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2 Desconstruções

2.1 Indecidíveis

2.1.1 Espectro

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Para o espectro, é válido o que foi dito a propósito de outros indecidíveis. Não é possível defini-lo fora e acima de um texto. O espectro é uma estrutura que resiste às oposições conceituais da filosofia clássica. Seu valor e sua significação só podem ser extraídos à medida que o espectro deixa-se substituir e determinar por outros indecidíveis.

O interesse de Derrida (cf. 1986, 1990, 1994, 1995c, 1998) pelo espectro está presente desde seus primeiros trabalhos. O privilégio da espectralidade, como viés estratégico da desconstrução, deve-se ao seu interesse pelo trabalho de luto na

psicanálise, e para além da psicanálise. A noção de espectralidade não diz respeito somente ao fantasma, mas a tudo que pertence à lógica espectral. Esta lógica espectral é aquilo que se refere tanto à linguagem, quanto à telecomunicação e que, em nossa experiência, não é nem sensível, nem inteligível, nem visível, nem invisível.

Derrida faz o mapeamento da espectralidade em muitos trabalhos, assinalando as dificuldades de tradução de todo um vocabulário em torno da lógica espectral, presentes nos textos de Freud, Mãrx, Shakespeare, Heidegger e outros. Mais uma vez, as questões de tradução implicam as da desconstrução.

A existência de uma diversidade, dispersa no texto traduzido de uma obra-prima, explica-se por uma lógica espectral. Um gênio desafia e resiste, tal como uma coisa espectral. As várias versões traduzidas de uma mesma passagem indicam que o original opera, como todos os fantasmas, com pedidos contraditórios, disparatados ao seu tradutor. A excelência de uma tradução nada pode contra sua inadequação à outra língua e às virtualidades do original, nem tampouco quanto à multiplicidade de versões desajustadas, cada uma delas em si mesma e entre si.

Um espectro ronda, no sentido de freqüenta, obsidia. Em torno destes verbos já se tem uma primeira nota de tradução em Espectros de Marx, porque em francês o verbo utilizado é hanter, que implica as duas significações: freqüentar e obsidiar. Este mesmo tipo de problema na tradução faz com que Derrida mantenha muitas vezes a palavra que se refere ao espectral no idioma do texto em que é localizado, como o es spukt de Freud e Marx. Esta expressão alemã desempenha um papel singular, que permite operar com a lógica espectral, sem atribuir-lhe um sujeito, uma agência, um eu, uma presença, em seu sentido clássico. Ela designa um elo entre a impessoalidade de uma operação sem ato, sem sujeito, ou sem objetos reais e a produção de uma figura. O es spukt do alemão remete a significações, perdidas na tradução para outras línguas, tais como: isso retorna, isso retornante, isso espectra. Isso não é nem ele, nem ela, não se pode ver. O sujeito que espectra não é identificável. Não se pode localizá-lo, detê-lo sob alguma forma. Não se pode decidir entre alucinação ou percepção, havendo só deslocamentos - quer isso esteja por vir, quer já tenha estado uma vez (cf.

Derrida, 1994).

O espectro remete para além do presente vivo em geral. O que se passa entre

"todos os dois que se queiram, como entre vida e morte, só se há-de valer de algum fantasma". Os espectros são como outros que não estão presentes. Outros que não estão presentemente vivos seja porque não estão mais, seja por não estarem ainda, respectivamente mortos ou não nascidos. O socius implica o espectro. Não há socius, não há estar-com o outro, sem estar-com os espectros. Nenhuma política é possível, pensável e justa, "sem reconheCer em seu princípio o respeito por esses outros que não estão presentemente vivos". A justiça deve conduzir para além da vida presente, para além do presente vivo em geral. Este presente vivo em geral inclui minha vida amanhã, nossa vida, a dos outros ontem e a dos outros amanhã. A justiça remete para além da vida, em sua efetividade empírica ou ontológica, em direção a uma sobre-vida.

Uma sobrevinda "cuja possibilidade vem antecipadamente desajuntar ou desajustar a identidade a si do presente vivo" (Derrida, 1994, p. 13).

O fantasma é a freqüência de uma certa visibilidade. O espectro é a visibilidade que, por essência, não se vê. Entre outras coisas, ele é aquilo que se acredita ver, o que se imagina, o que pode ser projetado numa tela imaginária. A tela, enquanto uma estrutura de aparecimento-desaparecimento. O fantasma visita. Ele visita no sentido da freqüentação. Sua visitação toma características de obsessão. O fato de que não se possa identificar o espectro não impede que se sinta olhado por aquilo que não se vê.

O aparecimento do espectro não pertence ao tempo. O momento espectral não pode ser compreendido no tempo, enquanto encadeamento das modalidades do presente diferido. O fantasma não aparece em carne e osso, ele é, portanto uma não-presença. O espectro é uma coisa que não é uma coisa. É invisível entre seus desaparecimentos. Ele é um "quem", que possui uma espécie de corpo, mas sem propriedade. Um corpo próprio sem carne, mas sempre de alguém como algum outro.

Este algum outro não é um sujeito, pessoa, consciência, ego. O espectro não é simplesmente nem ícone, nem ídolo, nem imagem, nem simulacro de alguma coisa em geral, embora se aproxime destes conceitos de mais .de uma forma. De algum modo, num tempo que não é determinável como presente diferido, este algum outro espectral nos olha, numa dissimetria espectral que interrompe a especularidade. Dissimetria

absoluta: sentir-se visto por um olhar com o qual sempre será impossível cruzar. Tal dissimetria é produzida pelo efeito de viseira, como o elmo que esconde o rosto do espectro do pai de Hamlet (cf. Derrida, 1994).

O espectro é um não-objeto. É uma incorporação paradoxal. É uma certa forma fenomenal e carnal do espírito. O devir-corpo do espírito. Nem alma, nem corpo, e simultaneamente alma e corpo. O fantasma, o espectro é o espírito diferido. A diferença entre o espectro e o espírito é uma différance como a transição entre dois momentos do espírito. É preciso contar com essa diferença, mas ela frustra todos os cálculos. O fantasma apenas passa. Um espectro não morre, ele retorna. Um fantasma só existe, se houver um retorno ao corpo. Um corpo, uma aparência de carne mais abstrata, num espaço de visibilidade invisível.

O mapeamento que Derrida (1994) faz da lógica espectral, nos Espectros de Marx, inclui, além da expressão alemã es spukt, outras dificuldades da tradução.

Algumas dificuldades de tradução não se devem ao_ idiomático, mas à tendência de omitir o espectral na tradução, de apagar seus efeitos pela inclusão de um "como se fosse" um fantasma, ou a substituição por outra palavra que lhe amenize o significado.

A lógica espectral exige outros conceitos, mas que necessariamente não apaguem as diferenças. Ela é um pensamento do acontecimento, que resiste à oposição entre efetividade/idealidade. Resiste respectivamente à distinção entre presença atual, empírica, viva ou não e não-presença reguladora ou absoluta, ideal. Não há como estabelecer um "quando" e "onde" o valor de uso começou a ser incorporado ao valor de troca.

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