4. DESMASCARANDO O FANTASMA: ANÁLISE
4.5 ANDREW LLOYD WEBBER’S THE PHANTOM OF THE OPERA:
4.5.6. Espelhos, espelhos nossos
Em OFO de 2004, vemos, recorrentemente, a presença de espelhos em cenas e cenários diversos: na casa do subsolo do Fantasma há grandes espelhos encobertos por cortinas e outros menores; no camarim de Christine há um espelho com mais de dois metros de altura, através do qual o Fantasma aparece para Christine pela primeira vez (fig. 16); na cena do Baile de Máscaras, Raoul cai em uma armadilha ao tentar seguir o Fantasma e acaba em uma sala de espelhos, onde a imagem do Fantasma se duplica.
Figura 16 – Espelho do camarim de Christine, o qual ela “atravessa” para chegar ao subsolo. (SCHUMACHER, 2004)
Em OFO de Leroux, a mesma passagem é descrita na primeira vez que o Fantasma se revela a Christine, em seu camarim, e a leva para sua casa, no subsolo, através do espelho:
- [...] Parecia-me que a Voz queria que eu me levantasse e a seguisse. Eu obedeci. Estranhamente, meu camarim pareceu alongar-se... é claro que devia haver um efeito com espelhos. Logo estava fora do camarim, sem saber como. - Sem saber como, Christine? – Raoul a interrompeu – É preciso deixar de sonhar!
- Eu não sonhava. Estava fora do camarim, sem saber como. Só posso dizer uma coisa. Diante do meu espelho, de repente não o vi mais... procurei-o atrás de
mim... não havia mais espelho, nem camarim... estava num corredor escuro... tive medo e gritei.157
Podemos perceber a influência que os espelhos exercem sobre o Fantasma. Uma das explicações para a simbologia dos espelhos diz que como eles permitem ver todos os ângulos da imagem refletida, é possível enxergar através deles a dualidade existente em todo o ser: o bom e o mau, o bonito e o feio, a mocidade e a velhice158. Assim, ao se olharem no espelho, as pessoas:
Poderiam ver seus dois lados, os rostos bonitos a encobrirem sentimentos menos nobres, a lhes toldarem os semblantes a passarem por alguma amargura. E ao verem o lado feio teriam a oportunidade de se aprimorar interiormente, até o ponto em que o reflexo se tornasse novamente belo. [...] Nas duas figuras, na real estava a alma, e, na refletida, apenas a carcaça que a envolve. Dupla era a imagem de cada momento. O reflexo, em sua imagem invertida, representava o contrário de cada um, logo ele representava o outro, o diferente, a própria diferença a ensinar a aceitação do diferente, servindo até para ajudar na luta contra o preconceito.159
Segundo Greenfield (2010), se o espelho pode simbolizar o que possuímos de fato em nossa alma (daí o ditado “os olhos são o espelho da alma”160), então talvez esse fosse o objetivo do Fantasma ao se cercar de espelhos: enxergar sua alma, e não apenas a sua carcaça. Trabalhando nesse propósito, ele poderia lutar contra o preconceito que sofria. Ao fim do filme, podemos ver o Fantasma quebrar os espelhos da sua casa no subsolo (fig. 17), após deixar que Christine parta com Raoul. Um dos espelhos abre o caminho para uma passagem secreta, na qual o Fantasma entra. Não é revelado ao espectador o local onde essa passagem leva. De acordo com a crença popular, quebrar um espelho significa azar, pois, antigamente, acreditava-se que a imagem refletida no espelho era parte do espírito161. No entanto, o Fantasma não se importa em quebrar três espelhos com cerca de dois metros de altura, cada; talvez, porque acreditasse não puder ter menos sorte.
157 LEROUX, op. cit., p. 120-121 158 ZISMAN, 2006.
159 Ibid, p. 23.
160 DICIONÁRIO Contemporâneo da Língua Portuguesa. Caldas Aulete, Rio de Janeiro: Editora Delta S.A. , 1985. 161 DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE TEOLOGIA, Canoas: ULBRA, 2002.
