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Com o objetivo de constituírem-se como aqueles que melhor ofereciam as bases para o ensino da Educação Física, os editores dos impressos e articulistas colocavam em circulação matérias cujos objetivos eram prescrever a prática e orientar a formação daqueles que ensinavam a Educação Física, fornecendo-lhes teorias e possibilidades de práticas pedagógicas, em seus objetivos, conteúdos, detalhamentos técnicos, metodologias e grupamentos homogêneos (GHs). As disputas entre os editores dos periódicos e articulistas dão lugar, nesse caso, a negociações, dada a necessidade de mostrar para a sociedade as contribuições da Educação Física no quadro geral da Educação, escolarizando-a.

Diante das observações feitas no processo de leitura na íntegra de todo o corpus documental, identificamos semelhanças dos artigos em relação às suas finalidades, como: a) oferecer ao professor um corpus de saberes que constituiu os princípios científicos da Educação Física; e b) ofertar proposições didático-pedagógicas para orientar a atuação profissional.

A primeira finalidade fundamenta a criação da categoria Princípios para a Educação

Física. Para a sua organização, consideramos os artigos sobre a Educação Física, os

esportes e os métodos ginásticos, todos organizados em três subcategorias, conforme indica a Tabela 1:36

Tabela 1 – Princípios para a Educação Física

REF REPHy BEF RBEF AENEFD

Bases teóricas para a Educação Física 60 251 8 58 10 387 A Educação Física como identidade nacional

para o Brasil e outros países 15 41 2 18 -- 76

TOTAL 75 292 10 76 10 463

SUBCATEGORIAS

PERIÓDICOS

TOTAL

Fonte: Elaboração própria.

As matérias categorizadas como Princípios para a Educação Física oferecem sustentação para o seu ensino na escola, com apropriações de pressupostos teóricos de diferentes grupos de ciências (AZEVEDO, 1937a) que, nesta tese, também são identificados com a terminologia “áreas do conhecimento”.

A subcategoria bases teóricas para a Educação Física (387) é específica para os artigos que produzem um corpus de saberes relacionado com a inserção e consolidação da Educação Física no contexto escolar. Na subcategoria A Educação

Física como identidade nacional para o Brasil e outros países (76), há artigos

designados à divulgação da Educação Física como um projeto de nação do Brasil e de outros países. Nesse caso, eles fazem circular um conjunto de políticas públicas orientadoras do ensino da Educação Física.

A segunda finalidade origina a categoria Proposições para as práticas

pedagógicas. Nela, mapeamos as matérias que visam a prescrever a prática e

orientar a formação daqueles que ensinavam a Educação Física, com foco na condução de suas aulas na escola, especificamente, em relação a “o que, como e

36 Os métodos ginásticos foram incorporados à Tabela 1 por não abordarem uma prática ginástica em específico, mas por terem, em seu interior, um conjunto de princípios, conteúdos e metodologias a serem trabalhados na Educação Física.

quando ensinar”. A leitura dos textos na íntegra originou quatro subcategorias,

conforme a Tabela 2:

Tabela 2 – Proposições para as práticas pedagógicas

REF REPHy BEF RBEF AENEFD

Estudo dos conceitos 121 254 8 48 15 446

Prescrições didádito-pedagógicas 213 352 15 58 13 651 Programas 60 87 9 59 8 223 TOTAL 394 693 32 165 36 1320 SUBCATEGORIAS PERIÓDICOS TOTAL

Fonte: Elaboração própria.

A subcategoria estudo dos conceitos (446) diz respeito às definições técnicas dos exercícios a serem ensinados na Educação Física, publicadas com o objetivo de preparar o professor em relação àquilo que seria ensinado nas aulas. Ele dialoga com as bases teóricas da Educação Física, com a finalidade de fundamentar os seus objetos de ensino da Educação Física.

As prescrições didático-pedagógicas(651) são caracterizadas por oferecer roteiros para o planejamento e a condução das sessões de Educação Física. Os artigos organizam objetivos, exercícios a serem ensinados e metodologias cuja forma se assemelha a modelos de planos de aula, intituladas pelos periódicos de lições/sessões de Educação Física. Também há aqueles que veiculam procedimentos didáticos para o ensino de exercícios específicos. Eles também orientam sobre a maneira correta de realizar a técnica corporal, projetando o corpo humano em movimento. Com o auxílio de imagens, descrições textuais e partituras, o objetivo é mostrar para o professor como ensinar a dança, os jogos e brincadeiras; os métodos ginásticos e os esportes.

Os programas para a Educação Física (223) possuem como finalidade sistematizar o ensino dos exercícios, distribuindo-os ao longo da escolarização. É frequente o uso de referenciais teóricos que lançam os critérios para a organização daquilo que se ensina, o quando e para quem se ensina, isto é, os sujeitos de aprendizagem. Os programas podem ser destinados a um público em específico, como moças ou

rapazes, mas também podem ser elaborados para atender um ou mais ciclos da escolaridade (jardim de infância, ciclo primário e secundário).

A subcategoria bases teóricas para a Educação Física (387) é específica para os artigos que produzem um corpus de saberes relacionado com a inserção e consolidação da Educação Física no contexto escolar.

Com base nos pressupostos teórico-metodológicos, debruçaremo-nos à análise das fontes, com o objetivo de sustentar a hipótese levantada pela tese, qual seja, de que a elaboração de livros didáticos para a Educação Física não é uma prática da atualidade e que materiais com essa natureza já circulavam no cenário educacional brasileiro desde o início da década de 1930, na forma da imprensa periódica de ensino e de técnicas.

CAPÍTULO 3

OS PERFIS EDITORIAIS E A “CONSTRUÇÃO DE SIGNIFICADOS” DA IMPRENSA PERIÓDICA DE ENSINO E DE TÉCNICAS37

3.1 INTRODUÇÃO

É em meio a um cenário de embates e negociações que, em 1931, o ensino da Educação Física é regulamentado em âmbito nacional, em específico nas instituições escolares secundárias. À época, a “Reforma Francisco Campos” (BRASIL, 1931)38 serviu como estratégia do Governo Provisório de Getúlio Vargas (1930-1934) para desenvolver uma política modernizadora do ensino secundário brasileiro, centralizada no recém-criado Ministério da Educação e Saúde Pública (MES). Sob a sua responsabilidade, decidiam-se: as matérias que compunham as séries dos cursos fundamental e complementar; a homogeneização do ensino e da avaliação dos saberes escolarizados; e a obrigatoriedade dos exercícios da educação physica, em todo o ano letivo e para todas as classes.

Por não compor as matérias do curso fundamental ou as disciplinas obrigatórias do curso complementar, a educação physica foi inserida no projeto de escolarização sem que, em termos legais, lhe fossem apresentadas orientações para a sistematização da prática docente. A ausência de sequenciamento, em relação ao seu objeto de ensino e avaliação, oferece indícios das lutas de representações (CHARTIER, 1990) entre os grupos de intelectuais que anunciariam, como porta voz do Governo Provisório, os métodos de ensino orientadores da educação physica.

O panorama também fornece pistas de que, mesmo sem organizá-la com objetos de ensino seriados, o MES estimula a área para fazê-lo, pois, de modo paradoxal, determina que todos os exercícios realizados na escola sejam fiscalizados por inspetores. Como ocorria com as matérias e as disciplinas, era preciso acompanhar os programas escolares, as práticas de ensino e a seriação da Educação Física. No

37 Expressão inspirada na obra de Roger Chartier (1990).

38 Em 1930, o Governo provisório de Getúlio Vargas criou o Ministério da Educação e Saúde Pública e nomeou Francisco Campos como seu primeiro titular. O ministro ocupara anteriormente o cargo de Secretário do Interior de Minas Gerais, período em que formalizou a reforma do ensino daquele Estado, por meio do Regulamento e do Programa do Ensino Primário de Minas Gerais, em 1927. A pesquisa de Biccas (2008) discute o impacto dessa Reforma na Revista do Ensino, publicada entre 1925 e 1940.

entanto, como tais critérios de organicidade não foram sistematizados no documento, os grupos de articulistas conquistaram lugares/espaços de produção, por meio da publicação de revistas que sistematizavam a prática docente, oferecendo-lhe suporte e consolidando a Educação Física no processo de escolarização.

Seja pelo projeto de expansão da Educação Física pelo Estado Maior do Exército (FERREIRA NETO, 1999), seja pelas discussões promovidas pela Secção de Educação Physica e Higiene (SEPH) da Associação Brasileira de Educação (ABE) (MARINHO, 1945a), as disputas na área se concentravam na proposição de métodos e modelos pedagógicos, sob a chancela de instituições de formação profissional. Do ponto de vista do MES, o foco estava na conciliação das reivindicações dos grupos que apoiavam e davam sustentação ao Estado, no campo geral da Educação e da política (BICCAS, 2008).

Diante do exposto, o capítulo assume como objetivo analisar as lutas de representações (CHARTIER, 1990) entre os editores da imprensa periódica de ensino e de técnicas, a fim de organizá-las e materializá-las como estratégia de divulgação e convencimento do professorado sobre a incorporação da Educação Física na escola. A sua centralidade estará no exame do perfil editorial dos periódicos como meio de conformar a sua materialidade (CHARTIER, 1990), organizando seções/sumários, cujo propósito era induzir à leitura e ao manuseio dos profissionais para atuarem na Educação Física.