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CAPÍTULO I – INTRODUÇÃO 29 1 AS CARACTERÍSTICAS DO TRABALHO NA

3. ESPECIFICAÇÃO DO PROBLEMA E OBJETIVOS DO ESTUDO

Pode-se afirmar que as transformações no universo da pós- graduação foram intensas e viscerais, visto que houve a diminuição do tempo para conclusão de teses e dissertações, além do fato de que todas as áreas do conhecimento das diferentes regiões do Brasil devem submeter-se a um mesmo padrão de avaliação. Bianchetti (2012) questiona o quanto

tais mudanças podem evocar dificuldades nas formações de docência e pesquisa. Outros aspectos percebidos nessas transformações recentes dizem respeito ao aumento das exigências voltadas à produção de conhecimento, mas ressaltam-se também pontos positivos, como a própria democratização ao acesso dos estudos científicos (Turnes, 2014; Bianchetti, 2012).

A partir dos pontos apresentados, pretende-se compreender de que modo estão ocorrendo as escolhas pela pós-graduação. A literatura existente sobre pós-graduação é bastante vasta. No entanto, os estudos, em sua maioria, concentram-se em discussões acerca de políticas públicas de Ensino Superior, de estrutura dos programas, de implementação de cursos, de mapeamento de índices de diplomação e de avaliação de cursos (Gatti, 2001; Manfroi et al., 2008; Cirani, Silva, & Campanário, 2012; Kornis, Maia, & Fortuna, 2010; Oliveira & Siqueira, 2013; Tourinho & Palha, 2014). Considerando-se as transformações da PG, o aumento do interesse universitário pelo desenvolvimento de carreira (aspectos relativos à escolha dos cursos, projetos de vida, satisfação acadêmica, evasão) e o crescimento da população universitária e de pós-graduação entre os clientes de orientação profissional, percebe-se a necessidade de estudos que tenham interesse em compreender de que modo ocorrem as escolhas profissionais durante a pós-graduação, bem como as expectativas dos alunos para a entrada no mercado de trabalho, demarcando de modo mais explícito esse marco transicional da vida do sujeito.

No caso do aumento de alunos de pós-graduação que procuram orientação de carreira (Bonadiman, Scaff, Luna, & Bardagi, no prelo), pós- graduandos são um público relativamente novo nos serviços de carreira, mas muitos mestrandos e doutorandos tem buscado auxílio para pensar seus projetos de futuro, para refletir sobre o papel de pesquisador e professor que a pós-graduação favorece e para pensar estratégias de enfrentamento de questões acadêmicas e relacionais com colegas e orientadores.

Assim, nesta dissertação buscou-se, como objetivo geral, compreender as razões que levaram recém graduados a fazerem a transição direta da graduação para o mestrado. Seria essa decisão parte de um projeto de carreira do indivíduo, voltado às funções de docente e/ou pesquisador? Ou, ainda, uma alternativa frente ao mercado globalizado e competitivo, em função da percepção de poucas possibilidades de trabalho ou qualificação?

O presente estudo visa contribuir para as diversas discussões no que diz respeito às temáticas da transição universidade-mercado de trabalho,

e dos estudos da pós-graduação, possibilitando conhecer melhor as expectativas, motivações e avaliação da experiência na pós-graduação dos alunos de mestrado acadêmico stricto sensu. Como objetivos específicos, pretendeu-se identificar:

• o perfil sociodemográfico e acadêmico dos alunos de mestrado

strictu sensu da UFSC;

• as razões de escolha pelo mestrado e as expectativas de futuro dos participantes;

• como os pós-graduandos avaliam a experiência de mestrado e quais os fatores positivos e negativos a ela associados;

• os projetos em relação à carreira futura posterior ao término do mestrado.

Pautamo-nos, aqui, no paradigma sociológico interpretativista sugerido por Burrel e Morgan (1979), o qual tem como objetivo o entendimento da natureza do mundo social a partir da experienciação e dimensão subjetiva, sendo assim, “ele busca explanação dentro do reino da consciência individual e da subjetividade, dentro do quadro de referência do participante, em oposição ao do observador da ação.” (Burrel & Morgan, 1979, p. 18). As características principais de tal paradigma consistem em uma ontologia nominalista, uma natureza epistemológica antipositivista, uma natureza humana voluntarista e uma metodologia sob a perspectiva ideográfica.

