• Nenhum resultado encontrado

Em meio à pluralidade de explicações para a inserção e fixação do reggae no Maranhão — as quais apontam semelhanças entre a Jamaica e São Luís — fato incontestável é que o reggae se enraizou no Estado, desenvolvendo peculiaridades.

[...] tanto na incorporação desse ritmo pela cultura jamaicana atual, inspirada também em tradições africanas, como na expansão para outras partes do mundo, inclusive para o Maranhão, foram-lhe acrescidos outros conteúdos, outra dimensão. (SILVA, 1995, p. 116).

Silva (2007, p. 202), ainda em outro trabalho sobre as especificidades do reggae maranhense, declara:

É possível afirmar que este ritmo, embora tenha vindo ‘de fora’, permanece como um elo entre a tradição e a modernidade. Pois, ao mesmo tempo em que se apresenta como novo, absorve características regionais e se manifesta por uma linguagem específica, marcando sua diferença em relação a outras manifestações do reggae no país.

Assim, é importante afirmarmos que, somada à importância lírico-musical, artístico-cultural, socioeconômica e turística do reggae no Maranhão, anteriormente explicitada, as especificidades linguísticas do reggae ludovicense selam as particularidades que o reggae delineou na capital maranhense.

Dessa forma, para nós, a consolidação do reggae no seio das manifestações artístico-culturais de maior popularidade, assim como no das atividades socioeconômicas mais vitais do Estado deve-se, entre outros, ao fato de ter desenvolvido, principalmente, em São Luís, particularidades linguísticas. Albuquerque (1997, p. 151), por exemplo, declara que o reggae maranhense constitui um “mundo à parte, com gírias próprias, ‘pedra’ é um sucesso das pistas”. A respeito, também, dessa linguagem específica Silva (1995, p. 53) afirma,

Para o regueiro, o que importa é se a radiola ‘bate bem’ (tem um bom som) e que, acima de tudo, o discotecário seja conhecedor das ‘pedradas’. Na gíria dos regueiros, as ‘pedradas’ são as músicas consideradas boas, as canções mais antigas, chamadas ‘raízes’ do reggae.

E acrescenta, por fim, que, em São Luís,

O reggae, com sua linguagem e simbologia, passou a fazer parte da quase totalidade dos eventos culturais da cidade, ocupando espaços tanto nas programações alternativas, como na rede oficial do turismo e das propagandas de empresas e lojas comerciais. (SILVA, 2007, p. 134).

A relevância linguística que o reggae — originalmente produzido em inglês — desenvolveu em São Luís é reconhecida, por exemplo, pelo Projeto Atlas Linguístico do Maranhão – ALiMA, que, objetivando identificar as particularidades do Português falado no Maranhão, reconheceu a necessidade de realizar pesquisas mais criteriosas para investigar as influências das especificidades linguísticas do reggae no Português maranhense. Para tanto, institui uma vertente específica de pesquisa sobre o reggae.

A linguagem do regueiro, seu vocabulário, o acervo de expressões que constituem o seu léxico ativo, são mais que simples provas de que o falar de uma comunidade passa por todas as adequações e reformulações necessárias para suprir a necessidade do falante. É fator primordial de afirmação de uma

cultura que se orgulha de ser diferente e que procura reconhecimento. (SILVA, 2006, p. 11).

Nava (1995, p. 26), ainda a respeito da existência de uma linguagem específica do reggae ludovicense, evidencia que essa linguagem é submetida a juízos de valor em terras maranhenses:

O maior problema é que todas essas formas lingüísticas são estigmatizadas por grande parte da sociedade que sem compreender que não existe um fato único e homogêneo em se tratando de língua, não entende que apenas algumas variedades, por razões históricas, sociais e políticas, adquirem marcas de prestígio, normalmente aquelas variedades faladas por grupos de poder. [...] A diferença de valoração é criada socialmente e isso gera conflitos, discriminações.

Assim, é pertinente ressaltarmos que, de fato, a linguagem do reggae ludovicense — gerada em contextos especializados para atender às necessidades específicas de interação dos regueiros — é heterogênea, pois sujeita a variações decorrentes, especialmente, das diferentes fases do reggae em São Luís e da diversidade de atividades, papéis e funções desempenhados pelos regueiros, assim como das relações estabelecidas por eles, nos contextos discursivos gerados pelo reggae em São Luís.

Importa-nos destacar, ainda, que a mídia — compreendida como o conjunto de recursos midiáticos que possibilitam a veiculação e a circulação de informações — exerce papel fundamental na circulação e divulgação das especificidades linguísticas do reggae no Maranhão.

A partir dessa infiltração nas rádios tornou-se mais fácil a divulgação das festas, os disc-jóqueis ficaram conhecidos em toda cidade, as gírias de reggae se espalharam pelas comunidades da ilha, todos estes fatores, juntamente com a grande identificação afro-maranhense com o ritmo, formaram ao longo do tempo a ‘massa regueira’. (BRASIL, 2006, p. 12).

Assim, Brasil (2006, p. 12) aponta a radiola, o rádio e a televisão como os recursos midiáticos responsáveis pelo fortalecimento do reggae no Maranhão e pelo reconhecimento e divulgação das particularidades linguísticas desse movimento:

Transformou-se a linguagem com o tempo, o jeito de falar, de intervir durante as músicas, de entrevistar os ouvintes (no caso do rádio), junto com isso, foram criados termos próprios para identificar os elementos do reggae e do regueiro. A toda esta cristalização sígnica dos elementos que envolvem o reggae e que formam o bojo de sua linguagem nos meios de comunicação,

que atualmente compreende a radiola, o programa de rádio e o programa de televisão, chamamos aqui de: cultura midiática.

A cultura midiática no reggae maranhense aparece para matizar, fortalecer, através da linguagem, a trama que está por trás dela. (BRASIL, 2006, p. 14).

Pelo exposto, podemos afirmar que, inegavelmente, o reggae no Maranhão, e mais especificamente em São Luís, criou profundas raízes socioeconômicas, artísticas e culturais que lhe permitiram desenvolver particularidades, inclusive linguísticas — tanto como produto folclórico quanto, e principalmente, como produto de massa — em relação ao reggae da Jamaica e ao de outras cidades do Brasil e do exterior, ou seja, que lhe permitiram desenvolver uma peculiar, e já tão notória, maranhensidade.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA