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CAPÍTULO III – O TERCEIRO SETOR 53

3.2   Especificidade Portuguesa 63

Em Portugal, os principais movimentos impulsionadores, tal como na maioria dos países Europeus, vão ao encontro das correntes ideológicas mencionadas no ponto anterior, recaem nas correntes ideológicas, nomeadamente o social cristianismo, o socialismo utópico e no liberalismo económico. Como resultado tivemos a constituição do Terceiro Sector no século XIX, como o aparecimento do Associativismo, do Cooperativismo e do Mutualismo.

As especificidades históricas dos países, marcam os aspectos evolutivos do Terceiro Sector e Portugal com os seus quase 900 anos, desde a fundação em 1143, não é exceção. A Igreja Católica detém uma longa tradição em território nacional, assim como a já antiga memória das Mutualidades portuguesas. Os poderes de Estado ao longo da história, têm vindo a aumentar o reconhecimento das organizações com fins

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sociais não lucrativos, na medida em que a delegação de responsabilidades é um vector constante. (Franco, Sokolowski, & Hairel, 2005).

As ações correspondentes a atividades, do hoje denominado - Terceiro Setor -, remontam ao reinado de D. Dinis, mais concretamente a 1293, com a criação da Bolsa do Comercio, de forma subsequente constatamos no reinado de D. Afonso V, a constituição das Confrarias Leigas, com a missão de socorro mútuo.

Já século XV, quando detínhamos as qualidades de um povo descobridor, do Mundo, um povo que estava direcionado para os descobrimentos por via marítima, o que coibia a permanência dos homens, junto das suas famílias. Que por sua vez culminava no não acompanhamento das necessidades familiares, para além das mortes em missão e em nome da pátria, que advinham desta nobre atividade. A clarividência da Rainha D. Leonor e a disponibilidade da Igreja Católica, pela mão de Frei Miguel Contreiras, conseguem com a simbiose existente, a fundação em 1498 da primeira Misericórdia, constituída em Lisboa, instituição com o móbil de acudir aos pobres, ajudar as crianças e mulheres. Culminado em 1500 na existência de 23 instituições semelhantes em Portugal (Ramos, 2009).

Em 1578, constatamos o nascimento do Celeiro de Évora, que consistia no movimento de apoio aos agricultores, com empréstimos na forma de sementes. Permitindo que em anos considerados de - má colheita -, os menos abonados pudessem sobreviver profissionalmente e ultrapassar as dificuldades. Sendo assim constituído um seguro denominado por Monte Pio, estritamente como meio de cobertura às colheitas.

As duas primeiras grandes associações de âmbito empresarial, são fundadas em 1834, em Lisboa e no Porto, concretamente a fundação da Associação Comercial de Lisboa e a Associação Comercial do Porto.

A primeira cooperativa, surge em 1858, de nome - A Fraternal dos Fabricantes de

Tecidos e Artes Correlativas19 e em 1894, por influencia dos pensamentos e correntes

sociais da época, realiza-se o primeiro congresso das Cooperativas, com o intenção de

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In “Vocabulário Temático Cooperativo, Estudos, Contribuições, Terminologia Específica e Genérica”, editado pelo Instituto António Sérgio do Sector Cooperativo, em 1988.

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melhorias ao nível das condições laborais. As Cooperativas são reconhecidas formalmente, pela primeira vez em Portugal pela Lei de 2 de Julho de 1867. Sendo esta a Lei que impulsiona verdadeiramente o Corporativismo de forma concreta. Permitindo que seja formal e juridicamente possível, de forma plena constituir as Cooperações (Namorado, 1999). Organizações estas que em 1900 eram somente 17 e na década de vinte, já se contavam cerca de 338 (Namorado, 1993).

Os Governos são desde sempre influenciadores das organizações do terceiro setor, com a implantação da República em 1910, estas [organizações] passam a sofrer do condicionalismo político, direto. (Franco, Sokolowski , & Hairel, 2005).

