Conforme mencionado anteriormente, fala a escrita são duas modalidades distintas da língua, cada uma com suas próprias especificidades. Uma não é a representação da outra, e Marchuschi (2001, p.17) enfatiza essa questão ao lembrar que a escrita não consegue reproduzir grande parte dos fenômenos da fala tal como a gestualidade, prosódia, movimentos do corpo, etc, assim como a escrita também possui elementos gráficos que são inexistentes na fala, tais como tamanhos e tipos de letras, cores, elementos pictórios, entre outros. O estudioso destaca, ainda, que mais importante do que compreender primazias ou supremacias entre oralidade e letramentos ou observá-las como modos de uso da língua, “é a tarefa de esclarecer a natureza das práticas sociais que envolvem o uso da língua (falada ou escrita) ” (MARCUSCHI, 2001, p. 18).
A partir dessa afirmação, o autor atenta para o fato de a escrita ser uma criação humana que está presente em todas as práticas sociais: no trabalho, na escola, no dia-a-dia, na família, na vida burocrática, atividades intelectuais. Com esses usos da escrita e suas formas comunicativas, surgem e desenvolvem-se os gêneros. Certamente, os gêneros e as práticas não se limitam à interação através da escrita, ambas tornaram-se imprescindíveis, não podendo confundir seus papéis nem seus contextos, tampouco discriminar seus usuários.
Entre as distinções feitas pelo estudioso, encontram-se a relação entre oralidade versus letramento e fala versus escrita. Destaca que oralidade e letramento é uma distinção no âmbito das práticas sociais, já a fala e a escrita atuam no âmbito das modalidades de uso da língua. A definição de cada termo é dada por Marcuschi (2001, p.25-26) que primeiramente define a fala como uma forma de produção textual na modalidade oral, sem necessidade de tecnologia além do aparato próprio do ser humano. Ocorre através da articulação de sons e envolve a linguagem corporal, entonação, mímicas, entre outros. Já a escrita é a modalidade de produção textual que envolve especificidades materiais e que ocorre através da constituição gráfica, com a possibilidade de recursos pictóricos, como ideogramas, unidades iconográficas ou alfabéticas. A oralidade é definida como uma prática social interativa que é realizada em gêneros textuais da realidade sonora, em diversos contextos, formais ou informais. Por fim, o letramento abrange diversas práticas da escrita na sociedade e pode compreender desde uma apropriação mínima da escrita (um analfabeto que identifica o valor de uma nota de dinheiro ou que consegue identificar qual ônibus tomar em uma parada) até uma apropriação mais profunda (produção literária ou científica). “Letrado é o indivíduo que
participa de forma significativa de eventos de letramento e não apenas aquele que faz um uso formal da escrita”. (MARCUSCHI, 2001, p. 18)
É importante destacar que o proposto por Marcuschi nessa discussão, através da definição desses termos, é que segundo ele, fala e escrita designam formas e atividades comunicativas e ultrapassam o plano do código. Sua hipótese é de que as “diferenças entre fala e escrita se dão dentro do continuum tipológico das práticas sociais de produção textual e não na relação dicotômica de dois polos opostos” (MARCUSCHI, 2001, p. 37). Com essa hipótese, surge a proposta de análise através de um conjunto de variações onde se situam os gêneros textuais, que podem ser mais ou menos oralizados ou escritos. Esse contínuum proposto por Marcuschi é reproduzido a seguir:
Quadro 5 - Contínuo dos gêneros textuais na fala e na escrita
Observa-se que os gêneros estão alocados entre dois domínios, o da fala e o da escrita, e estão distribuídos do mais ao menos prototípico de cada modalidade. Os textos são entrecruzados em vários aspectos e podem ser constituídos por elementos mistos da fala e da escrita. Esse entrecruzamento vem de processos como os que ocorrem no noticiário da TV, exemplo mencionado por Marcuschi, pois nos deparamos com um texto oralizado que parte de uma produção conceptualmente escrita. Daí surge a indagação: trata-se de um texto oral ou escrito? A notícia televisiva é um texto conceptualmente escrito e medialmente falado, pois é veiculado por meio da fala e é por ela que o discurso se materializa. Marcuschi analisa quatro gêneros, dois que nesse continuum encontram-se como protótipos da oralidade e da escrita, e dois que estão mesclados, no meio desse entrecruzamento. O quadro de análise do autor está reproduzido na sequência:
Quadro 6 - Distribuição de gêneros textuais de acordo com o meio de produção e a concepção discursiva.
Fonte: MARCUSCHI, 2001, p.40
No quadro acima, o domínio A corresponde a gêneros tipicamente orais e produzidos pelo meio sonoro e D, os tipicamente escritos cuja concepção discursiva é a escrita também. Os domínios B e C correspondem a gêneros mistos, sendo B entre o meio de produção escrita e a concepção discursiva oral, e C entre o meio sonoro e a concepção escrita. Entende-se, ao analisar o contínuo dos gêneros da oralidade e escrita, que a conversação espontânea tem mais similaridade com uma carta pessoal, devido ao estilo da linguagem e ao seu propósito comunicativo do que com uma conferência oral. O fato de o gênero ser oralizado ou escrito não é o único determinante de análise. Marcuschi finaliza afirmando que “as diferenças entre e fala e escrita podem ser frutiferamente vistas e analisadas na perspectiva do uso e não do sistema” e isso implica em uma visão de língua como um fenômeno heterogêneo, variável, histórico e social que se manifesta no texto e no discurso.
É importante destacar, para fins desta análise, as características típicas de textos falados e de textos escritos. Um quesito a considerar é a marca de oralidade que, segundo Marcuschi (2001, p.53), apresenta repetição de elementos, redundância informacional, fragmentariedade sintática, marcadores frequentes, hesitações, correções, etc. Tais características não são exclusiva dos textos falados, uma vez que os escritos conseguem imitar esses efeitos através de elementos gráficos ou recursos de pontuação, de aspas, entre outros. Essa proposição é reforçada por Rodrigues (1993, p. 31), ao afirmar que a oralidade é uma característica essencial da língua falada, porém não basta um discurso ser medialmente falado para que seja oralizado, e exemplifica com a notícia televisiva que, embora seja medialmente falada, é um texto escrito em sua concepção. A autora aponta ainda que a fala e a escrita ocorrem em diferentes contextos de realização: “A língua falada constitui uma atividade num contexto específico, resultado da tarefa cooperativa de dois interlocutores num mesmo momento e num mesmo espaço”. (RODRIGUES, 1993, p.91). Também afirma que “ao contrário, o ato de escrever constitui algo solitário: o escritor não interage com seu leitor, ele elabora seu texto sozinho, sem a colaboração do eventual leitor, e as tarefas de planejar e elaborar o texto são de sua inteira responsabilidade”. (RODRIGUES, 1993, p.91). Outra diferença apontada por Rodrigues é que o texto escrito conta com planejamento, distanciamento e com o apagamento de processo de elaboração, enquanto, na fala, há espaço para a constante reelaboração do texto, contando com maior envolvimento e não sendo planejado previamente. A ocorrência dessas características é verificada no capítulo de análise de retextualização.