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Espiritualidade do idoso

No documento monalisaclaudiamariadasilva (páginas 53-57)

3.6 ESPIRITUALIDADE E SAÚDE

3.6.1 Espiritualidade do idoso

Snodgrass e Sorajjakool (2011) objetivaram explorar a relação entre espiritualidade e envelhecimento, com enfâse nos fatores que podem resultar em um aumento da

espiritualidade entre os idosos. Eles obtiveram como resultado que o processo de envelhecimento e a aquisição de conhecimentos, por meio das dificuldades sofridas com o passar da vida, influenciam, significativamente, oferecendo oportunidade de abraçar a finitude humana, para reconhecer a continuidade da vida e crescer em clareza a respeito de Deus (SNODGRASS; SORAJJAKOOL, 2011).

Já o pensamento de Carl Gustav Jung ressalta a importância do estudo da dimensão espiritual do homem, com ênfase na fase do envelhecimento, pois, ao envelhecer, nas horas difíceis, de crises e nas doenças, o enfrentamento fundamentado na dimensão espiritual tem sido realmente comprovado como de importância e sentido vital. O processo de envelhecimento parece gerar uma necessidade de se realizar uma retrospectiva da vida e, a partir daí, surge um novo equilíbrio perante as mudanças relacionadas ao envelhecer (MONTEIRO, 2006).

De acordo com o modelo de desenvolvimento da personalidade proposto por Erik Erikson (1998), o qual apresenta uma visão holística e dinâmica da vida, é premente a necessidade de reelaborar e ressignificar constantemente a vida, durante todo o ciclo vital, o que permite ao individuo rever comportamentos e deliberar sobre antigas crises, ao envelhecer. O estudo traz, em sua abordagem inicial, oito estágios do desenvolvimento humano, afirmando que cada fase do desenvolvimento apresenta seu próprio desafio, ao que o autor chamou de crises. Entretanto, a pessoa que tiver superado as crises anteriores e estiver inserida em um contexto psicossocial que o auxilie a transpor as dificuldades atuais não permitirá que a desesperança tome conta da sua vida (ERIKSON, 1998).

Após a perda do esposo, Joan Erikson, desenvolveu o nono estágio do desenvolvimento humano. Segundo a autora, por volta dos 80 anos ou mais, momento em que a saúde física começa a deteriorar-se progressivamente, é quando há perdas de amigos e membros da família, quando a própria morte torna-se uma realidade mais próxima. Se o idoso consegue superar os elementos distônicos das experiências da nona etapa, provavelmente trilhara o caminho que leva à Gerotranscendência (ERIKSON, 1998).

De acordo com Tornstam (1997), o desenvolvimento humano, no sentido da Gerotranscendência, ocorre em três níveis, sendo o primeiro chamado de cósmico: um aumento do sentimento de unidade com o universo, quando o indivíduo busca uma redefinição da percepção do tempo, do espaço, da vida e da morte. Há uma afinidade cada vez maior com as gerações passadas e futuras. No segundo nível, a redefinição do self envolve uma diminuição no egocentrismo e um declínio no interesse material, e tais características do ego, muitas vezes, combinam com as características no terceiro nível social, que é

caracterizada por um declínio em relação aos contatos sociais supérfluos e um aumento do seu tempo dedicado à meditação (TORNSTAM, 1997). Para Braam et al. (2006), a Gerotranscendencia tem sido conceituada como um desenvolvimento potencial, que acompanha o envelhecimento normal. A teoria da Gerotranscendência consiste em um conceito que explica o processo de envelhecimento, idealizando um estado especial da mente, quando ocorre mudança uma perspectiva de uma visão materialista e pragmática do mundo para uma visão mais cósmica e transcendente ao envelhecer (TORNSTAM, 1989; GAMLIEL, 2001).

O estudo de Braam et al. (2006) observou uma associação significativa e positiva entre a transcendência cósmica e o quadro de sentido na vida para idosos. Essa associação foi mais acentuada entre os participantes com menor envolvimento religioso, principalmente no caso de mulheres acima de 75 anos e de viúvas. O estudo sugere que a relevância pessoal de transcendência cósmica depende de fatores culturais, bem como do contexto de vida individual.

Segundo Monod et al. (2010), a espiritualidade é considerada um componente essencial para uma abordagem multidimensional a ser utilizada em cuidados geriátricos de pacientes idosos com agravos à saúde. A espiritualidade também foi apontada como uma forma positiva de lidar com a doença, a deficiência ou o risco de vida. De acordo com os autores, diversos estudos têm documentado associações significativas entre espiritualidade e melhor saúde: mental, física e funcional (MONOD, 2010).

No Brasil, o estudo de Lucchetti et al. (2011), com o objetivo de avaliar a relação entre religiosidade e saúde mental em situação de hospitalização, dor, incapacidade e qualidade de vida de idosos em cenário de reabilitação ambulatorial, concluiu que a religiosidade está relacionada, significativamente, com menos sintomas depressivos, melhora da qualidade de vida e uma diminuição do comprometimento cognitivo. O envolvimento religioso pode exercer um papel protetor no corpo, prevenir problemas de saúde, ajudar na recuperação ou adaptação a problemas e pode ser considerado um fator no enfrentamento das condições crônicas e na incapacidade que provocam (LUCCHETTI et al., 2011).

Freitas (2014) refere, em seu estudo, os efeitos positivos da religiosidade e da espiritualidade sobre a saúde e o bem-estar, na percepção das pessoas, especialmente em situações criticas ou geradoras de estresse, incluindo o envelhecimento e a melhoria da saúde mental do idoso deprimido, nas perspectivas de finitude da vida, dentre outras. A autora aborda, ainda, a variedade de modos por meio dos quais o envolvimento religioso influencia

positivamente a vida e a saúde dos indivíduos, funcionando como suporte social no enfrentamento das diversidades da vida (FREITAS, 2014).

Contudo, apesar de os estudos estarem avançando, a cada dia, quanto à temática em questão, ainda existe uma lacuna entre teoria e prática. E, mesmo quando os profissionais reconhecem a importância da religiosidade e da espiritualidade no processo saúde/doença,

desconhecem uma forma de combinar o saber médico com a cultura, o senso comum e outras produções de conhecimento, no atendimento ao paciente, em especial no que se refere ao manejo da relação entre religiosidade e saúde física ou mental. Em geral, os profissionais revelam frequentes sentimentos de despreparo e insegurança para lidar com as questões religiosas de seus pacientes, pois alegam ausência de formação para lidar de modo adequado com o tema (FREITAS, 2014).

4 CAMINHO METODOLÓGICO

Mas as partes do mundo têm todas tais relações e tal encadeamento umas com as outras que considero impossível compreender uma sem alcançar as outras, e sem penetrar o todo.

PASCAL

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