No período vivido entre 1926 e 1974 [Estado Novo], verificamos que as instituições sociais, de cariz particular não são incitadas positivamente pelo regime, sendo que o apoio do Estado, centra-se nas instituições de cariz religioso, que passam a merecer uma maior confiança e apoio.

Portugal caracterizava-se há época, por ser um país, comparativamente com os demais países da Europa ocidental, que passa a conhecer este Setor, como tendo uma reduzida urbanização bem como uma diminuta industrialização. Sendo que a presença da Igreja Católica, detinha um ‘peso’ imenso, permitindo que os movimentos identificados no final do paragrafo anterior, derivado destes aspectos, nunca tivessem a expressão detida nas generalidades dos restantes países (Carreira, 1996).

A primeira Associação Mutualista Portuguesa, foi a Sociedade dos Artistas Lisbonenses, constituída em 1838. Em 1911 há lugar ao primeiro Congresso Nacional do Mutualismo onde é constituída a Federação Nacional das Associações de Socorros Mútuos, sendo que em 1984 passa a deter a denominação de União das Mutualidades Portuguesas. Em 1931, contávamos em Portugal com cerca de 533 associações de socorros mútuos, já há data com cerca de 576 mil associados (Carreira, 1996).

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Quadro 7 - Enquadramento dos Setores Sociais

Fonte: (Brasil, 2012)

Verificando-se que as organizações passam a ser instrumentalizadas pelo regime. São 41 anos onde o [diminuto] desenvolvimento económico é virado para o interior, onde é impulsionado o sector agrícola, sendo que o sector industrial não é, na generalidades dos casos, apoiado. E onde o direito à livre associação e o direito de expressão ficam suspensos.

Gráfico 1 - População Empregada: Total e por Setor de Atividade Económica (1974 – 2014)

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Já na Europa Ocidental, verificamos que após a II Guerra Mundial, existiram os apelidados de 30 Anos de Glória, onde a vigor económico esteve presente, assente no importado modelo norte americano de Ford e igualmente assente em outro fenómeno, nomeadamente na expansão do Estado Social. Onde este desenvolve as políticas públicas, desenvolve a função de regulador da atividade económica e de prestador de serviços cuja a utilidade é pública. Desempenhando assim uma função de fundamental relevo junto dos cidadãos, equilibrando as desigualdades de âmbito social. Acontece que passa a existir a dualidade entre o Mercado [2º Setor], com a sua óptica de lucro assente na ação económica, e a cedência dos recursos públicos, por meio do Estado [1º Setor] e da sua função social.

Quadro 8 - Setores da Atividade Social com Ambiente e Agente

Fonte: (Barroso, 2013)

Derivado à tipologia do regime de proteção social [liberal, corporativo, social- democrata] existente em cada nação, bem como pela diversidade histórica, as orientações do Estado são dispares. Verifica-se de igual forma que as áreas de ação deste Setor, passam a deter outra delimitação (Evers, Laville, & et al., 2005).

A instrumentalização dos serviços sociais, por parte do Estado, como são exemplo a saúde, a educação como a ação social, estão em contra ponto com o denominado ‘campo financeiro’, onde encontramos as cooperativas e as mutualidades de cariz financeiro, a desenvolverem a sua atividade sob as regras do Mercado.

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Após a II Guerra Mundial verificaram-se situações de controlo das instituições, por parte do Estado, como Portugal bem testemunhou. Sendo que se dá lugar ao delapidar da génese original do Terceiro Setor, culminando no aproximar do Primeiro e do Segundo Setor, respectivamente. A realidade vivida em Portugal no Estado Novo, é de total negação, por parte do Estado, relativamente à iniciativa privada nos domínios da Indústria, estando patente um modelo económico unicamente direcionado para si mesmo, afastando-se do desenvolvimento económico exterior. São anos, onde a liberdade de associação e de expressão, foram totalmente subvertidos. No domínio da proteção social, verificamos uma ausência por completo do Estado, quer sejam analisados parâmetros relativos ao financiamento como de prestação de serviços, onde é a Igreja Católica que desempenha [e muito bem] a função, assim como as corporações profissionais ou empresariais. Estas últimas, que compõem a Previdência Social, são alvo nos anos 60 de uma reforma que permite à generalidade da população, passar a ter proteção social. Passamos assim, a deter a base do nosso sistema social alicerçado em pilares fundamentais, nomeadamente três, a Previdência, a Ação Social e o Sistema de Saúde. (Hespanha & et al., 2000)

