entre um conjunto de variáveis independentes e a degradação ambiental” e “aquelas que atribuem expediente aos atores individuais à medida que esses causam mudanças ambientais”. Ao final, apresentam uma “discussão sobre como combinar essas muitas teorias para a construção da pesquisa empírica” (WANWEY et al., 2009, p. 42). Determinismo, individualismo e empirismo típicos da epistemologia (neo) positivista.
1 Teorias subjacentes ao estudo de interações homem-ambiente e Pesquisa
multidisciplinar relacionando instituições e transformações florestais,
Na crítica a essa base teórica invocada, nenhuma palavra sobre as críticas clássicas a esses atributos positivistas – as quais se consolidaram especialmente nos séculos XIX e XX. Nestes termos, falar de ontologia e teleologia seria mesmo impensável, ridículo até.
De todo modo, nessa crítica empreendida, as autoras abordam essas três características positivistas. Apenas a título de exemplo, a primeira crítica contundente é dirigida àquelas teorias que descrevem as mudanças nos “comportamentos individuais e agregados (uso da terra)” e nas “características ambientais (cobertura da terra)” como reflexos diretos de alterações nas condições estruturais da sociedade. As autoras rejeitam categoricamente esse “determinismo estrutural”, argumentando que essas teorias são empiricamente “invalidáveis” (WANWEY et al., 2009, p. 52). Entretanto, não rejeitam o determinismo em si, apenas esse estrutural. É que, se o recusam primeiramente a favor do empirismo, depois o fazem em benefício do individualismo e de outro determinismo – que, na verdade, é o inverso daquele: “as teorias envolvendo atores individuais nos tiram da caixa do determinismo estrutural, permitindo-nos explicar as mudanças de microescala que determinam qualquer mudança macroestrutural” (WANWEY et al., 2009, p. 61). E como se vê, flertam com o reducionismo ao sugerirem que a explicação do todo virá do conhecimento das partes.
Das concepções gerais de ciência (determinista, empirista e reducionista) e de sociedade (individualista) que daí saltam, temos, no mínimo, um indício de que a clareza da concepção epistemológica e ontológica adotada pelo(a) pesquisador(a) é mesmo importante no movimento de aproximação conceitual, teórica e metodológica entre as ciências naturais e sociais para a construção de novas abordagens para o estudo do papel das instituições humanas nas mudanças da cobertura florestal.
Contudo, uma vez que formulo esta afirmativa com base naquele consenso acerca da necessidade de aproximação entre as ciências naturais e sociais nesse tipo de estudo, acredito que a melhor forma de iniciar a busca de sua confirmação é respondendo de quais ciências naturais e sociais se está a falar. Afinal, se buscamos aproximar duas coisas, é fundamental entendermos primeiro se realmente estão distantes e, em caso positivo, porque esse distanciamento se deu, ou seja, com esse entendimento podemos até mesmo nos dar conta de que a aproximação entre ciências naturais e sociais não seja sequer necessária, por já estarem de alguma forma próximas ou por simplesmente ser inútil aproximá-las.
Então, iniciando pelas ciências naturais, cabe-me, inicialmente, indagar: (1) Ciências físicas ou biológicas? (2) Existem diferenças entre elas em termos de epistemologia e ontologia? (3) Se sim, essas diferenças se refletem nos conceitos, teorias e métodos adotadas por uma e outra?