A ontologia nominalista pressupõe que não há estrutura real para o mundo, sendo assim, este não pode ser concreto; ou seja, “o mundo social externo à cognição do indivíduo é construído de nada mais que nomes, conceitos e títulos que são usados para estruturar a realidade” (Burrel & Morgan, 1979, p. 8). A epistemologia antipositivista se traduz em um posicionamento que vê o mundo em toda a sua essência relativista, pois parte da ideia de que este só pode ser entendido sob a perspectiva dos indivíduos, os quais envolvem-se diretamente em quaisquer atividades que porventura podem ser estudadas. É importante salientar, que o antipositivismo não leva em consideração o ponto de vista do observador/pesquisador, sustentando que “uma pessoa somente

pode ‘entender’ ocupando-se de um quadro de referência do participante na ação, a pessoa tem que entender a partir de dentro ao invés de fora” (Burrel & Morgan, 1979, p. 9). A natureza humana voluntarista, outra característica do paradigma adotado, também pressupõe o paradigma interpretativista, segundo o qual, o sujeito é autônomo e possuidor de livre arbítrio; em outras palavras, o sujeito é autor e ator de suas narrativas. A metodologia ideográfica, por fim, “coloca considerável ênfase no tornar- se mais próximo do subjetivo das pessoas e em explorar seus detalhados

backgrounds e história de vida” (Burrel & Morgan, 1979, p. 9).

Nesta abordagem, portanto, é enfatizada a perspectiva dos agentes individuais, os quais revelam sua natureza e possíveis características no processo de investigação. Diante desses aspectos, destaca-se que o presente estudo foi orientado pelas verbalizações dos sujeitos, os quais trouxeram suas impressões acerca da experiência de mestrado. Considerou-se atender, com este estudo, os dois critérios de relevância descritos por Oliveira (1984): a relevância social e a científica. A relevância social deste estudo está voltada ao contexto da pós-graduação. Compreender as características e as escolhas de mestrandos pode auxiliar tanto os próprios sujeitos quanto as instituições que os acolhem na elaboração de estratégias favorecedoras da melhor integração acadêmica e pessoal dos pós-graduandos; além disso, essa compreensão pode contribuir para uma revisão da estrutura institucional, a partir de informações mais acuradas sobre as necessidades e recursos dos alunos. A relevância científica consiste no aprimoramento ou na criação de novos conhecimentos na área do desenvolvimento vocacional e de carreira, já tão consolidados no que se refere às primeiras escolhas e transições de carreira na adolescência e juventude, mas ainda um campo em construção no que se refere às transições posteriores, como da universidade para o mercado de trabalho ou no âmbito da formação continuada. O aumento da procura de pós- graduandos por serviços de orientação profissional (Frenzel et al., 2013) aponta que esse público precisa ser melhor conhecido com vistas a ser melhor atendido.

CAPÍTULO II – MÉTODO

“O conhecimento científico é sempre uma busca de articulação entre uma teoria e a realidade empírica; o método é o fio condutor para se formular esta articulação.” (Minayo & Sanches, 1993, p. 240) Inicialmente, como estudo exploratório, o Estudo I é um levantamento que vai caracterizar os estudantes de mestrado stricto

sensu da UFSC de forma geral. Para Minayo (2004), tal fase permite

a exploração do campo a ser estudado. O Campo possibilita novas descobertas e novas pistas (Cruz Neto, 1994). Em seguida, o Estudo II será conduzido a partir de um delineamento de estudos de casos múltiplos. Para Yin (2001), esse recurso de pesquisa contribui para a compreensão dos fenômenos individuais, organizacionais, sociais e políticos, tornando-se assim, uma estratégia bastante comum no campo da Psicologia, da Sociologia, da Ciência Política, entre outros. Outro atributo importante é que o estudo de caso “permite uma investigação para se preservar as características holísticas e significativas dos eventos da vida real” (Yin, 2001, p. 21). Quando se trata de estudos de caso, é preciso que o problema de pesquisa envolva “como” e “por que”, pois objetivam um aprofundamento da temática em questão. Além disso, o estudo de caso consiste em uma investigação empírica que se propõe a examinar acontecimentos contemporâneos o que pode incluir duas técnicas – observação direta e série sistemática de entrevistas – as quais foram adotadas no Estudo II desta dissertação.

1. ESTUDO 1: CARACTERÍSTICAS SOCIODEMOGRÁFICAS E