Com o congregar dos esforços, que culminaram numa efetiva proteção social, vimos as Misericórdias e as há época denominadas por Instituições Particulares de Assistência, hoje IPSS, passarem a deter Unidades de Saúde, por meio de concessão. As Cooperativas foram alvo de uma regulamentação restritiva e não convidativa à atividade em áreas como a agricultura, a cultura e a produção , tendo contudo triplicado o numero existente. Já as Mutualidades, viram o seu número cair para um quinto no período em apreço [Estado Novo], existindo em 1973 cerca de 160. (Namorado, 1999)

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Figura 22 – Valores do Montepio Geral - Associação Mutualista

Fonte: (Montepio Geral Associação Mutualista, 2015)

Como já referido, constatamos que Portugal tem uma história recente, no que concerte ao Terceiro Setor, apesar da existência histórica de movimentos mutualistas, cooperativos e associativos já com consideráveis anos de desenvolvimento da sua ação, em território nacional. O pós 24 de Abril de 1974, permitiu que nestas últimas décadas nos estejamos a aproximar dos padrões da restante Europa Ocidental, quer seja ao nível social, de acesso ao sistema de saúde, da educação, como temos vindo a efetuar um desenvolvimento económico. Da revolução de Abril de 74 até aos dias de hoje, em que vivemos numa comunidade de 500 Milhões de cidadãos a 28 países, muito evoluímos enquanto Nação.

Com o fim do Estado Novo, o povo passa a deter o direito à livre associação e à liberdade de expressão, o que per si, incita de forma extraordinária o movimento associativa de forma transversal. (Franco, Sokolowski, & Hairel, 2005)

No Portugal de hoje [2015], passados estão 41 anos da queda do regime, que durou o mesmo número de anos em que já vivemos em Democracia [1933 e 1974], existe uma evolução substancial da composição do Terceiro Sector, onde importa de forma objectiva distinguir três períodos.

O primeiro período, o da Afirmação da Democracia, nos primeiros anos pós-revolução de Abril de 74, onde até 1977-78 foram vividos tempos de instabilidade política e onde

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a sociedade civil de forma extremamente dinâmica encontrava formas de se organizar. De constatar que foi em torno dos Direitos e Liberdades Fundamentais, que a sociedade civil se organizou em associações de variada índole e objetivos como as sindicais, patronais, políticas assim como de garantia de acesso aos cuidados de saúde, à educação e de acesso ao trabalho.

• Portugal assiste a um aumento de 7% [1977-78] da sua população em Portugal, como a independência das colónias, (Albino, 2004, p.12);

• Existe um crescimento exponencial de associações para o desenvolvimento local, associações de moradores, associações de proteção de idoso e crianças, associações de educação e em 1976 existiam já mais de três mil cooperativas (Namorado, 1999, p.104-105);

Os portugueses estiveram focados, neste primeiro período, em adquirir de forma plena a democracia e os direitos fundamentais, como o da livre associação e liberdade de comunicação. Foi de igual modo um período [1977-78] onde a sociedade civil, com a sua organização, impulsionou o Portugal da época, uma Nação com elevados atrasos aos mais variados níveis [Económicos, Saúde, Educação…] comparativamente ao panorama Europeu da época.

Um Segundo Período, poderá ser caracterizado pelo final dos anos 70 e meados dos anos 80, período temporal este, que antecede a entrada de Portugal na outrora, designada de Comunidade Económica Europeia, constatando:

§ A existência de orientação liberal das políticas económicas; § Governação orientada para o contexto internacional;

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Figura 23 – Caracterizantes do Terceiro Setor

Fonte: (Revista Business Portugal, 2014)

Portugal em 1977-78, foi alvo do primeiro programa de estabilização das contas públicas por parte do Fundo Monetário Internacional, o que afetou de forma significativa a atividade das entidades de cariz espontâneo como as associações de proteção e luta pela habitação e de dignificação no acesso aos cuidados de saúde. Verificamos que muitas das cooperativas existentes desapareceram, neste período de crise (Namorado 1993; 1999). Contudo as estruturas que se mantiveram firmes e ultrapassaram a época, tornaram-se mais prósperas e fortes na sua missão, o que permitiu solidificar a posição em Portugal do terceiro setor.

