2.4 Corrosão em biomateriais metálicos 2.4.3 Espectroscopia de impedância eletroquímica O método de polarização, apesar de fornecer importantes informações sobre as propriedades eletroquímicas gerais, no entanto esta técnica é um processo destrutivo e os dados obtidos são referentes aos processos mais lentos que ocorrem na superfície do material a ser analisado [101,104]. O método de espectroscopia de impedância eletroquímica (EIE) apresenta diversas vantagens com relação às técnicas de corrente contínua, destacando-se as seguintes: [104] Utilização de sinais muito pequenos que não perturbam as propriedades do eletrodo; Possibilidade de estudar reações de corrosão e medir taxas de corrosão em meios de baixa condutividade; A resistência de polarização e a capacitância da dupla camada podem ser determinadas numa mesma medida; Técnica não estacionária mais comum que permite a varredura em uma ampla faixa de escala de tempo; A EIE é um teste não destrutivo e um método de detecção muito sensível da condição do metal revestido. A EIE é realizada na excitação da interface metal/eletrólito por uma corrente alternada (CA), para a qual a função de excitação potencial é senoidal com variação de frequência, ao contrário da polarização potenciodinâmica, que utiliza corrente contínua (CC) [104]. Normalmente é aplicado ao eletrodo de trabalho um pequeno potencial sinusoidal (5-10 mV) em uma gama de frequências discretas e, como resposta ao sinal de frequência gera os dados de impedância [104]. Os dados de impedância estão relacionados a um ângulo de mudança de fase e uma variação nas amplitudes de potencial e corrente [108]. Para que as medições de impedância sejam válidas, o sistema deve ser estacionário (ou quase estacionário), linear e invariante no tempo. A estacionariedade e a invariância na medição do potencial em circuito aberto (OCP) precedem a medição da impedância, enquanto que a linearidade é determinada aplicando um sinal de baixa amplitude, tipicamente de 10 mV [108]. A tensão de corrente alternada (CA), aplicada a uma célula eletroquímica, e a resposta de corrente são mostradas pelas Equações 2.8 e 2.9. I(t)=I0sen(ωt+Φ) (2.9) Sendo E0 a amplitude do sinal, ω a frequência radial (ω=2πf), f a frequência (em Hz), Φ o deslocamento de fase em relação à entrada potencial e, I0 a amplitude da corrente. A impedância do sistema é então definida pela relação entre o sinal de entrada e o sinal de saída, podendo ser escrito, conforme a Equação 2.10: Z(ω)=E0 I0 exp(jΦ)Zr(ω)+jZi(ω) (2.10) Zr é a parte real da impedância em Ω ou Ω.cm², Zi é a parte imaginária da impedância em Ω ou Ω.cm² e |Z| o módulo ou magnitude do vetor da impedância em Ω ou Ω.cm². A magnitude da impedância pode ser expressa em termos dos componentes reais e imaginários como descrito na Equação 2.11: |Z(ω)|=√Zr(ω)2+Zi(ω)2 (2.11) O ângulo de fase pode ser obtido a partir da Equação 2.12: Φ(ω)=tan-1(Zi(ω) Zr(ω)) (2.12) Dois tipos de representação gráfica podem ser utilizados para uma melhor visualização e análise dos resultados experimentais de impedância. Uma desta é a representação de Nyquist (Figura 2.17(a)), os valores experimentais de Zr(ω) e Zi(ω) são representados diretamente num gráfico de -Zi vs Zr. Neste tipo de representação, a impedância imaginária (Zi) dos sistemas eletroquímicos é geralmente negativa [104]. O segundo tipo são os gráficos de Bode, podendo ser plotados em função do módulo de impedância (|Z|), Figura 2.17(b), ou ângulo de fase (Φ), Figura 2.17(c), versus frequência (ω) [104]. Como vantagem destas representações estão a facilidade de demonstrar os fenômenos interfaciais envolvidos na resposta de impedância, e também permite uma rápida visualização do valor do módulo de baixa frequência, que fornece informações sobre a resistência à corrosão do sistema. Entretanto a representação de Bode mostra algumas desvantagens em sistemas eletroquímicos devido à influência da resistência eletrolítica (Re) [104,108,109]. Cordoba-Torres et al. [60] demostraram que, em alguns sistemas, o número de processos distribuídos envolvidos na resposta de impedância pode ser determinado usando os gráficos de ângulo de fase de Bode corrigidos. Este conhecimento é um ponto crucial na escolha do circuito equivalente se resultados confiáveis são desejados. Figura 2.17 - Representação esquemática dos resultados da impedância: a) Gráfico de Nyquist; b) magnitude do gráfico de Bode e (c) ângulo de fase do gráfico de Bode. Adaptado de [109]. Os dados EIE, geralmente, podem ser modelados por um circuito elétrico equivalente (CEE). Na modelagem dos CEE a maioria dos elementos do circuito são construídos combinando elementos elétricos em série e/ou em paralelo, como resistores (R), capacitores (C) e indutores (L). Para uma interpretação correta dos resultados, a impedância requer um modelo adequado e conhecimento sobre os processos físico-químicos que ocorrem na interface metal/eletrólito [110]. Quando as respostas eletroquímicas não são ideais e não podem ser representadas por uma conexão de elementos R-C-L simples, o elemento de fase constante (CPE) é usado. O CPE é um parâmetro normalmente utilizado no ajuste de CEE em EIE. A impedância de um elemento de fase constante é definida de acordo com a Equação 2.13 [102]: Z=[Q(jω)α]-1 (2.13) Os parâmetros de CPE α e Q são independentes da frequência. Quando o eletrodo mostra um comportamento capacitivo, α é igual a 1, Q tem unidades de uma capacitância (μF/cm2). Quando α<1, o sistema mostra um comportamento sendo este atribuído à heterogeneidade da superfície ou a constantes de tempo continuamente distribuídas para reações de transferência de carga [111]. Se o comportamento do CPE é associado às constantes de tempo distribuídas pela superfície, para reações de transferência de carga (distribuição da constante de tempo ao longo da superfície do eletrodo), então é possível aplicar a equação de Brug (Equação 2.14) para calcular a capacitância efetiva (Ceff) associada ao CPE [111,112]: Ceff(Brug)=Q1α(Re-1+Rt-1)αα-1 (2.14) onde Re é a resistência do eletrólito e Rt a resistência de transferência de carga. Sendo assim, a resposta de impedância de CPE pode ser associada a uma capacitância efetiva (Ceff), a constante dielétrica ou a espessura do filme podem ser obtidas a partir da Equação 2.15 [111,112]. deff=ϵ.ϵ0 Ceff (2.15) Onde deff é a espessura do filme, ϵ é a constante dielétrica do TiO2=100 e ϵ0 é a permissividade do vácuo com um valor de ϵ0=8,8542×10−14 F/cm [111,112]. No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS CENTRO DE CIÊNCIAS EXATAS E DE TECNOLOGIA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIA E ENGENHARIA DE MATERIAIS (páginas 69-73)