Figura 17 – Fantasma quebra espelhos na sua casa no subsolo. (SCHUMACHER, 2004)
Em outra obra podemos também ver o espelho sendo usado como passagem, como acontece na cena de OFO de 2004 que é acompanhada pela música tema do filme. Trata-se de Alice Através do Espelho, de Lewis Carroll. No filme de Schumacher, Christine parece estar de tal forma hipnotizada pelo Fantasma que, ao vê-lo do outro lado do espelho, não parece questionar a ilusão criada pelo seu tutor. O espectador vê a jovem a ser atraída em direção ao espelho e, segurando a mão do Fantasma, atravessa-o e chega a um corredor cercado de velas (fig. 18), o qual levará às escadarias e outros caminhos do subsolo da Ópera que, eventualmente, levarão à casa do Fantasma. Em uma cena seguinte, veremos que, na realidade, o espelho funciona como uma porta que abre e fecha e o corredor não possui belíssimas velas, mas ratos imundos. Nada disso foi visto anteriormente, pois líamos com os olhos de Christine. Na passagem transcrita acima, vemos, mais uma vez, que, no livro, Christine teme o Fantasma mais veementemente que no filme de 2004. Apesar de deixar subentendido que havia sido hipnotizada, ainda assim, fala sobre o medo que sentia dele – em oposição à cena do filme referido, na qual ela não demonstra tal sentimento.
Figura 18 – Corredor através do qual o Fantasma conduz Christine após atravessarem o espelho. (SCHUMACHER, 2004)
Em Alice através do Espelho, Alice imagina como seria atravessar o espelho e chegar na “Casa do Espelho”, onde tudo é invertido quando, de repente, atravessa de fato: “E sem dúvida o espelho estava começando a se desfazer lentamente, como se fosse uma névoa prateada e luminosa. No instante seguinte, Alice atravessara o espelho e saltara lepidamente na sala da Casa do Espelho.”162. Do outro lado, Alice encontra um mundo mágico, onde peças de xadrez e objetos possuem vida. Da mesma forma, o mundo apresentado a Christine, pelo Fantasma, é cercado de ilusionismo. Eles atravessam um rio em uma canoa para chegarem à casa do Fantasma, passam por duas esculturas gigantes e, em OFO de 2004, até mesmo velas saem de dentro da água. Ao chegarem ao seu destino, Christine vê partituras musicais, um órgão, máscaras e uma boneca de cera de si própria.
Lewis Carroll pareceu utilizar o espelho tendo em mente a ideia de inversão que esse objeto simboliza. Segundo Alice Liddell, inicialmente, grande parte do livro era baseada nas histórias sobre o xadrez que Carroll contava para as meninas Liddell. Uma outra Alice, uma prima distante de Carroll, contou ao Times (Londres, 22 de janeiro de 1932), que seu primo entregara uma laranja em sua mão direita e perguntara, em frente a um espelho, em que mão a garota no espelho segurava a fruta:
Após alguma contemplação e perplexa, eu disse: “A mão esquerda.” “Exatamente”, disse ele, ‘e como você explica isso?”. Não sabia explicar aquilo, mas vendo que alguma solução era esperada, arrisquei: “Se eu estivesse do outro lado do espelho, a laranja não continuaria a estar na mão direita?”. Posso me lembrar a risada que deu. “Muito bem, pequena Alice”, disse. “A melhor resposta que já ouvi.”163
Segundo Martin Gardner, ao longo da vida de Carroll há relatos das constantes referências aos temas de inversão, tanto em Alice como em outras obras suas. Podemos citar dois exemplos: para sussurrar, um mensageiro grita; e também “Alice corre tão depressa quanto pode para ficar no mesmo lugar”164. Com relação ao tema dos inversos, os dois textos em questão tangem-se outra vez: o desejo do Fantasma de viver “dentro” do espelho ou de fazer as pessoas atravessarem o espelho, pode ser interpretado, então, como uma vontade de ser visto de forma contrária ao que realmente é, já que dentro do espelho vemos o inverso da realidade. Assim, através do espelho, ele teria uma chance de não ser mais um ser deformado.
163 CARROLL, 2002, p. 137. 164 Ibid, p. 139.
A adaptação é, potencialmente, a maneira que um meio tem de ver o outro através de um processo de iluminação mútua.