O terceiro período, consagra-se per si como um período onde Portugal se aproximou dos padrões Europeus, tendo em vista direta a admissão de Portugal a 1 de Janeiro de 1986 à União Europeia. Ora com este passo, caminhamos igualmente para uma absorção da vivencia da União, relativamente ao Terceiro Sector, o que culmina em variadas dinâmicas das quais de destacam à imagem Europeia, voltamos [Em Harmonia com o Primeiro Período] a verificamos um aumento exponencial de Cooperativas e Associações (Namorado, 1999).

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72 Poderemos identificar que:

• No que concerne às Cooperativas [no Primeiro Período] logo após a revolução de Abril de 74 há lugar a um crescimento extraordinário até meio dos anos 80, onde até finais dos anos 90 o desaparecimento de algumas cooperativas foi o factor constatado. Já em 2005 existia o registo de 3184 instituições, juridicamente constituídas como Cooperativas, (Carneiro, 2006, p. 337);

• No universo das Associações, verificamos um aumento substancial de associações representativas de bombeiros voluntarios, assim como o aparecimento de associações em áreas ímpares no panorama nacional, tal como associações relativas ao ambiente e aos direitos da Mulher. As Iniciativas de Desenvolvimento Local (IDL), com forte proliferação inicial nos meios rurais, são adoptadas na generalidade do território, registando em 1998 um número de 400 IDL em Portugal. No final dos anos 90, existia registo em Portugal de cerca de 17 mil associações sem fins lucrativos, (Carneiro, 2006, p.348);

• As Mutualidades, a realidade é semelhante à Europeia, onde desde os anos 90 têm vindo a definhar, no que diz respeito ao rejuvenescimento, (Carreira, 1996);

• As Misericórdias bem como os Centros Paroquiais, detêm uma forte presença ao longo ‘dos tempos’ em território nacional (Quintão, 2011, p.13);

• Constatamos uma forte presença de Instituições Privadas de Segurança Social (IPSS), que detêm um estatuto jurídico próprio, potencializador do seu crescimento, sendo que em 1972 existiam 1264 instituições e em 1998 eram 2992, (Nunes, Reto, & Carneiro, 2001, p. 82)

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• Já as fundações são em 1996 cerca de 350, registando um crescimento progressivo desde os anos 50, (Nunes, Reto, & Carneiro, 2001, p. 93)

Alguns autores como Perista e Nogueira (2004) e Quintão (2007b) transmitem o congregar do acompanhamento das tendências europeias, nomeadamente no berço Francês, do caso Belga ou Italiano, onde os exemplos mais patentes são o nascimento das CERCI.

Em 2005 existiam na União Europeia [a 25 países], mais de 240 mil cooperativas, com atividade em diversas áreas como a construção, a intermediação financeira, a industria, alojamento, serviços e agricultura. Estas entidades representavam cerca de 143 milhões de associados e criaram cerca de 3,7 milhões de postos de trabalho. (Centre International de Recherches et D' Information Sur L' Economie Publique, 2007)

Verificamos perante o relatório: A Economia Social na União Europeia (UE), que as Mutualidades, assistiam 120 Milhões de pessoas na área da saúde e segurança social, o que lhes dava uma quota de mercado de, aproximadamente, 24%. Quando juntamos às Mutualidades, o restante Universo de Fundações, Associações e as demais tipologias existentes na UE verificamos a existência 11 Milhões de postos de trabalho o que corresponde a 7% da população considerada ativa, na União Europeia, sendo ainda de referir a existência de 5 Milhões de voluntários a tempo inteiro.

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